Não sou muito fã de fazer comparações ou tomar partido em um dos lados da dualidade do cinema pop atual. Mas como fã e leitor de quadrinhos tanto da Marvel quanto da DC, vou abrir uma pequena exceção para traçar um tímido paralelo entre as duas rivais.
É inegável que a Marvel faz filmes bons em quantidademaior do que a DC. Seus acertos são maiores do que os seus erros. Mas também é inegável, pelo menos do meu ponto de vista, que quando a DC acerta, ela acerta num nível que a equipara, quiçá a faz superar, alguns dos melhores filmes da Marvel.
“O esquadrão suicida” (The Suicide Squad, no original) é desses filmes do patamar mais alto da DC. E traz justiça. Traz justiça para esse grupo de vilões e anti-heróis tão mal tratados na versão de David Ayer de 2016. E vamos combinar que depois deste filme podemos definitivamente esquecer que o anterior existiu.
O filme também traz justiça para uma personagem tão legal como a Arlequina (Margot Robbie). Finalmente ela ganha um filme bom, excelentes cenas e um roteiro um pouco melhor, embora longe de ser perfeito. Mas melhor do que o que vimos no primeiro “Esquadrão Suicida” e do fraco “Aves de Rapina” (2020).
“O esquadrão suicida” também traz um sopro de novidade na monocultura contida dos filmes de super-heróis. Num mercado dominado pela Marvel, que só faz filmes PG-12, a classificação indicativa de “O Esquadrão Suicida” é 18+. Isso proporciona um filme nada contido e, exatamente por isso, mais “carnal” e vivo nos mais diferentes aspectos.
Longe de mim, porém, achar que a qualidade de um filme se resume a violência extrema e sexo. Isso está muito longe de ser verdade. Mas um grupo de personagens como o do Esquadrão Suicida pede um filme de censura mais alta para que seja mais fiel aos feitos de cada um deles. É claro que isso, por outro lado, não mascara os eventuais problemas do filme. Uma história um pouco jogada e num esquema mais de montanha-russa do que de encadeamento de ideias.
E aqui é preciso ressaltar o trabalho de James Gunn. Diretor e roteirista do filme, o cineasta deixa claro desde os primeiros minutos que tudo pode acontecer neste filme. E que não devemos nos apegar a nenhum personagem. Esse caráter de imprevisibilidade do filme é um dos méritos dele.
Em suas 2h14min, Gunn também consegue apresentar mais do que cenas apoteóticas. Num filme com 18 personagens supervilões. ele também consegue desenvolver minimamente seus personagens principais. Em especial Sanguinário (Idris Elba), Ratcacher 2 (Daniela Melchior) e Rei Tubarão (Sylvester Stallone). Tudo isso aproveitando para dar uma continuidade à história da Arlequina, que o fã já conhece de outros filmes e atiçando a curiosidade do fã com relação ao Pacificador (John Cena), cuja série spin-off já havia sido confirmada enquanto o filme estava sendo finalizado. E, por isso, talvez ele não ganhe destaque maior com alguma história do seu passado, embora tenha bastante tempo de tela.
Gunn também nos apresenta uma história divertida com um roteiro simples — o grupo é enviado a uma nação sul-americana qualquer para cuidar dos interesses americanos em meio a um golpe militar — que também é marcado por pitadas de humor que variam entre o pastelão da típica piada de tiozão e alguma elegância.
Mas o grande trunfo do “O Esquadrão Suicida” é mesmo seu grau de imprevisibilidade. E não deixamos de nos surpreender até o fim, até as cenas pós-crédito.
“O esquadrão suicida” merece todos os elogios e é um dos bons filmes deste ano. Esperamos que Gunn faça uma sequência. Ainda que ele tenha perdido muitos personagens neste filme. Se bem que, quando se trata de quadrinhos, ninguém morre de fato.
Zack Snydernão é um visionário como seus fãs gostam de dizer. E até o marketing de seu novo/velho filme tentou vender. Mas tinha uma ideia e um plano bem desenhado sobre o que queria fazer com os heróis da Liga da Justiça quando assumiu a direção do“Homem de Aço” (2013). Contratempos e tragédias já fartamente relatados na imprensa o tiraram da direção do“Liga da Justiça”, que foi finalizado por Joss Whedon e muito criticado na ocasião do seu lançamento em 2017. E curiosamente um filme que parece que vai piorando conforme o tempo vai passando.
Logo depois foi iniciada uma campanha na internet para que fosse lançado o Snydercut, a versão idealizada pelo diretor. Quatro anos depois, o que era meme virou realidade. E uma longa, por vezes cansativa, realidade de quatro horas de duração.
O SnyderCut da “Liga da Justiça” evidência três coisas:
O quão a versão de Joss Whedon é ruim. Uma verdadeira colcha de retalhos e uma versão pálida do que o filme realmente prometia. Claro que aqui o estúdio também tem culpa. Mas como diretor, acaba que Whedon tem que absorver a maior parte das críticas. Afinal, se fosse o inverso ele estaria colhendo os louros da vitória.
O quanto está trilogia sempre foi sobre o Superman (Henry Cavill) e em torno dele.
Como o protagonismo do Cyborg (Ray Fisher) foi apagado inexplicavelmente na versão do Whedon.
Começando pelo fim, o Cyborg é a alma do filme. Tudo gira em torno dele desde a ação para a ressurreição do Superman até o ato final para que os heróis derrotem o Steppenwolf e, consequentemente, impeçam o Darkseid de voltar a invadir aTerra.
Sua história, seus dramas, sua motivação são muito mais bem desenvolvidos no filme de Snyder. O suficiente para entendermos a sua importância. E não é apenas porque o filme tem quatro horas. A história do Cyborg foi lamentavelmente reduzida a quase nada na versão de Whedon. E se o filme de 2017 era difícil de compreender, muito se devia a trama tacanha envolvendo o Cyborg, as caixas maternas e o Steppenwolf, o que agora está muito mais bem explicado.
No seu filme, Snyder mostra que na sua concepção de filme a ação tinha que passar pelo Cyborg. E que cada herói ali tem a sua função importante. Cyborg é a alma, o Batman é a liderança, o homem em meio a deuses e que precisa se desdobrar para ser útil e reparar um erro do passado. E como a versão do Ben Affleck ganhou cor e relevância no SnyderCut.
Já o Superman é a esperança. Ele é o grande herói da Terra e é sobre ele que esta trilogia girou mostrando a ascensão em “Homem de aço”, a queda em “Batman vs Superman” (2016) e o reerguimento na “Liga da Justiça”. A segunda chance que o Superman ganha para ser melhor para ser o grande campeão da Terra e temido por todas as ameaças planetárias. Tudo é sobre ele. Até a própria formação da Liga da Justiça.
Junto deles ainda temos o Aquaman (Jason Momoa) e a Mulher-Maravilha (Gal Gadot) como bons coadjuvantes e um Flash (Ezra Miller) que nem Snyder conseguiu corrigir. Uma versão boba e adolescente para servir de alívio cômico em todo o drama. O Flash merecia mais do que isso.
Se a história do SnyderCut é melhor, por outro lado, o filme por vezes não justifica a sua longa duração. Tem algumas cenas bem arrastadas que poderiam ter sido melhor cortadas sem prejudicar a história. Ou talvez até funcionasse melhor como uma minissérie, já que o próprio filme é dividido em seis capítulos. E neste caso poderia até ter uma duração maior. Todo aquele final com o sonho do Batman mostrando o Coringa (Jared Leto) também pareceu bastante gratuito e desnecessário.
O fetiche do Snyder com a câmera lenta também poderia ser mais bem controlado. Mas este é um estilo do diretor que, gostando ou não, precisamos entender.
No fim, foi bom ver as ideias do diretor postas em prática, bem como as indicações de futuro que ele deixa em aberto (e que provavelmente nunca veremos no cinema). O “Liga da Justiça” de Snyder justifica a sua existência na medida em que é um filme melhor e mais bem conectado aos filmes anteriores desta saga. Acho que já podemos esquecer e colocar na gaveta da história a versão de 2017.
Não é de hoje que a Mulher-Maravilha tem sido a personagem mais interessante do universo DC. O primeiro filme de 2017 é bem divertido e suas aparições foram as melhores coisas dos filmes “Batman vs Superman” (2016) e “Liga da Justiça” (2017). Com isso, era de se esperar que o hype de “Mulher-Maravilha 1984” (Wonder Woman 84, no original) estivesse nas alturas. Mas sabemos que a expectativa é a mãe da decepção. E neste caso, a decepção com o filme dirigido por Patty Jenkins foi enorme.
Na verdade, não é que a nova aventura da heroína Diana seja ruim. Ela é de um vazio que incomoda. Nada em 2h30min é minimamente interessante, emocionante, inteligente, ou provoca qualquer sensação mínima de prazer em ver um filme de super-heróis, que, salvo raras exceções, não são necessariamente obras de arte.
“Mulher-Maravilha 84” falha em provocar emoções mínimas no espectador. Falha em discutir temas morais que poderíamos julgar interessantes. E não entretém sequer em suas cenas de ação. Se juntarmos isso tudo ao fato de que nem Gal Gadot exibe o seu carisma habitual no papel da personagem principal e algumas decisões ded roteiro ruins, fica difícil salvar algo no trabalho de Patty Jenkins, diretora que já foi confirmada para dirigir o terceiro filme da Mulher-Maravilha e que também dirigirá uma nova versão de Cleópatra, prevista para 2022, e um aguardado novo filme do universo Star Wars, “Rogue Squadron”, previsto para 2023.
Como o próprio título do filme entrega, “Mulher-Maravilha 1984” dá um longo salto no tempo. Sai do período da Segunda Guerra Mundial que vimos no filme de 2017 e vai para os anos 80. O salto em torno de 40 anos serve apenas para exibir um figurino da moda da época e que hoje é visto como algo bem tosco, e nada mais acrescenta.
Na década de 80, Diana trabalha como arqueóloga em um museu de Washington e vive sozinha, uma vez que Steve (Chris Pine), seu grande amor, faleceu durante a guerra. Mas tudo muda quando Barbara (Kristen Wiig) está catalogando uns artefatos encontrados numa batida do FBI e nos é revelada uma pedra que realiza os seus desejos mais profundos.
Aqui o filme poderia ter enveredado por dilemas morais interessantes. Pois cada desejo da chamada dreamstone exige daquele que deseja algo em troca. Além disso, graças a ação de Maxwell Lord (Pedro Pascal, talvez uma das melhores coisas do filme), o filme vai escalando o problema dos desejos até fazer o mundo mergulhar num completo caos de desejos concedidos.
Com isso, o filme poderia nos fazer refletir sobre ter cuidado com o que de fato desejamos, caso pudéssemos realizar nossos mais profundos desejos. Exibiríamos nosso egoísmo, como muitos personagens e até mesmo a Mulher-Maravilha o fazem? Afinal, ela desejou que o seu antigo namorado voltasse a vida, mesmo com isso trazendo como consequências o apagamento existencial de uma outra vida e a sua perda de poderes. Ou teríamos a chance de desejar algo melhor para a humanidade?
Mas o filme fica apenas na superfície desta discussão. E se resolve rapidamente num discurso sobre a verdade para complementar o que havia sido inserido nos desnecessários 10 minutos iniciais ao mostrar uma parte da infância de Diana em Themyscira. Claro que o filme não precisava ter aprofundado estas questões se este não era o objetivo. Mas poderia ter agarrado esta oportunidade para discutir algo e não se prender a uma solução fácil, resolvida em cinco minutos.
Restava ao filme, abordar outras questões como a vida deslocada da Mulher-Maravilha nos anos 80, mas não há qualquer conflito, gag divertida ou impasses surgidos a partir daí. De fato, apesar da solidão, Diana está tão perfeitamente adaptada que “Mulher-Maravilha 84” poderia se passar em qualquer época da história. Ser nos anos 80, não traz qualquer diferença ao enredo para além dos detalhes estéticos e visuais daquela década.
Mas ainda nos sobra o entretenimento. E até nisso o filme falha. As cenas de ação são pouco inspiradas. Nem se compara com o que vimos no primeiro filme. Em especial as lutas com Barbara na Casa Branca e com uma Barbara já completamente transformada em Mulher-Leopardo já no fim do filme. Não há uma única cena de ação neste filme que seja realmente de tirar o fôlego ou emocionante. Mesmo a perseguição no Cairo ou a Mulher-Maravilha laçando raios de uma tempestade conseguem despertar alguma excitação.
E assim chegamos a Gal Gadot, que claramente não está muito inspirada neste trabalho. Sua Mulher-Maravilha está passando por um momento de questionamentos causados por uma solidão forçada e a perda do grande amor e vazia por dentro e por fora. Mas a cada dia dá o seu melhor pela humanidade. Mas ela não consegue demonstrar esta Mulher-Maravilha quebrada que o roteiro talvez quisesse passar. Talvez por culpa do roteiro, talvez da diretora, que, é preciso dizer, também pode ter sofrido com produtores que cuidam do universo da DC para contar a sua visão da personagem, ou talvez de todos os envolvidos. De fato, pareceu-me que o retorno de Chris Pine ao papel de Steve pareceu desnecessário. Diana poderia ter lidado de outra forma com a sua ausência que não fosse através de uma segunda chance. Se serviu para refletirmos sobre as consequências do que desejamos, haveria outras maneiras de abordar isso que não precisasse ser através do retorno de Steve, um personagem que está sobrando na trama e diminui a própria Mulher-Maravilha, uma personagem exibida na tela como completamente dependente dele para seguir em frente na vida.
É difícil defender “Mulher-Maravilha 84”. De fato, se o filme teve sucesso em algo foi em emular a estética dos filmes dos anos 80. Em muitos momentos, o filme parece um filme dos anos 80. Infelizmente, parece com as suas piores e dispensáveis versões. Faziam sucesso nos anos 80, mas já não são mais tão aceitáveis em 2020. Lamentavelmente, “Mulher-Maravilha 84” ficou devendo demais.
Uma das frases mais reproduzidas
do filósofo Jean-Jacques Rousseaué a que diz que o homem nasce bom, mas a sociedade
o corrompe. A sociedade transforma o homem num individuo ruim porque, com o
desenvolvimento da civilização, os homens teriam se tornado gananciosos,
mesquinhos, avarentos e invejosos, estabelecendo uma desigualdade entre eles e
encerrando para sempre a naturalidade humana e, consequentemente, a sua
bondade. A ideia presente no “Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens”, de 1755, parece ser a base teórica na qual o diretor Todd
Phillips se inspirou para levar às telas a sua versão tão particular do
Coringa, arqui-inimigo do Batman e que agora ganha um filme solo que procura
explorar uma origem para um dos maiores vilões da história dos quadrinhos.
Parar criar a sua versão do vilão,
Todd renegou a história conhecida do personagem, ainda que o filme tenha até
mais conexões com o universo do Batman e da DC do que se esperava. O que interessa
ao diretor, que também escreveu o filme junto com Scott Silver é investigar uma
genealogia do mal por trás da mente psicótica de Arthur Fleck, o homem que se
transformaria num dos mais perversos, sádicos e cruéis criminosos dos
quadrinhos. Essa é a base de “Coringa” (“Joker”, no original).
Há um mérito neste estudo de
personagem feito pelo diretor, mas ele também esconde um problema envolvendo o
personagem que, queira ou não, tem uma mitologia de oito décadas e alguns filmes
construída desde a sua primeira aparição em uma história do Batman em 25 de abril
de 1940. Incomoda a tentativa de justificar a maldade do Coringa. O maior
problema, aliás, está nessa eterna busca nas duas horas de filme de um “por
que?”. Essa tentativa de explorar uma tese sob a lógica de Rousseau de que
todo homem nasce bom, mas o meio o deteriora. Ou, parafraseando um trecho de “Bacurau”,
mais recente filme de Kléber Mendonça Flho, todo mundo já teve uma mãe.
Funcionaria melhor se fosse um
estudo sobre um psicopata fictício qualquer. Mas ao colocar o selo do Coringa
no título, há todo um passado que o mostra como alguém que é a essência da
maldade e o mensageiro do caos. Que com sua risada sádica pratica o mal
simplesmente porque é o que lhe dá prazer. O Coringa não tem explicação. Ele é
o mal e o terrorismo em estado bruto. Ou se aproxima mais da máxima do inglês
Thomas Hobbes em “O Leviatã”, de 1651, de que o homem é essencialmente
mau.
Contudo, entre Rousseau e Hobbes,
o Coringa não ocupa nenhum destes espaços. Ele é o que é com os buracos de ser
uma criação. Afinal, ele não é humano e sim um personagem de quadrinhos. E também
foi construído sem ter o sentido de humanidade. Até pela loucura causada pelo
que se entende ser a sua origem mais conhecida, a queda em um tanque de
produtos químicos que o desfigurou e o tornou insano.
Ao longo das décadas após a sua criação, o Coringa
foi incorporando ainda mais esse sentimento de falta de humanidade, horror,
terrorismo e mensageiro do caos no seu estado mais bruto. Ele é um psicopata que
tem uma mente naturalmente doentia e que tem prazer em fazer o mal. Daí a sua
risada sádica e apavorante, que tão bem foi construída pelo ator Joaquin
Phoenix. Tanto que nos quadrinhos é quem comete alguns dos crimes mais terríveis
no universo do Batman, como a morte de Jason Todd, o segundo Robin, e a
paraplegia de Barbara Gordon.
Phillips tenta pintar o Coringa
como fruto de uma sociedade doentia. Na vida particular, ele tem uma mãe doente
que já fora internada no Asilo Arkham, o mesmo asilo onde o Coringa é um
morador constante. Que trabalhara para Thomas Wayne, pai do jovem Bruce. Ele
próprio já fora internado no Arkham por motivos que o filme não revela. Arthur
frequenta uma psicóloga, toma sete remédios diferentes, tem distúrbios
neurológicos e ainda apanha da vida em uma Gotham City que é puro caos e
desordem. Nesse ponto, aliás, o filme faz uma ponte bem interessante com a
série “Gotham” (2014-), que procura contar a história da cidade justamente
neste momento em que Bruce é uma criança, não há Batman e Jim Gordon ainda é um
policial.
Estamos, portanto, numa época em que a cidade
não tinha o Batman, era infestada de ratos e a criminalidade era galopante e a
luz do dia. Arthur aqui é pintado como uma vítima desse caos. Sofre bullying
dos colegas, apanha na rua, é humilhado constantemente,
não é amado e é frequentemente rejeitado por todos. Phillips tenta dizer que
este homem vai explodir a qualquer momento. E nós sabemos disso, pois sabemos
quem ele é e no que irá se tornar. E deixa implícito que se a sociedade não cuida
de homens como este, eles irão explodir. Toda essa tentativa de justificá-lo é uma visão um pouco equivocada do Coringa.
Acontece que o personagem em sua
essência não é vítima. É e sempre foi um vetor do caos. É disseminador da
desordem. É o próprio condutor do terror. É no terço final do filme, quando
Phoenix já está devidamente transformado neste personagem, que o Coringa é
brilhante.
Num momento em que o mundo vê a
ascensão perigosa da extrema-direita em diferentes países, o Coringa virou a
personificação do fascismo. Ele é o símbolo de uma Gotham cansada de desmandos
e da mentira dos políticos, da corrupção dos policiais, da violência. E surge
como o símbolo de mudança pela força desejada por um povo que está cegamente em
busca de uma solução rápida para os seus problemas.
Está não é a primeira vez que o
personagem é usado para refletir sobre um estado doentio do mundo. O Coringa de Heath
Ledger era um terrorista e foi construído na esteira de uma série de atentados
que aconteceram anos antes do filme “Batman – O Cavaleiro das Trevas” (2008).
Do 11 de setembro de 2001, quando foram derrubadas as torres gêmeas do World
Trade Center, passando por atentados em Madri (2004) e Londres (2005).
Mas ali, e aqui temos outro problema
deste filme, o Coringa era o antagonista. Aqui, não há Batman. Ou qualquer outro contraponto.
Bruce Wayne é apenas uma criança e sequer há o comissário Gordon para ser o
herói de um filme dominado e domado por um vilão. Há um certo buraco neste
ponto que vemos também no filme do “Venom” (2018). A diferença, porém, está na execução.
No “Venom” há uma ridícula tentativa de transformá-lo num herói. Em “Coringa”,
pelo menos, o personagem está longe de ser um herói. Porém, não há quem o
combata, quem apareça com um discurso de que isto que está acontecendo não é
correto e expondo os motivos. De fato, o “Coringa” é um voo solo do pensamento
anárquico e explosivo de alguém que se sente uma vítima do sistema. E não há quem
o defronte.
Com isso, “Coringa” se segura em dois
pontos. O primeiro está no fato de ser brilhantemente dirigido. Há uma boa dose
de cenas belíssimas, assim como a caracterização dessa Gotham City mergulhada
no caos também merece ser elogiada.
O segundo e mais importante ponto
é a atuação magnética de seu ator principal. Phoenix é o filme. O seu
trabalho para construir o personagem envolveu a perda de 25 kg, o
desenvolvimento de feições que evocam uma tristeza e uma maldade assustadoras e
de uma risada perturbadora. Ele caminha como uma leveza assustadora no filme
enquanto vai se transformando de Arthur em Coringa. Ao mesmo tempo que exibe uma brutalidade crua quando precisa. Suas cenas de dança, seu
sorriso desalinhado... tudo evoca o psicopata que o Coringa é. Ele só perde a
força justamente quando tenta se justificar. E o discurso no show de Murray
(Robert de Niro) é tão ruim que não faz sentido depois de tudo o que ele fez
com a mãe, com o ex-colega de trabalho e dias antes no metrô.
Isso porque o diretor é obsessivo
por esse “por que?”. Por que Arthur Fleck transformou-se no Coringa? Essa é a
teoria dele. Quando, insisto, o Coringa é o que é porque ele é pura maldade e
caos sem justificativas.
A preparação de Phoenix para fazer
o personagem não envolveu qualquer mergulho no trabalho original ou mesmo nos
filmes em que o personagem foi interpretado por Heath Ledger ou Jack Nicholson, que o
interpretou em “Batman” (1989).
- A maneira como ele se move. Há
momentos em que dança tão levemente que parece surgir da tristeza do mundo em
que vive. É por isso que fui inspirado por Ray Bolger, o espantalho de “O
Mágico de Oz” (1939). Adoro o fato de seu personagem brilhar através da dança,
música, notas e solfejos. Meu Coringa tem alguns movimentos mecânicos, uma
maneira de gesticular e mover a cabeça que denota uma arrogância silenciosa.
Muitas vezes combinei dança moderna e música disco: a beleza do Coringa é que é
realmente imprevisível. Eu não fui inspirado por nenhum outro Coringa. Mas
lembro-me muito bem de Jack Nicholson no Batman de Tim Burton. E o excelente Heath
Ledger. Mas eu preferi me preparar sem me referir a nenhum trabalho anterior,
nem mesmo quadrinhos ou séries de TV. Eu queria criar o meu Coringa, que foi
uma invenção da minha imaginação. Ou da minha loucura. Não é um filme sobre os
super-heróis habituais, bandidos e humanos com poderes especiais. Para mim, gostam
dos personagens inspirados nos quadrinhos porque têm problemas reais, o mesmo
que nós. O Coringa é apenas isso. Um de nós. Ele não tem pai, ele não tem
amigos, ele está ansioso e deprimido. O Coringa sofreu trauma e também foi
abusado quando criança... Pobre homem... Ele tem todos os problemas deste mundo.
Não foi agradável nem fácil entrar na cabeça dele, mas estou orgulhoso de conhecê-lo
– disse Phoenix em entrevista à imprensa, ao falar sobre o seu papel.
Percebe-se, portanto, a tentativa no mínimo complicada de humanizar o personagem. Ainda que seja fantástico, diria até soberbo, o
trabalho de Phoenix, não apenas pela forma como ele entrou fisicamente, mas
também na psicologia do personagem.
Esquecendo os problemas/defeitos/contradições,
“Coringa” chega até a ser um bom filme. Falha sim como ensaio sobre a
genealogia do mal, mas compensa no trabalho de Phoenix. Ele é a razão da existência do filme. E tem seus melhores momentos quando sai da tentativa de justificar
e emula o legado de Ledger. Ali é quando eu fiquei mais interessado em ver um
embate com o futuro Batman de Robert Pattinson.
Phoenix
nos entregou uma versão muito boa do Coringa. O que lhe falta, porém, é o
freio, o elemento que antagonize o seu discurso. Falta-lhe o Batman, pois o
Coringa nunca existiu sem o seu adversário. E vice-versa. E é neste ponto
que a construção de Ledger leva vantagem. O Coringa de Ledger tem mais força e um propósito maior, tem um rival e não é um pobre coitado que se desviou porque a vida não lhe sorriu. É claro que ele se passa em outro momento histórico. Mas sua atuação é
tão marcante que há pelo menos duas referências ao seu personagem no filme de
Phillips.
As questões que ficam agora é: que
papel terá este Coringa no universo cinematográfico da DC? O veremos já no novo
Batman previsto para 2021? Ele terá um papel maior como vilão dos heróis da
Liga da Justiça? Ou tudo se resumirá a este filme. Seria triste, porém, se esta
última opção fosse a escolhida. O Coringa de Phoenix tem espaço para brilhar até
melhor nas telas quando encontrar um adversário para ele.