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domingo, 5 de junho de 2022

“Top Gun: Maverick” é para os fãs, mas não se apega exclusivamente à nostalgia

Tom Cruise pilotou jatos para fazer o filme


Desde que o projeto de uma continuação de Top Gun começou a ser divulgado, parecia inegável que o objetivo era voltar para aquele universo dos chamados “melhores pilotos do mundo” como um exercício de nostalgia dentro da cada vez mais crescente indústria do cinema nostálgico. “Top Gun: Maverick” não nega tais expectativas. Mas o que faz o filme ser tão bom e talvez até superior ao original é que ele vai além disso.

Dentro da capa de obviedades e previsibilidades que o roteiro nos exibe e as inevitáveis belas e emocionantes imagens que o diretor Joseph Kosinski nos oferece, há uma história que é de fato interessante em torno de culpa, reconciliações, redenção e a tentativa de aprender com os erros do passado.

“Maverick” segue desde o início a trajetória do Capitão Pete “Maverick” Mitchell (Tom Cruise). Já há anos fora do chamado esquadrão Top Gun, de onde foi expulso uma vez que o personagem sempre teve problemas em lidar com autoridades e cumprir ordens, Maverick está trabalhando num projeto do governo em que faz o que sabe fazer melhor: esticar a corda do limite para conseguir resultados excelentes em tempo recorde.

Mas a pedido do velho rival/parceiro, o agora almirante Iceman (Val Kilmer, que com a saúde debilitada faz uma participação especial e recebe uma bonita homenagem no filme), Maverick é convocado para voltar aos Top Gun. O objetivo é fazer o capitão cujas insubordinações e desrespeitos nunca o fizeram ir além na hierarquia da Marinha, ensinar novos pilotos a enfrentarem uma missão suicida num país estrangeiro cujo nome nunca é revelado.

Esta é a história básica do filme. A partir daí, “Maverick” vai aproveitando os cenários para trazer reconfortantes momentos do passado e colocar o seu protagonista em conflito com os traumas de quando era um jovem piloto. O conflito a partir daí se dá com a presença de Rooster (Miles Teller), filho do seu velho parceiro Goose, e que não perdoa Maverick por ter atrasado a sua carreira na Marinha. A relação paternal, a tentativa de proteger Rooster e a busca por reavaliar os erros cometidos no passado e buscar finalmente um caminho para a sua vida que parece ter parado no tempo nas últimas décadas estão no entorno da trajetória de Maverick.

Ao mesmo tempo, cabe ao capitão mostrar que, embora os pilotos de caça sejam uma espécie em extinção numa era de guerra de drones, o ser humano ainda é relevante e, mesmo com sua impetuosidade e desrespeito por hierarquias, ele ainda tem um lugar a ocupar e pode ser útil naquele momento.

“Maverick”, portanto, parece até ter mais camadas interessantes do que um mero filme de ação. Contudo, é claro que o que mais pega no fã do “Top Gun” original são as referências e o conforto nostálgico do que o filme traz da década de 80. “Maverick” teve o cuidado de trazer vários elementos do passado, como a trilha sonora original representada pelo “Top Gun Anthem”, música instrumental de piano e guitarra composta por Harold Faltermeyer e Steve Stevens, e por “Danger Zone”, de Kenny Loggins, que abre o filme para pegar o fã antigo logo de jeito. Só não está presente a balada de sucesso “Take my breath away”, visto que aquele era o tema do par romântico vivido por Cruise e Kelly McGills, que não volta para o filme atual. Novo interesse romântico de Cruise, Penny (Jennifer Connelly) — chamada no primeiro filme de “a filha do almirante” com quem Maverick teve um caso no passado — tem seu romance embalado pela canção original de Lady Gaga, “Hold my hand”.

O filme também procura traçar seus paralelos com o passado. Por isso Rooster é tão parecido com o pai, ao ponto de também tocar no piano do bar como Goose após uma manjada cena de pilotos num papo daqueles de quem está medindo quem tem o pau maior. Um clássico de filmes do gênero.

Além da cena do bar, há uma repetição de elementos do filme original. Entre eles, Tom Cruise andando de moto com o avião levantando voo ao seu lado, usando a jaqueta e o óculos escuro tradicional, a famosa cena na praia com corpos suados apenas substituindo o vôlei por futebol americano, e as belas imagens de jatos e cenários na golden hour, um clássico do filme original de Tony Scott. Todos estes elementos nostálgicos reconfortam o coração do fã antigo, claramente pego pela emoção, ainda que o filme traga também outros elementos.

Entre a história e a nostalgia, “Maverick” ainda traz insanas sequências de ação, que são ainda mais impressionantes quando se tem noção que Tom Cruise e os demais atores realmente se filmaram voando em jatos da Marinha americana. É claro que a edição e a trilha sonora tornam tudo ainda mais perigoso, mas não deixa de ser impressionante o nível de risco a que Cruise se impõe para dar um grau a mais de veracidade ao filme. Realmente desde o treinamento e até a missão real do final são cenas de tirar o fôlego e que valem ser vistas numa tela grande como a do cinema.

Assim, “Maverick” cumpre a sua função de entreter o espectador e reconfortar o coração do fã que talvez nem soubesse que desejava voltar para aquele universo. Pode não ser um filme perfeito, mas é um filme de ação blockbuster como raramente temos visto nos últimos anos, uma vez que o cinema tem estado inundado de filmes de super-heróis e franquias em geral.

Nota 8.

sábado, 16 de outubro de 2021

007 apela ao sentimentalismo em despedida de Daniel Craig

Um filme imperfeito, mas um final perfeito para Craig
O que menos se espera de um filme de James Bond é um apelo a emoção e a sentimentos tão humanos. Mas o que os 15 anos de Daniel Craig no papel do mais famoso agente secreto no cinema nos ensinou é que a sua versão para 007 pode ser considerada a mais humana de todas. Em cinco filmes, o James Bond de Craig amou, sofreu, sentiu raiva, entregou-se a um alcoolismo, sentiu-se traído, chorou, errou…Tudo isso, claro, enquanto não falhava em apenas uma coisa: salvar o mundo dos grandes vilões que querem destruí-lo, dominá-lo ou qualquer coisa semelhante a isso. Não seria por acaso, portanto, que “Sem tempo para morrer” (“No time to die”, no original), o filme que marca a sua despedida do papel surgisse como uma revisão do seu legado e uma homenagem ao seu Bond humano.

“Sem tempo para morrer” tem uma série de defeitos. É quebradiço, tem um roteiro que tenta ser complexo e com reviravoltas, mas na maioria das vezes não funciona e é muito mais problemático e confuso. E tem um vilão que prometia mais do que cumpriu. A falta de uma boa história faz com que o filme pareça muito longo em suas 2h43min.

Por outro lado, o filme ganha força quando se coloca expondo o legado de Craig no papel. E apela a um sentimentalismo que talvez arranque algumas lágrima dos fãs de 007. E arrancar lágrimas de um espectador num filme de James Bond é algo que por si só seria raro.

Ao tentar se equilibrar em muitas frentes, porém, “Sem tempo para morrer” fica no meio do caminho de todas elas e entrega justamente um filme longe de ser perfeito. Para começo de conversa, a trama é confusa. Gira em torno de uma tentativa do vilão principal, Lyutsifer Safin (Rami Malek), de adquirir um vírus tecnológico poderoso que o permitirá matar milhões de pessoas ao redor do mundo. Ao mesmo tempo, a trama lida com a aposentadoria de Bond, agora vivendo recluso na Jamaica, enquanto há uma nova 007 no MI6, Nomi (Lashana Lynch). Ao mesmo tempo, a organização terrorista Spectre continua ativa e misteriosamente comandada da cadeia pelo arqui-inimigo de Bond, Blofeld (Christoph Waltz).

Alguns passos da história, porém, não ficam muito claros. Por exemplo, por que Safin tem interesse em fazer o que fez com a Spectre? Além disso, não entendemos muito bem quais foram as motivações dele para reproduzir um vírus mortal em larga escala para destruir milhões de pessoas se, supostamente, a morte da família dele está vingada. Falta, assim, mais esclarecimento para a trama da ameaça global.

Por outro lado, a história da vida miserável que Blofeld armou pra Bond no início do filme foi pouco explorada. Vimos o ato, o sentimento de traição que ele sentiu de Madeleine (Léa Seydoux) e pulamos imediatamente para a consequência: um Bond sozinho, isolado numa ilha e bebendo cada vez mais, e, por fim, no turbilhão de outros acontecimentos, a resolução desta subtrama no reencontro de 007 com Blofeld na prisão em Londres.

Havia um potencial maior nesta subtrama a ser explorado e faltou uma conexão maior com a história principal que envolvia Safin e suas motivações. Também faltou ao filme explorar um pouco mais do potencial de Paloma, personagem de Ana de Armas que tem uma pequena e interessante participação na parte da história que se passa em Cuba. É igualmente pouco explorado o potencial do vilão vivido por Malek, ainda que o ator esteja defendendo como pode o seu personagem em meio ao roteiro irregular.

O mesmo não acontece com Nomi, que ganha bom destaque na tela e tem boas interações com Bond. Esta é uma personagem que poderia voltar nos futuros filmes, quando for escolhido um novo ator para o papel principal.

Não necessariamente estes problemas ou defeitos atrapalham a experiência de “Sem tempo para morrer”. O filme tem boas cenas de ação, a melhor delas a primeira, na Itália, antes dos créditos de abertura com a música de Billie Eilish. E tem um final emocionante, quando Bond precisa enfrentar Safin e impedir a morte de milhões de pessoas na Europa em meio a uma potencial crise internacional entre Inglaterra, Japão e Rússia. Emocionante e até inesperado para os filmes de 007.

Ao longo de toda a trama, Bond está tentando se reconciliar com o seu passado após as escolhas equivocadas que fez no início do filme. E é nos minutos finais que ele encontra a paz no ponto alto do sentimentalismo que a trama vinha nos conduzindo. Ainda que a missão de Bond nunca esteja concluída, afinal, sempre haverá um vilão megalomaníaco querendo dominar o mundo, a missão de Craig ali se concluiu. E ele soube entregar um grande James Bond. Um grande e humano James Bond que aprendemos a gostar ao longo de uma década e meia. Eu não queria estar na pele de quem terá que substituí-lo.

Cotação da Corneta: nota 7.



domingo, 22 de agosto de 2021

Finalmente um bom "Esquadrão Suicida"

Isso sim é um Esquadrão Suicida
Não sou muito fã de fazer comparações ou tomar partido em um dos lados da dualidade do cinema pop atual. Mas como fã e leitor de quadrinhos tanto da Marvel quanto da DC, vou abrir uma pequena exceção para traçar um tímido paralelo entre as duas rivais.

É inegável que a Marvel faz filmes bons em quantidade maior do que a DC. Seus acertos são maiores do que os seus erros. Mas também é inegável, pelo menos do meu ponto de vista, que quando a DC acerta, ela acerta num nível que a equipara, quiçá a faz superar, alguns dos melhores filmes da Marvel.

“O esquadrão suicida” (The Suicide Squad, no original) é desses filmes do patamar mais alto da DC. E traz justiça. Traz justiça para esse grupo de vilões e anti-heróis tão mal tratados na versão de David Ayer de 2016. E vamos combinar que depois deste filme podemos definitivamente esquecer que o anterior existiu.

O filme também traz justiça para uma personagem tão legal como a Arlequina (Margot Robbie). Finalmente ela ganha um filme bom, excelentes cenas e um roteiro um pouco melhor, embora longe de ser perfeito. Mas melhor do que o que vimos no primeiro “Esquadrão Suicida” e do fraco “Aves de Rapina” (2020).

“O esquadrão suicida” também traz um sopro de novidade na monocultura contida dos filmes de super-heróis. Num mercado dominado pela Marvel, que só faz filmes PG-12, a classificação indicativa de “O Esquadrão Suicida” é 18+. Isso proporciona um filme nada contido e, exatamente por isso, mais “carnal” e vivo nos mais diferentes aspectos.

Longe de mim, porém, achar que a qualidade de um filme se resume a violência extrema e sexo. Isso está muito longe de ser verdade. Mas um grupo de personagens como o do Esquadrão Suicida pede um filme de censura mais alta para que seja mais fiel aos feitos de cada um deles. É claro que isso, por outro lado, não mascara os eventuais problemas do filme. Uma história um pouco jogada e num esquema mais de montanha-russa do que de encadeamento de ideias.

E aqui é preciso ressaltar o trabalho de James Gunn. Diretor e roteirista do filme, o cineasta deixa claro desde os primeiros minutos que tudo pode acontecer neste filme. E que não devemos nos apegar a nenhum personagem. Esse caráter de imprevisibilidade do filme é um dos méritos dele.

Em suas 2h14min, Gunn também consegue apresentar mais do que cenas apoteóticas. Num filme com 18 personagens supervilões. ele também consegue desenvolver minimamente seus personagens principais. Em especial Sanguinário (Idris Elba), Ratcacher 2 (Daniela Melchior) e Rei Tubarão (Sylvester Stallone). Tudo isso aproveitando para dar uma continuidade à história da Arlequina, que o fã já conhece de outros filmes e atiçando a curiosidade do fã com relação ao Pacificador (John Cena), cuja série spin-off já havia sido confirmada enquanto o filme estava sendo finalizado. E, por isso, talvez ele não ganhe destaque maior com alguma história do seu passado, embora tenha bastante tempo de tela.

Gunn também nos apresenta uma história divertida com um roteiro simples — o grupo é enviado a uma nação sul-americana qualquer para cuidar dos interesses americanos em meio a um golpe militar — que também é marcado por pitadas de humor que variam entre o pastelão da típica piada de tiozão e alguma elegância.

Mas o grande trunfo do “O Esquadrão Suicida” é mesmo seu grau de imprevisibilidade. E não deixamos de nos surpreender até o fim, até as cenas pós-crédito.

“O esquadrão suicida” merece todos os elogios e é um dos bons filmes deste ano. Esperamos que Gunn faça uma sequência. Ainda que ele tenha perdido muitos personagens neste filme. Se bem que, quando se trata de quadrinhos, ninguém morre de fato.

Cotação da Corneta: nota 8.



"Um lugar silencioso: parte II" é uma decepção

Um filme que não sai do lugar
Quando foi lançado em 2018, “Um lugar silencioso” conquistou público e crítica com uma ideia inventiva que possibilitava usar os recursos de som e silêncio numa história de terror passada em um mundo pós-apocalíptico. Ao explorar bem os recursos técnicos e construir um filme muito tenso e com monstros assustadores, porém cegos, que “farejavam” suas vítimas pela sensibilidade que tinham com o mínimo barulho que ouviam, o filme agradou muitas pessoas.

Embora tivesse uma história que se fechava em si mesma, era inevitável que no mundo atual do cinema marcado por dezenas de sequências, prequels e construções de sagas, que o filme ganhasse uma continuação. É uma pena que “Um lugar silencioso: parte II” (A quiet place: part II, no original) seja tão pobre de ideias, convertendo-se uma verdadeira decepção quando colocado em comparação com o primeiro filme.

(ATENÇÃO QUE A PARTIR DE AGORA TEREMOS SPOILERS).

“Um lugar silencioso: parte II” se passa quase imediatamente após os acontecimentos do primeiro filme. Passaram-se apenas cinco dias em relação ao dramático final da história anterior, que terminou com a morte de Lee (John Krasinski, também diretor e que participa do roteiro desta sequência).

Mas antes temos um longo e um tanto quanto desnecessário flashback que não serve para muita coisa a não ser apresentar o personagem de Cillian Murphy. Ali conhecemos Emmett, aparentemente um amigo da família com contatos no exército, mas nada disso será usado mais a frente. Fica a impressão de que Emmett é a figura masculina da vez na ausência de Lee.

Enquanto isso, acompanhamos a tentativa de Evelyn (Emily Blunt) de sobreviver junto com seus três filho. Entre eles Regan (Millicent Simmonds), que dias atrás (no filme anterior para os espectadores) havia descoberto um ponto fraco das criaturas alienígenas, que dá aos humanos uma pequena vantagem na tentativa de exterminá-las.

O maior problema desta sequência é a falta de ideias novas. Se fosse apenas um capítulo de série, daria para dizer que era um bom episódio que continua a história em questão, mas andando de lado, sem avançar muito. Como na verdade é um filme, é um pouco triste ver que ele não avança em praticamente nada na história. Os personagens continuam tendo que fugir sem fazer nenhum barulho, os humanos continuam se escondendo dos alienígenas em silêncio, Evelyn continua tendo que cuidar de um bebê que neste mundo é uma verdadeira bomba relógio e a tensão e os truques do primeiro filme apenas se repetem no segundo.

Do meio para o final do filme, Regan descobre o que pode ser uma solução para destruir as criaturas. Uma ilha de onde uma estação de rádio transmite em looping uma única música. Ela decide ir lá, Emmett a acompanha, a família se separa e parece que teremos uma busca de uma solução para a trama. Ao chegar na marina a procura de um barco, um grupo é atacado pelos monstros e descobrimos que as criaturas não podem nadar. Uma informação que poderia ser relevante, pois isso converteria a ilha numa zona de segurança deste mundo pós-apocalíptico. Mas a informação não é usada como uma forma de os humanos levarem vantagem na luta pela sobrevivência. Pelo contrário, um barco surpreendentemente — ou melhor, convenientemente — chega a deriva com um monstro justamente até a ilha. Soou como um recurso barato de filme B para levar o monstro até lá. Este foi o maior exemplo da falta de ideias que este filme tem. No jogo de forças entre humanos e monstros, não é possível que o roteiro tenha sido tão empacado e ausente de ideias que fizessem avançar a história.

O que fica de bom de “Um lugar silencioso: parte II” é apenas a repetição dos recursos do primeiro filme. O personagem do Cillian Murphy revela-se quase desnecessário em uma história que fica empacada e não traz nada além do que já não foi visto. Para ver mais do mesmo não era necessária uma continuação.

Cotação da Corneta: nota 6.



Viúva Negra e a despedida de Scarlett Johansson da personagem

Scarlett se despede em belo filme
A Viúva Negra sempre foi uma personagem querida e popular dos fãs de quadrinhos. Pelo menos desde o primeiro filme dos Vingadores, lá em 2012, um filme solo da personagem era desejado. A Marvel demorou demais. Mas antes tarde do que nunca. “Viúva Negra” (Black Widow, no original), primeiro filme da fase 4 do Universo Cinematográfico da Marvel, finalmente chegou aos cinemas após diversos adiamentos causados pela pandemia de Covid-19. A longa espera e os diversos contratempos foram compensados por um trabalho que, embora controverso entre os críticos, eu me alinho entre os que gostaram do filme.

“Viúva Negra” é bem escrito, bem dirigido, tem uma história muito legal, tem boas atuações de seus atores, tem excelentes cenas de ação. Em resumo, é a Marvel mais acertando do que errando. “Viúva Negra” se coloca entre os pontos altos do longo universo desenvolvido pelo estúdio e deixa como questionamento qual seria o potencial deste filme se tivesse sido lançado primeiro num momento mais próximo ao tempo em que ele passa, ou seja, após “Capitão América — Guerra Civil” (2016). Em segundo lugar, sobre o que ele teria feito de bilheteria num mundo normal em que todos podem ir ao cinema.

Nunca saberemos. O que é certo é que o filme dá certo em quase todos os seus aspectos e, num momento em que a Marvel lança séries que não atingiram o potencial esperado, “Viúva Negra” mostra que o estúdio ainda tem boa lenha para queimar e aquecer o coração de seus fãs.

Não é por acaso, aliás, que “Viúva Negra” tem entre suas escritoras a mesma Jac Schaeffer responsável por “WandaVision”, a melhor das três séries da Marvel lançadas até aqui no Disney Plus (as outras são “Falcão e o Soldado Invernal” e “Loki”). Junto com Eric Pearson e Ned Benson, Schaeffer aqui acerta de novo ao investigar o passado da personagem estrelada por Scarlett Johansson criando um filme que é sobre famílias despedaçadas que estão tentando se acertar, mas também sobre vingança, passagem de bastão e que se mostra relevante dentro do universo transmedia da Marvel, explicando pontas da personagem que ficaram perdidas ao longo das fases do estúdio (finalmente sabemos o que aconteceu em Budapeste entre Natasha e Clint Barton), e dando à personagem a importância que ela têm dentro dos Vingadores, com suas camadas e sua história complexa.

E neste contexto, Scarlett entregou uma de suas melhores atuações no papel de Natasha. Tudo isso sendo muito bem assessorada por Florence Pugh (Yelena Belova), uma estrela em ascensão, David Harbour (Guardião Vermelho), que surge como o alívio cômico do filme, e Rachel Weisz, que faz Melina Vostokoff, que os fãs dos quadrinhos conhecem como a Dama de Ferro. Além deles, temos um Ray Winstone inspirado como Dreykov, sendo a sua cena com Natasha na parte final uma das melhores do filme.

É ima pena que Scarlett não deve retornar à personagem. Não apenas porque conhecemos o seu destino, revelado em “Vingadores: Ultimato” (2019), mas porque a tendência é que a Marvel a substitua por Pugh. Infelizmente. Acho que as duas podiam conviver juntas, pois Scarlett se mostrou tão importante quanto Robert Downey Jr, Chris Evans e Chris Hemsworth na construção deste Universo do estúdio. Sua Viúva Negra é tão relevante quanto o Homem de Ferro, o Capitão América e o Thor, interpretado pelos três atores aqui citados.

Mas o legado de Natasha tem tudo para continuar com Pugh, Harbour e Weisz, que esperamos que retomem seus personagens em futuros filmes.

Lamentos à parte, “Viúva Negra” pega a personagem num momento completamente quebrada. O filme se passa imediatamente após os acontecimentos de “Guerra Civil”, em que os Vingadores se dividiram por causa do Tratado de Sokovia. A família de Natasha está rompida enquanto ela é forçada a procurar a sua família falsa russa na busca por finalizar uma missão do passado: acabar com o Salão Vermelho, onde mulheres são treinadas cruelmente para virarem assassinas de aluguel de Dreykov.

O filme aqui aproveita para tocar em questões importantes como o tráfico de mulheres e a invisibilidade de jovens que vivem à margem da sociedade e são “recrutadas” para servirem à uma organização que, no fundo, não deixa de ser terrorista, influenciando em toda a geopolítica do planeta com suas ações.

É na tentativa de resolver estas questões do passado, de entender o papel do que Natasha conhece como família, embora sua construção tenha sido muito falsamente criada dentro de um departamento de espionagem do governo russo nos Estados Unidos, que a personagem buscará forças para encontrar a paz interior que precisa para ajudar a resolver o problema com a família que a adotou, a dos Vingadores. E o resto da história nos conhecemos muito bem.

Assim, o filme se equilibra entre acenar para grandes temas e investigar a intimidade de uma personagem que está num momento de reconstrução para poder finalmente se reerguer.

Talvez a única crítica que se possa fazer ao filme seja o papel do Treinador. Um vilão B, mas que dentro deste grupo está entre os mais legais da Marvel, com um poder de copiar tudo de quem ele está enfrentando, merecia um tratamento melhor do que a ideia que lhe deram para o cinema. O Treinador podia voltar em outro contexto, pois ele tem um potencial a ser explorado.

Cotação da Corneta: nota 9.



terça-feira, 15 de junho de 2021

"Cruella" e as justificativas para um vilão ser mau

Cruella pronta para estourar a boca do balão
Segundo filme da Disney focado em uma vilã do seu universo depois de “Malévola” (2014), “Cruella” não chega a ser uma tristeza completa como os dois filmes estrelados por Angelina Jolie, mas é preciso ligar a suspensão da descrença em modo turbo para justificar a origem das vilanias de Cruella de Vil (Emma Stone).

E esse é um problema de filmes focados em vilões que vimos também no “Coringa” (2019). A tentativa de normalizar o comportamento “psicopata” de alguém a partir de um trauma passado numa busca de encontrar ou criar camadas de profundidades que explorem uma humanidade daquele personagem que sabemos que é ruim. E por causa disso “Cruella” tem que rebolar muito para dar um sentido a uma pessoa que é má.

Não que os vilões não tenham que ter camadas e desenvolvimentos. É necessário e fundamental. Mas o antagonista não vive sem um protagonista. E quando o vilão vem para o foco do protagonismo, é preciso criar um antagonista que puxe ainda mais os limites anteriormente estabelecidos. No caso do Coringa era a sociedade decadente e caótica em uma vida miserável. No caso de Cruella, a figura da Baronesa (Emma Thompson), estilista extremamente cruel e egocêntrica que humilha todos os seus empregados e todos ao seu redor, os trata como lixo e tem uma personalidade absurdamente narcísica. Mais a frente entendemos, inclusive, a dinâmica entre ela e Cruella a partir de um plot twist, que não faz muito sentido e não funcionou muito bem.

A Baronesa, porém, acaba sendo o personagem mais interessante do filme. Mérito total de Emma Thompson. Emma Stone também não está mal, mas no duelo de Emmas, Thompson leva vantagem.

É questionável, porém, se funciona bem a dinâmica de rivalidade entre elas. Duas mulheres que se detestam por motivos que o filme tenta explicar a partir de um passado cujas verdades vão se descortinando com o passar do filme.

No fim, o que há de melhor no filme está na questão estética. Os figurinos e a maquiagem se destacam na produção, especialmente nos momentos em que Cruella está exibindo a sua arte para o mundo. A trilha sonora também é excelente, embora intermitente e sem deixar o filme respirar um pouco. Praticamente não há momentos de silêncio entre diálogos e música em mais de duas horas, jogando o filme numa desnecessária montanha-russa sonora.

Além disso, outro destaque é a carismática presença de Paul Walter Hauser no papel de Horace. O ator tem um ótimo tom cômico e todas as vezes que está em cena são cenas marcantes e divertidas.

Apesar destes destaques positivos, “Cruella” está longe de ser um grande filme. Ficou devendo. Mas talvez vejamos um segundo filme que, passada a fase do filme de origem, vejamos novas camadas sendo exploradas. Uma sequência de “Cruella” pode ser mais interessante e este filme mostrou uma história que tem potencial para crescer e não cair de forma decadente como a história de Malévola.

Cotação da Corneta: nota 5,5.



sexta-feira, 23 de abril de 2021

Comentários e o ranking do Oscar 2021

Não há pandemia que me impeça de dizer VERDADES sobre o Oscar. Embora este perfil corneteiro esteja há mais de um ano sem pisar no cinema por conta desta bactéria filha da puta, deste micróbio do caralho, Freddie Mercury (e não o Ramy Malek) me ensinou que “the show must go on”. Então, chegou a hora do momento mais aguardado por ninguém além de mim mesmo: o de falar sobre o Oscar que acontece no próximo domingo, dia 25.

Claro que para que o show de atrocidades que eu digo aqui pudesse acontecer, fomos obrigados a adotar métodos pouco ortodoxos e nada republicanos para cumprir a missão anual de ver TODOS os filmes do Oscar. Assim, eu queria fazer um agradecimento especial a quem patrocinou e tornou esse texto possível. Um obrigado especial a Barba Negra, Calico Jack e Barbarossa. Nunca esquecerei do que vocês fizeram para que o sonho fosse possível.

Do lado de Hollywood parece ser um Oscar totalmente aleatório e esquisito. Cheio de filmes nada a ver. Tem um filme sobre o The Voice europeu, tem filme indiano, tem a melhor adaptação live-action de uma animação da Disney (e que não foi feita pela Disney, logo só eu vi), tem comédia escrachada, tem filme de massinha, tem filme “wannabe Jacques Cousteau”. E tem filme que você não veria nem se fosse pago. Mas em nome dessa lista, eu me forcei a ver. Tem estas coisas todas e não tem “Hamilton” porque essa Academia ficou preocupada com filigranas e tecnicalidades que não cabem no mundo moderno. Coisa de quem chupa manga com luvinhas e guardanapo né.

Pelo menos entre os indicados a melhor filme, manteve-se um certo nível. Tanto que a nota média do CornetaStats se manteve semelhante ao ano passado: 8,12. Senti falta de “Destacamento Blood” e/ou “Uma noite em Miami” nesta lista. Mas ok, desde que “Os 7 de Chicago” não vença está valendo. Adoro o Aaron Sorkin e nem é um filme ruim, mas este ano é dele o prêmio “Spotlight” de filme que nem devia estar concorrendo a melhor filme.

Mas deixemos de enrolar. Tal qual um Karatê Kid, chegou a hora da verdade. Vamos aos meus votos. Lembrando que aqui não é quem eu acho que vai ganhar. É em quem eu votaria se a cédula chegasse na minha casa. O que eu defendo que deveria acontecer. Mas ao invés do envelope do Oscar eu recebi mesmo o envelope do censo. Que tristeza.

FILME — Nosso apoio geral e irrestrito vai para “Nomadland”, o melhor dos oito indicados, seguido bem de perto, cabeça a cabeça, com “Mank”, vencedor do Prêmio Corneta Ballon D´Or Awards de Melhor Filme de 2020. Ficaremos muito felizes se “Bela Vingança”, “o som do silêncio” e “Judas e o Messias Negro” vencerem. Será simpático se der “Minari” ou “Meu pai”. Só não inventem de premiar “Os 7 de Chicago”, por favor. Aliás, registro para a posteridade, eu sonhei na terça-feira que “Mank” ganharia o Oscar. Inclusive, eu escrevia num arquivo de word no computador a seguinte frase: “Em cerimônia marcada por polêmicas, Oscar premia a metalinguagem de “Mank”. Se eu acertar, passarei a fazer consultas de tarot, leitura de borra de café e astrologia a partir de segunda-feira. Se eu errar, bom, quem acredita em premonições? Era só um sonho.

ATOR — É uma pena que não possamos distribuir este ano dois carecas dourados. Eu queria muito dar este prêmio póstumo a Chadwick Boseman e vai ser legal se ele ganhar. Porém, o meu voto mesmo vai para o Anthony Hopkins, pois, como diria o Bruno Henrique, seu trabalho em “Meu pai” é OUTRO PATAMAR.

ATRIZ — Aqui eu queria dar três carecas dourados para Viola Davis, Carey Mulligan e Frances McDormand. Como eu não posso ficar em cima do muro, meu voto vai para Frances, porque ela está magistral em “Nomadland”.

DIRETOR — Levanta dessa cadeira Chlóe Zhao e vem receber o seu Oscar que eu quero ver a inscrição “Da diretora vencedora do Oscar” no pôster de “Eternos”, da Marvel. Não tem jeito, “Nomadland” ganhou meu coração.

ATRIZ COADJUVANTE — Eu não sei o que a Glenn Close faz aqui. Dizem até que ela pode ganhar, mas “Era uma vez um sonho” é tão ruim que poderiam nos poupar de lembrar dele. Gosto da Maria Bakalova, talvez seja o que tem de melhor no “Borat”, gosto muito da Olivia Colman em “Meu pai”, mas gostaria de ver premiado o trabalho de Youn Yu-jung, pois ela é a alma de “Minari”.

ATOR COADJUVANTE — Aqui temos uma aberração, pois o Lakeith Stanfield tinha que estar concorrendo ao prêmio principal. Afinal, ele é o protagonista de “Judas e o Messias Negro”. De qualquer forma, são cinco trabalhos muito bons. Fechei o olho e votei no Daniel Kaluuya porque “I am…. a REVOLUTIONARY”. Ou nem tanto.

ROTEIRO ADAPTADO — Com a segurança de quem desconhece as obras pregressas, meu voto vai para “Meu pai”. Com menção honrosa para “Uma noite em Miami”.

ROTEIRO ORIGINAL — Aqui, fiquei dividido entre dois filmes, mas meu voto vai para o “Bela Vingança” e peço desculpas para “O som do silêncio”. Mas prometo compensá-lo até o fim deste texto.

FILME ESTRANGEIRO — Temos aqui cinco filmes bons. Mas aquele que ganhará o meu voto da melhor categoria do Oscar é a Bósnia com o seu “Quo Vadis, Aida?”. Dizem, porém, que o “Druk” vai ganhar. Tenho todo o respeito pelo Vinterberg, mas é o pior dos cinco filmes concorrentes.

ANIMAÇÃO — Aqui não tem nem o que pensar. “Soul” tem que levar de lavada. Embora eu goste de “Dois irmãos” também. O resto é absolutamente esquecível.

DOCUMENTÁRIO — Sem grandes dúvidas, meu voto vai para a Roménia, com seu “Colectiv”.

Agora vamos ao momento máximo da minha gato mestrice. As CATEGORIAS TÉCNICAS:

FOTOGRAFIA — Aqui o meu Oscar vai para Joshua James Richards por “Nomadland”.

MONTAGEM — Eu disse que eu ia te compensar né, “O som do silêncio”? Taí o teu Oscar.

TRILHA SONORA — Vamos de “Soul” porque a trilha sonora é muito boa e harmoniza muito bem com o filme. E porque, vocês sabem, boicotaram “Hamilton”.

FIGURINO — Aqui vamos contrariar a lógica do filme de época e seus babadinhos e dar o prêmio para “A voz suprema do Blues”

DIREÇÃO DE ARTE — Vou alinhar com “Meu pai” porque o trabalho da direção de arte aqui é fundamental para a construção da história.

CANÇÃO ORIGINAL — Na ausência de “Hamilton” eu vou votar em “Husavik (My Home Town)” por quatro motivos. 1) Ela é bonita. 2) Será engraçado ver um filme sobre a Eurovisão ganhar um Oscar. 3) A cantora Molly Sandén atinge notas impossíveis, de quebrar copo de cristal. 4) Essa música tem um refrão em ISLANDÊS. Como não votar numa música em que 20% é em islandês?

EFEITOS VISUAIS — Não acredito que eu vou ter que votar em “Amor e monstros” por pura falta de opção. Mas é isso. Sem Marvel na jogada e com “Mulan” e “Tenet” não sendo exatamente grande coisa, os monstrinhos deste filme ruim acabaram levando o meu voto.

MAQUIAGEM E CABELO — Meu lado cabeleireiro acha que “A voz suprema do Blues” tem que ganhar.

SOM — Não tivesse “o som do silêncio” aqui eu dava meu voto para “Greyhound”, mas ai não tem jeito.

Assim, eu distribui quatro carecas dourados para “Nomadland”, três para “Meu pai” e dois para “o som do silêncio”, “Soul” e “A voz suprema do Blues”. “Minari”, “Judas e o Messias Negro”, “Bela Vingança”, “Quo Vadis, Aida?”, “Collectiv”, “Festival Eurovision da Canção: a saga de Sigrit e Lars” e “Amor e monstros” ficaram com um. E eu não dei nada para “Mank”! O que eu fiz de errado? Será que “Mank” é aquele jogador que é muito bom em tudo e não é o melhor em nada? Fica a questão.

Para fechar, vamos ao sempre polêmico RANKING do Oscar:

1- “Nomadland” (“Nomadland”)

2- “Mank” (“Mank”)

3- Quo Vadis, Aida? (Quo Vadis, Ainda?)

4- “O som do silêncio” (“Sound of metal”)

(Os filmes acima estão classificados para a Copa Libertadores)

5- “Bela Vingança” (Promising Young Woman”)

6- “A voz suprema do Blues” (Ma Rayne´s Black Bottom”)

7- “Destacamento Blood” (“Da 5 Bloods”)

8- “Judas e o Messias Negro” (Judas and the Black Messiah”)

9- “Shaonian de ní” (Shaonian de ni”)

10- “Uma noite em Miami” (“One night in Miami”)

11- “Meu pai”(The Father”)

12- “Minari” (“Minari”)

(Os filmes acima estão classificados para a Copa Sul-Americana)

13- “O homem que vendeu sua pele” (“The man who sold his skin”)

14- “Colectiv” (“Colectiv”)

15- “Soul” (“Soul”)

16- “Druk — mais uma rodada” (“Druk”)

17- “Os 7 de Chicago” (“The Trial of the Chicago 7”)

18- “Crip Camp: Revolução pela inclusão” (“Crip Camp”)

19- “Dois irmãos — uma jornada fantástica” (“Onward”)

20- “O tigre branco” (“The White Tiger”)

21- “Greyhound: na mira do inimigo” (Greyhound”)

22- “O céu da meia-noite” (“The Midnight sky”)

23- “Relatos do Mundo” (“News of the world”)

24- “Time” (“Time”)

25- “Tenet” (“Tenet”)

26- “Festival Eurovision da Canção: a saga de Sigrit e Lars” (“Eurovision Song Contest: The Story of Fire Saga”)

27- “Borat — fita de cinema seguinte” (“Borat Subsequent Movie Film: Delivery of Prodigious Bribe to Amerucan Regime for Make Benefit Once Glorious Nation of Kazakhstan”)

28- “Estados Unidos vs Billie Holliday” (“The United States vs Billie Holliday”)

29- “Pieces of a Woman” (“Pieces of a Woman”)

30- “Agente duplo” (El Agente Topo”)

31- “Rosa e Momo” (“Lq Vita davanti a sé”)

32- “Professor Polvo” (“My Octopus Teacher”)

33- “Pinóquio” (“Pinocchio”)

34- “A caminho da lua” (“Over the moon”)

35- “Shaun, o carneiro: o filme — a fazenda contra-ataca” (“A Shaun the sheep movie: Farmaggedon”)

36- “Emma” (“Emma”)

37- “Era uma vez um sonho” (“Hillibilly Elegy”)

(Os filmes abaixo foram rebaixados para a segunda divisão)

38- “Wolfwalkers” (“Wolfwalkers”)

39- “Mulan” (“Mulan”)

40- “Amor e monstros” (“Love and Monsters”)

41- “O grande Ivan” (“The One and Only Ivan”)

domingo, 4 de abril de 2021

“Minari”: imigração e o sonho americano

Chung queria um filme sobre fracasso e renascimento
Um ano depois da consagração de “Parasita”, o Oscar tem mais um filme falado quase que na sua totalidade em coreano concorrendo na categoria principal. Mas as comparações entre o filme de Bong Joon Hoo e “Minari” param por aqui. O trabalho de Lee Isaac Chung, indicado em seis categorias, é um drama calcado em um tema importante e que está presente no mundo praticamente desde que o homem existe: a imigração e os dramas particulares e gerais que vêm junto com o deslocamento de alguém de um lugar onde se tinha raízes para outro em que você não é ninguém até que consiga se transformar em alguém.

É a partir da jornada de uma família coreana que se muda para uma fazenda no Arkansas, nos Estados Unidos, com o intuito de construir uma nova vida que vamos acompanhando o drama de “Minari”. Por trás da esperança e do desejo de sucesso de Jacob (Steve Yeun) e Monica (Yeri Han), está uma crítica, ou talvez uma reflexão, ao ideal do sonho americano, a ideia de sucesso e prosperidade para quem trabalha arduamente e é vendida pelos americanos ao redor do mundo.

Não é por acaso que Jacob dirige-se a mulher ao longo do filme com a frase: “A vida na Coreia era dura. Falávamos que viríamos para os Estados Unidos para nos salvar”. Nesta frase está contida tanto a dor quanto a esperança daquele homem e da esposa que, querendo ou não, foi forçada a comprar essa ideia pela união da família.

Imigrar é renascer. É ter que reaprender códigos, língua, entender e aceitar hábitos e costumes. Cair e levantar. Errar e começar de novo. “Minari” tem tudo isso e mostra como o aprendizado é árduo.

Chung disse que queria fazer um filme sobre “família, fracasso e renascimento”. É possível ver estes três elementos bastante presentes no filme. A família e seus dramas seja pelo filho David (Alan S. Kim), que sofre de um problema de coração, seja pela presença da avó (Yu-Jung Youn), que sofre um derrame ao longo da história, tornando a vida ainda mais complicada naquela fazenda isolada.

Youn, aliás, é o coração de “Minari”. Na relação avó-neto, nas suas diferenças e semelhanças, vemos a riqueza desta família ao passo que Jacob começa a se afastar dela, pois o seu sonho americano o torna obsessivo e cego. Jacob escorrega na própria teimosia e vê o casamento quase se esfacelar numa cena muito bonita do filme quando Monica tem uma conversa muito franca com ele. Sem exageros hollywoodianos. Apenas as cartas da verdade sendo postas à mesa.

Por trás da insistência de Jacob está o desejo deste homem comum de ser um exemplo positivo para os filhos. Ele quer que as crianças o vejam como alguém bem sucedido e não como um mero empregado descartável de uma fábrica, tal como os pintinhos que ele deve descartar ou não diariamente. E com isso ele põe em risco o próprio relacionamento com Monica.

Mas todos terão seu momento de recomeço após aprenderem com os erros. Afinal, como Chung diz, este também é um filme sobre renascimento.

“Minari” por vezes é um filme árido. Em outros momentos, parece apenas exibir um manancial de tragédias para o prazer de espectadores sádicos. Não é um filme perfeito, mas na sua jornada de superação e renascimento de um homem comum e sua família, é possível ver alguma beleza.

Cotação da Corneta: nota 7,5.