domingo, 2 de dezembro de 2012

Comentários e a seleção do Brasileiro

Fred com a taça do tetra/Photocamera
O Fluminense se arrastou nas últimas três rodadas como um indivíduo que passou as últimas três semanas na night bebendo caipisaquê. Com a natural queda motivação, atenção e tudo o mais que impulsiona um time a conquistar um título, era natural que o tricolor se despedisse do Campeonato Brasileiro com duas derrotas e um empate e sem o tão falado recorde de pontos do São Paulo.

Mas é inegável que embora tenha estacionado nos 77 pontos contra 78 do tricolor paulista campeão em 2006, o Flu sobrou no campeonato e se despediu com méritos com a quarta estrela nacional no peito.

Desde que assumiu a liderança na 22ª rodada, a equipe de Abel Braga não a perdeu jamais apesar da corrida desenfreada do Atlético-MG para encerrar um jejum de 41 anos e da chegada perigosa e constante do Grêmio crescendo na reta final. Mas faltou tanto ao Atlético quanto ao Grêmio o que o Flu tinha de sobra: elenco. Não foram poucas as vezes que o Tricolor venceu sem Deco ou Fred, as duas maiores estrelas da companhia.

Por isso, o título ficou em boas mãos e o Fluminense tem time para brigar pelo pentacampeonato e pelo tão sonhado título da Copa Libertadores em 2013. Precisa apenas de alguns reforços. Principalmente na defesa. Embora ela tenha sido a melhor do torneio com 33 gols sofridos, mesmo número do Grêmio.

Dito isto, vamos ao que interessa. A seleção do Brasileirão de 2011. Óbvio que ela é dominada por Fluminense e Atlético-MG.

Diego Cavalieri, o melhor goleiro/Photocamera
Goleiro: Diego Cavalieri (Fluminense) – Para muitos foi o melhor jogador do campeonato. Diego Cavalieri pegou até pensamento na campanha tricolor. Foram defesas milagrosas e decisivas para que o Flu levasse o seu quarto título nacional. Diego chegou no Flu no ano passado, mas demorou a conquistar a confiança da torcida e a vaga de titular. Quando esteve plenamente adaptado, agarrou a posição e não a largou mais. Foi tão importante que acabou convocado para a seleção brasileira. Foi disparado o melhor goleiro do campeonato.

Lateral-direito – Marcos Rocha (Atlético-MG) – A posição de lateral é um problema no futebol brasileiro, mas Marcos Rocha fez um belo campeonato pelo Atlético e merece figurar na seleção do Brasileiro.

Dupla de zaga – Gum (Fluminense) e Leonardo Silva (Atlético-MG) – A melhor defesa do campeonato tinha que ter pelo menos um representante. E Gum fez um belo campeonato. Falhou como todos, mas no final teve muito mais pontos positivos do que negativos. Ao seu lado outro zagueiro que fez um torneio irretocável. Leonardo Silva foi o melhor jogador de defesa do Atlético e merece estar na seleção.

Lateral-esquerdo: Cortez (São Paulo) – Carlinhos foi o escolhido da CBF, Anderson Pico esteve liderando a disputa pela Bola de Prata da Placar. Isso comprova que a lateral-esquerda não é uma unanimidade. A minha escolha acabou sendo o Cortez, que fez um bom campeonato pelo São Paulo.

Dupla de volantes: Paulinho (Corinthians) e Jean (Fluminense) – O volante do Corinthians foi um dos melhores jogadores do Brasil em 2012. Conquistou a vaga de titular na seleção brasileira e comandou o time paulista na Libertadores. Mas aqui o papo é Campeonato Brasileiro, certo? Sim, e Paulinho foi um dos destaques mesmo em um Corinthians que pouco fez no torneio, usado apenas como preparação para a disputa do Mundial deste mês. Já Jean foi responsável por arrumar o meio-campo do Fluminense. Defende muito bem, tem bom passe e sabe ir à frente. Foi um ajudante de luxo para Deco e Thiago Neves e fundamental na conquista do título tricolor.

Ronaldinho, destaque do Galo/Divulgação/Atlético
Dupla de meias: Bernard (Atlético-MG) e Ronaldinho (Atlético-MG) – Os dois jogadores do Atlético foram os principais responsáveis pela bela campanha do Galo no campeonato. Bernard foi a grande revelação do Brasileiro e Ronaldinho voltou a jogar muito bem depois que se transferiu do Flamengo para o clube mineiro. Foi a liderança técnica que conduziu o Atlético ao vice-campeonato.

Atacantes: Fred (Fluminense) e Wellington Nem (Fluminense) – A dupla de ataque tricolor merece desbancar Neymar, ainda que o atacante do Santos seja o melhor jogador do Brasil. Fred foi o artilheiro da competição com 20 gols e o craque do Campeonato Brasileiro com gols decisivos que ajudaram a garantir o tetra. Ao seu lado, Wellington Nem, que ganhou da torcida o apelido de “Messi de Xerém”, fez uma parceria incrível com o centroavante e foi decisivo na campanha tricolor.

Wellington Nem, decisivo no Flu/Photocamera
Técnico: Cuca (Atlético-MG) – Abel foi comandante do time campeão e Vanderlei Luxemburgo recuperou o prestígio com a ótima campanha do Grêmio, mas vou fazer uma opção pelo técnico que fez um time jogar um futebol mais envolvente e vistoso. Cuca é o nome. Responsável por fazer o Atlético voltar a brigar pelo título, o treinador armou um time que em alguns momentos do torneio dava gosto de ver jogar. Só falta mesmo ao técnico um título de expressão. Mas talvez ele esteja perto disso.

Concluindo – Então a seleção do campeonato ficou assim: Diego Cavalieri (Fluminense), Marcos Rocha (Atlético-MG), Gum (Fluminense), Leonardo Silva (Atlético-MG) e Cortez (São Paulo); Paulinho (Corinthians), Jean (Fluminense), Bernard (Atlético-MG) e Ronaldinho (Atlético-MG); Fred (Fluminense) e Wellington Nem (Fluminense). Técnico: Cuca (Atlético-MG). Em relação ao time do ano passado, permaneceram quatro jogadores: Cortez, Paulinho, Ronaldinho e Fred.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

A vida começa aos 100

Fred, o novo ídolo do Flu/Photocamera
Há quem diga que a vida começa aos 40. Outros adotam a expressão “melhor idade” para falar sobre quem vive serelepe acima dos 60. Para o Fluminense, a melhor fase da sua vida começou aos 100 anos. Em 2002, o time tricolor conquistou o seu primeiro título no século XXI. O Campeonato Estadual. Um título menor, um torneio de bairro, é verdade, mas foi o início de uma arrancada que fez destes primeiros 12 anos do novo século os melhores da história do clube. 

Os títulos e as boas campanhas em torneios importantes comprovam que o Fluminense mudou de patamar no futebol brasileiro. Alimentada pelo dinheiro da Unimed, a empresa que atua como mecenas do clube das Laranjeiras, a geração dos anos 2000 surgiu para tirar da sarjeta um clube que sofrera três rebaixamentos seguidos na fase mais devastadora da sua história.

Se os anos 90 foram os piores da história do Flu, o século XXI veio para compensar todo o sofrimento que o torcedor tricolor sofreu naquele período. O Flu vive a sua era de ouro. Uma era maior até do que a Máquina de Francisco Horta ou o periodo do Casal 20.

A máquina tricolor da década de 70 comandada por Rivellino foi histórica. Até hoje é lembrada como um dos times que praticou o melhor futebol da história do clube, mas ganhou dois estaduais (numa época que eles valiam muito, é verdade), mas fracassou caindo nas semifinais de dois Campeonatos Brasileiros. E ainda ficou mais marcada por uma derrota, a famosa invasão corintiana do Maracanã, do que propriamente pelas conquistas.

A década de 80 trouxe um time pragmático e vencedor como o Fluminense atual. A equipe de Washington, Assis e Romerito foi tricampeã estadual (1983-84-85) e conquistou o segundo título nacional da história do clube, o Brasileiro de 1984 derrotando o Vasco na final. Fora isso e jogando numa década em que qualquer conquista deveria ser celebrada, pois o grande rival de todos no Brasil era o Flamengo de Zico, o time se destacou apenas por um quinto lugar no Brasileiro de 1982 e um sexto no de 86. Quando jogou a Libertadores sofreu um retumbante fracasso.

São duas gerações heroicas para o torcedor do Fluminense. Históricas. Mas nenhuma delas e nem outras tantas como a de Telê e Valdo ou a que levou o primeiro título brasileiro do clube em 1970 foram tão vencedoras como a atual. Nos últimos seis anos, o Fluminense ganhou três títulos nacionais. Foi campeão da Copa do Brasil em 2007 e campeão brasileiro em 2010 e 2012. Nesse período, disputou Libertadores em sequência, foi vice-campeão do torneio em 2008 e vice-campeão da Copa Sul-Americana em 2009. No período também emendou boas campanhas no Brasileiro. Foi quarto colocado em 2002, quinto em 2005, quarto em 2007, terceiro em 2011... 

Em 2009 foi 16º, mas a arrancada para fugir do rebaixamento foi tão espetacular e heroica que entrou para a história tricolor como o momento em que o Flu desmoralizou os matemáticos e forjou o novo apelido do clube, o do “time de guerreiros”.

O Fluminense também ganhou novos ídolos. Até a geração dos anos 2000, o último ídolo do clube fora Renato Gaúcho, o dono da barriga mais famosa do futebol carioca. Agora o tricolor pode chamar de ídolo nomes como Thiago Silva, Conca, Emerson (pois quem faz gol de título está na história), Fred, o artilheiro que ajudou a resgatar o time em 2009 e foi fundamental na campanha do título deste ano.

Se você tivesse que escalar um time de todos os tempos do Fluminense, provavelmente nenhum deles estaria na equipe. Mas são eles que ajudaram a conduzir e continuam conduzindo o clube às maiores conquistas de sua história.

Agora resta ao clube finalmente ganhar um título de expressão internacional. Ano que vem, o Fluminense disputará a sua quarta Libertadores em seis anos e a terceira consecutiva. Será mais uma chance de o time tricolor consolidar o início do século XXI como um período singular na história do clube.

XXXXXXXX

Em tempo, seleção do campeonato, como eu faço todos os anos, só quando o campeonato acabar. E aceito sugestões para a lateral-esquerda. Está feia a coisa.

domingo, 30 de setembro de 2012

Ensaio niilista sobre o capitalismo

Pattison em Cosmópolis: boa atuação
Tenho alguns preconceitos cinematográficos (e atire a primeira pedra quem não tem?). Não gosto de comédias. Nem de animações. Embora já tenha visto excelentes comédias e animações. Mas não é o tipo de filme que você me verá assistindo numa sala de cinema. Também não gosto da saga “Crepúsculo”. Acho boba, infantil e uma afronta aos vampiros de verdade que eu cresci vendo no cinema e na TV. Até o Tom Cruise é um vampiro melhor no ótimo filme “Entrevista com o vampiro” (1994). Consequentemente, eu estendo meu preconceito aos atores principais da série: Kristen Stewart e Robert Pattison.

Kristen comprovou ser muito fraca seja numa bobagem suprema como “Branca de Neve e o caçador”, onde há uma cena emblemática em que ela parece estar ensaiando para um comercial de shampoo, seja no ótimo filme “Na Estrada”. Apesar de sua fraca atuação (uma porta pode ser mais sensual do que a Marylou que ela nos entregou), Kristen, porém, não chega a atrapalhar o filme de Walter Salles, pois não é nunca o foco principal da película.

Não é o caso de Pattinson. O vampiro Edward dos cinco filmes da série “Crepúsculo” era simplesmente o dono do filme quando foi escalado por David Cronenberg para viver o milionário Eric Packer em “Cosmópolis”. Ainda bem que o diretor canadense não tem os preconceitos do signatário deste blog. Talvez seja esse um dos motivos que o faça ser um ótimo cineasta, um dos meus favoritos, e eu não passe de um blogueiro corneteiro.

Isso porque Pattison mostra surpreendente talento para segurar o filme. Nuances nunca mostradas em uma película que é uma das mais niilistas do diretor de “Marcas da Violência” (2005), “Senhores do Crime” (2007) e do recente “Um método perigoso” (2011).

Ensaio sobre a decadência do capitalismo a partir da história de autodestruição de um milionário, “Cosmópolis” é um filme hermético e com subtextos que incomodam o espectador menos atento e à espera de algo mais palatável para acompanhar a sua pipoca em geral salgada na confortável cadeira de uma sala de cinema com o ar condicionado bem calibrado. Talvez por contrastar com a expectativa de satisfação do cliente, que o novo trabalho de Cronenberg incomode e faça alguns desistirem antes do fim abandonando a sala, pois não é fácil compreender tudo o que o diretor tenta passar em “Cosmópolis”. E como é uma das marcas dos seus filmes, a violência de forma crua, pesada e impactante é um vetor importante de comunicação.

“Cosmópolis” não tem uma data, mas poderia se passar em anos recentes, logo após a quebra do Lehman Brothers que iniciou uma crise mundial (sempre ela, devia virar um gênero novo no cinema) nos Estados Unidos que chegou na Europa e perambula por ai até hoje. Naquele período, protestos se espalharam pelo mundo, empresas perderam (muito) dinheiro. Pessoas foram à bancarrota. E a recuperação, me mostram os cadernos de economia, têm sido lenta e gradual.

Neste cenário de uma desesperança quase no nível crack da Bolsa de 1929, o milionário Packer é mais um a ter perdido milhões ao apostar errado nos movimentos do yuan, a moeda chinesa, na bolsa de valores. Packer é bastante excêntrico. Resolve tudo de dentro da sua limusine totalmente equipada. Tudo mesmo. Faz negócios, sexo e seus exames clínicos diários. Inclusive o de próstata.

Mas nem tudo pode ser feito no carro. Nem tudo pode ser resolvido de sua toca. É por isso que Packer resolve atravessar a cidade em meio ao caos de protestos, uma visita presidencial sob ameaça (“Ainda matam presidentes hoje em dia?”) e o funeral de um artista para fazer algo prosaico, mas extremamente necessário: cortar o cabelo no seu barbeiro. Barbeiro este que foi o mesmo do seu falecido pai. Packer precisa de um corte de cabelo e nada vai impedi-lo. Ponto final. Não importa quanto tempo ele leve para atravessar a cidade.

A relação com o barbeiro, é o que há de mais humano na vida de Packer marcada por discussões enfadonhas sobre o mercado com seus auxiliares, ou mesmo uma relação de prazer protocolar com sua amante mais velha, Didi Fancher (Juliette Binoche). A relação com a esposa é gélida e distante até quando conversam sobre sexo. “Quando vamos transar de novo?”, ele pergunta. “Em breve transaremos”, ela responde mecanicamente. Separados por centímetros, eles parecem emocionalmente distantes por um abismo inexpugnável.

Enquanto tenta atravessar a cidade, Packer vê o caos nas ruas e é vítima dele seja nos ataques à sua limusine e na torta na cara que recebe do ativista Andre Petrescu (Mathieu Amalric), Nada que o abale. De fato, ele busca novas emoções, algo que o estimule de alguma forma a sua vida vazia. Algo que traga alguma ebulição, algum sentido, que movimente a sua alma.

Depois de perder milhões de dólares, Packer embarca numa jornada de autodestruição. Experimenta tudo o que pode para saber se consegue ter alguma emoção. O sexo ele já comprovou que não é o caminho. Com isso, resolve tomar a estrada da dor. Pede doses de choque, mas não tem sucesso. Busca algo num estúpido assassinato, mas continua sentindo o mesmo vazio.

Enquanto é ameaçado por um ex-funcionário, Benno Levin (Paul Giamatti em participação brilhante no filme), dá um tiro na própria mão. O tiro lhe dá um sinal de vida em uma feição atávica e blasé. Mas logo ele retorna ao seu estado comum: o nada.

A cena final do diálogo com Giamatti é uma das melhores do filme e resume o que “Cosmópolis” tem de melhor. O niilismo, o deboche com a falsa preocupação com os oprimidos e uma aula de Giamatti, mas sem que Pattison fizesse feio. O que é algo elogiável.

Talvez ele realmente fosse a pessoa ideal para interpretar esse milionário vazio, sem emoção e que se acostumou a ver o mundo da redoma de sua limusine impávido. Juntando isso, aos diálogos brilhantes escritos por Cronenberg temos um dos melhores filmes do diretor. Pessimista, difícil, mas um delicioso exercício de interpretação de textos e subtextos com correlações com a história recente.

sábado, 8 de setembro de 2012

Feriado com Alanis

Alanis Morissette/Reprodução da internet
Entre suas poucas aventuras cinematográficas, Alanis Morissette fez o papel de ninguém menos do que Deus no filme “Dogma”, de Kevin Smith, lançado há 13 anos. Naquela época, a cantora canadense tinha então 25 anos, quatro discos – sendo dois mundialmente conhecidos, Jagged Little Pill (1995) e “Supposed former infatuation junkie” (1998) - e ainda cantava com fúria e o seu característico jeito de andar para frente e para trás de lado para a plateia no palco a cada show e balançando o cabelo preto até a cintura. A plateia formada na sua maioria por adolescentes ou jovens adultos como ela a seguiam religiosamente e liberavam todos os seus fantasmas em canções contra namorados vacilões, as dores e os altos e baixos do amor.

Era basicamente disso que músicas como “You oughta know”, sempre uma das minhas favoritas, e “You Learn”, dois dos seus maiores sucessos do seu disco de maior sucesso, o “Jagged Little Pill”, com 33 milhões de cópias vendidas no mundo todo, tratavam em versos como “Did you forget about me, Mr. Duplicity?/ I hate to bug you in the middle of dinner/But it was a slap in the face/How quickly I was replaced/And are you thinking of me when you fuck her?” ou o refrão de “You Learn” que evoca o aprendizado a cada vez que você ama, grita, perde, chora e sangra.

O tempo passou e Alanis hoje é uma mulher de 38 anos resolvida com os seus fantasmas, casada com um rapper e pai de uma criança de dois anos. Seus fãs também cresceram e muitos dos que estiveram no Citibank Hall para reencontrá-la em mais uma de suas passagens pelo Rio são balzaquianos como ela e certamente estiveram na frente dela nas outras quatro passagens pelo Brasil. Mas o “Jagged Little Pill” é eterno no coração de todos e a canadense sabe disso.

O disco ocupa uma generosa porção da aproximadamente 1h40m do show da cantora no feriado de 7 de setembro. Uma apresentação que fez a alegria dos cariocas que decidiram não viajar para ver Alanis, que continua a mesma no palco, mas agora conta com uma nova, boa e afinada banda formada pelos guitarristas Julian Coryell e Jason Orme, pelo baixista Cedric Lemoyne, pelo baterista Victor Indrizzo e pelo tecladista Michael Farrell.

Assim como nos shows de 2003 e 2009, são sete canções do disco. Uma a mais até do que o bom álbum novo, “Havoc and bright lights”, e que motivou a atual turnê. Mas ao contrário dos shows anteriores (incluindo também o de 1999), Alanis resolveu dar uma atualizada, uma refrescada nos arranjos de seus “clássicos”. Alguns ganharam de sua banda arranjos que amainaram só um pouquinho a fúria. Outros ganharam solos de guitarra que agradaram bastante ao público. Foram mudanças sutis que praticamente só seriam percebidas se comparadas com vídeos da velha Alanis de anos atrás.

Nada que desagradasse o seu público. “You Learn” estava lá com Alanis dando a sua lição de crescimento sorrindo e quase dizendo ao seu público que a dor e o amor são necessários para a adolescente virar mulher. O recado ao ex-namorado em “You oughta know” ficou datado em uma nova vida cheia de “bright light” de agora, mas não é possível nunca tirar uma canção tão poderosa de um set list dela.

Assim como “All I really want” e sua indefectível gaita, também presente em “Head over feet”. E fica a reflexão de como Alanis abandonou a sua gaita nos discos posteriores, salvo algum engano do signatário. Ela nunca mais aparece no show que não seja numa música de “Jagged Little Pill”. Completam a lista do álbum a sempre fofa “Hand in my pocket” “Right through you” e o megasucesso “Ironic”, cantada com tanto fervor pelo público quanto “You oughta know”.

Mas Alanis não vive só do passado e ganha uma calorosa recepção para suas novas canções. “Guardian”, o primeiro single do disco novo, foi cantada pelos seus fãs como uma velha conhecida. Com versos como “Give me celebrity my kingdom to be famous/Tell me who I have to be/Starting to be famous”, “Celebrity” mostra que suas críticas se voltaram para as celebridades instantâneas que aparecem a cada momento e se perpetuam por mais de 15 minutos.

“Woman down”, que abre os trabalhos com Alanis no palco depois de “I remain” cantada com ela no backstage, “Lens” e “Numb” comprovam a qualidade do novo álbum, que nada tem de diferente do ponto de vista musical dos seus últimos trabalhos, embora “Havoc and bright light” seja superior a “So-Called Chaos” (2004), talvez o mais fraco da cantora, e “Flavors of entanglement” (2008), que, aliás, não tiveram nenhuma canção tirada para as 20 do show.

O set, por sua vez, recebeu poucas alterações em relação ao show de Curitiba e ao segundo show de São Paulo. Aqui foi tocada “Celebrity” enquanto na capital paranaense Alanis cantou “Spiral” e na paulista “Edge of evolution”. No primeiro show em São Paulo, as mudanças foram maiores com quatro músicas que os cariocas não ouviram: “Perfect”, “Forgiven”, “Citizen of the planet” e “21 things I want in a love”.

Nada que fizesse os cariocas que encerraram a noite em êxtase cantando “Uninvited” e “Thank U” lamentarem. Enquanto isso, Alanis distribuía sorrisos e agradecimentos pela sempre calorosa recepção do seu público. Já a sua banda tirava fotos dos fãs, que deixavam o Citibank Hall satisfeitos por terem ficado no Rio no feriadão para se reencontrarem com a canadense.

Set list: I remain (part 1), Woman Down, All I really want, You Learn, Guardian, Flinch, Right through you, Hands Clean, So Pure, Celebrity, Ironic, Havoc, Head over feet, I remain (part 3), Lens, You oughta know, Numb, Hand in my pocket, Uninvited, Thank U.


Abaixo a íntegra do show: 



quinta-feira, 10 de maio de 2012

Marilyn, a mala

Michelle Williams e sua Marilyn Monroe
É um pecado, uma falha grave, mas vou confessar: conheço muito pouco do trabalho de Marilyn Monroe. Quase nada. Minha única e quase esquecida experiência com a mulher que tinha legiões de fãs no planeta na década de 50 do século passado foi ter visto em algum momento da minha vida “Quanto mais quente melhor” (1959), filme do qual eu mal me lembro da história.

Apesar de o seu trabalho ser quase desconhecido para mim, a presença de Norma Jeane Mortenson na cultura pop é tão grande, que parece que eu conheço a vida dela como se tivéssemos sido amigos de infância. Nasceu em Los Angeles, foi amante de John Kennedy, cantou aquele sexy “Parabéns para você” para o presidente, símbolo sexual, desejada por todos os homens da sua época, fotos nuas para a Playboy e, por fim, a morte por overdose de barbitúricos. Isso é basicamente um rápido resumo da atriz.

O que eu não sabia, e agora serei um pouco maldoso sim, é que Marilyn Monroe era uma mala sem alça, mimada, um tanto vazia e atriz até certo ponto medíocre. Essa foi a primeira impressão que o filme “Sete dias com Marilyn” me deixou. Ok, ela era uma mulher problemática, que tinha a clara necessidade de ser amada por todos para suprir a falta de amor que teve em casa na sua infância, adolescência e por aí vai. Quando Norma cresceu virou uma personagem. Mas no fundo era uma mulher tristemente frustrada porque todos amavam Marilyn e não Norma. Imagina o Édson em conflito com o Pelé com tinturas freudianas, entende?

Essa carência é outra ferida bem exposta no filme de Simon Curtis. Marilyn quer a atenção de todos e quase uma overdose de amor, um culto a si mesma para compensar as perdas da juventude. Tanto é que quando o jovem Colin (Eddie Redmayne, tão expressivo quanto um picolé de chuchu) se propõe a cuidar dela e a pede para largar a vida de estrela, Marilyn recua. Mas diante da postura do jovem de que então vai seguir a vida e não quer mais saber dela, a atriz pede ao menos uma “troca de olhares”. Norma não consegue largar a personagem mesmo na intimidade. E não tem pena dos corações que vai devastando no caminho, embora ela aparentemente não tenha consciência da dor que causa, pois na verdade se alimenta e precisa desse amor que a cerca.

“Sete dias com Marilyn” é um belo filme. A película se passa durante a gravação de “O príncipe encantado” (1957), cinco anos antes da morte da estrela. Naquele tempo, Marilyn, vivida por Michelle Williams, já era uma estrela mundial que buscava o reconhecimento artístico e contracenava com Laurence Olivier (Kenneth Branagh, o grande ator do filme), ator que tinha o respeito da crítica, mas almejava se tornar uma estrela do cinema.

O filme se centra na viagem de Marilyn para a Inglaterra e na sua experiência no set de filmagem inglês com Olivier e os conflitos com a forma de trabalho no set e o chamado método de Paula Strasberg, uma mala puxa-saco dela no filme, que era responsável por fazer uma atriz medíocre como ela ter momentos de brilho em suas películas por fazê-la aceitar, acreditar e “entrar no personagem”. Era o chamado “Método” que podia dividir os artistas e até dar uma impressão de propaganda negativa neste filme sobre a estrela hollywoodiana, mas muita gente boa o defende e é adepto. É o caso de Al Pacino. Já o vi dar entrevistas elogiando muito essa forma de trabalhar.

"Sete dias..." tem essa linha mestra centrada em Marylin Monroe, mas através dela várias camadas dramáticas vão se descortinando. O próprio Olivier revela a sua insegurança. Em 1957, ele tinha 50 anos e quis usar Marilyn não apenas para tentar finalmente se tornar um astro, mas também para parecer mais jovem num trabalho que ele já tinha tido sucesso de crítica através de uma peça de teatro em que encenou com a sua então mulher Vivien Leigh (Julia Ormond), estrela de, entre outros filmes, “E o vento levou...” (1939), e que foi rejeitada pelo próprio Olivier por ser muito velha para o papel no cinema. Na época ela tinha 44 anos e reconhecia com uma ponta de amargura não poder competir com a jovem estrela de apenas 31 anos.

E assim Curtis vai expondo as fragilidades destas estrelas. Se Marilyn é um poço de problemas que só sessões de análise resolveriam, Olivier também sofria por sua vaidade e temia ser esquecido por se achar já velho para as câmeras. Vivien, por sua vez, sentia-se rejeitada pela escolha do marido, tinha ciúmes, pedia para Colin vigiá-lo, pois claramente o marido desejava aquela jovem. E quem não desejava Marilyn na flor da idade? Três anos depois do lançamento do filme, Vivien se separou de Olivier.

Se Kenneth Branagh é o cara da película, Michelle Williams, de 31 anos, não fica muito atrás do ator. Marilyn Monroe talvez seja o seu grande papel na carreira até aqui. Michelle conseguiu mostrar as fraquezas da estrela que encantava Hollywood, assim como exibir a atriz que tinha um carisma sem concorrência no seu tempo. E sempre que necessário fazia a transição com extrema facilidade como na cena em que ela visita o colégio em que Colin estudou. Quando é reconhecida pelos alunos, a mulher que está ali encantada com a vida comum do seu colega, logo se transforma “nela”, distribuindo encantadores sorrisos e beijos para a plateia ávida por ter um pedaço de Marilyn para si.

Michelle não chegou a “incorporar” Marilyn como o “Método” exige, mas deu sua própria visão para a estrela 50 anos após a sua morte. De certa forma, Marilyn Monroe ganhou o amor e a admiração eterna uma vez que sua história ainda desperta muito interesse. Após as gravações de "O príncipe encantado", Marilyn ainda estrelaria mais três filmes. Entre eles "Quanto mais quente melhor", um dos seus grandes sucessos.

domingo, 29 de abril de 2012

Avante, Vingadores!

Rogers e Stark resolvem as diferenças
Até sentar a bunda na cadeira para escrever o roteiro de “Os Vingadores”, Joss Whedon tinha feito pouca coisa relevante na indústria cinematográfica. Filho e neto de dois conhecidos roteiristas de TV, Tom e John Whedon, ele seguia pelo mesmo caminho com “Buffy – A caça-vampiros” e outras séries de TV americanas. Mas também ensaiava novos voos ao ser um dos responsáveis pelo roteiro de Toy Story (1995), pelo qual concorreu ao Oscar em 1996.

Mas ai surgiu o projeto dos “Vingadores”, o grupo de heróis superpoderosos, uma espécie de Liga da Justiça da Marvel. E Whedon seria responsável não apenas pelo roteiro, mas pela direção do filme que era uma das grandes apostas para este ano.

Caberia a ele reunir em 2h e pouco alguns dos heróis mais famosos da Marvel para contar a origem do supergrupo após outros diretores filmarem as histórias de quase todos separadamente. Sendo que alguns foram bem sucedidos e outros não. O Homem de Ferro ganhou um bom filme e outro razoável com Robert Downey Jr., mas o Capitão América não teve a mesma sorte, com um trabalho sofrível. Os filmes do Hulk foram bons, mas nem Eric Bana, nem Edward Norton entraram no papel de Bruce Banner, que ficou com Mark Ruffalo. Já o Thor ganhou um filme razoável, com tintas shakespearianas, mas com uma atuação irregular do seu elenco.

Whedon seria responsável, portanto, por juntar todos estes elementos difusos, acrescentar outros personagens e bolar uma história que agradasse aos fãs de quadrinhos e aos não iniciados em um arrasa-quarteirão bom de público e de crítica.

O diretor americano não era um rauli no mundo dos quadrinhos. Já tinha escrito, por exemplo, histórias dos X-Men. Portanto, sabia do que os fãs gostam e não gostam. Faltava apenas dar liga a uma história que fosse palatável a todos os públicos sem ferir os "comic-xiitas".

E eu diria que Whedon conseguiu realizar o seu intento com louvor. “Os Vingadores” saiu da ilha de edição para o cinema como um dos melhores filmes sobre super-heróis dos quadrinhos já feitos desde que isso virou febre em Hollywood. Ao contrário de “Watchmen” e “Batman – Cavaleiro das Trevas”, que eram trabalhos mais focados no drama e em temas como o terrorismo, “Os Vingadores” aposta no humor para conquistar o seu público.

Os diálogos de Whedon são o grande herói do filme. São com eles que Downey Jr. deixa todo o sarcasmo de Tony Stark aflorar com frases como “Shakespeare no parque?” ou “Sua mãe sabe que você usa as cortinas dela?” ao se referir ao Thor ou em meio a uma discussão com o Capitão América, responde com “Gênio, playboy, milionário, filantropo” a uma pergunta sobre o que ele é sem a armadura do Homem de Ferro. Ou ainda “Eu sou fã da maneira como você fica nervoso” no seu primeiro contato com Bruce Banner.

O diretor também cria situações divertidíssimas que fizeram o público na sessão de cinema que eu estava reagir com aplausos. Mas não vou entregar as cenas aqui para não estragar a película para os que ainda não a viram.

Scarlett Johansson e sua Viúva Negra
O roteiro é o grande craque dos “Vingadores”, mas o filme tem outros pontos fundamentais que o fazem ser excelente. Um deles é a parcimônia no uso de efeitos especiais. Eles só entram quando realmente são exigidos, deixando o foco na história que já é por si só riquíssima. Isso, inclusive, torna o 3-D irrelevante. Eu vi numa sessão dessas, mas não perderia quase nada se tivesse visto numa sessão convencional. O 3-D aqui só serve para te tirar mais dinheiro no ingresso.

O segundo ponto está na atuação dos atores. Se Downey Jr. é a grande estrela do filme, até por ser o melhor ator em cena mesmo, Ruffalo se revela o melhor de todos os Bruce Banners/Hulks. Já Scarlett Johansson (Natasha Romanoff/Viúva Negra) parece estar se divertindo no meio daquela brincadeira de meninos enquanto Jeremy Renner (Clint Barton/Gavião Arqueiro) dá mais importância a um personagem que sempre foi coadjuvante nos Vingadores.

As grandes aquisições, porém, são as de Chris Evans e Chris Hemsworth. Depois de ver o desastroso filme do Capitão América e de saber que Evans tinha sido o Tocha Humana em outros desastrosos filmes do Quarteto Fantástico temia pelo pior. Afinal, Steve Rogers é peça fundamental nos Vingadores por ser o líder da equipe. Mas Evans se revelou bem mais à vontade na roupa do Sentinela da Liberdade. Nem parecia a figura patética do seu filme-solo.

Hemsworth, por sua vez, só não viveu o mesmo perrengue porque o filme do Thor era superior ao do Capitão América. Mas em “Os Vingadores” ele é outro que parece ter se sentido um pouco melhor no papel do filho de Asgard. Assim como Tom Hiddlestone, cuja interpretação é digna das vilanias e da vaidade de Loki.

Em “Os Vingadores” tudo dá certo. Por isso tem tudo para ser um dos filmes mais divertidos do ano. Whedon acertou em cheio nas suas escolhas e agora pode se cacifar para uma provável continuação da franquia. Mas enquanto ela não vem, o diretor vai brincar de “Shakespeare no parque” ao levar para as telas o texto do bardo inglês “Much ado about nothing”.

sábado, 21 de abril de 2012

O nome da banda é...

Os Ink Spots, grupo vocal dos anos 30 e 40
The Ink Spots. Confesso que fiquei curioso ao ler a entrevista-ataque de Joaquim Barbosa com uma coisa. Afinal, que diabos é esse tal de The Ink Spots, que fez o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) se diferenciar do seu colega-arquirrival-inimigo-número-1, Cezar Peluso, como se o mundo se dividisse entre os apreciadores do The Ink Spots e o resto.

Para não sofrer "supreme bullying" dos meus colegas, fui pesquisar sobre o tal grupo que na entrevista virou o divisor de águas na rixa do STF. De onde veio, para onde foi e o que ele representa no cenário musical que vemos ai. É isso mesmo. Pensei numa pauta meio "Globo Repórter". Para tirar as minhas conclusões, li algumas coisas e consultei as duas Bíblias modernas. Obrigado, Google, também chamado de Velho Testamento. Obrigado, Wikipédia, também chamada de Novo Testamento. Por fim, encontrei coisas interessantes, ou nem tanto, sobre o tal "Manchas de Tinta".

Os Ink Spots foram fundados em 1931 em Indianápolis. Desde o início até o seu fim, em 1964, o grupo teve mais formações do que qualquer banda que você conheça. Mas originalmente os fundadores foram Orville “Hoppy” Jones (baixo), Ivory “Deek” Watson (vocal, guitarra e trompete), Jerry Daniels (vocal, guitarra e ukelele) e Charlie Fuqua (vocal e guitarra). Deek e Daniels faziam as vezes de tenores enquanto Fuqua era o barítono.

Outros seis músicos fizeram parte do grupo. E todos eles já estão mortos. O último a falecer foi Huey Long, em junho de 2009, aos 105 anos, quando os Ink Spots já tinham entrado para a eternidade no Hall da Fama dos grupos vocais (1999) e no prestigiado Rock and Roll Hall of Fame (1989).

Mas por que eles entraram num espaço que supostamente seria para o rock and roll? Ora, meus caros, porque os Manchas de Tinta são considerados uma importante influência para o bom e velho rock. Mais do que isso, eles são considerados um dos grupos que ajudaram a definir o gênero do Rhythm and blues (R&B), que, por sua vez, desembocaria no Elvis Presley rebolando, no Bill Haley e seus cometas contando as horas e no rock and roll que você passou a escutar desde aqueles mágicos anos 50 até o Jack White (and counting...).

É por isso que o grupo tem todo esse reconhecimento e o respeito do mundo do rock. E por isso que o Megadeth já gravou uma música usando um sample de “I don’t want to set the world on fire” na música “Set the world afire” (veja o vídeo no fim do post), do disco “So far, so good.. so what!” (1988). Quem diria que Dave Mustaine e Joaquim Barbosa tinham algo em comum. Embora eu não consiga imaginar o Mustaine cantando “If I didn’t care”, outro sucesso dos The Ink Spots, nem escondido no chuveiro.

É claro que eu não ouvi todas as canções do grupo para fazer esse post, mas escutei um número suficiente para dizer que as músicas do Ink Spots seguiam sempre um padrão. Um riff de guitarra no início bem tranquilo (afinal, estávamos nos anos 40, né, não dá para acelerar muito a batida), e a entrada de um dos vocalistas soltando a voz sempre estendendo a última sílaba das últimas palavras de cada frase/estrofe. Ali pelo meio, o cantor que fazia a segunda voz entrava quase declamando um texto com os demais tocando seus respectivos instrumentos ao fundo. No fim, repete o refrão, mantém o coro e pronto. Receita de bolo.

O padrão era esse e fez muito sucesso nas décadas de 30 e 40. E o mais importante para quem tentava fazer música nos Estados Unidos daqueles tempos: foi um grupo que fez um som extremamente bem aceito entre os brancos. Se isso não tivesse acontecido, provavelmente eles não tinham durado e Joaquim Barbosa ia ter que citar outra coisa para exemplificar suas adversidades com colegas de tribunal.

Embora tenham existido até a década de 60, o grupo concentrou a maior parte dos seus sucessos nas décadas de 30 e 40. Natural. Depois outros sons começaram a surgir e os Ink Spots passaram a fazer parte dos livros de história.

“If I didn’t care” foi a primeira canção a entrar nas paradas americanas, mas ficou em segundo lugar. Contudo cinco músicas do grupo atingiram o topo. A primeira foi “Adress Unknow", em 1939, mesmo ano de “If I didn’t care”. Também foram campeãs, “Whe Three” (1940), “The Gipsy” (1946) e “To Each his own” (1946) e dois duetos com Ella Fitzgerald: “I’m making believe” e “Into each life some rain must fall”.  

A última a figurar nas paradas americanas, mas numa modesta 23ª posição, foi (That’s just the way of) Forgetting you”, em 1952. Os Ink Spots começavam a sair de cena dando lugar a uma turma um pouco mais barulhenta e agitada.
   
Abaixo, o vídeo do Megadeth com a citação e canções dos Ink Spots.






















sexta-feira, 6 de abril de 2012

Entre muros e tijolos

Waters com o muro-telão ao fundo
Num determinado momento, ali pelo meio do show no Engenhão, uma amiga vira para mim e diz: "Esse cara fez muita análise". No que eu rebato: “Não, ele fez o "The Wall". Essa foi uma das conclusões que tirei ao ver de perto o espetáculo que Roger Waters fez no estádio no Rio de Janeiro.

Cinco anos depois de ter trazido para o Rio, mais especificamente na Apoteose, a íntegra do disco “Darkside of the moon” (1973) – e mais outras tantas canções num show de mais de duas horas -, Waters voltou à cidade desta vez para um projeto ainda mais ambicioso: expor suas vísceras novamente com a ópera-rock “The Wall”, disco igualmente clássico lançado em 1979 que foi idealizado principalmente por Waters, mas também contava com a fundamental participação de David Gilmour nas faixas mais conhecidas e que se eternizaram no coração dos fãs do Pink Floyd.

No Engenhão, Waters não está mais com os parceiros da velha banda Gilmour, Nick Mason e Richard Wright. Compensa a ausência do trio com nove músicos que o acompanham nessa jornada lisérgica que exorciza monstros interiores e aponta para as nossas fraquezas, temores e insignificâncias.

Além dos membros da turnê que passam o show erguendo o muro num espetáculo visual incrível (um dos muitos, aliás), estão ali para compensar a ausência do trio restante do Pink Floyd os vocalistas Robbie Wyckoff, Jon Joyce, Kipp Lennon, Mark Lennon e Pat Lennon, os guitarristas Snowy White e Dave Kilminster, que faz os solos de “Comfortably Numb” e “Another brick in the wall – part II”, o baterista Graham Broad, o guitarrista e baixista G.E. Smith e os tecladistas Jon Carin e Harry Waters, o filho do homem que vê ali do palco, enquanto toca, um pouco da história da sua família e de como papai via os vovôs.

“The Wall” é mais que um espetáculo musical. É uma experiência sensorial. É melhor do que qualquer filme 3-D que você tenha visto no cinema. Em todo lugar há o que ver e ouvir. É o som fantástico do álbum clássico de 81 minutos, é o muro que é construído, o muro que vira um mega telão, aviões que explodem no palco, caixas que se abrem, projeções, bonecos, um porco voador que denuncia o que a humanidade produz de pior e o absurdo som quadrifônico que o faz ouvir uma coisa a sua frente e outro atrás de você ao mesmo tempo criando uma atmosfera única. Com Waters nunca há problemas de acústica ou som ruim. Com Waters tudo é grandioso, perfeito, único.

“The Wall”, o show, assim como o filme de Alan Parker (1982) conta a história de um roqueiro decadente que perde o pai na guerra (o pai de Waters morreu na Segunda Guerra Mundial, quando ele não tinha nem um ano de idade) e cresce sob a superproteção da mãe, retratada na canção “Mother”, a quem ele dá uma alfinetada no show. O menino também não tem boas palavras a dizer aos velhos e opressores professores, que teimam em ensinar uma “no education”, mas não passam de tijolos nas paredes.

O músico cresce, tem uma vida hedonista com groupies enquanto vê a mulher se afastar dele. Até que percebe que ela faz falta e a implora para que volte. Tarde demais. Ele já está envolto num caos, mas precisa se reerguer para um último momento de brilho.

Tudo é perda na obra de Waters. Cada tijolo dessa parede metafórica que se ergue em torno do personagem central da trama é resultante das frustrações da vida do roqueiro que no filme é vivido por Bob Geldof.

Aqui o próprio Waters assume o personagem, que atualiza e potencializa a dor de sua parede com imagens de vítimas de violência, a começar pelo seu próprio pai e dando destaque ao brasileiro Jean Charles de Menezes, assassinado pela polícia britânica num metrô de Londres em 2005. O show é dedicado a ele, mais um tijolo estendido no muro marcado por sangue.

“In the flesh?” abre o show. De óculos escuros, sobretudo preto e uma faixa no braço indicando a “nova ordem” dos martelos cruzados, uma viagem nazista do roqueiro, que representa uma crítica à cegueira que o fã tem diante do artista numa linha meio “A Onda” (1981), Waters recebe o público com homens de bandeiras hasteadas, compasso militar e fogos de artifício. O show avança por “The Thin Ice”, “Another brick in the wall Part I” com as já citadas imagens de pessoas mortas por diversas formas de violência até desembocar em “The happiest days o four lives”.

Agora os “canhões” se voltam contra os professores e suas atitudes despóticas diante dos alunos. No filme, o jovem é humilhado pelo seu professor por estar escrevendo poemas ao invés de prestar atenção na sua aula sacal e insignificante. Na película, os versos que o professor lê são os de “Money”, que estaria no “Darkside of the moon”.

Em “Mother”, um boneco gigante com jeitão de charge surge para interpretar essa mãe que vigia o filho como um “Big Brother” (o de George Orwell, por favor). A palavra é riscada no muro e vemos “Big Mother is watching you” enquanto Waters questiona se ele deve construir o muro, sonhar com a presidência ou confiar no governo. O muro dá a resposta em inglês e em bom português: “Nem fodendo”.

Waters segue em sua jornada com críticas ao consumismo, aos dogmas e o enterro de seu personagem em uma vida tão vazia quanto hedonista. O muro está quase completo em “Don’t leave me now” e é fechado após “Goodbye cruel world”. Vinte minutos de intervalo depois, a banda retoma com “Hey you”, mas só a ouvimos. Eles tocam por trás do sufocante muro, que se transforma num gigantesco telão.

Waters em "Comfortably numb"
O período de isolamento só se encerra em “Comfortably Numb”, um dos momentos mais fantásticos, visualmente falando, do espetáculo quando Waters, cantando sozinho diante do muro gigantesco de repente soca a parede, que é implodida descortinando um novo e colorido mundo a ser explorado.

No fim, Waters veste novamente a capa de líder nazista, roqueiro preconceituoso que despeja o seu ódio em judeus, negros e homossexuais numa visão crítica dos fãs que seguem seus ídolos sem contestá-los. Isso acontece em “In the flesh”.

“The Trial” marca o julgamento do jovem que estava fechado no mundo e é condenado a se expor para a vida. É a senha para que o muro, agora sim, literalmente venha abaixo. “Outside the wall” encerra o espetáculo gigantesco com todos os músicos reunidos a frente do cenário de destruição. A ópera-rock de Waters está concluída deixando, paradoxalmente, felizes os que acompanharam essa jornada de dor e beleza irretocáveis.

Set list do show: “In the flesh?”, “The thin ice”, “Another brick in the wall part 1”, “The happiest days of our lives”, “Another brick in the wall part 2”, “Mother”, “Goodbye blue sky”, “Empty spaces”, “What shall we do now?”, “Young lust”, “One of my turns”, “Don’t leave me now”, “Another brick in the wall part 3”, “The last few bricks”, “Goodbye cruel world”, “Hey You”, “Is there anybody out there?”, “Nobody home”, “Vera”, “Bring the boys back home”, “Comfortably numb”, “The show must go on”, “In the flesh”, “Run like hell”, “Waiting for the worms”, “Stop”, “The trial” e “Outside the wall”.

Alguns momentos marcantes do show:
"Comfortably Numb"
"Another brick in the wall - part I"
"Mother"
"Another brick in the wall - part II"
"In the flesh"
"Young Lust"

quinta-feira, 8 de março de 2012

O cinema no tempo de sua bisavó

Dujardin e Berenice em "O Artista"
Há dois anos, quando deu a “Guerra ao Terror” o Oscar de melhor filme, a Academia, involuntariamente ou não, sinalizava que o cinema ainda era mais importante pelo seu trabalho de roteiro, direção e dos atores do que toda a tecnologia 3-D daquela bobagem chamada “Avatar”. Neste ano, embora uma produção em 3-D tenha sido uma das grandes vencedoras da noite, foi a celebração de um cinema feito no tempo da sua bisavó, poucas décadas depois dos irmãos Lumiére, que foi o grande vencedor da noite.

A tradição, a delicadeza e a sensibilidade do cinema mudo são os temas centrais de “O Artista” e “A invenção de Hugo Cabret”, dois bonitos filmes ainda em cartaz e que deixaram a festa no Kodak Theatre com dez estatuetas, sendo cinco para cada lado. Enquanto a produção fraco-belga faturou os prêmios de filme, diretor (Michel Hazanavicius), ator (Jean Dujardin), figurino e trilha sonora original, o trabalho de Martin Scorsese levou as estatuetas de fotografia, direção de arte, edição de som, mixagem de som e efeitos visuais.

“O Artista” é a homenagem de Michael Hazanavicius ao cinema mudo da Hollywood dos anos 20 e 30. No filme, ele conta a história de George Valentim (Jean Dujardin, muito bem num papel que ele não abandonou nem na hora de receber o Oscar), ídolo de toda uma era que começa a entrar em decadência com o início das produções com som. Mais do que se sentir deslocado, Valentin resiste à mudança e é ultrapassado na preferência do público e dos estúdios por sua fã e estrela em ascensão Peppy Miller (Berenice Bejo).

Lírico, o filme tem cenas maravilhosas como a de um desesperado Valentim que vê todos os objetos a sua volta finalmente emitirem algum som enquanto ele não consegue fazer nada sair de sua garganta. Uma grande sacada de Hazanavicius que trouxe a modernidade para a sua película muda para exibir os conflitos de um modelo que começa a ser abandonado por outro que indica a nova era do cinema.

Valentim entra em decadência, quase se mata, mas é finalmente salvo por Pepe, que lhe propõe um filme em que os dois atuem juntos. Mas ele não consegue falar. Não é desse tempo. É de uma era assaz morta. É ai que Pepe encontra uma saída e Valentim ganha uma sobrevida a ponto de finalmente conseguir falar, finalmente sair dessa prisão que ele se impunha para ser aceito pelo novo cinema que começa a surgir.

Cena de "Hugo Cabret" com Kingsley 
Scorsese volta ainda mais no tempo no seu lúdico “Hugo Cabret”. A história, que no início se desenhava como um filme fofinho em que o jovem Hugo (Asa Butterfield) tem que lidar com a perda do pai (Jude Law) e escapar do cruel inspetor da estação de Paris vivido por Sacha Baron Cohen para não parar em um orfanato, se transforma numa bela homenagem do diretor americano ao francês Georges Méliès. O ilusionista, que começou a fazer filmes no início do século XX, ficou conhecido por ser um dos primeiros cineastas a usar técnicas como a captura de frames de forma mais lenta, a sobreposição de imagens para gerar um truque de ilusionismo nos filmes, a substituição gradual de uma imagem por outra num processo chamado dissolução e a técnica de pintura dos filmes com a mão.

Visto hoje, soa ridículo e até patético diante da tecnologia que existe para se fazer filmes, mas era algo inovador quando Méliès fez trabalhos como “Uma viagem a Lua” (1902) e “A viagem impossível” (1904), dois dos seus mais famosos trabalhos entre os 531 filmes que dirigiu.

No filme, um Méliès melancólico vivido por Ben Kingsley sobrevive na estação de Montparnasse como um comum vendedor de uma loja de brinquedos. Sua vida é a neta Isabelle (Chlöe Grace Moretz) e a mulher Jeanne D’Alcy, atriz e sua musa nos tempos de cineasta. Essa história é verdadeira e capta junto com a do jovem Hugo o momento em que Méliès é revisitado por seus fãs.

O fã que vai resgatar Méliès no filme é o pesquisador Michael Stuhlbarg (Rene Tabard). Ele será o vetor do reerguimento do cineasta desgostoso da vida artística. É uma bonita história de paixão pela magia do cinema e uma celebração da sétima arte feita por Scorsese, que deixou um lado lúdico aflorar para prestar a sua homenagem ao cinema num filme completamente diferente daqueles que estamos acostumados a ver com o nome do diretor nos créditos.

Tanto “O Artista” quanto “Hugo Cabret” não olham para o passado com saudade, mas com deferência. Uma deferência que só os apaixonados pelo cinema têm. E pelo visto os velhinhos da Academia também curtiram muito as homenagens.


Abaixo, um dos mais famosos filmes de Méliès:


sábado, 3 de março de 2012

Um grande filme

De todos os filmes que eu já vi neste ano que ainda dá seus primeiros passos (foram uns 20), sentia falta de um que eu pudesse chamar de um grande filme. Gostei muito de "O espião que sabia demais" e "Os homens que não amavam as mulheres", mas ainda não eram aqueles que eu podia chamar de "O filme". Nesta semana, vi um que finalmente me arrebatou. “Drive” não concorreu ao Oscar nas principais categorias - recebeu apenas uma singela e escondida indicação em Edição de Som -, mas é melhor do que oito dos nove filmes que disputaram a estatueta de melhor filme conquistada por “O Artista”. “A árvore da vida” é de outro patamar acima. O da genialidade.

Quando os indicados ao prêmio da Academia foram divulgados, houve alguma gritaria pela não indicação de Albert Brooks ao prêmio de ator coadjuvante. Realmente ele não deve nada a Jonah Hill, Nick Nolte ou Max von Sidow, para ficar apenas nos filmes que eu vi. Talvez Brooks merecesse até levar o prêmio que foi faturado por Christopher Plummer. Algo que só posso garantir depois de assistir a “Toda forma de amor”. Seu trabalho é marcante e o caráter do seu personagem pode ser resumido na cena que aparece no trailer. Quando vai cumprimentar o protagonista do filme, que inicialmente rejeita apertar a mão do sujeito, pois diz que suas mãos "estão um pouco sujas", uma vez que estava mexendo no carro, ele responde: "As minhas também". Tudo isso fazendo aquela cara de "não sou flor que se cheire".

“Drive” tem uma certa aura daqueles filmes dos anos 70 mais crus e sem muita verborragia. O diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn economiza nos diálogos e foca mais nas expressões e nas imagens para contar a sua história.

História que começa com uma cena daquelas que marcam por sua maestria. Logo no início conhecemos um motorista sem nome que de dia trabalha como dublê de filmes de ação ou em uma oficina mecânica e de madrugada auxilia bandidos a fugirem após cometerem seus assaltos numa desértica Los Angeles.

Vivido por Ryan Gosling, o motorista é de uma impavidez e sobriedade de quem dirige levando madames ao shopping center. Palito nos dentes, um olho fixo no relógio marcando o tempo que os clientes devem voltar para que eles possam escapar da polícia, o outro nas estradas, os ouvidos no rádio da polícia e a mente de quem tem o mapa da cidade na cabeça, o motorista é de uma calma e suavidade que só os mais frios têm em situações de muita tensão.

A primeira cena é antológica. Algo dá errado com os bandidos para quem ele está dirigindo e Gosling tem que usar de toda a sua perícia para escapar até de helicópteros. Passa por baixo de viadutos, se esconde atrás de caminhões em ruas escuras. Seu carro sequer faz barulho. É discreto como o próprio motorista.

Diante da inevitabilidade de cumprir o combinado por falha do quem o contratara, traça uma estratégia simples. Simplesmente se mistura na multidão de um jogo qualquer em um estacionamento e sai antes que a polícia possa pegá-lo. Os bandidos? Não sabemos o que aconteceu. E nem importa. Embora seja possível concluir que foram presos. Desde o início, porém, o que se quer saber mesmo é quem é esse motorista misterioso que pouco fala e dirige com a sensibilidade de quem conduz uma mulher numa dança.

Ele, no entanto, está disposto a largar essa vida paralela. Quer aproveitar que o dono da oficina pretende investir em uma equipe de Nascar e tê-lo como piloto. O dinheiro virá mais fácil e poderá até, quem sabe, se dar ao luxo de ter uma vida feliz com a jovem Irene (Carey Mulligan), sua bela vizinha que parece estar gostando dele.

Só que nada nessa vida se consegue sem dinheiro. É ai que seu chefe, Shannon (Bryan Cranston), entra em cena para pedir uma verba a Bernie (Brooks), homem que tem ligações com a máfia de L.A. Ao mesmo tempo, porém, o marido de Irene volta da cadeia e está sendo ameaçado pela mesma máfia a pagar uma dívida de US$ 20 mil que cresce diariamente. Um novo golpe é preciso, as duas histórias vão se cruzar e o apaixonado motorista vai entrar mais uma vez em ação para ajudar o marido da moça que ele gostaria de ter em seus braços apenas para proteger ela e o seu filho.

É aqui que “Drive” vira quase um filme de Quentin Tarantino. Refn não economiza no sangue gasto enquanto o motorista tenta sobreviver enfrentando os mafiosos. Torna-se um vingador em busca da própria sobrevivência e para manter as pessoas que ele gosta vivas.


Ele sabe que por mais que exista uma promessa, é difícil ter a certeza que Irene será mantida viva depois de tudo o que acontecera. Por isso está disposto a se sacrificar. É um herói improvável no seu carro pelas estradas de Los Angeles. Estradas que agora são a sua única casa enquanto ele viver.