domingo, 22 de agosto de 2021

Finalmente um bom "Esquadrão Suicida"

Isso sim é um Esquadrão Suicida
Não sou muito fã de fazer comparações ou tomar partido em um dos lados da dualidade do cinema pop atual. Mas como fã e leitor de quadrinhos tanto da Marvel quanto da DC, vou abrir uma pequena exceção para traçar um tímido paralelo entre as duas rivais.

É inegável que a Marvel faz filmes bons em quantidade maior do que a DC. Seus acertos são maiores do que os seus erros. Mas também é inegável, pelo menos do meu ponto de vista, que quando a DC acerta, ela acerta num nível que a equipara, quiçá a faz superar, alguns dos melhores filmes da Marvel.

“O esquadrão suicida” (The Suicide Squad, no original) é desses filmes do patamar mais alto da DC. E traz justiça. Traz justiça para esse grupo de vilões e anti-heróis tão mal tratados na versão de David Ayer de 2016. E vamos combinar que depois deste filme podemos definitivamente esquecer que o anterior existiu.

O filme também traz justiça para uma personagem tão legal como a Arlequina (Margot Robbie). Finalmente ela ganha um filme bom, excelentes cenas e um roteiro um pouco melhor, embora longe de ser perfeito. Mas melhor do que o que vimos no primeiro “Esquadrão Suicida” e do fraco “Aves de Rapina” (2020).

“O esquadrão suicida” também traz um sopro de novidade na monocultura contida dos filmes de super-heróis. Num mercado dominado pela Marvel, que só faz filmes PG-12, a classificação indicativa de “O Esquadrão Suicida” é 18+. Isso proporciona um filme nada contido e, exatamente por isso, mais “carnal” e vivo nos mais diferentes aspectos.

Longe de mim, porém, achar que a qualidade de um filme se resume a violência extrema e sexo. Isso está muito longe de ser verdade. Mas um grupo de personagens como o do Esquadrão Suicida pede um filme de censura mais alta para que seja mais fiel aos feitos de cada um deles. É claro que isso, por outro lado, não mascara os eventuais problemas do filme. Uma história um pouco jogada e num esquema mais de montanha-russa do que de encadeamento de ideias.

E aqui é preciso ressaltar o trabalho de James Gunn. Diretor e roteirista do filme, o cineasta deixa claro desde os primeiros minutos que tudo pode acontecer neste filme. E que não devemos nos apegar a nenhum personagem. Esse caráter de imprevisibilidade do filme é um dos méritos dele.

Em suas 2h14min, Gunn também consegue apresentar mais do que cenas apoteóticas. Num filme com 18 personagens supervilões. ele também consegue desenvolver minimamente seus personagens principais. Em especial Sanguinário (Idris Elba), Ratcacher 2 (Daniela Melchior) e Rei Tubarão (Sylvester Stallone). Tudo isso aproveitando para dar uma continuidade à história da Arlequina, que o fã já conhece de outros filmes e atiçando a curiosidade do fã com relação ao Pacificador (John Cena), cuja série spin-off já havia sido confirmada enquanto o filme estava sendo finalizado. E, por isso, talvez ele não ganhe destaque maior com alguma história do seu passado, embora tenha bastante tempo de tela.

Gunn também nos apresenta uma história divertida com um roteiro simples — o grupo é enviado a uma nação sul-americana qualquer para cuidar dos interesses americanos em meio a um golpe militar — que também é marcado por pitadas de humor que variam entre o pastelão da típica piada de tiozão e alguma elegância.

Mas o grande trunfo do “O Esquadrão Suicida” é mesmo seu grau de imprevisibilidade. E não deixamos de nos surpreender até o fim, até as cenas pós-crédito.

“O esquadrão suicida” merece todos os elogios e é um dos bons filmes deste ano. Esperamos que Gunn faça uma sequência. Ainda que ele tenha perdido muitos personagens neste filme. Se bem que, quando se trata de quadrinhos, ninguém morre de fato.

Cotação da Corneta: nota 8.



"Loki" apresenta novo supervilão da Marvel

Dois Lokis é um problema duplo
“WandaVision” foi o aquecimento. “Falcão e o Soldado Invernal” uma história paralela para criar um novo líder e herói. É em “Loki” que a Marvel deu o pontapé inicial na sua nova saga que virá após o desfecho da Saga do Infinito em “Vingadores: Ultinato” (2019).

Única das três séries lançadas até aqui confirmadas com uma segunda temporada, “Loki” teve altos e baixos no seus seis primeiros episódios. Como série, ficou aquém do esperado. Mas no fim revelou-se fundamental para o desenvolvimento da nova fase do Universo Cinematográfico da Marvel graças ao seu episódio final.

(ATENÇÃO QUE A PARTIR DE AGORA TEREMOS SPOILERS)

Foi no episódio final que o Deus da Trapaça se viu diante daquele que será o próximo supervilão da Marvel: Kang, o conquistador (Jonathan Majors).

Até de forma surpreendente, Kang aparece no episódio final da temporada como o grande arquiteto mantenedor da linha do tempo que então se acreditava ser comandado pelos Guardiões do Tempo e sua TVA.

Desmascarada a farsa e revelada que todos os funcionários da TVA são variantes, os dois Loki (Tom Hiddlestone e Sophie Di Martino) se veem num dilema esfíngico proposto por Kang após uma longa explicação dos seus atos: Aceitar a ausência de livre-arbítrio e comandar a TVA ou matá-lo ali imediatamente e fazer com quem as linhas temporais percam o controle com os atos de todas as suas variantes.

Fica a sensação de que Kang sabia o que estava fazendo e saberia qual seria o seu desfecho. Como se quisesse recomeçar toda a sua obra por puro sadismo de viver tudo aquilo de novo.

Assim, o último episódio de “Loki” mostra o pontapé inicial de algo que deve reverberar em todos os filmes e séries da Marvel daqui para frente. Com especial foco em “Doutor Estranho e o Multiverso da Loucura”, previsto para ser lançado em 2022. Ao implodir a única linha do tempo, gerando ramificações infinitas, os heróis devem enfrentar diversas consequências nos próximos anos a partir dos atos de Kang.

Embora toda esta parte seja empolgante, também é preciso falar sobre como “Loki” enquanto série deixou a desejar, após um primeiro episódio muito bom e um segundo bem legal, a série foi se perdendo em episódios fracos. O pior deles foi o que envolveu Loki e Sylvie num mundo próximo do apocalipse. Ali não havia absolutamente nada a se aproveitar e foi uma grande perda de tempo.

Claro que Tom Hoddlestone é carismático e Loki é um ótimo personagem. Sua relação com Mobius (Owen Wilson) rendeu alguns bons momentos no início. E Sylvie, a Lady Loki, foi um acréscimo positivo ao universo. Mas foi pouco para uma série que passou a impressão de ser mais uma escada para futuros acontecimentos da Marvel do que uma história que poderia ter sido mais bem construída em si.

Aliás, as três séries lançadas até aqui neste ano pela Marvel têm muito está cara. No fim, “WandaVision” foi a mais interessante das três. E foi a que pareceu ter uma história mais coesa com começo, meio, fim e uma ideia de para onde vai.

Mas no cômputo geral, a Marvel está devendo em suas séries. As três lançadas até aqui não são ruins, mas não estão no patamar de “Demolidor”, “Justiceiro” ou “Legion”.

Cotação: nota 7.



"Um lugar silencioso: parte II" é uma decepção

Um filme que não sai do lugar
Quando foi lançado em 2018, “Um lugar silencioso” conquistou público e crítica com uma ideia inventiva que possibilitava usar os recursos de som e silêncio numa história de terror passada em um mundo pós-apocalíptico. Ao explorar bem os recursos técnicos e construir um filme muito tenso e com monstros assustadores, porém cegos, que “farejavam” suas vítimas pela sensibilidade que tinham com o mínimo barulho que ouviam, o filme agradou muitas pessoas.

Embora tivesse uma história que se fechava em si mesma, era inevitável que no mundo atual do cinema marcado por dezenas de sequências, prequels e construções de sagas, que o filme ganhasse uma continuação. É uma pena que “Um lugar silencioso: parte II” (A quiet place: part II, no original) seja tão pobre de ideias, convertendo-se uma verdadeira decepção quando colocado em comparação com o primeiro filme.

(ATENÇÃO QUE A PARTIR DE AGORA TEREMOS SPOILERS).

“Um lugar silencioso: parte II” se passa quase imediatamente após os acontecimentos do primeiro filme. Passaram-se apenas cinco dias em relação ao dramático final da história anterior, que terminou com a morte de Lee (John Krasinski, também diretor e que participa do roteiro desta sequência).

Mas antes temos um longo e um tanto quanto desnecessário flashback que não serve para muita coisa a não ser apresentar o personagem de Cillian Murphy. Ali conhecemos Emmett, aparentemente um amigo da família com contatos no exército, mas nada disso será usado mais a frente. Fica a impressão de que Emmett é a figura masculina da vez na ausência de Lee.

Enquanto isso, acompanhamos a tentativa de Evelyn (Emily Blunt) de sobreviver junto com seus três filho. Entre eles Regan (Millicent Simmonds), que dias atrás (no filme anterior para os espectadores) havia descoberto um ponto fraco das criaturas alienígenas, que dá aos humanos uma pequena vantagem na tentativa de exterminá-las.

O maior problema desta sequência é a falta de ideias novas. Se fosse apenas um capítulo de série, daria para dizer que era um bom episódio que continua a história em questão, mas andando de lado, sem avançar muito. Como na verdade é um filme, é um pouco triste ver que ele não avança em praticamente nada na história. Os personagens continuam tendo que fugir sem fazer nenhum barulho, os humanos continuam se escondendo dos alienígenas em silêncio, Evelyn continua tendo que cuidar de um bebê que neste mundo é uma verdadeira bomba relógio e a tensão e os truques do primeiro filme apenas se repetem no segundo.

Do meio para o final do filme, Regan descobre o que pode ser uma solução para destruir as criaturas. Uma ilha de onde uma estação de rádio transmite em looping uma única música. Ela decide ir lá, Emmett a acompanha, a família se separa e parece que teremos uma busca de uma solução para a trama. Ao chegar na marina a procura de um barco, um grupo é atacado pelos monstros e descobrimos que as criaturas não podem nadar. Uma informação que poderia ser relevante, pois isso converteria a ilha numa zona de segurança deste mundo pós-apocalíptico. Mas a informação não é usada como uma forma de os humanos levarem vantagem na luta pela sobrevivência. Pelo contrário, um barco surpreendentemente — ou melhor, convenientemente — chega a deriva com um monstro justamente até a ilha. Soou como um recurso barato de filme B para levar o monstro até lá. Este foi o maior exemplo da falta de ideias que este filme tem. No jogo de forças entre humanos e monstros, não é possível que o roteiro tenha sido tão empacado e ausente de ideias que fizessem avançar a história.

O que fica de bom de “Um lugar silencioso: parte II” é apenas a repetição dos recursos do primeiro filme. O personagem do Cillian Murphy revela-se quase desnecessário em uma história que fica empacada e não traz nada além do que já não foi visto. Para ver mais do mesmo não era necessária uma continuação.

Cotação da Corneta: nota 6.



Viúva Negra e a despedida de Scarlett Johansson da personagem

Scarlett se despede em belo filme
A Viúva Negra sempre foi uma personagem querida e popular dos fãs de quadrinhos. Pelo menos desde o primeiro filme dos Vingadores, lá em 2012, um filme solo da personagem era desejado. A Marvel demorou demais. Mas antes tarde do que nunca. “Viúva Negra” (Black Widow, no original), primeiro filme da fase 4 do Universo Cinematográfico da Marvel, finalmente chegou aos cinemas após diversos adiamentos causados pela pandemia de Covid-19. A longa espera e os diversos contratempos foram compensados por um trabalho que, embora controverso entre os críticos, eu me alinho entre os que gostaram do filme.

“Viúva Negra” é bem escrito, bem dirigido, tem uma história muito legal, tem boas atuações de seus atores, tem excelentes cenas de ação. Em resumo, é a Marvel mais acertando do que errando. “Viúva Negra” se coloca entre os pontos altos do longo universo desenvolvido pelo estúdio e deixa como questionamento qual seria o potencial deste filme se tivesse sido lançado primeiro num momento mais próximo ao tempo em que ele passa, ou seja, após “Capitão América — Guerra Civil” (2016). Em segundo lugar, sobre o que ele teria feito de bilheteria num mundo normal em que todos podem ir ao cinema.

Nunca saberemos. O que é certo é que o filme dá certo em quase todos os seus aspectos e, num momento em que a Marvel lança séries que não atingiram o potencial esperado, “Viúva Negra” mostra que o estúdio ainda tem boa lenha para queimar e aquecer o coração de seus fãs.

Não é por acaso, aliás, que “Viúva Negra” tem entre suas escritoras a mesma Jac Schaeffer responsável por “WandaVision”, a melhor das três séries da Marvel lançadas até aqui no Disney Plus (as outras são “Falcão e o Soldado Invernal” e “Loki”). Junto com Eric Pearson e Ned Benson, Schaeffer aqui acerta de novo ao investigar o passado da personagem estrelada por Scarlett Johansson criando um filme que é sobre famílias despedaçadas que estão tentando se acertar, mas também sobre vingança, passagem de bastão e que se mostra relevante dentro do universo transmedia da Marvel, explicando pontas da personagem que ficaram perdidas ao longo das fases do estúdio (finalmente sabemos o que aconteceu em Budapeste entre Natasha e Clint Barton), e dando à personagem a importância que ela têm dentro dos Vingadores, com suas camadas e sua história complexa.

E neste contexto, Scarlett entregou uma de suas melhores atuações no papel de Natasha. Tudo isso sendo muito bem assessorada por Florence Pugh (Yelena Belova), uma estrela em ascensão, David Harbour (Guardião Vermelho), que surge como o alívio cômico do filme, e Rachel Weisz, que faz Melina Vostokoff, que os fãs dos quadrinhos conhecem como a Dama de Ferro. Além deles, temos um Ray Winstone inspirado como Dreykov, sendo a sua cena com Natasha na parte final uma das melhores do filme.

É ima pena que Scarlett não deve retornar à personagem. Não apenas porque conhecemos o seu destino, revelado em “Vingadores: Ultimato” (2019), mas porque a tendência é que a Marvel a substitua por Pugh. Infelizmente. Acho que as duas podiam conviver juntas, pois Scarlett se mostrou tão importante quanto Robert Downey Jr, Chris Evans e Chris Hemsworth na construção deste Universo do estúdio. Sua Viúva Negra é tão relevante quanto o Homem de Ferro, o Capitão América e o Thor, interpretado pelos três atores aqui citados.

Mas o legado de Natasha tem tudo para continuar com Pugh, Harbour e Weisz, que esperamos que retomem seus personagens em futuros filmes.

Lamentos à parte, “Viúva Negra” pega a personagem num momento completamente quebrada. O filme se passa imediatamente após os acontecimentos de “Guerra Civil”, em que os Vingadores se dividiram por causa do Tratado de Sokovia. A família de Natasha está rompida enquanto ela é forçada a procurar a sua família falsa russa na busca por finalizar uma missão do passado: acabar com o Salão Vermelho, onde mulheres são treinadas cruelmente para virarem assassinas de aluguel de Dreykov.

O filme aqui aproveita para tocar em questões importantes como o tráfico de mulheres e a invisibilidade de jovens que vivem à margem da sociedade e são “recrutadas” para servirem à uma organização que, no fundo, não deixa de ser terrorista, influenciando em toda a geopolítica do planeta com suas ações.

É na tentativa de resolver estas questões do passado, de entender o papel do que Natasha conhece como família, embora sua construção tenha sido muito falsamente criada dentro de um departamento de espionagem do governo russo nos Estados Unidos, que a personagem buscará forças para encontrar a paz interior que precisa para ajudar a resolver o problema com a família que a adotou, a dos Vingadores. E o resto da história nos conhecemos muito bem.

Assim, o filme se equilibra entre acenar para grandes temas e investigar a intimidade de uma personagem que está num momento de reconstrução para poder finalmente se reerguer.

Talvez a única crítica que se possa fazer ao filme seja o papel do Treinador. Um vilão B, mas que dentro deste grupo está entre os mais legais da Marvel, com um poder de copiar tudo de quem ele está enfrentando, merecia um tratamento melhor do que a ideia que lhe deram para o cinema. O Treinador podia voltar em outro contexto, pois ele tem um potencial a ser explorado.

Cotação da Corneta: nota 9.



sábado, 26 de junho de 2021

Cantoria, imigração e o sonho americano “Em um bairro de Nova York”

Usnavi e Vanessa rebolando para viver
Trabalho seguinte de Lin-Manuel Miranda depois do estrondoso sucesso de “Hamilton” (2020), “Em um bairro de Nova York” (“In the hights”, no original) já sofreria por si só com a pressão das comparações que teria com o grande sucesso que contava a história dos fundadores dos Estados Unidos com uma trilha sonora de rap, hip-hop e R&B. Até por também ser um musical.

É claro que “Em um bairro de Nova York” não tem a mesma força de “Hamilton”, mas não quer dizer que o filme se saia mal numa análise mais aprofundada. Pelo contrário, o trabalho dirigido por Jon M. Chu e roteirizado por Lin-Manuel Miranda e Quiara Alegria Hudes é muito interessante e trata de temas importantes, que não ficam escondidos mesmo com a alegria, leveza e beleza que este musical traz.

O filme conta a história de um grupo de imigrantes e descendentes de imigrantes que vivem num bairro do subúrbio de Nova York. Em Washington Heights, estão cubanos, mexicanos, porto-riquenhos, dominicanos… todos vivendo uma vida dura, simples, mas feliz e sonhando com uma realidade melhor.

É ali que vive Usnavi (Anthony Ramos), o querido dono de uma bodega que sonha em voltar para a República Dominicana. Usnavi deixou o país aos oito anos de idade, mas tem uma querida lembrança da ilha onde, ao lado do pai, viveu “os melhores anos da sua vida”. Seu objetivo é juntar cada centavo possível para poder voltar ao país junto com a abuela Claudia (Olga Merediz), a sorridente matriarca de todos no bairro.

Usnavi, porém, tem uma queda pela bela Vanessa (Melissa Barrera), que trabalha como manicure no salão de Daniela (Daphne Rubin-Vega), Carla (Stephanie Beatriz) e Cuca (Dascha Polanco), mas deseja mesmo virar uma estilista famosa e sair do bairro em que vive num apartamento ruim de frente para a linha do trem.

Ali perto, também vive Nina (Leslie Grace), espécie de irmã de Usnavi e que sofre com a pressão de ser a única que deixou o bairro para cursar uma universidade em Stanford, na Califórnia. Ela é o orgulho do bairro e do pai, Kevin (Jimmy Smits), que faz tudo por ela. Nina é o interesse romântico de Benny (Corey Hawkins), que trabalha na pequena empresa de Kevin, que vive em dificuldades financeiras.

Junto destes orbitam uma série de personagens que dão todo um colorido particular ao bairro, lidando com os problemas pessoas com muito otimismo e esperança.

“Em um bairro de Nova York” é um filme leve, com algumas belas canções, mas trata de temos muito importantes. Através das imagens bonitas, quase idílicas da Washington Heighrs filmada por Chu, vemos serem levantados temas relevantes em torno da imigração, da sensação de pertencimento a um lugar e da busca e reconhecimento de uma identidade própria. Personagens se questionando sobre suas próprias origens, sobre o que de fato se constitui a sensação de se estar em casa, o peso de não apenas viver a própria vida, mas carregar toda uma bandeira e bagagem cultural consigo quando se atinge uma posição mínima de destaque e as diferenças culturais.

Ao longo de 2h20m, vamos acompanhando como cada um dos personagens lidam com estas questões. Usnavi vive o sonho de uma Porto Rico encantadora pela infância e pelo tempo que passou ao lado de um pai que já faleceu. Para ele, foram os melhores momentos da sua vida, esquecendo-se que nos 20 anos seguintes ele construiu ali em Nova York relações de amizades muito fortes e leais e o respeito de todos num bairro que, por si só, está passando por mudanças causadas pela gentrificação da região. Este é outro tema abordado pelo filme a partir da necessidade do salão de beleza de Daniela, Carla e Cuca ter que deixar a região por causa do aumento dos aluguéis.

Vanessa, por sua vez, vive em negação daquela cultura. Ela quer ser estilista famosa, transpor a barreira da sua origem e se internacionalizar como a cosmopolita Nova York. Vanessa não quer ter problemas para alugar um apartamento por causa da sua origem. Mas só muito a frente ela vai perceber que a sua força está no que a faz ser única, bem como a própria força de Nova York está nas individualidades culturais tão únicas que constroem o dia a dia da cidade.

Já Nina carrega o fardo de ser a destaque do bairro. Enquanto todos pensam que ela vai brilhar e levar para o mundo o nome de Washington Heights, o que ela encontra lá fora, longe do ecossistema que tanto ama e sente saudades, é uma vida dura de xenofobia e desconfiança. Mesmo numa universidade conceituada. Ao contrário de Vanessa que sente a repulsa, mas se encontra dentro da cultura, Nina quer cada vez mais estar com a sua gente enquanto o bairro a “expulsa” para o mundo, dando a ela a dura missão de resolver as frustrações de todos que permanecem e permanecerão ali vivendo. Cabe a Nina ensinar ao pai, e, consequentemente, ao bairro que, por vezes, não há lugar como o próprio lar para renovar as energias e pensar em passos melhores a serem dados no futuro.

Todos no bairro têm questões com as quais lidar, nem sempre os caminhos serão os melhores, mas sim os possíveis. Tal qual a vida. “Em um bairro de Nova York” pode não ser brilhante como “Hamilton”, mas é bonito e divertido, expõe com beleza parte da riqueza cultural latino-americana. Tudo com bonitas e envolventes canções. É daqueles filmes good vibes para levantar um pouco o astral em tempos tão pandemônicos.

Cotação da Corneta: nota 7,5.

terça-feira, 15 de junho de 2021

"Cruella" e as justificativas para um vilão ser mau

Cruella pronta para estourar a boca do balão
Segundo filme da Disney focado em uma vilã do seu universo depois de “Malévola” (2014), “Cruella” não chega a ser uma tristeza completa como os dois filmes estrelados por Angelina Jolie, mas é preciso ligar a suspensão da descrença em modo turbo para justificar a origem das vilanias de Cruella de Vil (Emma Stone).

E esse é um problema de filmes focados em vilões que vimos também no “Coringa” (2019). A tentativa de normalizar o comportamento “psicopata” de alguém a partir de um trauma passado numa busca de encontrar ou criar camadas de profundidades que explorem uma humanidade daquele personagem que sabemos que é ruim. E por causa disso “Cruella” tem que rebolar muito para dar um sentido a uma pessoa que é má.

Não que os vilões não tenham que ter camadas e desenvolvimentos. É necessário e fundamental. Mas o antagonista não vive sem um protagonista. E quando o vilão vem para o foco do protagonismo, é preciso criar um antagonista que puxe ainda mais os limites anteriormente estabelecidos. No caso do Coringa era a sociedade decadente e caótica em uma vida miserável. No caso de Cruella, a figura da Baronesa (Emma Thompson), estilista extremamente cruel e egocêntrica que humilha todos os seus empregados e todos ao seu redor, os trata como lixo e tem uma personalidade absurdamente narcísica. Mais a frente entendemos, inclusive, a dinâmica entre ela e Cruella a partir de um plot twist, que não faz muito sentido e não funcionou muito bem.

A Baronesa, porém, acaba sendo o personagem mais interessante do filme. Mérito total de Emma Thompson. Emma Stone também não está mal, mas no duelo de Emmas, Thompson leva vantagem.

É questionável, porém, se funciona bem a dinâmica de rivalidade entre elas. Duas mulheres que se detestam por motivos que o filme tenta explicar a partir de um passado cujas verdades vão se descortinando com o passar do filme.

No fim, o que há de melhor no filme está na questão estética. Os figurinos e a maquiagem se destacam na produção, especialmente nos momentos em que Cruella está exibindo a sua arte para o mundo. A trilha sonora também é excelente, embora intermitente e sem deixar o filme respirar um pouco. Praticamente não há momentos de silêncio entre diálogos e música em mais de duas horas, jogando o filme numa desnecessária montanha-russa sonora.

Além disso, outro destaque é a carismática presença de Paul Walter Hauser no papel de Horace. O ator tem um ótimo tom cômico e todas as vezes que está em cena são cenas marcantes e divertidas.

Apesar destes destaques positivos, “Cruella” está longe de ser um grande filme. Ficou devendo. Mas talvez vejamos um segundo filme que, passada a fase do filme de origem, vejamos novas camadas sendo exploradas. Uma sequência de “Cruella” pode ser mais interessante e este filme mostrou uma história que tem potencial para crescer e não cair de forma decadente como a história de Malévola.

Cotação da Corneta: nota 5,5.



sexta-feira, 28 de maio de 2021

"Army of the dead" mais decepciona do que diverte

Scott e sua equipe de badass
Retorno de Zack Snyder ao mundo dos zumbis desde “Madrugada dos Mortos” (2004) e primeiro filme inédito do diretor desde todo o embrolho envolvendo a sua versão da “Liga da Justiça”, lançada neste ano pela HBO, “Army of the Dead: Invasão em Las Vegas” pode ser resumido da seguinte maneira: Uma série de boas ideias, algumas boas cenas de ação, mas um resultado final decepcionante, confuso e cheio de buracos.

O maior calcanhar de Aquiles do filme é o roteiro escrito por Snyder junto com Shay Hatten e Joby Harald. Não necessariamente a história em sua essência, mas especificamente os diálogos. Alguns deles chegam a ser constrangedores. Piadinhas desnecessárias, reflexões sobre o universo e o multiverso que não cabiam e alguns momentos de diálogos tão vazios que não parecem ter sido feito por profissionais que trabalham há anos com cinema.

(ATENÇÃO QUE A PARTIR DE AGORA HAVERÁ POTENCIAIS SPOILERS)

“Army of the dead” tinha uma premissa inicial muito boa. Combinar o gênero de filmes de zumbi com o de filme de assalto. Junto a isso, Snyder teve outra ideia muito boa que foi criar toda uma sociedade entre os zumbis dividida por castas em que há os tradicionais zumbis trôpegos e os chamados zumbis alfas, mais ágeis, espertos, que tem um mínimo raciocínio desenvolvido e, portanto, podem ser um real desafio no um contra um diante daqueles que os enfrentam.

Neste ponto, era possível construir um filme muito legal e divertido. Você tem a premissa interessante. Ou seja, Las Vegas esta sitiada por um vírus zumbi, mas é uma cidade tomada de dinheiro. Um grupo de mercenários é contratado para ir até o cofre de um prédio da cidade para pegar US$ 200 milhões com a promessa de quem os contratou de ficar com US$ 50 milhões. Mas para isso, é preciso enfrentar uma horda de zumbis que evoluíram com o passar do tempo em que estiveram sitiados na cidade.

Era, portanto, fazer o protagonista do filme, no caso Scott Ward (Dave Bautista) reunir a sua equipe de badass com habilidades diferentes, o que é um clássico dos filmes de ação e aventura, ir lá, enfrentar os zumbis em algumas cenas incríveis e sair de lá ou não. Dependendo da vontade do diretor.

Mas Snyder quis encher o filme de camadas sem ter tempo e sem ter um texto com profundidade para isso. E este foi o seu maior erro. O diretor terminou o filme em 2h30min em que deixou buracos de roteiro e continuidade até para espectadores mais desatentos.

Snyder, portanto, tinha um filme de zumbi para contar como funciona aquele grupo de mortos-vivos. Um filme de assalto, que norteia a história. Um flerte com a crítica social, pois o seu trabalho também exibe uma certa visão pessimista da sociedade e do capitalismo, onde pessoas preferem se arriscar a morrer em troca de um punhado de dinheiro que vai mudar as suas vidas, e uma piscadela para a questão da imigração e campos de refugiados. Mas ele também constrói um filme em que há a preocupação com a família na relação conflituosa de Scott com a sua filha Kate (Ella Purnell). Além de tudo isso, há também uma preocupação em apontar para o futuro, apesar do final quase apocalíptico. Ao atirar para todos os lados, Snyder não se aprofunda em nada e o filme não acontece em toda a sua potencialidade.

Entendo o cinema como um retrato microscópico de um momento da vida naquele universo em que você está jogando o seu foco. É impossível resumir uma vida, qualquer vida, em duas horas. Por isso, é preciso ser cirúrgico nas escolhas. Ao abrir demais o leque, Snyder fez um filme que, na verdade, poderia ter sido uma série de TV que desse conta de tudo o que ele poderia e queria abordar. Em oito ou dez episódios, “Army of the dead” funcionaria melhor do que em um filme. E assim, Snyder desperdiçou algumas boas chances de fazer um grande filme, o que não vimos, convenhamos, desde “Watchmen” (2009).

Snyder ainda sabotou a própria história ao inserir a trama da Coiote (Nora Arnezeder). Se o objetivo do bilionário Bly Tanaka (Hiroyuki Sanada) era, na verdade, ter a cabeça de um zumbi alfa vivo para analisar o seu DNA e conseguir criar um exército de zumbis alfas, ele não precisava ter inventado a ideia de contratar um grupo de mercenários e mandar um homem de confiança dele para cumprir a real missão. Bastava mandar o seu homem contratar a Coiote para ir até lá buscar um zumbi alfa e pronto. Assunto encerrado. E é óbvio que um bilionário com conexões no submundo sabe que existem pessoas vivendo livremente nos campos de refugiados que colocam seres humanos dentro de Las Vegas em busca de dinheiro. A trama da Coiote, portanto, anula toda a premissa do assalto e da busca por dinheiro enfrentando zumbis.

Esse é apenas o grande buraco, mas “Army of the dead” tem outros problemas. O fato de a mulher por quem Kate sai em busca — e inclusive é por causa dela que Kate entra em Las Vegas com o pai — simplesmente desaparecer na cena final do helicóptero é outro problema. Kate arriscou a vida por ela e não sabemos se ela viveu ou morreu. E em alguns momentos ela nem parece estar no helicóptero enquanto Scott está lutando com Zeus, o zumbi Rei (Richard Cetrone). Presume-se que a mulher morreu, mas nunca sabemos.

Sem contar a inverossimilhança (até para um filme que tem zumbis) de Vanderobe (Omari Hardwick) ter sobrevivido a um ataque nuclear mesmo estando dentro de um cofre num dos prédios de Vegas. Por mais que o cofre se convertesse num bunker improvisado de um ataque nuclear, não era um bunker real. Ele teria um prédio inteiro destruído em sua cabeça. E ainda que conseguisse escapar do prédio, ele seria afetado de alguma forma pela radiação. Mas ele não só sai bem como sai com muito dinheiro e demora horas para começar a ser afetado pelo vírus zumbi ao passo em que para outros personagens a transformação foi quase automática.

É uma pena que “Army of the dead” tenha dado tão errado. Pois ele tem bons personagens. Gosto do Scott Ward, um brutamontes que na verdade tem mais reflexões sobre a vida para fazer do que apenas ser um matador de zumbis fortão tipo herói de filmes do Schwarzenegger dos anos 80. Gosto da rainha zumbi (Athena Perample), uma personagem que, por mais bizarro que seja, eclipsa a tela toda vez que aparece. Acho que ela durou muito pouco e podia ter sido melhor explorada, pois era melhor, inclusive, do que Zeus. E acho que a equipe que Scott monta para a sua aventura é muito legal. Especialmente Vanderobe e a carismática piloto de helicóptero Marianne (Tig Notaro).

Estes personagens são o ponto forte do filme junto com algumas boas cenas de ação e o incrível trabalho de CGI e maquiagem feito pelos responsáveis por estas áreas no filme. A ideia do tigre zumbi era ótima, embora ele também tenha sido pouco aproveitado.

No fim, “Army of the dead” só não é exatamente péssimo porque, mesmo dentro do seu vazio, ele de certa forma diverte. Logo, não chega a ser uma perda de tempo, mesmo para quem resiste a 2h30min. Mas havia ali muito potencial para um grande filme que foi desperdiçado.

Cotação da Corneta: nota 5,5.



quarta-feira, 28 de abril de 2021

“Falcão e o Soldado Invernal”: discussões importantes e furos

Sam Wilson como novo Capitão América
Segunda série da Marvel a entrar no streaming da Disney, “Falcão e o Soldado Invernal” pode ser analisada por pelo menos dois ângulos. Se observarmos a série sob um ponto de vista acadêmico da discussão de um tema racial e o papel do Capitão América para o caso do personagem de Sam Wilson (Anthony Mackie), e dos traumas de muitas guerras, a questão da culpa e perdão para o caso de Bucky (Sebastian Stan), é possível tirar muitos elementos interessantes.

Por outro lado, analisar apenas o aspecto narratológico da série, seu papel no universo Marvel e a construção da história em si faz a série perder muitos pontos, dado os seus buracos e problemas na jornada ao longo de seis episódios. Tudo culminando com um episódio final óbvio, esquecível, acelerado e pouco inspirado.

Vamos tentar dissecar estes dois aspectos antes de uma conclusão a partir de intercessões. E a partir deste ponto, teremos spoilers da série.

Falando do primeiro ponto. “Falcão e o Soldado Invernal” trouxe como pontos de discussão três questões:

  1. O tema racial a partir do peso de ter um Capitão América negro, uma vez que o herói representa o ideal americano. Ideal este que a história americana mostra que nunca foi a da inclusão de negros na sociedade.

Neste ponto, é muito importante o contraponto e as ideias trocadas entre Sam Wilson e Isaiah Bradley (Carl Lumbly), um antigo supersoldado negro que foi alvo de experiências por parte do governo americano e usado como cobaia por cientistas por ter sido o único sobrevivente com soro numa época em que Steve Rodgers e Bucky ainda não tinham sido encontrados e estavam em algum ponto do planeta congelados.

Neste ponto é muito forte o que Isaiah diz para Wilson ao afirmar: “A América nunca aceitará um Capitão negro e nenhum negro aceitaria vestir as estrelas e as listras”.

Como já sabemos, e tal qual nos quadrinhos, Wilson resolve carregar esse peso a mais nas costas para tentar ser a imagem da coalizão e carregar uma bandeira que não é apenas a do Capitão América, mas a da inclusão e do respeito aos negros naquela sociedade. E a importância de ser um representante positivo para os jovens. Nas palavras de Wilson, ele quer tentar uma “abordagem diferente”, mesmo sabendo que será odiado por muitos negros como ele e considerado alguém que se curvou a um sistema opressor e racista.

Mas ainda assim, dentro do debate da representatividade que a Marvel foi muito cobrada ao longo dos últimos anos e, por isso, forçada a entrar, é bem bonita a cena do sobrinho de Wilson tocando com carinho o escudo e passando os dedos nele enquanto olha orgulhoso para o tio. Nesta cena, temos a representação imagética direta do que a série tanta passar. É o tipo de cena que ajuda, inclui, e insere o Capitão América que Wilson será agora como um novo herói negro. Além de ser uma aposta da Marvel como potencial substituto de Chadwick Boseman, ator que vivia o Pantera Negra e faleceu de câncer no ano passado.

2- O segundo ponto é o estresse pós-traumático de Bucky e sua busca pelo perdão.

Se Wilson tenta ser uma bandeira e levantar as questões do racismo, o arco de Bucky é o do soldado quebrado, sofrendo de culpa e com dívidas a pagar. Não podemos esquecer que ao longo do primeiro arco narrativa do Universo Marvel, que se encerrou com “Vingadores: Ultimato” (2019), o Soldado Invernal foi manipulado por Zemo (Daniel Brühl), viveu a serviço da Hydra e matou dezenas de inocentes.

Na série, Bucky está em tratamento com uma psicóloga, tem que lidar com traumas do passado e sente-se perdido e sem identidade depois dos sacrifícios de Steve e da forma como Wilson abre mão do escudo que receberá das mãos de Steve.

Enquanto tenta ajudar o parceiro, Bucky passa a série toda tentando encontrar seu lugar neste mundo pós-blip, fora do seu tempo normal — afinal, tal qual Steve, Bucky é um homem do início do século XX em pleno século XXI — e sem o seu grande amigo. Tudo isso tentando buscar uma espécie de redenção e paz de espírito.

3- Há ainda um terceiro tema explorado. E eu diria mal e confusamente explorado, que é o dos Apátridas e a discussão de refugiados pós-retorno do blip, a estalada de dedo de Thanos que dizimou metade do Universo.

Aqui temos um grupo chamado de Apátridas liderado por Karli Morgenthau (Erin Kellymann) que acredita que o mundo era melhor durante os cinco anos em que metade do Universo estava desaparecido e cobra a abertura de fronteiras nacionais através do slogan “One world, one people” enquanto os políticos do mundo estão decidindo se usarão o exército para empurrar os refugiados para outros lugares.

Vilã da série, Karli é uma das pessoas que tomou o soro do supersoldado, o que a confere superforça e agilidade como a do Capitão América. E ela tenta usar isso pra convencer o mundo das suas ideias. Mas essa parte da história não é bem contada, as discussões não são minimamente aprofundadas para além do debate um tanto quanto raso de ideias. Me pareceu o ponto mais fraco dos três aspectos aqui citados.

É quando entramos no aspecto narrativo da série. Embora comece bem com um piloto muito bom e excelentes cenas de ação, “Falcão e o Soldado Invernal” vai caindo de produção até o episódio final.

Além do já citado problema da vilã, a série tem pelo menos mais três problemas.

1- O arco do John Walker (Wyatt Russell).

Quem conhece os quadrinhos sabe que John Wallker não ia ficar muito tempo com o manto do Capitão América. Toda a história dele assumindo o uniforme seria para que ele cometesse erros, graves erros, e para que o o uniforme, o escudo e o título fosse, assim, passado para Sam Wilson. O que empobreceu a série por conta da sua obviedade narrativa. Lá pelo episódio 4, especialmente depois da dramática cena de Walker com o escudo ensanguentado, ficou claro que “Falcão e o Soldado Invernal” foi uma série criada única e exclusivamente para fazer de Sam Wilson o Capitão América. Todo o resto seria extremamente secundário. E foi exatamente o que vimos no início do sexto e último episódio.

A Walker restou rapidamente vestir o manto do Capitão América para que ele pudesse entrar em descrédito e se transformar no conhecido personagem do público dos quadrinhos Agente Americano. O que ele fará a partir de agora? É uma resposta que apenas Val de la Fontaine (Julia Louis-Dreyfus), também conhecida como Madame Hydra, poderá responder. E muito provavelmente esta resposta será dada em “Capitão América 4”, futuro filme que foi confirmado ao fim da série.

Por sinal, pequena observação. Isso só confirma o movimento da Marvel de contar pequenas histórias no streaming que se conectarão com grandes histórias no cinema.

Porém, o arco do John Walker deixou a desejar, uma vez que ele foi apenas escada para Sam Wilson assumir o escudo.

2- Outro problema foi a presença de Sharon Carter (Emilly VanCamp).

Essa personagem talvez tenha sido a mais prejudicada da série. Apareceu do nada num episódio passado em Madripoor apenas para atiçar os fãs de quadrinhos, pois esta é a ilha onde o Wolverine passou um bom tempo da sua vida, ajudou um pouco os heróis e depois reapareceu surpreendentemente como Mercador do Poder numa tentativa de plot twist no final que ficou bem ruim e não convenceu ninguém.

Pior do que Walker, Sharon não foi nem escada. Ela foi um personagem jogador para qualquer lado e não foi explicado por que ela se tornou quem é, qual era sua real relação com os Apátridas e nem se deu uma pista mínima do que ela pretende fazer daqui para frente. Sharon foi uma personagem extremamente mal aproveitada na série.

3- E assim chegamos ao episódio final.

No sexto episódio era preciso em cerca de 50 minutos fechar todos os arcos. Mostrar a ascensão de Wilson como Capitão América, a redenção do Soldado Invernal, um eventual desfecho do Zemo — que teve bons momentos na série — Walker transformando-se no Agente Americano e um desfecho para Sharon.

Era muita coisa, mas era possível fazer. Ainda assim, o episódio mostrou-se acelerado demais, panfletário demais e com alguns momentos do roteiro um pouco constrangedores, como aquele momento palestrinha do Wilson com os senadores no meio da rua. Não estamos aqui condenando o tom do discurso, mas a forma como ele é inserido no episódio. Há recursos no roteiro melhores e a própria série mostrou isso no episódio 4 quando quis debater a causa dos Apátridas ou no episódio 5, quando é debatido o racismo e o uso do manto do Capitão América.

Com isso, a redenção pessoal do Soldado Invernal virou quase uma nota de pé de página, enquanto as conclusões de Sharon e Walker pareceram meio jogadas na tela apenas para dar uma satisfação mínima ao consumidor.

É inevitável fazer comparações neste momento. E é uma pena que “Falcão e o Soldado Invernal” não tenha tido o mesmo cuidado narrativo que a série anterior da Marvel, WandaVision”. No fim, esta acabou por ter uma história mais redonda e bem contada enquanto “Falcão e o Soldado Invernal” apresentou uma série de problemas, buracos de roteiro ao longo dos episódios, e entregou um episódio final muito abaixo do esperado.

O que não significa que a série tenha sido ruim. Pelo contrário, os bons momentos dela superam os momentos ruins. Mas a série e a Marvel tinham potencial de entregar um produto mais bem acabado.

Cotação da Corneta: Nota 7.