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domingo, 5 de junho de 2022

“Top Gun: Maverick” é para os fãs, mas não se apega exclusivamente à nostalgia

Tom Cruise pilotou jatos para fazer o filme


Desde que o projeto de uma continuação de Top Gun começou a ser divulgado, parecia inegável que o objetivo era voltar para aquele universo dos chamados “melhores pilotos do mundo” como um exercício de nostalgia dentro da cada vez mais crescente indústria do cinema nostálgico. “Top Gun: Maverick” não nega tais expectativas. Mas o que faz o filme ser tão bom e talvez até superior ao original é que ele vai além disso.

Dentro da capa de obviedades e previsibilidades que o roteiro nos exibe e as inevitáveis belas e emocionantes imagens que o diretor Joseph Kosinski nos oferece, há uma história que é de fato interessante em torno de culpa, reconciliações, redenção e a tentativa de aprender com os erros do passado.

“Maverick” segue desde o início a trajetória do Capitão Pete “Maverick” Mitchell (Tom Cruise). Já há anos fora do chamado esquadrão Top Gun, de onde foi expulso uma vez que o personagem sempre teve problemas em lidar com autoridades e cumprir ordens, Maverick está trabalhando num projeto do governo em que faz o que sabe fazer melhor: esticar a corda do limite para conseguir resultados excelentes em tempo recorde.

Mas a pedido do velho rival/parceiro, o agora almirante Iceman (Val Kilmer, que com a saúde debilitada faz uma participação especial e recebe uma bonita homenagem no filme), Maverick é convocado para voltar aos Top Gun. O objetivo é fazer o capitão cujas insubordinações e desrespeitos nunca o fizeram ir além na hierarquia da Marinha, ensinar novos pilotos a enfrentarem uma missão suicida num país estrangeiro cujo nome nunca é revelado.

Esta é a história básica do filme. A partir daí, “Maverick” vai aproveitando os cenários para trazer reconfortantes momentos do passado e colocar o seu protagonista em conflito com os traumas de quando era um jovem piloto. O conflito a partir daí se dá com a presença de Rooster (Miles Teller), filho do seu velho parceiro Goose, e que não perdoa Maverick por ter atrasado a sua carreira na Marinha. A relação paternal, a tentativa de proteger Rooster e a busca por reavaliar os erros cometidos no passado e buscar finalmente um caminho para a sua vida que parece ter parado no tempo nas últimas décadas estão no entorno da trajetória de Maverick.

Ao mesmo tempo, cabe ao capitão mostrar que, embora os pilotos de caça sejam uma espécie em extinção numa era de guerra de drones, o ser humano ainda é relevante e, mesmo com sua impetuosidade e desrespeito por hierarquias, ele ainda tem um lugar a ocupar e pode ser útil naquele momento.

“Maverick”, portanto, parece até ter mais camadas interessantes do que um mero filme de ação. Contudo, é claro que o que mais pega no fã do “Top Gun” original são as referências e o conforto nostálgico do que o filme traz da década de 80. “Maverick” teve o cuidado de trazer vários elementos do passado, como a trilha sonora original representada pelo “Top Gun Anthem”, música instrumental de piano e guitarra composta por Harold Faltermeyer e Steve Stevens, e por “Danger Zone”, de Kenny Loggins, que abre o filme para pegar o fã antigo logo de jeito. Só não está presente a balada de sucesso “Take my breath away”, visto que aquele era o tema do par romântico vivido por Cruise e Kelly McGills, que não volta para o filme atual. Novo interesse romântico de Cruise, Penny (Jennifer Connelly) — chamada no primeiro filme de “a filha do almirante” com quem Maverick teve um caso no passado — tem seu romance embalado pela canção original de Lady Gaga, “Hold my hand”.

O filme também procura traçar seus paralelos com o passado. Por isso Rooster é tão parecido com o pai, ao ponto de também tocar no piano do bar como Goose após uma manjada cena de pilotos num papo daqueles de quem está medindo quem tem o pau maior. Um clássico de filmes do gênero.

Além da cena do bar, há uma repetição de elementos do filme original. Entre eles, Tom Cruise andando de moto com o avião levantando voo ao seu lado, usando a jaqueta e o óculos escuro tradicional, a famosa cena na praia com corpos suados apenas substituindo o vôlei por futebol americano, e as belas imagens de jatos e cenários na golden hour, um clássico do filme original de Tony Scott. Todos estes elementos nostálgicos reconfortam o coração do fã antigo, claramente pego pela emoção, ainda que o filme traga também outros elementos.

Entre a história e a nostalgia, “Maverick” ainda traz insanas sequências de ação, que são ainda mais impressionantes quando se tem noção que Tom Cruise e os demais atores realmente se filmaram voando em jatos da Marinha americana. É claro que a edição e a trilha sonora tornam tudo ainda mais perigoso, mas não deixa de ser impressionante o nível de risco a que Cruise se impõe para dar um grau a mais de veracidade ao filme. Realmente desde o treinamento e até a missão real do final são cenas de tirar o fôlego e que valem ser vistas numa tela grande como a do cinema.

Assim, “Maverick” cumpre a sua função de entreter o espectador e reconfortar o coração do fã que talvez nem soubesse que desejava voltar para aquele universo. Pode não ser um filme perfeito, mas é um filme de ação blockbuster como raramente temos visto nos últimos anos, uma vez que o cinema tem estado inundado de filmes de super-heróis e franquias em geral.

Nota 8.

sábado, 13 de novembro de 2021

"Eternos" ficou devendo, mas ainda assim é divertido

Eternos e suas belas fantasias de carnaval
Levar para o cinema os personagens cósmicos da Marvel era um grande desafio. Primeiro, eles nunca foram realmente incríveis nos quadrinhos. E ainda assim era preciso torná-los interessantes e palatáveis para o grande público que não consome e desconhece completamente estas histórias numa narrativa que se enquadrasse no universo cinematográfico do estúdio e pudesse criar uma nova mitologia neste mesmo universo.

“Eternos” (“Eternals”, no original) não consegue atingir todos os ambiciosos objetivos. De fato, se o filme for visto apenas como uma aventura de uma gama de heróis da Marvel, ele até vai bem. Tem uma história tradicional, plot twists, batalhas interessantes e um final em que o bem vence o mal e, entre ganhos e perdas, a vida segue rumo a próxima aventura.

O filme, porém, não é bem sucedido quando vai para além desta camada primeva. Quando tenta discutir o papel dos Eterno na humanidade e sua função durante sete mil anos, quando levanta as capas de uma suposta hipocrisia e de um jogo de peões interplanetário em um xadrez muito maior do universo ele não passa de uma camada um pouco pálida.

É perceptível o esforço do filme em trazer uma camada de importância e construir um filme que se distancia vagamente da chamada fórmula Marvel, trazendo algumas discussões, digamos, sociológicas. E é muito válido que isso seja feito de alguma forma. Mas era preciso fazer tanta coisa neste filme: apresentar e mostrar quem são os Eternos, explicar o que são os Celestiais e os Deviantes, apresentar Dan Whitman, que deve vir a ter um papel importante na futura formação dos Vingadores, explicar por que os Eternos não interferiram na batalha contra Thanos e os demais conflitos da humanidade. Enfim, era muita coisa a fazer em 2h37min. Portanto, essa tentativa de dar um corpo acadêmico ao filme fica em quinto plano e não passa de flashes numa história que precisa seguir em frente nas batalhas e na construção daquele universo. Creio que “Pantera Negra” (2018) tenha sido mais bem sucedido em tentar ir para além de uma trama tradicional de quadrinhos.

Mas dito isso, “Eternos” é bem legal. Nos apresenta uma gama de personagens que no cinema ficaram interessantes em uma trama tradicional que envolve o dilema entre seguir o seu destino ou cuidar da sua família. Mas essa é muito uma perspectiva de um leitor de quadrinhos.

Para alguém mais leigo, “Eternos” parece um filme bastante frio e distante. Confuso com todos aqueles saltos temporários e um pouco vazio, com pouco aprofundamento da maioria dos seus personagens. Ao mesmo tempo em que talvez seja didático demais. Por outro lado, talvez seja fundamental que ele seja didático para o grande público se ver inserido no contexto daquela mitologia.

Falta a “Eternos” também uma assinatura mais forte de sua diretora. Num ano em que Chloe Zhao ganhou um Oscar por um filme tão autoral e excelente como “Nomadland”, esperava-se que “Eternos” tivesse mais da diretora, por mais que Kevin Feige fosse quem comanda a roda da Marvel. O filme não parece muito diferente do que seria sob o comando de outra cabeça. Mas creio que Zhao pelo menos consegue fazer um feijão com arroz satisfatório na construção desta aventura e, eventualmente, implantar as suas ideias em pontos específicos da história.

Narrativamente, porém, o filme falha na trama de Ikaris (Richard Madden). A virada que o personagem ganha soa artificial uma vez que é abordado de forma muito rápida os conflitos entre a fé e a razão entre os Eternos. E depois disso, quando Ikaris hesita não fica muito claro os seus motivos ou soa um tanto quanto um “momento Martha” por ser simplesmente por amor enquanto até ali ele foi intransigente no seu plano a ponto de ter tomado decisões tão drásticas.

O que fica de positivo em “Eternos” é sua aventura, a participação de Angelina Jolie, os personagens interessantes, as boas cenas de luta e a perspectiva de um segundo filme que aprofunde mais suas histórias e desenvolva as consequências dos atos dos personagens neste filme, uma vez que o universo já está estabelecido.

O futuro parece promissor. O presente, porém, ficou entre o morno e o divertido. E com umas boas piscadelas da Marvel para a DC, talvez uma das boas sacadas do filme em seus momentos mais cômicos.

Cotação da Corneta: Nota 7.



"Duna" é um filme grandioso

Paul nunca abandona a mãe
Originalmente um longo romance de ficção científica de Frank Herbert, “Duna” parecia infilmável. Afinal, como jogar para a tela um livro de mais de 600 páginas com uma gama relativamente grande de personagens importantes e várias tramas relevantes? Foi um desafio que o diretor canadense Dennis Villeneuve pegou para si. E tal qual um fremen cavalgando nas costas de um verme de areia, Villeneuve dominou muito bem o desafio.

“Duna” (“Dune: part 1”, no original) é um filme grandioso, solene, irresistivelmente belo e uma adaptação respeitosa e cirúrgica do livro de Herbert. Será preciso ser muito chato e cri-cri para que o fandom de “Duna” torça a cara para este filme. Estão ali todo os elementos do livro explorados com a minúcia que 2h35min de uma adaptação de aproximadamente metade do livro permitem. As casas são destacadas, os conflitos políticos, a questão envolvendo o meio ambiente, a luta pela especiaria, os interesses particulares das Bene Gesserit. a jornada do herói Paul Atreides (Thimothée Chalamet).

É claro que “Duna” não é um filme perfeito. E nem o melhor filme de Villeneuve. Mas isso diz mais sobre as qualidades de um diretor que já realizou trabalhos como “Blade Runner 2049” (2017), “A Chegada” (2016), “Sicário: Terra de Ninguém” (2015) e “Incêndios” (2010) do que depõe contra o seu trabalho em construir o mundo e os conflitos imaginados por Herbert.

Entre os acertos de “Duna” estão as escolhas de Villeneuve. Primeiro focar sua adaptação em uma parte do livro e não em sua totalidade. Assim, “Duna” pôde ter um ritmo mais lento, trabalhar mais a construção de seu universo e copiar até diálogos inteiros do livro. Segundo, escolher no meio de tudo focar na jornada do jovem Paul Atreides, filho do Duque Leto (Oscar Isaac) e, para os habitantes de Arrakis, o escolhido. Tudo gira em torno de Paul enquanto a trama política e ecológica fica como pano de fundo. Com destaque também, mas num patamar um pouco abaixo. Talvez isso não fosse o mais interessante para quem gosta mais das tramas políticas de “Duna”. Mas era preciso fazer escolhas e Villeneuve fez as dele.

Esteticamente é preciso destacar a trilha sonora inspirada de Hans Zimmer, que soube dar corpo à grandiosidade visual do filme. Também vejo como pontos positivos, detalhes das escolhas de Villeneuve como o uso da Voz, espécie de poder mental exibido pelas Bene Gesserit. O tom meio aterrorizante pareceu ser correto. Também foi boa escolha a sutileza que se exibem as especiarias, quase invisíveis para olhos mais distraídos, mas sempre ali relativamente brilhando em sua cor alaranjada e misturada a areia do deserto. Assim como o conceito dos escudos dos personagens.

Outro acerto foi a estética dos vermes do deserto, assustadores, meio escuros, sem um rosto aparente e raramente aparecendo em sua plenitude. Villeneuve soube ainda emular muito bem a forma como o deserto se movimenta como se fosse um mar de areia tão bem descrito no livro de Herbert.

Por outro lado, muito do que torna “Duna” grandioso pode incomodar o espectador comum. Por vezes, o filme de Villeneuve parece frio e sem alma. Crítica que “Blade Runner 2049” também já sofrera. Eu discordo. Acho que ele tem a força em sua beleza e os personagens carregam muito desta alma do filme desde as menores participações até Chalamet. E como estão bem Isaacs, Rebecca Ferguson, Stellan Skarsgaard, Javier Barden, Josh Brolin, Jason Momoa, Charlotte Rampling e outros. Cada ator entrega bem o que seu personagem pede.

É questionável também o modo como o filme termina. Me parece que só não causará incômodo e estranhamento em quem leu o livro, pois este grupo já conhece o que está por vir. Mas quem nunca pegou na obra de Herbert e vai conhecer o universo pela primeira vez pode ficar frustrado, mesmo que tenha sido enredado pela beleza do filme.

Haveria outro momento melhor para encerrar esta primeira parte? Talvez. Faltou um clímax ao filme? Provavelmente. Contudo, não foi exatamente ruim que a primeira parte terminasse com o amadurecimento de Paul, a sua necessária morte metafórica, enquanto a segunda deve se ocupar mais com a ascensão de Muad’Dib.

“Duna” correspondeu a muitas das expectativas. Sua grandiosidade, porém, só terá um atestado definitivo quando a parte 2 ganhar a luz do dia. Até lá, no entanto, nos contentemos com uma primeira parte cheia de predicados.

Cotação da Corneta: Nota 8,5.



sábado, 16 de outubro de 2021

007 apela ao sentimentalismo em despedida de Daniel Craig

Um filme imperfeito, mas um final perfeito para Craig
O que menos se espera de um filme de James Bond é um apelo a emoção e a sentimentos tão humanos. Mas o que os 15 anos de Daniel Craig no papel do mais famoso agente secreto no cinema nos ensinou é que a sua versão para 007 pode ser considerada a mais humana de todas. Em cinco filmes, o James Bond de Craig amou, sofreu, sentiu raiva, entregou-se a um alcoolismo, sentiu-se traído, chorou, errou…Tudo isso, claro, enquanto não falhava em apenas uma coisa: salvar o mundo dos grandes vilões que querem destruí-lo, dominá-lo ou qualquer coisa semelhante a isso. Não seria por acaso, portanto, que “Sem tempo para morrer” (“No time to die”, no original), o filme que marca a sua despedida do papel surgisse como uma revisão do seu legado e uma homenagem ao seu Bond humano.

“Sem tempo para morrer” tem uma série de defeitos. É quebradiço, tem um roteiro que tenta ser complexo e com reviravoltas, mas na maioria das vezes não funciona e é muito mais problemático e confuso. E tem um vilão que prometia mais do que cumpriu. A falta de uma boa história faz com que o filme pareça muito longo em suas 2h43min.

Por outro lado, o filme ganha força quando se coloca expondo o legado de Craig no papel. E apela a um sentimentalismo que talvez arranque algumas lágrima dos fãs de 007. E arrancar lágrimas de um espectador num filme de James Bond é algo que por si só seria raro.

Ao tentar se equilibrar em muitas frentes, porém, “Sem tempo para morrer” fica no meio do caminho de todas elas e entrega justamente um filme longe de ser perfeito. Para começo de conversa, a trama é confusa. Gira em torno de uma tentativa do vilão principal, Lyutsifer Safin (Rami Malek), de adquirir um vírus tecnológico poderoso que o permitirá matar milhões de pessoas ao redor do mundo. Ao mesmo tempo, a trama lida com a aposentadoria de Bond, agora vivendo recluso na Jamaica, enquanto há uma nova 007 no MI6, Nomi (Lashana Lynch). Ao mesmo tempo, a organização terrorista Spectre continua ativa e misteriosamente comandada da cadeia pelo arqui-inimigo de Bond, Blofeld (Christoph Waltz).

Alguns passos da história, porém, não ficam muito claros. Por exemplo, por que Safin tem interesse em fazer o que fez com a Spectre? Além disso, não entendemos muito bem quais foram as motivações dele para reproduzir um vírus mortal em larga escala para destruir milhões de pessoas se, supostamente, a morte da família dele está vingada. Falta, assim, mais esclarecimento para a trama da ameaça global.

Por outro lado, a história da vida miserável que Blofeld armou pra Bond no início do filme foi pouco explorada. Vimos o ato, o sentimento de traição que ele sentiu de Madeleine (Léa Seydoux) e pulamos imediatamente para a consequência: um Bond sozinho, isolado numa ilha e bebendo cada vez mais, e, por fim, no turbilhão de outros acontecimentos, a resolução desta subtrama no reencontro de 007 com Blofeld na prisão em Londres.

Havia um potencial maior nesta subtrama a ser explorado e faltou uma conexão maior com a história principal que envolvia Safin e suas motivações. Também faltou ao filme explorar um pouco mais do potencial de Paloma, personagem de Ana de Armas que tem uma pequena e interessante participação na parte da história que se passa em Cuba. É igualmente pouco explorado o potencial do vilão vivido por Malek, ainda que o ator esteja defendendo como pode o seu personagem em meio ao roteiro irregular.

O mesmo não acontece com Nomi, que ganha bom destaque na tela e tem boas interações com Bond. Esta é uma personagem que poderia voltar nos futuros filmes, quando for escolhido um novo ator para o papel principal.

Não necessariamente estes problemas ou defeitos atrapalham a experiência de “Sem tempo para morrer”. O filme tem boas cenas de ação, a melhor delas a primeira, na Itália, antes dos créditos de abertura com a música de Billie Eilish. E tem um final emocionante, quando Bond precisa enfrentar Safin e impedir a morte de milhões de pessoas na Europa em meio a uma potencial crise internacional entre Inglaterra, Japão e Rússia. Emocionante e até inesperado para os filmes de 007.

Ao longo de toda a trama, Bond está tentando se reconciliar com o seu passado após as escolhas equivocadas que fez no início do filme. E é nos minutos finais que ele encontra a paz no ponto alto do sentimentalismo que a trama vinha nos conduzindo. Ainda que a missão de Bond nunca esteja concluída, afinal, sempre haverá um vilão megalomaníaco querendo dominar o mundo, a missão de Craig ali se concluiu. E ele soube entregar um grande James Bond. Um grande e humano James Bond que aprendemos a gostar ao longo de uma década e meia. Eu não queria estar na pele de quem terá que substituí-lo.

Cotação da Corneta: nota 7.



domingo, 22 de agosto de 2021

Finalmente um bom "Esquadrão Suicida"

Isso sim é um Esquadrão Suicida
Não sou muito fã de fazer comparações ou tomar partido em um dos lados da dualidade do cinema pop atual. Mas como fã e leitor de quadrinhos tanto da Marvel quanto da DC, vou abrir uma pequena exceção para traçar um tímido paralelo entre as duas rivais.

É inegável que a Marvel faz filmes bons em quantidade maior do que a DC. Seus acertos são maiores do que os seus erros. Mas também é inegável, pelo menos do meu ponto de vista, que quando a DC acerta, ela acerta num nível que a equipara, quiçá a faz superar, alguns dos melhores filmes da Marvel.

“O esquadrão suicida” (The Suicide Squad, no original) é desses filmes do patamar mais alto da DC. E traz justiça. Traz justiça para esse grupo de vilões e anti-heróis tão mal tratados na versão de David Ayer de 2016. E vamos combinar que depois deste filme podemos definitivamente esquecer que o anterior existiu.

O filme também traz justiça para uma personagem tão legal como a Arlequina (Margot Robbie). Finalmente ela ganha um filme bom, excelentes cenas e um roteiro um pouco melhor, embora longe de ser perfeito. Mas melhor do que o que vimos no primeiro “Esquadrão Suicida” e do fraco “Aves de Rapina” (2020).

“O esquadrão suicida” também traz um sopro de novidade na monocultura contida dos filmes de super-heróis. Num mercado dominado pela Marvel, que só faz filmes PG-12, a classificação indicativa de “O Esquadrão Suicida” é 18+. Isso proporciona um filme nada contido e, exatamente por isso, mais “carnal” e vivo nos mais diferentes aspectos.

Longe de mim, porém, achar que a qualidade de um filme se resume a violência extrema e sexo. Isso está muito longe de ser verdade. Mas um grupo de personagens como o do Esquadrão Suicida pede um filme de censura mais alta para que seja mais fiel aos feitos de cada um deles. É claro que isso, por outro lado, não mascara os eventuais problemas do filme. Uma história um pouco jogada e num esquema mais de montanha-russa do que de encadeamento de ideias.

E aqui é preciso ressaltar o trabalho de James Gunn. Diretor e roteirista do filme, o cineasta deixa claro desde os primeiros minutos que tudo pode acontecer neste filme. E que não devemos nos apegar a nenhum personagem. Esse caráter de imprevisibilidade do filme é um dos méritos dele.

Em suas 2h14min, Gunn também consegue apresentar mais do que cenas apoteóticas. Num filme com 18 personagens supervilões. ele também consegue desenvolver minimamente seus personagens principais. Em especial Sanguinário (Idris Elba), Ratcacher 2 (Daniela Melchior) e Rei Tubarão (Sylvester Stallone). Tudo isso aproveitando para dar uma continuidade à história da Arlequina, que o fã já conhece de outros filmes e atiçando a curiosidade do fã com relação ao Pacificador (John Cena), cuja série spin-off já havia sido confirmada enquanto o filme estava sendo finalizado. E, por isso, talvez ele não ganhe destaque maior com alguma história do seu passado, embora tenha bastante tempo de tela.

Gunn também nos apresenta uma história divertida com um roteiro simples — o grupo é enviado a uma nação sul-americana qualquer para cuidar dos interesses americanos em meio a um golpe militar — que também é marcado por pitadas de humor que variam entre o pastelão da típica piada de tiozão e alguma elegância.

Mas o grande trunfo do “O Esquadrão Suicida” é mesmo seu grau de imprevisibilidade. E não deixamos de nos surpreender até o fim, até as cenas pós-crédito.

“O esquadrão suicida” merece todos os elogios e é um dos bons filmes deste ano. Esperamos que Gunn faça uma sequência. Ainda que ele tenha perdido muitos personagens neste filme. Se bem que, quando se trata de quadrinhos, ninguém morre de fato.

Cotação da Corneta: nota 8.



"Um lugar silencioso: parte II" é uma decepção

Um filme que não sai do lugar
Quando foi lançado em 2018, “Um lugar silencioso” conquistou público e crítica com uma ideia inventiva que possibilitava usar os recursos de som e silêncio numa história de terror passada em um mundo pós-apocalíptico. Ao explorar bem os recursos técnicos e construir um filme muito tenso e com monstros assustadores, porém cegos, que “farejavam” suas vítimas pela sensibilidade que tinham com o mínimo barulho que ouviam, o filme agradou muitas pessoas.

Embora tivesse uma história que se fechava em si mesma, era inevitável que no mundo atual do cinema marcado por dezenas de sequências, prequels e construções de sagas, que o filme ganhasse uma continuação. É uma pena que “Um lugar silencioso: parte II” (A quiet place: part II, no original) seja tão pobre de ideias, convertendo-se uma verdadeira decepção quando colocado em comparação com o primeiro filme.

(ATENÇÃO QUE A PARTIR DE AGORA TEREMOS SPOILERS).

“Um lugar silencioso: parte II” se passa quase imediatamente após os acontecimentos do primeiro filme. Passaram-se apenas cinco dias em relação ao dramático final da história anterior, que terminou com a morte de Lee (John Krasinski, também diretor e que participa do roteiro desta sequência).

Mas antes temos um longo e um tanto quanto desnecessário flashback que não serve para muita coisa a não ser apresentar o personagem de Cillian Murphy. Ali conhecemos Emmett, aparentemente um amigo da família com contatos no exército, mas nada disso será usado mais a frente. Fica a impressão de que Emmett é a figura masculina da vez na ausência de Lee.

Enquanto isso, acompanhamos a tentativa de Evelyn (Emily Blunt) de sobreviver junto com seus três filho. Entre eles Regan (Millicent Simmonds), que dias atrás (no filme anterior para os espectadores) havia descoberto um ponto fraco das criaturas alienígenas, que dá aos humanos uma pequena vantagem na tentativa de exterminá-las.

O maior problema desta sequência é a falta de ideias novas. Se fosse apenas um capítulo de série, daria para dizer que era um bom episódio que continua a história em questão, mas andando de lado, sem avançar muito. Como na verdade é um filme, é um pouco triste ver que ele não avança em praticamente nada na história. Os personagens continuam tendo que fugir sem fazer nenhum barulho, os humanos continuam se escondendo dos alienígenas em silêncio, Evelyn continua tendo que cuidar de um bebê que neste mundo é uma verdadeira bomba relógio e a tensão e os truques do primeiro filme apenas se repetem no segundo.

Do meio para o final do filme, Regan descobre o que pode ser uma solução para destruir as criaturas. Uma ilha de onde uma estação de rádio transmite em looping uma única música. Ela decide ir lá, Emmett a acompanha, a família se separa e parece que teremos uma busca de uma solução para a trama. Ao chegar na marina a procura de um barco, um grupo é atacado pelos monstros e descobrimos que as criaturas não podem nadar. Uma informação que poderia ser relevante, pois isso converteria a ilha numa zona de segurança deste mundo pós-apocalíptico. Mas a informação não é usada como uma forma de os humanos levarem vantagem na luta pela sobrevivência. Pelo contrário, um barco surpreendentemente — ou melhor, convenientemente — chega a deriva com um monstro justamente até a ilha. Soou como um recurso barato de filme B para levar o monstro até lá. Este foi o maior exemplo da falta de ideias que este filme tem. No jogo de forças entre humanos e monstros, não é possível que o roteiro tenha sido tão empacado e ausente de ideias que fizessem avançar a história.

O que fica de bom de “Um lugar silencioso: parte II” é apenas a repetição dos recursos do primeiro filme. O personagem do Cillian Murphy revela-se quase desnecessário em uma história que fica empacada e não traz nada além do que já não foi visto. Para ver mais do mesmo não era necessária uma continuação.

Cotação da Corneta: nota 6.



Viúva Negra e a despedida de Scarlett Johansson da personagem

Scarlett se despede em belo filme
A Viúva Negra sempre foi uma personagem querida e popular dos fãs de quadrinhos. Pelo menos desde o primeiro filme dos Vingadores, lá em 2012, um filme solo da personagem era desejado. A Marvel demorou demais. Mas antes tarde do que nunca. “Viúva Negra” (Black Widow, no original), primeiro filme da fase 4 do Universo Cinematográfico da Marvel, finalmente chegou aos cinemas após diversos adiamentos causados pela pandemia de Covid-19. A longa espera e os diversos contratempos foram compensados por um trabalho que, embora controverso entre os críticos, eu me alinho entre os que gostaram do filme.

“Viúva Negra” é bem escrito, bem dirigido, tem uma história muito legal, tem boas atuações de seus atores, tem excelentes cenas de ação. Em resumo, é a Marvel mais acertando do que errando. “Viúva Negra” se coloca entre os pontos altos do longo universo desenvolvido pelo estúdio e deixa como questionamento qual seria o potencial deste filme se tivesse sido lançado primeiro num momento mais próximo ao tempo em que ele passa, ou seja, após “Capitão América — Guerra Civil” (2016). Em segundo lugar, sobre o que ele teria feito de bilheteria num mundo normal em que todos podem ir ao cinema.

Nunca saberemos. O que é certo é que o filme dá certo em quase todos os seus aspectos e, num momento em que a Marvel lança séries que não atingiram o potencial esperado, “Viúva Negra” mostra que o estúdio ainda tem boa lenha para queimar e aquecer o coração de seus fãs.

Não é por acaso, aliás, que “Viúva Negra” tem entre suas escritoras a mesma Jac Schaeffer responsável por “WandaVision”, a melhor das três séries da Marvel lançadas até aqui no Disney Plus (as outras são “Falcão e o Soldado Invernal” e “Loki”). Junto com Eric Pearson e Ned Benson, Schaeffer aqui acerta de novo ao investigar o passado da personagem estrelada por Scarlett Johansson criando um filme que é sobre famílias despedaçadas que estão tentando se acertar, mas também sobre vingança, passagem de bastão e que se mostra relevante dentro do universo transmedia da Marvel, explicando pontas da personagem que ficaram perdidas ao longo das fases do estúdio (finalmente sabemos o que aconteceu em Budapeste entre Natasha e Clint Barton), e dando à personagem a importância que ela têm dentro dos Vingadores, com suas camadas e sua história complexa.

E neste contexto, Scarlett entregou uma de suas melhores atuações no papel de Natasha. Tudo isso sendo muito bem assessorada por Florence Pugh (Yelena Belova), uma estrela em ascensão, David Harbour (Guardião Vermelho), que surge como o alívio cômico do filme, e Rachel Weisz, que faz Melina Vostokoff, que os fãs dos quadrinhos conhecem como a Dama de Ferro. Além deles, temos um Ray Winstone inspirado como Dreykov, sendo a sua cena com Natasha na parte final uma das melhores do filme.

É ima pena que Scarlett não deve retornar à personagem. Não apenas porque conhecemos o seu destino, revelado em “Vingadores: Ultimato” (2019), mas porque a tendência é que a Marvel a substitua por Pugh. Infelizmente. Acho que as duas podiam conviver juntas, pois Scarlett se mostrou tão importante quanto Robert Downey Jr, Chris Evans e Chris Hemsworth na construção deste Universo do estúdio. Sua Viúva Negra é tão relevante quanto o Homem de Ferro, o Capitão América e o Thor, interpretado pelos três atores aqui citados.

Mas o legado de Natasha tem tudo para continuar com Pugh, Harbour e Weisz, que esperamos que retomem seus personagens em futuros filmes.

Lamentos à parte, “Viúva Negra” pega a personagem num momento completamente quebrada. O filme se passa imediatamente após os acontecimentos de “Guerra Civil”, em que os Vingadores se dividiram por causa do Tratado de Sokovia. A família de Natasha está rompida enquanto ela é forçada a procurar a sua família falsa russa na busca por finalizar uma missão do passado: acabar com o Salão Vermelho, onde mulheres são treinadas cruelmente para virarem assassinas de aluguel de Dreykov.

O filme aqui aproveita para tocar em questões importantes como o tráfico de mulheres e a invisibilidade de jovens que vivem à margem da sociedade e são “recrutadas” para servirem à uma organização que, no fundo, não deixa de ser terrorista, influenciando em toda a geopolítica do planeta com suas ações.

É na tentativa de resolver estas questões do passado, de entender o papel do que Natasha conhece como família, embora sua construção tenha sido muito falsamente criada dentro de um departamento de espionagem do governo russo nos Estados Unidos, que a personagem buscará forças para encontrar a paz interior que precisa para ajudar a resolver o problema com a família que a adotou, a dos Vingadores. E o resto da história nos conhecemos muito bem.

Assim, o filme se equilibra entre acenar para grandes temas e investigar a intimidade de uma personagem que está num momento de reconstrução para poder finalmente se reerguer.

Talvez a única crítica que se possa fazer ao filme seja o papel do Treinador. Um vilão B, mas que dentro deste grupo está entre os mais legais da Marvel, com um poder de copiar tudo de quem ele está enfrentando, merecia um tratamento melhor do que a ideia que lhe deram para o cinema. O Treinador podia voltar em outro contexto, pois ele tem um potencial a ser explorado.

Cotação da Corneta: nota 9.



terça-feira, 15 de junho de 2021

"Cruella" e as justificativas para um vilão ser mau

Cruella pronta para estourar a boca do balão
Segundo filme da Disney focado em uma vilã do seu universo depois de “Malévola” (2014), “Cruella” não chega a ser uma tristeza completa como os dois filmes estrelados por Angelina Jolie, mas é preciso ligar a suspensão da descrença em modo turbo para justificar a origem das vilanias de Cruella de Vil (Emma Stone).

E esse é um problema de filmes focados em vilões que vimos também no “Coringa” (2019). A tentativa de normalizar o comportamento “psicopata” de alguém a partir de um trauma passado numa busca de encontrar ou criar camadas de profundidades que explorem uma humanidade daquele personagem que sabemos que é ruim. E por causa disso “Cruella” tem que rebolar muito para dar um sentido a uma pessoa que é má.

Não que os vilões não tenham que ter camadas e desenvolvimentos. É necessário e fundamental. Mas o antagonista não vive sem um protagonista. E quando o vilão vem para o foco do protagonismo, é preciso criar um antagonista que puxe ainda mais os limites anteriormente estabelecidos. No caso do Coringa era a sociedade decadente e caótica em uma vida miserável. No caso de Cruella, a figura da Baronesa (Emma Thompson), estilista extremamente cruel e egocêntrica que humilha todos os seus empregados e todos ao seu redor, os trata como lixo e tem uma personalidade absurdamente narcísica. Mais a frente entendemos, inclusive, a dinâmica entre ela e Cruella a partir de um plot twist, que não faz muito sentido e não funcionou muito bem.

A Baronesa, porém, acaba sendo o personagem mais interessante do filme. Mérito total de Emma Thompson. Emma Stone também não está mal, mas no duelo de Emmas, Thompson leva vantagem.

É questionável, porém, se funciona bem a dinâmica de rivalidade entre elas. Duas mulheres que se detestam por motivos que o filme tenta explicar a partir de um passado cujas verdades vão se descortinando com o passar do filme.

No fim, o que há de melhor no filme está na questão estética. Os figurinos e a maquiagem se destacam na produção, especialmente nos momentos em que Cruella está exibindo a sua arte para o mundo. A trilha sonora também é excelente, embora intermitente e sem deixar o filme respirar um pouco. Praticamente não há momentos de silêncio entre diálogos e música em mais de duas horas, jogando o filme numa desnecessária montanha-russa sonora.

Além disso, outro destaque é a carismática presença de Paul Walter Hauser no papel de Horace. O ator tem um ótimo tom cômico e todas as vezes que está em cena são cenas marcantes e divertidas.

Apesar destes destaques positivos, “Cruella” está longe de ser um grande filme. Ficou devendo. Mas talvez vejamos um segundo filme que, passada a fase do filme de origem, vejamos novas camadas sendo exploradas. Uma sequência de “Cruella” pode ser mais interessante e este filme mostrou uma história que tem potencial para crescer e não cair de forma decadente como a história de Malévola.

Cotação da Corneta: nota 5,5.



sexta-feira, 28 de maio de 2021

"Army of the dead" mais decepciona do que diverte

Scott e sua equipe de badass
Retorno de Zack Snyder ao mundo dos zumbis desde “Madrugada dos Mortos” (2004) e primeiro filme inédito do diretor desde todo o embrolho envolvendo a sua versão da “Liga da Justiça”, lançada neste ano pela HBO, “Army of the Dead: Invasão em Las Vegas” pode ser resumido da seguinte maneira: Uma série de boas ideias, algumas boas cenas de ação, mas um resultado final decepcionante, confuso e cheio de buracos.

O maior calcanhar de Aquiles do filme é o roteiro escrito por Snyder junto com Shay Hatten e Joby Harald. Não necessariamente a história em sua essência, mas especificamente os diálogos. Alguns deles chegam a ser constrangedores. Piadinhas desnecessárias, reflexões sobre o universo e o multiverso que não cabiam e alguns momentos de diálogos tão vazios que não parecem ter sido feito por profissionais que trabalham há anos com cinema.

(ATENÇÃO QUE A PARTIR DE AGORA HAVERÁ POTENCIAIS SPOILERS)

“Army of the dead” tinha uma premissa inicial muito boa. Combinar o gênero de filmes de zumbi com o de filme de assalto. Junto a isso, Snyder teve outra ideia muito boa que foi criar toda uma sociedade entre os zumbis dividida por castas em que há os tradicionais zumbis trôpegos e os chamados zumbis alfas, mais ágeis, espertos, que tem um mínimo raciocínio desenvolvido e, portanto, podem ser um real desafio no um contra um diante daqueles que os enfrentam.

Neste ponto, era possível construir um filme muito legal e divertido. Você tem a premissa interessante. Ou seja, Las Vegas esta sitiada por um vírus zumbi, mas é uma cidade tomada de dinheiro. Um grupo de mercenários é contratado para ir até o cofre de um prédio da cidade para pegar US$ 200 milhões com a promessa de quem os contratou de ficar com US$ 50 milhões. Mas para isso, é preciso enfrentar uma horda de zumbis que evoluíram com o passar do tempo em que estiveram sitiados na cidade.

Era, portanto, fazer o protagonista do filme, no caso Scott Ward (Dave Bautista) reunir a sua equipe de badass com habilidades diferentes, o que é um clássico dos filmes de ação e aventura, ir lá, enfrentar os zumbis em algumas cenas incríveis e sair de lá ou não. Dependendo da vontade do diretor.

Mas Snyder quis encher o filme de camadas sem ter tempo e sem ter um texto com profundidade para isso. E este foi o seu maior erro. O diretor terminou o filme em 2h30min em que deixou buracos de roteiro e continuidade até para espectadores mais desatentos.

Snyder, portanto, tinha um filme de zumbi para contar como funciona aquele grupo de mortos-vivos. Um filme de assalto, que norteia a história. Um flerte com a crítica social, pois o seu trabalho também exibe uma certa visão pessimista da sociedade e do capitalismo, onde pessoas preferem se arriscar a morrer em troca de um punhado de dinheiro que vai mudar as suas vidas, e uma piscadela para a questão da imigração e campos de refugiados. Mas ele também constrói um filme em que há a preocupação com a família na relação conflituosa de Scott com a sua filha Kate (Ella Purnell). Além de tudo isso, há também uma preocupação em apontar para o futuro, apesar do final quase apocalíptico. Ao atirar para todos os lados, Snyder não se aprofunda em nada e o filme não acontece em toda a sua potencialidade.

Entendo o cinema como um retrato microscópico de um momento da vida naquele universo em que você está jogando o seu foco. É impossível resumir uma vida, qualquer vida, em duas horas. Por isso, é preciso ser cirúrgico nas escolhas. Ao abrir demais o leque, Snyder fez um filme que, na verdade, poderia ter sido uma série de TV que desse conta de tudo o que ele poderia e queria abordar. Em oito ou dez episódios, “Army of the dead” funcionaria melhor do que em um filme. E assim, Snyder desperdiçou algumas boas chances de fazer um grande filme, o que não vimos, convenhamos, desde “Watchmen” (2009).

Snyder ainda sabotou a própria história ao inserir a trama da Coiote (Nora Arnezeder). Se o objetivo do bilionário Bly Tanaka (Hiroyuki Sanada) era, na verdade, ter a cabeça de um zumbi alfa vivo para analisar o seu DNA e conseguir criar um exército de zumbis alfas, ele não precisava ter inventado a ideia de contratar um grupo de mercenários e mandar um homem de confiança dele para cumprir a real missão. Bastava mandar o seu homem contratar a Coiote para ir até lá buscar um zumbi alfa e pronto. Assunto encerrado. E é óbvio que um bilionário com conexões no submundo sabe que existem pessoas vivendo livremente nos campos de refugiados que colocam seres humanos dentro de Las Vegas em busca de dinheiro. A trama da Coiote, portanto, anula toda a premissa do assalto e da busca por dinheiro enfrentando zumbis.

Esse é apenas o grande buraco, mas “Army of the dead” tem outros problemas. O fato de a mulher por quem Kate sai em busca — e inclusive é por causa dela que Kate entra em Las Vegas com o pai — simplesmente desaparecer na cena final do helicóptero é outro problema. Kate arriscou a vida por ela e não sabemos se ela viveu ou morreu. E em alguns momentos ela nem parece estar no helicóptero enquanto Scott está lutando com Zeus, o zumbi Rei (Richard Cetrone). Presume-se que a mulher morreu, mas nunca sabemos.

Sem contar a inverossimilhança (até para um filme que tem zumbis) de Vanderobe (Omari Hardwick) ter sobrevivido a um ataque nuclear mesmo estando dentro de um cofre num dos prédios de Vegas. Por mais que o cofre se convertesse num bunker improvisado de um ataque nuclear, não era um bunker real. Ele teria um prédio inteiro destruído em sua cabeça. E ainda que conseguisse escapar do prédio, ele seria afetado de alguma forma pela radiação. Mas ele não só sai bem como sai com muito dinheiro e demora horas para começar a ser afetado pelo vírus zumbi ao passo em que para outros personagens a transformação foi quase automática.

É uma pena que “Army of the dead” tenha dado tão errado. Pois ele tem bons personagens. Gosto do Scott Ward, um brutamontes que na verdade tem mais reflexões sobre a vida para fazer do que apenas ser um matador de zumbis fortão tipo herói de filmes do Schwarzenegger dos anos 80. Gosto da rainha zumbi (Athena Perample), uma personagem que, por mais bizarro que seja, eclipsa a tela toda vez que aparece. Acho que ela durou muito pouco e podia ter sido melhor explorada, pois era melhor, inclusive, do que Zeus. E acho que a equipe que Scott monta para a sua aventura é muito legal. Especialmente Vanderobe e a carismática piloto de helicóptero Marianne (Tig Notaro).

Estes personagens são o ponto forte do filme junto com algumas boas cenas de ação e o incrível trabalho de CGI e maquiagem feito pelos responsáveis por estas áreas no filme. A ideia do tigre zumbi era ótima, embora ele também tenha sido pouco aproveitado.

No fim, “Army of the dead” só não é exatamente péssimo porque, mesmo dentro do seu vazio, ele de certa forma diverte. Logo, não chega a ser uma perda de tempo, mesmo para quem resiste a 2h30min. Mas havia ali muito potencial para um grande filme que foi desperdiçado.

Cotação da Corneta: nota 5,5.



domingo, 4 de abril de 2021

“Minari”: imigração e o sonho americano

Chung queria um filme sobre fracasso e renascimento
Um ano depois da consagração de “Parasita”, o Oscar tem mais um filme falado quase que na sua totalidade em coreano concorrendo na categoria principal. Mas as comparações entre o filme de Bong Joon Hoo e “Minari” param por aqui. O trabalho de Lee Isaac Chung, indicado em seis categorias, é um drama calcado em um tema importante e que está presente no mundo praticamente desde que o homem existe: a imigração e os dramas particulares e gerais que vêm junto com o deslocamento de alguém de um lugar onde se tinha raízes para outro em que você não é ninguém até que consiga se transformar em alguém.

É a partir da jornada de uma família coreana que se muda para uma fazenda no Arkansas, nos Estados Unidos, com o intuito de construir uma nova vida que vamos acompanhando o drama de “Minari”. Por trás da esperança e do desejo de sucesso de Jacob (Steve Yeun) e Monica (Yeri Han), está uma crítica, ou talvez uma reflexão, ao ideal do sonho americano, a ideia de sucesso e prosperidade para quem trabalha arduamente e é vendida pelos americanos ao redor do mundo.

Não é por acaso que Jacob dirige-se a mulher ao longo do filme com a frase: “A vida na Coreia era dura. Falávamos que viríamos para os Estados Unidos para nos salvar”. Nesta frase está contida tanto a dor quanto a esperança daquele homem e da esposa que, querendo ou não, foi forçada a comprar essa ideia pela união da família.

Imigrar é renascer. É ter que reaprender códigos, língua, entender e aceitar hábitos e costumes. Cair e levantar. Errar e começar de novo. “Minari” tem tudo isso e mostra como o aprendizado é árduo.

Chung disse que queria fazer um filme sobre “família, fracasso e renascimento”. É possível ver estes três elementos bastante presentes no filme. A família e seus dramas seja pelo filho David (Alan S. Kim), que sofre de um problema de coração, seja pela presença da avó (Yu-Jung Youn), que sofre um derrame ao longo da história, tornando a vida ainda mais complicada naquela fazenda isolada.

Youn, aliás, é o coração de “Minari”. Na relação avó-neto, nas suas diferenças e semelhanças, vemos a riqueza desta família ao passo que Jacob começa a se afastar dela, pois o seu sonho americano o torna obsessivo e cego. Jacob escorrega na própria teimosia e vê o casamento quase se esfacelar numa cena muito bonita do filme quando Monica tem uma conversa muito franca com ele. Sem exageros hollywoodianos. Apenas as cartas da verdade sendo postas à mesa.

Por trás da insistência de Jacob está o desejo deste homem comum de ser um exemplo positivo para os filhos. Ele quer que as crianças o vejam como alguém bem sucedido e não como um mero empregado descartável de uma fábrica, tal como os pintinhos que ele deve descartar ou não diariamente. E com isso ele põe em risco o próprio relacionamento com Monica.

Mas todos terão seu momento de recomeço após aprenderem com os erros. Afinal, como Chung diz, este também é um filme sobre renascimento.

“Minari” por vezes é um filme árido. Em outros momentos, parece apenas exibir um manancial de tragédias para o prazer de espectadores sádicos. Não é um filme perfeito, mas na sua jornada de superação e renascimento de um homem comum e sua família, é possível ver alguma beleza.

Cotação da Corneta: nota 7,5.