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domingo, 5 de junho de 2022

“Top Gun: Maverick” é para os fãs, mas não se apega exclusivamente à nostalgia

Tom Cruise pilotou jatos para fazer o filme


Desde que o projeto de uma continuação de Top Gun começou a ser divulgado, parecia inegável que o objetivo era voltar para aquele universo dos chamados “melhores pilotos do mundo” como um exercício de nostalgia dentro da cada vez mais crescente indústria do cinema nostálgico. “Top Gun: Maverick” não nega tais expectativas. Mas o que faz o filme ser tão bom e talvez até superior ao original é que ele vai além disso.

Dentro da capa de obviedades e previsibilidades que o roteiro nos exibe e as inevitáveis belas e emocionantes imagens que o diretor Joseph Kosinski nos oferece, há uma história que é de fato interessante em torno de culpa, reconciliações, redenção e a tentativa de aprender com os erros do passado.

“Maverick” segue desde o início a trajetória do Capitão Pete “Maverick” Mitchell (Tom Cruise). Já há anos fora do chamado esquadrão Top Gun, de onde foi expulso uma vez que o personagem sempre teve problemas em lidar com autoridades e cumprir ordens, Maverick está trabalhando num projeto do governo em que faz o que sabe fazer melhor: esticar a corda do limite para conseguir resultados excelentes em tempo recorde.

Mas a pedido do velho rival/parceiro, o agora almirante Iceman (Val Kilmer, que com a saúde debilitada faz uma participação especial e recebe uma bonita homenagem no filme), Maverick é convocado para voltar aos Top Gun. O objetivo é fazer o capitão cujas insubordinações e desrespeitos nunca o fizeram ir além na hierarquia da Marinha, ensinar novos pilotos a enfrentarem uma missão suicida num país estrangeiro cujo nome nunca é revelado.

Esta é a história básica do filme. A partir daí, “Maverick” vai aproveitando os cenários para trazer reconfortantes momentos do passado e colocar o seu protagonista em conflito com os traumas de quando era um jovem piloto. O conflito a partir daí se dá com a presença de Rooster (Miles Teller), filho do seu velho parceiro Goose, e que não perdoa Maverick por ter atrasado a sua carreira na Marinha. A relação paternal, a tentativa de proteger Rooster e a busca por reavaliar os erros cometidos no passado e buscar finalmente um caminho para a sua vida que parece ter parado no tempo nas últimas décadas estão no entorno da trajetória de Maverick.

Ao mesmo tempo, cabe ao capitão mostrar que, embora os pilotos de caça sejam uma espécie em extinção numa era de guerra de drones, o ser humano ainda é relevante e, mesmo com sua impetuosidade e desrespeito por hierarquias, ele ainda tem um lugar a ocupar e pode ser útil naquele momento.

“Maverick”, portanto, parece até ter mais camadas interessantes do que um mero filme de ação. Contudo, é claro que o que mais pega no fã do “Top Gun” original são as referências e o conforto nostálgico do que o filme traz da década de 80. “Maverick” teve o cuidado de trazer vários elementos do passado, como a trilha sonora original representada pelo “Top Gun Anthem”, música instrumental de piano e guitarra composta por Harold Faltermeyer e Steve Stevens, e por “Danger Zone”, de Kenny Loggins, que abre o filme para pegar o fã antigo logo de jeito. Só não está presente a balada de sucesso “Take my breath away”, visto que aquele era o tema do par romântico vivido por Cruise e Kelly McGills, que não volta para o filme atual. Novo interesse romântico de Cruise, Penny (Jennifer Connelly) — chamada no primeiro filme de “a filha do almirante” com quem Maverick teve um caso no passado — tem seu romance embalado pela canção original de Lady Gaga, “Hold my hand”.

O filme também procura traçar seus paralelos com o passado. Por isso Rooster é tão parecido com o pai, ao ponto de também tocar no piano do bar como Goose após uma manjada cena de pilotos num papo daqueles de quem está medindo quem tem o pau maior. Um clássico de filmes do gênero.

Além da cena do bar, há uma repetição de elementos do filme original. Entre eles, Tom Cruise andando de moto com o avião levantando voo ao seu lado, usando a jaqueta e o óculos escuro tradicional, a famosa cena na praia com corpos suados apenas substituindo o vôlei por futebol americano, e as belas imagens de jatos e cenários na golden hour, um clássico do filme original de Tony Scott. Todos estes elementos nostálgicos reconfortam o coração do fã antigo, claramente pego pela emoção, ainda que o filme traga também outros elementos.

Entre a história e a nostalgia, “Maverick” ainda traz insanas sequências de ação, que são ainda mais impressionantes quando se tem noção que Tom Cruise e os demais atores realmente se filmaram voando em jatos da Marinha americana. É claro que a edição e a trilha sonora tornam tudo ainda mais perigoso, mas não deixa de ser impressionante o nível de risco a que Cruise se impõe para dar um grau a mais de veracidade ao filme. Realmente desde o treinamento e até a missão real do final são cenas de tirar o fôlego e que valem ser vistas numa tela grande como a do cinema.

Assim, “Maverick” cumpre a sua função de entreter o espectador e reconfortar o coração do fã que talvez nem soubesse que desejava voltar para aquele universo. Pode não ser um filme perfeito, mas é um filme de ação blockbuster como raramente temos visto nos últimos anos, uma vez que o cinema tem estado inundado de filmes de super-heróis e franquias em geral.

Nota 8.

domingo, 22 de agosto de 2021

"Um lugar silencioso: parte II" é uma decepção

Um filme que não sai do lugar
Quando foi lançado em 2018, “Um lugar silencioso” conquistou público e crítica com uma ideia inventiva que possibilitava usar os recursos de som e silêncio numa história de terror passada em um mundo pós-apocalíptico. Ao explorar bem os recursos técnicos e construir um filme muito tenso e com monstros assustadores, porém cegos, que “farejavam” suas vítimas pela sensibilidade que tinham com o mínimo barulho que ouviam, o filme agradou muitas pessoas.

Embora tivesse uma história que se fechava em si mesma, era inevitável que no mundo atual do cinema marcado por dezenas de sequências, prequels e construções de sagas, que o filme ganhasse uma continuação. É uma pena que “Um lugar silencioso: parte II” (A quiet place: part II, no original) seja tão pobre de ideias, convertendo-se uma verdadeira decepção quando colocado em comparação com o primeiro filme.

(ATENÇÃO QUE A PARTIR DE AGORA TEREMOS SPOILERS).

“Um lugar silencioso: parte II” se passa quase imediatamente após os acontecimentos do primeiro filme. Passaram-se apenas cinco dias em relação ao dramático final da história anterior, que terminou com a morte de Lee (John Krasinski, também diretor e que participa do roteiro desta sequência).

Mas antes temos um longo e um tanto quanto desnecessário flashback que não serve para muita coisa a não ser apresentar o personagem de Cillian Murphy. Ali conhecemos Emmett, aparentemente um amigo da família com contatos no exército, mas nada disso será usado mais a frente. Fica a impressão de que Emmett é a figura masculina da vez na ausência de Lee.

Enquanto isso, acompanhamos a tentativa de Evelyn (Emily Blunt) de sobreviver junto com seus três filho. Entre eles Regan (Millicent Simmonds), que dias atrás (no filme anterior para os espectadores) havia descoberto um ponto fraco das criaturas alienígenas, que dá aos humanos uma pequena vantagem na tentativa de exterminá-las.

O maior problema desta sequência é a falta de ideias novas. Se fosse apenas um capítulo de série, daria para dizer que era um bom episódio que continua a história em questão, mas andando de lado, sem avançar muito. Como na verdade é um filme, é um pouco triste ver que ele não avança em praticamente nada na história. Os personagens continuam tendo que fugir sem fazer nenhum barulho, os humanos continuam se escondendo dos alienígenas em silêncio, Evelyn continua tendo que cuidar de um bebê que neste mundo é uma verdadeira bomba relógio e a tensão e os truques do primeiro filme apenas se repetem no segundo.

Do meio para o final do filme, Regan descobre o que pode ser uma solução para destruir as criaturas. Uma ilha de onde uma estação de rádio transmite em looping uma única música. Ela decide ir lá, Emmett a acompanha, a família se separa e parece que teremos uma busca de uma solução para a trama. Ao chegar na marina a procura de um barco, um grupo é atacado pelos monstros e descobrimos que as criaturas não podem nadar. Uma informação que poderia ser relevante, pois isso converteria a ilha numa zona de segurança deste mundo pós-apocalíptico. Mas a informação não é usada como uma forma de os humanos levarem vantagem na luta pela sobrevivência. Pelo contrário, um barco surpreendentemente — ou melhor, convenientemente — chega a deriva com um monstro justamente até a ilha. Soou como um recurso barato de filme B para levar o monstro até lá. Este foi o maior exemplo da falta de ideias que este filme tem. No jogo de forças entre humanos e monstros, não é possível que o roteiro tenha sido tão empacado e ausente de ideias que fizessem avançar a história.

O que fica de bom de “Um lugar silencioso: parte II” é apenas a repetição dos recursos do primeiro filme. O personagem do Cillian Murphy revela-se quase desnecessário em uma história que fica empacada e não traz nada além do que já não foi visto. Para ver mais do mesmo não era necessária uma continuação.

Cotação da Corneta: nota 6.



Viúva Negra e a despedida de Scarlett Johansson da personagem

Scarlett se despede em belo filme
A Viúva Negra sempre foi uma personagem querida e popular dos fãs de quadrinhos. Pelo menos desde o primeiro filme dos Vingadores, lá em 2012, um filme solo da personagem era desejado. A Marvel demorou demais. Mas antes tarde do que nunca. “Viúva Negra” (Black Widow, no original), primeiro filme da fase 4 do Universo Cinematográfico da Marvel, finalmente chegou aos cinemas após diversos adiamentos causados pela pandemia de Covid-19. A longa espera e os diversos contratempos foram compensados por um trabalho que, embora controverso entre os críticos, eu me alinho entre os que gostaram do filme.

“Viúva Negra” é bem escrito, bem dirigido, tem uma história muito legal, tem boas atuações de seus atores, tem excelentes cenas de ação. Em resumo, é a Marvel mais acertando do que errando. “Viúva Negra” se coloca entre os pontos altos do longo universo desenvolvido pelo estúdio e deixa como questionamento qual seria o potencial deste filme se tivesse sido lançado primeiro num momento mais próximo ao tempo em que ele passa, ou seja, após “Capitão América — Guerra Civil” (2016). Em segundo lugar, sobre o que ele teria feito de bilheteria num mundo normal em que todos podem ir ao cinema.

Nunca saberemos. O que é certo é que o filme dá certo em quase todos os seus aspectos e, num momento em que a Marvel lança séries que não atingiram o potencial esperado, “Viúva Negra” mostra que o estúdio ainda tem boa lenha para queimar e aquecer o coração de seus fãs.

Não é por acaso, aliás, que “Viúva Negra” tem entre suas escritoras a mesma Jac Schaeffer responsável por “WandaVision”, a melhor das três séries da Marvel lançadas até aqui no Disney Plus (as outras são “Falcão e o Soldado Invernal” e “Loki”). Junto com Eric Pearson e Ned Benson, Schaeffer aqui acerta de novo ao investigar o passado da personagem estrelada por Scarlett Johansson criando um filme que é sobre famílias despedaçadas que estão tentando se acertar, mas também sobre vingança, passagem de bastão e que se mostra relevante dentro do universo transmedia da Marvel, explicando pontas da personagem que ficaram perdidas ao longo das fases do estúdio (finalmente sabemos o que aconteceu em Budapeste entre Natasha e Clint Barton), e dando à personagem a importância que ela têm dentro dos Vingadores, com suas camadas e sua história complexa.

E neste contexto, Scarlett entregou uma de suas melhores atuações no papel de Natasha. Tudo isso sendo muito bem assessorada por Florence Pugh (Yelena Belova), uma estrela em ascensão, David Harbour (Guardião Vermelho), que surge como o alívio cômico do filme, e Rachel Weisz, que faz Melina Vostokoff, que os fãs dos quadrinhos conhecem como a Dama de Ferro. Além deles, temos um Ray Winstone inspirado como Dreykov, sendo a sua cena com Natasha na parte final uma das melhores do filme.

É ima pena que Scarlett não deve retornar à personagem. Não apenas porque conhecemos o seu destino, revelado em “Vingadores: Ultimato” (2019), mas porque a tendência é que a Marvel a substitua por Pugh. Infelizmente. Acho que as duas podiam conviver juntas, pois Scarlett se mostrou tão importante quanto Robert Downey Jr, Chris Evans e Chris Hemsworth na construção deste Universo do estúdio. Sua Viúva Negra é tão relevante quanto o Homem de Ferro, o Capitão América e o Thor, interpretado pelos três atores aqui citados.

Mas o legado de Natasha tem tudo para continuar com Pugh, Harbour e Weisz, que esperamos que retomem seus personagens em futuros filmes.

Lamentos à parte, “Viúva Negra” pega a personagem num momento completamente quebrada. O filme se passa imediatamente após os acontecimentos de “Guerra Civil”, em que os Vingadores se dividiram por causa do Tratado de Sokovia. A família de Natasha está rompida enquanto ela é forçada a procurar a sua família falsa russa na busca por finalizar uma missão do passado: acabar com o Salão Vermelho, onde mulheres são treinadas cruelmente para virarem assassinas de aluguel de Dreykov.

O filme aqui aproveita para tocar em questões importantes como o tráfico de mulheres e a invisibilidade de jovens que vivem à margem da sociedade e são “recrutadas” para servirem à uma organização que, no fundo, não deixa de ser terrorista, influenciando em toda a geopolítica do planeta com suas ações.

É na tentativa de resolver estas questões do passado, de entender o papel do que Natasha conhece como família, embora sua construção tenha sido muito falsamente criada dentro de um departamento de espionagem do governo russo nos Estados Unidos, que a personagem buscará forças para encontrar a paz interior que precisa para ajudar a resolver o problema com a família que a adotou, a dos Vingadores. E o resto da história nos conhecemos muito bem.

Assim, o filme se equilibra entre acenar para grandes temas e investigar a intimidade de uma personagem que está num momento de reconstrução para poder finalmente se reerguer.

Talvez a única crítica que se possa fazer ao filme seja o papel do Treinador. Um vilão B, mas que dentro deste grupo está entre os mais legais da Marvel, com um poder de copiar tudo de quem ele está enfrentando, merecia um tratamento melhor do que a ideia que lhe deram para o cinema. O Treinador podia voltar em outro contexto, pois ele tem um potencial a ser explorado.

Cotação da Corneta: nota 9.



sexta-feira, 23 de abril de 2021

Comentários e o ranking do Oscar 2021

Não há pandemia que me impeça de dizer VERDADES sobre o Oscar. Embora este perfil corneteiro esteja há mais de um ano sem pisar no cinema por conta desta bactéria filha da puta, deste micróbio do caralho, Freddie Mercury (e não o Ramy Malek) me ensinou que “the show must go on”. Então, chegou a hora do momento mais aguardado por ninguém além de mim mesmo: o de falar sobre o Oscar que acontece no próximo domingo, dia 25.

Claro que para que o show de atrocidades que eu digo aqui pudesse acontecer, fomos obrigados a adotar métodos pouco ortodoxos e nada republicanos para cumprir a missão anual de ver TODOS os filmes do Oscar. Assim, eu queria fazer um agradecimento especial a quem patrocinou e tornou esse texto possível. Um obrigado especial a Barba Negra, Calico Jack e Barbarossa. Nunca esquecerei do que vocês fizeram para que o sonho fosse possível.

Do lado de Hollywood parece ser um Oscar totalmente aleatório e esquisito. Cheio de filmes nada a ver. Tem um filme sobre o The Voice europeu, tem filme indiano, tem a melhor adaptação live-action de uma animação da Disney (e que não foi feita pela Disney, logo só eu vi), tem comédia escrachada, tem filme de massinha, tem filme “wannabe Jacques Cousteau”. E tem filme que você não veria nem se fosse pago. Mas em nome dessa lista, eu me forcei a ver. Tem estas coisas todas e não tem “Hamilton” porque essa Academia ficou preocupada com filigranas e tecnicalidades que não cabem no mundo moderno. Coisa de quem chupa manga com luvinhas e guardanapo né.

Pelo menos entre os indicados a melhor filme, manteve-se um certo nível. Tanto que a nota média do CornetaStats se manteve semelhante ao ano passado: 8,12. Senti falta de “Destacamento Blood” e/ou “Uma noite em Miami” nesta lista. Mas ok, desde que “Os 7 de Chicago” não vença está valendo. Adoro o Aaron Sorkin e nem é um filme ruim, mas este ano é dele o prêmio “Spotlight” de filme que nem devia estar concorrendo a melhor filme.

Mas deixemos de enrolar. Tal qual um Karatê Kid, chegou a hora da verdade. Vamos aos meus votos. Lembrando que aqui não é quem eu acho que vai ganhar. É em quem eu votaria se a cédula chegasse na minha casa. O que eu defendo que deveria acontecer. Mas ao invés do envelope do Oscar eu recebi mesmo o envelope do censo. Que tristeza.

FILME — Nosso apoio geral e irrestrito vai para “Nomadland”, o melhor dos oito indicados, seguido bem de perto, cabeça a cabeça, com “Mank”, vencedor do Prêmio Corneta Ballon D´Or Awards de Melhor Filme de 2020. Ficaremos muito felizes se “Bela Vingança”, “o som do silêncio” e “Judas e o Messias Negro” vencerem. Será simpático se der “Minari” ou “Meu pai”. Só não inventem de premiar “Os 7 de Chicago”, por favor. Aliás, registro para a posteridade, eu sonhei na terça-feira que “Mank” ganharia o Oscar. Inclusive, eu escrevia num arquivo de word no computador a seguinte frase: “Em cerimônia marcada por polêmicas, Oscar premia a metalinguagem de “Mank”. Se eu acertar, passarei a fazer consultas de tarot, leitura de borra de café e astrologia a partir de segunda-feira. Se eu errar, bom, quem acredita em premonições? Era só um sonho.

ATOR — É uma pena que não possamos distribuir este ano dois carecas dourados. Eu queria muito dar este prêmio póstumo a Chadwick Boseman e vai ser legal se ele ganhar. Porém, o meu voto mesmo vai para o Anthony Hopkins, pois, como diria o Bruno Henrique, seu trabalho em “Meu pai” é OUTRO PATAMAR.

ATRIZ — Aqui eu queria dar três carecas dourados para Viola Davis, Carey Mulligan e Frances McDormand. Como eu não posso ficar em cima do muro, meu voto vai para Frances, porque ela está magistral em “Nomadland”.

DIRETOR — Levanta dessa cadeira Chlóe Zhao e vem receber o seu Oscar que eu quero ver a inscrição “Da diretora vencedora do Oscar” no pôster de “Eternos”, da Marvel. Não tem jeito, “Nomadland” ganhou meu coração.

ATRIZ COADJUVANTE — Eu não sei o que a Glenn Close faz aqui. Dizem até que ela pode ganhar, mas “Era uma vez um sonho” é tão ruim que poderiam nos poupar de lembrar dele. Gosto da Maria Bakalova, talvez seja o que tem de melhor no “Borat”, gosto muito da Olivia Colman em “Meu pai”, mas gostaria de ver premiado o trabalho de Youn Yu-jung, pois ela é a alma de “Minari”.

ATOR COADJUVANTE — Aqui temos uma aberração, pois o Lakeith Stanfield tinha que estar concorrendo ao prêmio principal. Afinal, ele é o protagonista de “Judas e o Messias Negro”. De qualquer forma, são cinco trabalhos muito bons. Fechei o olho e votei no Daniel Kaluuya porque “I am…. a REVOLUTIONARY”. Ou nem tanto.

ROTEIRO ADAPTADO — Com a segurança de quem desconhece as obras pregressas, meu voto vai para “Meu pai”. Com menção honrosa para “Uma noite em Miami”.

ROTEIRO ORIGINAL — Aqui, fiquei dividido entre dois filmes, mas meu voto vai para o “Bela Vingança” e peço desculpas para “O som do silêncio”. Mas prometo compensá-lo até o fim deste texto.

FILME ESTRANGEIRO — Temos aqui cinco filmes bons. Mas aquele que ganhará o meu voto da melhor categoria do Oscar é a Bósnia com o seu “Quo Vadis, Aida?”. Dizem, porém, que o “Druk” vai ganhar. Tenho todo o respeito pelo Vinterberg, mas é o pior dos cinco filmes concorrentes.

ANIMAÇÃO — Aqui não tem nem o que pensar. “Soul” tem que levar de lavada. Embora eu goste de “Dois irmãos” também. O resto é absolutamente esquecível.

DOCUMENTÁRIO — Sem grandes dúvidas, meu voto vai para a Roménia, com seu “Colectiv”.

Agora vamos ao momento máximo da minha gato mestrice. As CATEGORIAS TÉCNICAS:

FOTOGRAFIA — Aqui o meu Oscar vai para Joshua James Richards por “Nomadland”.

MONTAGEM — Eu disse que eu ia te compensar né, “O som do silêncio”? Taí o teu Oscar.

TRILHA SONORA — Vamos de “Soul” porque a trilha sonora é muito boa e harmoniza muito bem com o filme. E porque, vocês sabem, boicotaram “Hamilton”.

FIGURINO — Aqui vamos contrariar a lógica do filme de época e seus babadinhos e dar o prêmio para “A voz suprema do Blues”

DIREÇÃO DE ARTE — Vou alinhar com “Meu pai” porque o trabalho da direção de arte aqui é fundamental para a construção da história.

CANÇÃO ORIGINAL — Na ausência de “Hamilton” eu vou votar em “Husavik (My Home Town)” por quatro motivos. 1) Ela é bonita. 2) Será engraçado ver um filme sobre a Eurovisão ganhar um Oscar. 3) A cantora Molly Sandén atinge notas impossíveis, de quebrar copo de cristal. 4) Essa música tem um refrão em ISLANDÊS. Como não votar numa música em que 20% é em islandês?

EFEITOS VISUAIS — Não acredito que eu vou ter que votar em “Amor e monstros” por pura falta de opção. Mas é isso. Sem Marvel na jogada e com “Mulan” e “Tenet” não sendo exatamente grande coisa, os monstrinhos deste filme ruim acabaram levando o meu voto.

MAQUIAGEM E CABELO — Meu lado cabeleireiro acha que “A voz suprema do Blues” tem que ganhar.

SOM — Não tivesse “o som do silêncio” aqui eu dava meu voto para “Greyhound”, mas ai não tem jeito.

Assim, eu distribui quatro carecas dourados para “Nomadland”, três para “Meu pai” e dois para “o som do silêncio”, “Soul” e “A voz suprema do Blues”. “Minari”, “Judas e o Messias Negro”, “Bela Vingança”, “Quo Vadis, Aida?”, “Collectiv”, “Festival Eurovision da Canção: a saga de Sigrit e Lars” e “Amor e monstros” ficaram com um. E eu não dei nada para “Mank”! O que eu fiz de errado? Será que “Mank” é aquele jogador que é muito bom em tudo e não é o melhor em nada? Fica a questão.

Para fechar, vamos ao sempre polêmico RANKING do Oscar:

1- “Nomadland” (“Nomadland”)

2- “Mank” (“Mank”)

3- Quo Vadis, Aida? (Quo Vadis, Ainda?)

4- “O som do silêncio” (“Sound of metal”)

(Os filmes acima estão classificados para a Copa Libertadores)

5- “Bela Vingança” (Promising Young Woman”)

6- “A voz suprema do Blues” (Ma Rayne´s Black Bottom”)

7- “Destacamento Blood” (“Da 5 Bloods”)

8- “Judas e o Messias Negro” (Judas and the Black Messiah”)

9- “Shaonian de ní” (Shaonian de ni”)

10- “Uma noite em Miami” (“One night in Miami”)

11- “Meu pai”(The Father”)

12- “Minari” (“Minari”)

(Os filmes acima estão classificados para a Copa Sul-Americana)

13- “O homem que vendeu sua pele” (“The man who sold his skin”)

14- “Colectiv” (“Colectiv”)

15- “Soul” (“Soul”)

16- “Druk — mais uma rodada” (“Druk”)

17- “Os 7 de Chicago” (“The Trial of the Chicago 7”)

18- “Crip Camp: Revolução pela inclusão” (“Crip Camp”)

19- “Dois irmãos — uma jornada fantástica” (“Onward”)

20- “O tigre branco” (“The White Tiger”)

21- “Greyhound: na mira do inimigo” (Greyhound”)

22- “O céu da meia-noite” (“The Midnight sky”)

23- “Relatos do Mundo” (“News of the world”)

24- “Time” (“Time”)

25- “Tenet” (“Tenet”)

26- “Festival Eurovision da Canção: a saga de Sigrit e Lars” (“Eurovision Song Contest: The Story of Fire Saga”)

27- “Borat — fita de cinema seguinte” (“Borat Subsequent Movie Film: Delivery of Prodigious Bribe to Amerucan Regime for Make Benefit Once Glorious Nation of Kazakhstan”)

28- “Estados Unidos vs Billie Holliday” (“The United States vs Billie Holliday”)

29- “Pieces of a Woman” (“Pieces of a Woman”)

30- “Agente duplo” (El Agente Topo”)

31- “Rosa e Momo” (“Lq Vita davanti a sé”)

32- “Professor Polvo” (“My Octopus Teacher”)

33- “Pinóquio” (“Pinocchio”)

34- “A caminho da lua” (“Over the moon”)

35- “Shaun, o carneiro: o filme — a fazenda contra-ataca” (“A Shaun the sheep movie: Farmaggedon”)

36- “Emma” (“Emma”)

37- “Era uma vez um sonho” (“Hillibilly Elegy”)

(Os filmes abaixo foram rebaixados para a segunda divisão)

38- “Wolfwalkers” (“Wolfwalkers”)

39- “Mulan” (“Mulan”)

40- “Amor e monstros” (“Love and Monsters”)

41- “O grande Ivan” (“The One and Only Ivan”)

domingo, 4 de abril de 2021

“Minari”: imigração e o sonho americano

Chung queria um filme sobre fracasso e renascimento
Um ano depois da consagração de “Parasita”, o Oscar tem mais um filme falado quase que na sua totalidade em coreano concorrendo na categoria principal. Mas as comparações entre o filme de Bong Joon Hoo e “Minari” param por aqui. O trabalho de Lee Isaac Chung, indicado em seis categorias, é um drama calcado em um tema importante e que está presente no mundo praticamente desde que o homem existe: a imigração e os dramas particulares e gerais que vêm junto com o deslocamento de alguém de um lugar onde se tinha raízes para outro em que você não é ninguém até que consiga se transformar em alguém.

É a partir da jornada de uma família coreana que se muda para uma fazenda no Arkansas, nos Estados Unidos, com o intuito de construir uma nova vida que vamos acompanhando o drama de “Minari”. Por trás da esperança e do desejo de sucesso de Jacob (Steve Yeun) e Monica (Yeri Han), está uma crítica, ou talvez uma reflexão, ao ideal do sonho americano, a ideia de sucesso e prosperidade para quem trabalha arduamente e é vendida pelos americanos ao redor do mundo.

Não é por acaso que Jacob dirige-se a mulher ao longo do filme com a frase: “A vida na Coreia era dura. Falávamos que viríamos para os Estados Unidos para nos salvar”. Nesta frase está contida tanto a dor quanto a esperança daquele homem e da esposa que, querendo ou não, foi forçada a comprar essa ideia pela união da família.

Imigrar é renascer. É ter que reaprender códigos, língua, entender e aceitar hábitos e costumes. Cair e levantar. Errar e começar de novo. “Minari” tem tudo isso e mostra como o aprendizado é árduo.

Chung disse que queria fazer um filme sobre “família, fracasso e renascimento”. É possível ver estes três elementos bastante presentes no filme. A família e seus dramas seja pelo filho David (Alan S. Kim), que sofre de um problema de coração, seja pela presença da avó (Yu-Jung Youn), que sofre um derrame ao longo da história, tornando a vida ainda mais complicada naquela fazenda isolada.

Youn, aliás, é o coração de “Minari”. Na relação avó-neto, nas suas diferenças e semelhanças, vemos a riqueza desta família ao passo que Jacob começa a se afastar dela, pois o seu sonho americano o torna obsessivo e cego. Jacob escorrega na própria teimosia e vê o casamento quase se esfacelar numa cena muito bonita do filme quando Monica tem uma conversa muito franca com ele. Sem exageros hollywoodianos. Apenas as cartas da verdade sendo postas à mesa.

Por trás da insistência de Jacob está o desejo deste homem comum de ser um exemplo positivo para os filhos. Ele quer que as crianças o vejam como alguém bem sucedido e não como um mero empregado descartável de uma fábrica, tal como os pintinhos que ele deve descartar ou não diariamente. E com isso ele põe em risco o próprio relacionamento com Monica.

Mas todos terão seu momento de recomeço após aprenderem com os erros. Afinal, como Chung diz, este também é um filme sobre renascimento.

“Minari” por vezes é um filme árido. Em outros momentos, parece apenas exibir um manancial de tragédias para o prazer de espectadores sádicos. Não é um filme perfeito, mas na sua jornada de superação e renascimento de um homem comum e sua família, é possível ver alguma beleza.

Cotação da Corneta: nota 7,5.



segunda-feira, 29 de março de 2021

“Druk” fica no meio do caminho entre reflexão e celebração

Madds Mikkelsen tomando todas
Segundo uma teoria do psiquiatra norueguês Finn Skarderud, o homem tem o nível de álcool no sangue muito baixo. Mais precisamente 0,5% a menos do que o normal. E se os homens bebessem alguma substância alcoólica diariamente para compensar esta suposta perda, terão melhor desempenho em suas vidas pessoais e profissionais. Com o intuito de testar a teoria, quatro professores do ensino médio resolvem inserir a bebida como uma atividade constante em suas vidas. Essa é a premissa de “Druk — mais uma rodada” (Druk, no original) novo filme do diretor dinamarquês Thomas Vinterberg, que concorre a dois Oscar.

A partir das experiências de Martin (Madds Mikkelsen), Tommy (Thomas Bo Larsen), Nikolaj (Magnus Millang) e Peter (Lars Ranthe), “Druk” levanta algumas questões sobre o alcoolismo, mas não consegue se aprofundar ao que se propõe. O filme parece ter ficado no meio do caminho entre uma crítica social abordando um problema real na Dinamarca e uma celebração das intensidades da vida. E isso talvez possa ter relação com o trágico bastidor revelado a partir de sua dedicatória.

Ao fim do filme, vemos que “Druk” é dedicado a uma jovem chamada Ida, que vem s ser a filha de Vinterberg que morreu em um acidente de carro na Bélgica pouco antes do início das filmagens deste seu novo trabalho. Ida participaria do filme como uma filha de Martin, um dos protagonistas. Com a sua morte, o roteiro foi modificado e Martin passou a ter dois filhos homens.

Foi de Ida a ideia de que Vinterberg transformasse a peça de teatro que escrevera em filme. Também foi da filha que Vinterberg colheu muitas das histórias de bebedeiras de jovens que foram usadas no filme.

Por trás disso, há uma estatística perigosa. A Dinamarca tem uma das mais altas taxas de consumo de álcool entre jovens. Um jovem dinamarquês de 15 anos consome quase o dobro de álcool que seus colegas de idade semelhante em toda a Europa.

Toda essa questão do uso de álcool é levantada no filme nas experiências dos quatro professores que vão escalando até ficarem insustentáveis e com consequências para as suas vidas, mas também são verbalmente explicitadas numa briga que Martin tem com sua esposa Anika (Maria Bonnevie) antes de se separarem. É quando Anika diz que “A Dinamarca está bebendo demais”.

Portanto, “Druk” arranha nestas questões do alcoolismo, mas não aprofunda a discussão. Não traz consequências mais graves ou não jogar mais luz ao debate envolvendo seus protagonistas. O único que sofre consequências mais dramáticas é justamente o menos relevante dos quatro amigos. E mesmo ela não traz impacto, pois os três amigos restantes já haviam largado a bebida. Até com uma certa facilidade para quem estava flertando perigosamente com o alcoolismo.

Nesse ponto, o filme também se encaminha por uma celebração da vida. Vinterberg disse que o filme é também sobre “estar acordado para a vida”. E não tem como imaginar que a sua filha podia ter sido um dos jovens na grande e bonita celebração do fim do filme, com os jovens aprovados do ensino médio.

No fim, o filme se equilibra muito entre estes dois mundos, o da crítica ao uso incontrolável do álcool e o da celebração de um meio de viver do dinamarquês que é muito associado ao álcool. E a sua cena final, com a bela coreografia de dança de Mikkelsen é a exibição física desta dualidade que Vinterberg construiu e que Mikkelsen soube personificar tão bem.

“Druk” não é tão interessante quanto “A caça” (2012), só para ficar em outra parceria entre Vinterberg e Mikkelsen. Arranha em seus objetivos, sem realmente dizer para onde quer seguir. Mas ainda que, depois de muito prometer, tenha ficado no meio do caminho, não deixa de ser um bom filme.

Cotação da Corneta: nota 7.

Indicações ao Oscar: Direção (Thomas Vinterberg) e filme em língua estrangeira.



sexta-feira, 5 de março de 2021

“Pelé”: O Rei, a ditadura militar e o Brasil que vive em círculos

Pelé ganhou um documentário incompleto
Maior jogador de futebol de todos os tempos, Edson Arantes do Nascimento, mundialmente conhecido como Pelé, já teve a sua vida contada e recontada em livros, reportagens e pelo menos dois filmes: “Pelé Eterno” (2004) e “Pelé: o nascimento de uma lenda” (2016). Então, o que mais um documentário poderia acrescentar ao vasto material já produzido sobre o chamado Rei do Futebol? Este era o maior desafio de “Pelé”, documentário dirigido por Ben Nicholas e David Tryhorn, que está disponível na Netflix.

Para um conhecedor da história de Pelé, o documentário não traz quase nada de novo. Mas isso não faz o filme ser menos delicioso de assistir. Em quase duas horas, Nicholas e Tryhorn partem de um recorte das quatro Copas do Mundo que o Rei jogou (1958–62–66–70) para condensar a história do jogador de futebol e dar pinceladas sobre o homem por trás do mito. A maior riqueza está no equilíbrio dos depoimentos dos colegas de Santos e de seleção brasileira, e de alguns jornalistas que acompanharam a sua carreira se alternando com as imagens de Pelé em campo.

O pouco tempo, porém, faz com que o documentário não saia do superficial sobre Pelé. De fato, Pelé é gigante demais para caber em 1h48min e o filme dos dois diretores funciona mais como aqueles discos de “Greatest Hits” das grandes bandas da história da música. Tem-se uma noção sobre a sua produção, mas sempre fica faltando algo e não se aprofunda em nada.

E neste ponto não tem como não lembrar de “The Last Dance”, série documental sobre Michael Jordan e o Chicago Bulls, que ganhou dez episódios feitos pela ESPN e que também foram transmitidos pela Netflix. Pelé merecia algo semelhante até para que pudesse ser melhor aprofundada uma série de questões somente levantadas no filme.

Dentre todas elas, destaca-se a relação de Pelé com a ditadura militar e sua falta de posicionamento contra um regime cruel que torturou 20 mil pessoas e deixou pelo menos 434 pessoas mortas ou desaparecidas ao longo de 21 anos, segundo relatório da Human Rights Watch. O que vemos é um Pelé que não era necessariamente alienado aos acontecimentos do Brasil durante os dez anos finais de sua carreira, mas que ao mesmo tempo não queria se envolver. Incomoda vê-lo dizer secamente que para ele não havia mudado nada com ou sem a ditadura, enquanto todos sabemos que por trás dos muros de sua casa e da Vila Belmiro, muita coisa havia mudado, e para pior, para muita gente depois de um período quase mágico que o Brasil havia vivido até 1964, como bem descreveram os jornalistas Juca Kfouri e José Trajano em suas entrevistas para o documentário.

O filme resgata entrevistas antigas de Pelé afirmando não querer se meter com política e dizer não entender de política. Curiosamente, décadas depois, Pelé viria a se tornar o primeiro ministro dos Esportes, entre 1995 e 1998, durante o governo Fernando Henrique Cardoso.

Contudo, o filme também confirma a pressão feita pelo ditador Emilio Garrastazu Médici para que o Rei jogasse a Copa de 1970. O próprio Pelé lembra no filme que recebeu diversos “convites” de políticos para voltar a defender a seleção, que havia abandonado após o fracasso da Copa de 1966, na Inglaterra. Por trás de tudo estava o interesse do governo em usar o futebol a seu favor e para alavancar a sua popularidade em um momento em que o Brasil atravessava o período mais cruel da ditadura após a assinatura do Ato Institucional número 5, em 1968. O que o filme não mostra é que o próprio Pelé foi investigado pela ditadura por suspeita de simpatia com a esquerda brasileira após receber um manifesto pedindo a liberação de presos políticos e se recusou a jogar o Mundial de 1974 porque a ditadura estaria “prejudicando demais o povo”, nas suas próprias palavras.

Por mais que fossem palavras verdadeiras, o que fica mais evidente é que a decisão de jogar em 1970 e não jogar em 1974 partiu única e exclusivamente de Pelé e seus interesses e desafios esportivos. A política não era uma questão para ele. Após 1966, o Rei havia declarado que não defenderia mais a seleção depois de duas Copas em que ele perdeu a chance de disputar por completo por causa de lesões. Pelé sentia-se azarado com Copas do Mundo. Voltar a jogar em 70, aos 29 anos, o que na época significava que ele estava mais perto do fim da carreira do que no futebol praticado hoje em dia, e em meio às desconfianças generalizadas sobre o seu estado físico até do então treinador João Saldanha — depois substituído por Zagallo por pressão da ditadura militar — representava uma espécie de chance de redenção.

E foi. O Mundial de 70 foi de Pelé, onde ele foi o jogador mais decisivo em um dos maiores times já montados em todos os tempos. Foi uma Copa com tanta cara de Pelé, que a sensação que o documentário deixa é que nem a ditadura conseguiu faturar com a vitória do Brasil.

O que não exime Pelé de não ter se posicionado mais fortemente contra a ditadura. Por outro lado, uma análise feita por Juca Kfouri ao mencionar a constante comparação dele com o boxeador Muhammadi Ali, nos leva, no mínimo, a uma reflexão. Ao contrário de Ali, Pelé poderia ser torturado e até morto naquele tempo. É claro que o boxeador foi preso e teve a sua carreira prejudicada por boicotes do governo americano por ter se recusado a lutar na Guerra do Vietnã (1955–1975), mas Kfouri lembra que o Brasil vivia uma ditadura. E numa ditadura, qualquer um, até mesmo o jogador mais famoso do planeta, pode ser preso e torturado. Não se trata aqui de querer passar pano para Pelé, mas entender o contexto. Ele poderia ter feito mais? Talvez sim. E são desconfortáveis as imagens dos encontros de Pelé com Médici. Mas não é uma decisão fácil de se tomar no calor dos acontecimentos e sabendo que não apenas você, mas a sua família também corre risco de vida por qualquer atitude mais combativa que você tomar. Pelé optou por permanecer neutro, e vivendo com as consequências do que fez e do que não fez.

UM BRASIL QUE SE REPETE

Triste é olhar para o documentário de Pelé é ver um Brasil que vive em círculos nas suas alegrias e mazelas. Se o período entre o final da década de 50 e o início da década de 60, foi, como descrito, um dos mais felizes da história recente do país, se sucedeu a ele o início de uma ditadura que atrasou o país em muito mais do que os 50 anos de avanço prometidos pelo governo Juscelino Kubitschek em seu Plano de Metas.

Se é possível traçar um paralelo disso, podemos dizer que houve um período que, se não foi de genuína ou, talvez, romântica, felicidade, daquele tempo em que o Brasil era bicampeão do mundo e tinha inventado a Bossa Nova, houve uma esperança de dias melhores entre o controle da inflação galopante nos governos Itamar Franco (1992–94) e Fernando Henrique Cardoso (1995–2003) e a melhoria de vida de uma grande parcela da população brasileira durante o governo Lula (2003–2011). A isto se sucedeu um período de trevas com a eleição de Jair Bolsonaro como presidente em 2018. Tal como o que foi usado no golpe de 64, o chamado perigo de o país virar comunista era uma das plataformas do presidente eleito, junto com uma usina de fake news, acionada até hoje em momentos de crise do governo. E assim como em 64, soa ridícula e irreal esta ameaça de comunismo até hoje.

Tal como Médici, Bolsonaro usa o futebol para tentar se promover e já vestiu uma invejável coleção de camisas de clubes, embora se declare palmeirense. Assim como o ditador, e talvez até pior do que ele, isso não adianta em nada em sua popularidade. Traz é rejeição de muitos torcedores.

Fora da política, e de volta aos gramados, os ciclos se mantém. Já em 1970, João Saldanha falava em jogar de forma moderna como os europeus, um discurso que volta e meia vemos se repetir. É curiosa também uma entrevista resgatada de Pelé às vésperas da Copa de 1966, afirmando que o futebol já não era mais tão bonito e havia se tornado mais físico. Outro discurso que vemos se repetir de tempos em tempos na imprensa esportiva, quando dentro de campo o próprio futebol se renova em ciclos em que times mais reativos e defensivos e equipes mais ofensivas e que praticam um jogo mais plástico se revezam ditando a moda e as conquistas. E o próprio jogo mudou muito ao longo das décadas.

Estes são apenas alguns paralelos que nos fazem aproximar o tempo em que Pelé era jogador do tempo atual.

SANTOS COMO COADJUVANTE

Com a opção pelo recorte feito pela Copa do Mundo, falta ao documentário se aprofundar em outras questões que poderiam ter sido interessantes. O próprio Santos é coadjuvante no filme, embora seja fundamental na vida de Pelé. Sequer são mostradas as conquistas da Libertadores e o que Pelé fez em campo nestes títulos. Sem contar as inúmeras excursões pelo mundo com o Santos exibindo a sua arte.

Tudo é muito discreto, mostrado muito rapidamente tanto em imagens de jogos quanto em entrevistas. Percebe-se que foi uma escolha para que fosse focado no grande evento Copa e o que aconteceu na vida de Pelé entre estes torneios. Mas não deixa de ser uma pena, pois certamente há uma geração de jovens que conhecem pouco de Pelé e um documentário na Netflix aumentaria o alcance do Rei a muitos que não sabem o quão mágico, único e ainda incomparável Pelé foi dentro do campo. Neste ponto, vale a pena complementar este filme com outro documentário, “Pelé eterno”, de Aníbal Massaini Neto.

O mesmo se pode dizer pela falta de aprofundamento em sua vida pessoal. Sabe-se muito pouco no documentário sobre o Edson por trás da figura do Pelé. Há apenas uma passagem sobre o seu primeiro casamento e as dificuldades em mantê-lo em meio aos muitos compromissos profissionais e assédios de mulheres ao maior jogador do mundo, mas não se fala do que aconteceu depois, dos demais relacionamentos de Pelé, dos filhos. Ficou uma lacuna por preencher.

Mas nada disso, diminui o quão fascinante é a vida de Pelé e, principalmente, o que ele fez dentro de campo. Dentro de campo, por mais que tentem, o Rei permanece inigualável. E em meio a revisionismos tacanhos, é importante que o documentário termine com uma informação fundamental: Pelé marcou 1.283 gols em 1.367 jogos. Um recorde que muito dificilmente algum outro jogador um dia conseguirá bater.

Cotação da Corneta: nota 7,5.