terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Agora vai, DiCaprio?

Que friaca!
Leonardo DiCaprio já fez um magnata meio maluco e não ganhou um Oscar. Já refletiu sobre o contrabando de diamantes e morreu diante de um belo pôr do sol na África e não ganhou o Oscar. Já fez um ensandecido lobo de Wall Street e não ganhou o Oscar. Já pegou a Gisele Bündchen e não ganhou o Oscar. Se não for dessa vez, amigo, esquece. Vai vender côco na praia. O destino não quer que vocês se unam. 

Em "O Regresso", DiCaprio se esforça demais para finalmente levar o careca dourado. Ele vivencia todas as provações e sofrimentos possíveis que um postulante ao Oscar deve passar para faturar uma estatueta. 

DiCaprio sofre, grita de dor, fica meio desfigurado, manca, se arrasta, tem uma batalha ÉPICA com um urso feroz, passa frio, come comida crua como se estivesse sofrendo num restaurante japonês, é enterrado vivo, nada em lagos gelados, dorme pelado dentro da carcaça de um cavalo... Tudo numa jornada de vingança contra a Academia. Ah, é uma jornada de vingança na história do filme também. Realmente seria muito insensível não lhe dar o careca dourado. 

Ok, por mais que DiCaprio tenha atuações melhores na carreira, ele merece o seu carequinha dourado pelo conjunto da obra. Afinal, o Oscar nem sempre foi um prêmio do momento, mas por vezes o vencedor vem de uma justiça histórica, um conceito ou um lobby mesmo. 

Mas o ator não é o único indivíduo que brilha no filme. Antes de mais nada é preciso dizer que "O Regresso" é mais um filmaço de Alejandro Gonzalez Iñárritu, aquele mesmo mexicano que nos presenteou no ano passado com "Birdman". 

Iñárritu aproveitou as ideias de plano-sequência fake do filme passado e fez outra tomada primorosa nos primeiros dez minutos de filme. Aquela que começa com Hugh Glass (Leonardo DiCaprio) matando um alce e termina com uma batalha massacrante entre caçadores e índios no meio da floresta no Missouri, com direito a caçadores fugindo enquanto flechas voam por suas cabeças. Coisa linda demais. Coisa de craque. Só isso aí já pagou o ingresso. 

Estamos no século XIX. Tempos em que existia Forte Apache (quem que nasceu dos anos 80 para trás e nunca brincou disso?). Um grupo de caçadores está na floresta atrás de peles para vender (não tinha aquela galera de defesa dos direitos dos animais naquela época). Só que eles são surpreendidos por  índios que querem lhes roubar as peles para vender para os franceses em troca de cavalos e armas. 

Na fuga, poucos homens sobrevivem. E Glass, o homem que conhece aquelas terras como ninguém, pois tem um pé nos dois mundos (ele teve um relacionamento com uma Índia e tem um filho índio) traça uma rota para eles escaparem. O problema é que John Fitzgerald (Tom Hardy em atuação primorosa) não está muito a fim de seguir as ordens de Glass. Desconfia daquele cara de coração meio indígena que tem a fama de ter atirado num oficial do exército e ainda fala aquela língua indígena do capeta que parece alguém fazendo uma maldição. 

Temos um conflito aí. E quando Glass é ESTROPIADO por um urso que em nada parece com o Zé Colmeia, Fitzgerald vê surgir a janela de oportunidade: "Vou fazer esse cara se encontrar com Deus e picar a mula". 

Péssima ideia amigo. DiCaprio volta dos mortos com sede de vingança. Só descansará quando encontrar Fitzgerald e resolver esse karma. 

Depois do ataque do urso acompanhamos toda a sua jornada de dor e belas paisagens geladas (para quem não está sentindo frio é lindo). São mais de 60 minutos de DiCaprio gemendo mais que a Maria Sharapova jogando tênis. E quando ele abre a boca é para falar num dialeto do capeta. É muito sofrimento. Você deseja que ele morra logo ou encontre uma saída porque é sofrimento demais para um homem. No fim, bom vai ver o filme que eu não vou contar o fim. 

Iñárritu não fez apenas uma história de vingança pura e simples. Seu filme também tem uma reflexão sobre a forma cruel com que os índios foram tratados na América. O roteiro dele e de Mark L. Smith não dá espaço para dúvidas quando diz que o homem branco tomou tudo dos índios: a terra, as riquezas, a história. E com muita violência. Tanta violência que deixa no ar a reflexão: No fim, somos todos selvagens. 

"O Regresso" é um belíssimo filme e virou o meu favorito para o Oscar. Por isso, da parte da corneta, vai ganhar uma nota 9.


Indicações ao careca dourado: Filme, ator (Leonardo DiCaprio), diretor (Alejandro González Iñárritu), ator coadjuvante (Tom Hardy), fotografia, edição, efeitos visuais, edição de som, mixagem de som, figurino e design de produção. 

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Caçadores de roubada

Se essa onda, se essa onda, fosse minha...
"Caçadores de emoção" (1991) é daqueles filmes que entram no meu top-10 afetivo da "Sessão da Tarde". Aquele mesmo top-10 que é liderado, é claro, por "Curtindo a vida adoidado" (1986). Como não lembrar de Johnny Utah (Keanu Reeves) investigando a quadrilha de surfistas que usam máscaras de presidentes americanos liderado por Bodhi (Patrick Swayze)? 

Aí, duas décadas e meia depois, alguém teve a nada brilhante ideia de refilmar a história, dar uma atualizada e fazer tudo MUITO mais radical. Por que, senhor? Por que? 

A conclusão disso é que "Caçadores de emoção - além do limite" é sensacional como produto do canal Off. Tem imagens bonitas, lugares incríveis, mulheres de biquíni.... Mas como filme... Que coisa dispensável. Que coisa sem pé nem cabeça. Que inutilidade. Que candidato em potencial para o Framboesa de Ouro 2017. 

No novo filme, Utah (agora vivido por Luke Bracey) está sofrendo de um bode pela morte de um amigo motoqueiro e resolve se punir, mudar de vida e entrar para o FBI, uma instituição certinha e que segue regras (ele não deve conhecer nada sobre o trabalho de Mulder e Scully nos Arquivos X). Só que na sua primeira investigação, ele se depara com um grupo de caras que está tocando o terror no que supostamente é uma versão pós-moderna-ecológica de Robin Hood. É o grupo comandado por Bodhi (Edgar Ramirez).

Bodhi está numa vibe “precisamos devolver ao mundo parte do que tiramos dele”. Aí tem um discurso meio natureza, meio vamos acabar com o capitalismo, meio vamos buscar o caminho da luz experimentando os limites do corpo. No meio disso, ele quer cumprir as oito tarefas de Ozaki, um japonês ecoterrorista que inventou um conjunto de desafios a serem vencidos no mundo inteiro para atingir o nirvana (a evolução espiritual, não a banda do Kurt Cobain). Parece que as missões são tão sinistras quanto os 12 trabalhos de Hércules. Mas para o quinteto do barulho, “impossible is nothing”. 

Então, Bodhi está nesta jornada crimino-espiritual emaconhada quando Utah se infiltra no grupo a partir de umas sobras de gravações do "Clube da luta" (1999). 

E o que vemos daí por diante? Bem, imagens sensacionais no mar, no ar, no gelo e onde mais for possível entrar uma câmera, mulheres de biquíni e festinhas regadas a muito álcool e música eletrônica (que péssimo gosto) bancadas por um bilionário árabe que patrocina o grupo. Atingir o nirvana assim é mole, brother. 

Mas o filme não tem conteúdo. É um conjunto de imagens bonitas entremeadas por diálogos com “uhuuu!”, “show!”, “brother!”, “choque de monstro!”, "yeah, yeah!", “qualé play!”, "glu glu!" e outras exclamações semelhantes. Existe um fiapo de história sem pé nem cabeça (ah, o tal desafio de Ozaki é fake) que serve apenas para o diretor Ericson Core usar a verba do estúdio para fazer um monte de viagens maneiras pelo mundo e gravar em cenários bonitos. E os protagonistas são tão fracos e tão sem sal, mas tão sem sal, que o filme poderia ser receitado para hipertensos. 


É uma pena, amigos. Tive que voltar depois para casa e resgatar o antigo "Caçadores de emoção" para lembrar dos bons momentos de Johnny Utah. Essa filme atual pode até ir além do limite, como foi a paciência da corneta. Só resta dar à refilmagem de “Caçadores de emoção” uma nota 3,5


domingo, 31 de janeiro de 2016

Ingrid Bergman

Ingrid Bergman: seu doc é magnífico
Coisas que aprendemos no documentário "Eu sou Ingrid Bergman":

1. Ingrid Bergman era uma acumuladora. Simplesmente guardava tudo o que juntava desde a infância. Diários, cartas, fotos, filmes caseiros. Carregou tudo com ela até o fim da vida. 

2. Aliás, a atriz registrava absolutamente toda a vida em fotos ou vídeos. Imagina se já existisse internet e Facebook nos anos 40 e 50...

3. Não julguem mal os acumuladores. Foi essa postura que fez o documentário de Stig Björkman ser tão bom. Estava tudo lá. Bastou fazer umas entrevistas complementares, editar tudo e correr para o abraço. 

4. Ela parecia ser uma mulher cheia de vida e extremamente agradável. Amada pelos filhos mesmo quando passava meses distante trabalhando. Bom, a Pia, sua primeira filha, guarda um rancorzinho de ter sido abandonada quando deu a louca na Ingrid e ela foi morar na Itália, mas também a amava. 

5. Segundo Roberto Ingmar Rosselini, um dos seus filhos, ela era muito tímida e suava frio antes de entrar no palco. Mas uma vez nele, virava diva. 

6. Aparentemente Ingrid tinha um carinho pela figura de Joana D'Arc. Tanto que a interpretou no teatro e no cinema. 

7. Ingrid era um espírito livre. Em suas palavras, não gostava de criar raízes. Tanto que morou na Suécia, onde nasceu, Estados Unidos, Itália, França e Inglaterra. O mundo era sua casa. E tendo dinheiro tudo fica mais fácil.

8. Ao mesmo tempo que era cheia de vida, a atriz era um pouco solitária. Ou melhor, se impunha uma pequena carga de solidão em meio ao seu transbordamento de vida. 

9. Roberto Rosselini, meu caro, você não entendeu nada e perdeu uma grande mulher. Todo canário canta melhor quando está livre na floresta (provérbio chinês de filme de kung fu). 

10. Além de Rossellini, Ingrid pegou o fotógrafo de guerra Robert Capa. Pelo visto, ela tinha uma tara por lentes e câmeras em geral. 

11. Os EUA sempre foram a terra do conservadorismo e naquela época era ainda pior. É inacreditável que tenham crucificado a atriz com requintes de crueldade por simplesmente ter abandonado o primeiro marido para viver com Rossellini, diretor por quem ela se apaixonara. Para piorar, ela ainda estava grávida. Foi um escândalo de altos de páginas de jornais. Um senador chegou a dizer que das cinzas de Ingrid nasceria uma Hollywood melhor (sabe de nada, inocente). Que país estranho esse que transforma a vida pessoal de um artista em caso de segurança nacional. 

12. Sete anos depois do caso, uma TV americana ainda fez uma espécie de "Você Decide" para saber se deveria entrevista-la. É muito rancor. Mas ainda assim, Ingrid ganharia mais um Oscar. 

13. É curioso como Ingrid achava que Humprey Bogart era uma estrela, quase um deus do cinema arrogante e percebe que ele não era nada disso ao conhecê-lo nas filmagens de "Casablanca" (1942) e como a história se repete quando ela é a atriz consagrada e Sigourney Weaver é que pensa que vai lidar com um monstro em uma peça de teatro em Londres.

14. Que mulher fascinante era Ingrid Bergman. E que documentário muito interessante. Quero ter um na minha coleção de DVDs (sim, eu também sou um acumulador).

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

A vida é dura

A história é quase real, mas a neve é fake
Vou definir para vocês em um tweet o que é "Joy", o novo filme de David O. Russell: A fábula de uma mulher guerreira que tem uma família que não vale nada, mas inventa um esfregão revolucionário e vai vendê-lo no Polishop.

Pronto. Você poderia parar aí e seguir a sua vida. Você poderia dizer: Ah, gostei. O mundo precisa de mulheres de força, protagonistas em histórias inspiradoras. E aí você vai ao cinema e é recompensado por uma boa atuação de Jennifer Lawrence e de Robert de Niro (impagável). 

Ou você pode dizer: humm, se eu quisesse uma fábula ficava em casa lendo Esopo ou vendo um DVD da "Branca de Neve e os sete anões". Parece-me uma bomba. 

Além disso, Jennifer Lawrence e Bradley Copper de novo juntos??? Será que eles estão se pegando? Ok, "Trapaça" (2013) era até divertido, uma boa "Sessão da Tarde", mas "O lado bom da vida" (2012).... Bom, pelo menos parece que eles não dançam nesse filme (é verdade, eles não dançam). 

Como diria uma amiga minha quando lava as mãos e manda eu tomar minhas próprias decisões difíceis e assumir as responsabilidades delas: "It's up to you". 

Aqui vão algumas impressões sobre "Joy", já adiantando que eu não sou particularmente um fã de David O. Russell. Ok, "O vencedor" (2010) é ótimo, "Trapaça" é muito bom, mas "O lado bom da vida" não me convenceu. Assim como este novo filme do diretor. 

Além do tweet do primeiro parágrafo, "Joy" também pode ser visto como uma ode ao capitalismo. Pois só no capitalismo você fica tão no vermelho quanto Joy e continua fazendo o dinheiro girar.

Basicamente, o filme conta a história de uma mulher que abriu mão de estudar numa boa universidade de Boston para cuidar da família. Os pais (De Niro e Diane Ladd) estavam se separando. Ela conheceu um cantor de boteco venezuelano (Edgar Ramirez), ele mandou um "How you doinnn'" para ela e logo depois eles se casaram. Mas o casamento fracassou depois de dois filhos. Só que eles viraram ótimos amigos que vivem na mesma casa. 

É isso mesmo, na casa maluca de Joy, o ex-marido vive no porão dividindo-o com o pai, que se separara da mãe. Esta por sua vez vive há sete anos sozinha no quarto vendo a mesma novela (meu Deus, que novela dura tanto tempo?) e não gosta que nenhum homem entre lá. Ela ainda tem uma meia-irmã invejosa que adoraria derrubá-la. 

Há diversos personagens cômicos, poderia ser uma boa comédia. Mas o drama de Joy é real. Ela inventa coisas, cria, tenta ganhar a vida honestamente enquanto se equilibra entre dívidas e os problemas da casa. É uma guerreira e é a sua jornada de superação e dor que acompanhamos. Tudo narrado pela sua avó. 

Joy inventa um esfregão revolucionário para as donas de casa, mas precisa produzir e vendê-lo. Lida com parentes e patentes, gente querendo destruí-la, empresários inescrupulosos. É preciso muito jogo de cintura para viver essa vida e ainda cuidar das crianças. Mas a televisão... A televisão pode tornar any ordinary people em star. 

Acredito que o filme não consegue se equilibrar bem entre a comédia e o drama. Nem se definir sobre o que deseja para si. É muito comédia de um lado (a família quase caricata) e muito drama do outro (tudo dá muito errado para Joy até ela começar a se acertar). 

Poderia ser uma comédia dramática e não ter nenhum problema, mas o drama de Joy é tão sério, tão palpável, que não dá para rir tanto assim. Você sofre com ela enquanto ri dos demais personagens. Você pode ver como um mérito de Russell. Mas para mim não funcionou muito bem. 

É apenas uma opinião pessoal. Talvez "Joy" possa agradar você como talvez "O lado bom da vida" tenha agradado. Para a corneta, no entanto, o filme não atingiu plenamente o seu objetivo. Ainda que, por causa de alguns méritos, ele vá levar uma nota 6.

Indicação ao careca dourado: melhor atriz (Jennifer Lawrence)

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

O médico e o monstro

Eu comando a orquestra: chupa mundo
Quando o trailer de "Steve Jobs" foi divulgado no ano passado eu comentei que somente aqueles três minutos já eram melhores do que o PAVOROSO (assim mesmo, em letras garrafais) "Jobs" (2013). Aquele filme era tão ruim que merecia ser esquecido. Ele começou errado já na escalação de Ashton Kutcher para viver o gênio da Apple, o cara que criou 32% das coisas legais que usamos no século XXI.

Pois vejam só. Após o lançamento de "Steve Jobs", o novo filme sobre o maluco irascível que começou o seu império numa garagem como grandes bandas de rock, deu uma função ao "Jobs". Isso porque se você quer conhecer a história de Jobs de uma forma mais linear e próxima do que realmente rolou na vida dele, ele vai te ajudar um pouquinho. 

Já no caso do maravilhoso trabalho da dupla Danny Boyle-Aaron Sorkin, o papo é mais profundo e visceral. Diretor e roteirista pegaram o fundador da Apple para fazer um filme-ensaio sobre a vida deste sujeito genial e intragável. Um cidadão amado por quem não o conhecia e duro de engolir pelos seus subordinados. 

Jobs nunca foi um exemplo de bom chefe. Por trás de todo o seu modo bem particular de pensar e sua teimosia tinha um cara que só admitia a perfeição. E pessoas assim são insuportáveis. Era um sujeito que seria capaz de vender a mãe por uma boa ideia. Um homem que tinha a consciência que estava construindo o futuro e revolucionando toda essa bagaça. 

Para fazer isso, Sorkin abusou da licença poética. Ele já tinha feito algo semelhante em "A rede social" (2010), filme que falava sobre a vida do fundador do Facebook, Mark Zuckerberg. Nem tudo o que acontece no filme realmente aconteceu. Mas é daí? Se o próprio Jobs pregava que era preciso vender uma imagem que gerasse um desejo animalesco de consumo, por que o roteirista não poderia fazer com que o seu filme fosse uma viagem reflexiva a partir de uma tentativa de entender a cabeça de Steve? 

"Steve Jobs" é um ensaio em três atos. Em cada um deles, o personagem vivido muito bem por Michael Fassbender contracena basicamente com cinco personagens: sua diretora de marketing e melhor amiga, Joanna Hoffman (Kate Winslet, merecidamente indicada ao Oscar), Steve Wozniak (Seth Rogen), o amigo com quem ele criou o Macintosh e começou a Apple, Andy Hertzfeld (Michael Stuhlbarg), o programador, John Sculley (Jeff Daniels), o CEO da Apple com quem ele tem um diálogo avassalador no segundo ato, e a filha Lisa (Makenzie Moss, Ripley Sobo e Perla Harney-Jardine nas três fases), que ele demorou a reconhecer. 

E tudo se passa em três momentos-chave da carreira dele: o lançamento do Macintosh, o lançamento do cubo NeXT, feito depois que ele foi expulso da Apple, e o seu retorno para recuperar a empresa com o lançamento do revolucionário IMac. 

Nestes três atos, Sorkin e Boyle fazem um exercício de especular o que se passa na cabeça de Jobs, de tentar entendê-lo e montar um quebra-cabeça que mostra o gênio e o monstro que ele era. Como qualquer ensaio, eles levantam teses e deixam no ar para o espectador refletir. Ele era teimoso demais? Não valorizava o trabalho em equipe? Precisava humilhar as pessoas? Por que ele precisava ser tão difícil? Até onde a personalidade controversa justifica a genialidade? 

Ambos vendem a ideia de um Jobs que se via como um semideus, acima do bem e do mal. O maestro da orquestra, o técnico do time, o Romário dizendo na TV: eu vou ganhar a Copa. Mas que tanta autossuficiência o prejudicava. Faltava-lhe humanidade para pedir perdão e reconhecer a colaboração de quem o ajudou a chegar lá. 

Você pode concordar ou não com as ideias do filme. Pode chegar a outras conclusões. Pode detestar o filme. Mas é impossível ficar indiferente a ele. 

A corneta acha lamentável que o roteiro de Sorkin, que venceu o Globo de Ouro, não tenha sido indicado ao Oscar. Mais do que o excelente trabalho do diretor e dos atores, são os diálogos escritos pelo roteirista que fazem o filme ser incrível. Uma bola fora da turma do careca dourado. Vou até me arriscar que "Steve Jobs" merecia concorrer a melhor filme. 

Este texto, que foi todo escrito em um IPhone (obrigado, Jobs!), se encerra com "Steve Jobs" recebendo a merecida nota 8,5.

Indicações ao careca dourado: Melhor ator (Michael Fassbender) e melhor atriz coadjuvante (Kate Winslet).

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

In love

Que saco essa vida sem internet
Se o amor é brega e torturante hoje, imagina nos anos 50. Aquela eterna troca de olhares, três meses negociando para ver um tornozelo... Tudo era difícil na era pré-internet, amigos. Não havia Tinder para dar match. E como Therese (Rooney Mara) ia adorar ter um Tinder. Seria muito mais fácil para ela se arranjar. E não ia precisar aturar um noivo nada mara.

Mas estávamos nos anos 50. E sua melhor chance era uma incrível mulher chamada Carol (Cate maravilhosa casa comigo Blanchett) que ela conheceu por acaso na loja de brinquedos que trabalhava. 

Carol nunca ia precisar de Tinder, pois sempre foi atiradinha. E quando soube que Therese gostava mais de trenzinhos do que de bonecas (lembrem, estávamos nos anos 50 e os times azul e rosa eram bem delimitados), ela FAREJOU a oportunidade e pensou: "Tá no papo". Basta só usar o velho truque de deixar para trás um objeto pessoal como isca. Mas tudo com muita classe. Afinal ela é uma mulher da alta sociedade e é a Cate Blanchett. 
Musa, 
Diva,
Rainha das loiras,
Única, 
A diferentona

"Carol" é uma história de amor. E como toda história de amor, ela pode ser bem boring para quem não está vivendo uma história de amor neste momento. 

Como toda história de amor ela tem os seus percalços. É assim desde que Shakespeare escreveu "Romeu & Julieta" no século XVI. E tudo só ficou ainda mais dramático quando o Romantismo bateu à porta com delicadeza e dramaticidade no século XIX. 

No caso de Carol, o complicador é o marido. Ao invés de aceitar, pois sempre dói menos, Harge (Kyle Chandler fazendo o perfeito corno vingativo) resolveu brigar para manter a ex-atual nas suas garras. Ameaçou até impedir nossa heroína de ver a filha para sempre, pois Carol não teria envergadura moral para até trocar olhares com Rindy. Óbvio que a coisa ficou feia. Não se mexe na relação mãe-filha sem a coisa ficar feia. 

Mas como resistir àquela jovem vendedora aprendiz de fotógrafa que ventila a possibilidade de trabalhar no New York Times? Como não propor um fim de ano mágico? Aquele folgão de Natal e Ano Novo viajando para uma cidadezinha distante e ver o que podia rolar ali, com elas duas entre quatro paredes. É difícil resistir a Rooney (a Mara, não o Wayne). É impossível resistir a Cate.

Dirigido por Todd Hayes, "Carol" conta essa angustiante e tortuosa busca pelo amor e por descobrir quem você realmente é. Tudo feito num ritmo bem lento, na troca de olhares, nos pequenos gestos, captando quase a respiração das duas atrizes. E temos aí um mérito. 

Mas você menino-ogro tarado poderia dizer: Meu Deus, parece "50 tons de cinza"! Como demoram a trepar! Amigo, eram os anos 50. Lembra o que eu disse lá atrás? Meses para ver um dedo mindinho. Fora a culpa e o desejo flutuando lado a lado. Você foi ver um cruzamento de Jane Austen com Lord Byron achando que estava diante de Brasileirinhas? 


Ok, Cate está bem, mas Rooney não está mara (perdão pelo trocadilho), o filme tem sensibilidade, mas deu soninho em determinados momentos. Eu disse, Histórias de amor podem ser bem chatas. E "Carol" fica no meio do caminho. Não é um completo estorvo. Mas não é uma obra-prima. Vai ganhar uma nota 6,5.

Indicações ao careca dourado: Melhor atriz (Cate Blanchett), atriz coadjuvante (Rooney Mara), roteiro adaptado, fotografia, trilha sonora original e figurino.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Rocky is back

Espelho, espelho meu...
Toda última luta de Rocky Balboa nos filmes é uma metáfora da carreira de Sylvester Stallone. Começa muito bem, apanha muito nos nove rounds seguintes e depois ressurge das cinzas ao ouvir aquela trilha sonora, AQUELA TRILHA que funciona como o espinafre para o Popeye, para virar o jogo nos dois rounds finais e sair vitorioso do ringue gritando AAAAADRIANNNN.

Vejam se não é verdade. Stallone, o menino Stallone, como diria o Galvão Bueno, tinha apenas 30 anos quando recebeu duas indicações ao Oscar (melhor ator e roteiro) pelo primeiro Rocky (1976). Depois disso, amigo, só porrada. “Rocky IV”, o meu favorito, aliás, recebeu três indicações ao Framboesa de Ouro de 1986 (pior roteiro, diretor e ator). Stallone ganhou como diretor e ator. “Rocky V” recebeu duas indicações no Framboesa de 1991 (pior roteiro e ator). E só não teve mais porque o Framboesa foi criado em 1981, enquanto “Rocky II” é de 1979 e “Rocky III” é de 1982, logo não deve ter dado tempo deles verem esse filme.

Stallone, aliás, tem nada menos do que 36 indicações ao Framboesa de Ouro e dez vitórias. Entre elas um prêmio especial de pior ator do século XX. Um fenômeno.

Mas a vida dá voltas. E em 2015, Stallone voltou a interpretar o GARANHÃO ITALIANO (o boxe não existe sem seus apelidos) para mostrar ao mundo quem ele realmente é. O talento que ele esconde no fundo da sua alma. E foi assim que Rocky Balboa ouviu a sua música, levantou-se do ringue sangrando para dar a volta por cima e vencer a luta com uma indicação de melhor ator coadjuvante no Oscar. Imaginem como não será emocionante se Rocky erguer o careca dourado em fevereiro? Obrigado, ACADEMIIIIIIIAAAAAAA.

"Creed" é o retorno de Stallone a um dos seus dois personagens marcantes (o outro, vocês sabem, é o Rambo. Depois ele só interpretou variantes disso). Por mais que não tenha o nome de Rocky no título, você apreciará o trabalho de Ryan Coogler com mais DELEITE depois de um intensivão dos seis filmes do garanhão italiano.

É claro que "Creed" (favor não confundir com aquela bandinha mequetrefe) é muito legal de qualquer forma. Mas ele será puramente nostálgico para os fãs de Rocky, que vão se lembrar dos velhos personagens que já seguraram na mão de Deus e foram (Paulie, Mickey, Adrian), e recordar dezenas de locações já mostradas nos outros filmes.

Em "Rocky Balboa" (2006), o ex-campeão mundial se aposenta de vez após uma vitoriosa carreira em que conquistou três títulos mundiais e participou de épicas lutas, como a contra Ivan Drago em “Rocky IV”. Os anos se passaram, todos os amigos morreram, assim como Aaaaaaaadrian, a sua amada esposa, e Rocky foi tocar a vida longe do boxe. Para isso ele tem um restaurante de comida italiana com direito aquelas toalhas de mesa características. 

Até que um dia um moleque mimado aparece na sua porta. Vindo de Los Angeles após pedir demissão do seu emprego para sair em busca de novos desafios, ele surge com uma proposta indecente. Pede para Rocky ser o seu treinador. O garoto trata-se de Adonis "Hollywood" Creed (Michael B. Jordan), filho de Apolo, o DOUTRINADOR, primeiro adversário de Rocky pelo título mundial lá no fim da década de 70 e amigo pessoal dele. 

Rocky hesita, faz aquele jogo. Estou velho, não dá mais pra mim. Não quero mais saber de boxe. Mas como negar um pedido do filho do seu amigo? E aquela vontadezinha de voltar ao mundo do boxe agora no papel de professor? Sem contar que se ele negasse a ajuda não tinha mais filme. 

Rocky topa e cá estamos de volta para as streets of Philadelphia (laralalara-rá... cantem no ritmo de Bruce Springsteen) para Adonis entender que para ser um vencedor de verdade é preciso ter o treinamento roots do nosso herói. E tome de referências aos velhos filmes. Correr atrás de uma galinha, correr pelas ruas acompanhando um carro, de volta ao velho ginásio de Mickey... Só faltou mesmo a sequência de socos em pedaços de carne no frigorífico. Ele deve ter falido com a crise econômica de 2008. E ainda tem a já comentada tradicional e arrepiante trilha sonora no 12º round. 



Coogler tirou de Stallone uma das melhores atuações de sua carreira (acreditem!). Como um Rocky mais velho, um senhor aposentado que têm saudade dos velhos companheiros que já se foram, ele ganha novo fôlego na vida com a chegada do "sobrinho". Um estímulo que o ajuda a lutar contra uma doença e a melancolia causada pela saudade de Aaaaaaadrian, Paulie e do filho, que não é a Luiza, mas está no Canadá. Pela atuação, Stallone ganhou o Globo de Ouro e foi indicado ao Oscar 39 anos depois de sua indicação pelo primeiro Rocky. E foi merecida. Aceita que dói menos.

"Creed" ainda tem como mérito as boas cenas de luta, algo fundamental quando se trata de um filme sobre boxe. A única bola fora foi terem colocado dois caras com um cachecol do Liverpool na luta contra o inglês Ricky Conlan (Tony Bellew), um lutador ligado ao Everton e em pleno Goodison Park. Isso jamais aconteceria no mundo real. 

O trabalho de Coogler, porém, tem tudo para iniciar uma nova era na carreira de Rocky até onde Stallone quiser interpretá-lo (assim esperamos). Agora como treinador, ele tem muito a ensinar ao jovem filho de Apolo. Enquanto isso, "Creed" vai ganhar da corneta uma nota 7,5.


Indicação ao careca dourado: ator coadjuvante (Sylvester Stallone).

domingo, 17 de janeiro de 2016

Apostando contra

Margot Robbie explica o subprime
Mesmo depois de tantos filmes sobre a crise econômica de 2007-08, eu ainda consigo me confundir quando chegam para mim falando sobre CDO, swaps e outros termos do gênero. E não ajuda muito quando a Margot Robbie aparece nua numa banheira de frente para o mar para explicar o que é subprime. É óbvio que você não vai prestar atenção no subprime da mesma forma que parou de ler esse texto ao ver a foto acima. 

Mas valeu a tentativa. Aliás, valeu demais a tentativa Adam McKay. "A grande aposta" é o filme mais pop de todos já feitos sobre a crise. É um filme com a cara da corneta. Cheio de referências totalmente excelentes no roteiro e tentando fazer o cidadão comum entender o economês, essa língua do capeta. 

Acima disso tudo, porém, é possível tirar duas lições do filme: 

Não pareço o Lars Ulrich?
1. Todo homem que escuta heavy metal está à frente do seu tempo e é capaz de prever o futuro. Eu sempre soube disso. Pesquisadores britânicos já comprovaram que pessoas que ouvem heavy metal são 34,78% mais inteligentes do que os apreciadores de outros gêneros. 

2. Como o Steve Carell pode ser um bom ator! Eu dei uma olhada no perfil dele no Linkedln do cinema, ou seja, o Imdb, e tem pouca coisa relevante que ele tenha participado. Entre elas, "Pequena Miss Sunshine" (2006) e "Melinda e Melinda" (2004) em 73 trabalhos. Mas quando ele se leva a sério, ou alguém o leva a sério, caso de McKay, que lhe deu um dos protagonistas do filme, ele até pode brilhar. 

Em "A grande aposta", Carell é Mark Bauman, um dos caras que se deram bem ao preverem com dois anos de antecedência que a bolha imobiliária iria estourar deixando milhares de desempregados, desabrigados e fodidos em geral. Foi um período devastador. Bancos faliram, outros foram salvos pelo governo americano, mas nada menos que US$ 5 trilhões sumiram do mapa. É muita grana.

Mas Bauman não foi o primeiro a descobrir que ia dar merda. Esta profecia coube a Michael Burry (Christian Bale, mais uma vez bem demais num papel). 

Burry era um cara esquisito com um olho de vidro que trabalhava de bermuda e descalço (um sonho!) e ouvindo heavy metal (isso eu ainda consigo fazer nos feriados). Um dia ele estava ampliando a mente e dando uma espairecida com uma sequência de Metallica e Slayer quando percebeu que havia alguma coisa errada com as hipotecas. Estava rolando uma dose alta de inadimplência, em torno de 4%, naquilo que era visto como o investimento MAIS SEGURO de todos. Mas Burry pensou: "Isso vai feder. E, em 2007, quando a taxa de inadimplência chegar a 8%, o mercado vai quebrar e eu vou lucrar bilhões. Vou investir alguns milhões nisso". 


É claro que Burry foi ridicularizado, chamado de maluco para baixo. Os metaleiros visionários são sempre incompreendidos. No fim, para desespero de milhões de americanos e de Wall Street, ele estava certo. Fedeu demais. A merda foi para o ventilador em velocidade cinco em meio a um sistema fraudulento em que as agências de classificação de risco perderam total credibilidade porque não eram tão independentes quanto se imaginava (Incrivelmente, parece que elas recuperaram tudo).

Outros caras que previram a chegada do apocalipse também lucraram muito com a quebra dos bancos e o estouro da bolha. Eles são os vilões do filme? Aqueles que alisam o seu cheque de US$ 470 milhões? (É com você mesmo que estou falando, Ryan Gosling!). Ou é o sistema, que provou não ser tão seguro quanto pregava? Afinal, como diria o Capitão Nascimento o sistema é... deixa pra lá. Esse texto já estourou a cota de palavrões.

McKay deixa para o espectador refletir. A questão é: se você tivesse a chance de lucrar ao perceber o que estava acontecendo, você faria isso ou não? Este é o grande dilema de Bauman no filme. O que deve prevalecer: a raposa do mercado financeiro ou o lado humano, demasiado humano?

Carell: 'Eu posso ser sério, Ryan!'
"A grande aposta" é um filme muito divertido. Uma excelente comédia (acho que dá para chamar de comédia) em que há um louvável esforço em fazer o espectador se entreter e ao mesmo tempo entender tudo o que aconteceu com a economia naqueles anos complicados. As esquetes inseridas no meio do filme (ainda tem um chef em um restaurante e a Selena Gomez explicando o CDO enquanto joga cartas em Las Vegas) e a quebra da quarta parede ao estilo Frank Underwood tornam tudo mais leve e inteligível em meio a verborragia econômica.

E ainda tem uma trilha sonora maravilhosa, pois qualquer trilha sonora que tenha Metallica, Nirvana, Guns N'Roses e Led Zeppelin é maravilhosa. No fim, o que fica é o recado de Robert Plant e Jimmy Page: "If it keeps on rainin', levee's going to break/ When the levee breaks/ I'll have no place to stay ("Se continuar chovendo, as barragens irão romper/quando a barragem romper/não terei onde ficar". 

Ah, vocês ainda estão ai? Não ficaram paralisados na foto da Margot Robbie? Bom, então aqui vai a cotação final da corneta. "A grande aposta" vai ganhar uma nota 8,5.


Indicações ao careca dourado: melhor filme, diretor (Adam McKay), ator coadjuvante (Christian Bale), roteiro adaptado e edição.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

O novo western de Tarantino

Samuel L. Jackson mostra quem manda
Quentin Tarantino é uma espécie de Garrincha do cinema. Todo mundo sabe o que ele vai fazer, mas ninguém deixa de ver os seus filmes. Como os nossos avós não deixavam de ir ao Maracanã para ver o ex-atacante do Botafogo usar o mesmo drible contra os zagueiros pelos gramados. 

Tarantino tem oito filmes na vida. Todos falam sobre um único tema: vingança. Nada mais humano. Atire a primeira pedra quem nunca se vingou. Ou desejou se vingar sobre algo. 

Outra característica dos seus filmes são as mortes violentas. Cabeças estourando, sangue jorrando para todos os lados. As empresas de sangue artificial (deve ter uma coisa assim) devem esfregar as mãos quando Tarantino anuncia que vai fazer um filme.

Para vocês terem uma ideia de quanto sangue já foi usado, em oito filmes Tarantino já matou 378 pessoas. Dá uma média de 47,25 por filme. Em "Os oito odiados", 15 vão pra vala. Quinze vão descobrir se Deus existe. 

Bem, "Os oito odiados" tem tudo isso que a gente ama em Tarantino. E quatro anos depois de "Django Livre" (2012), o diretor americano resolveu mais uma vez falar sobre o racismo e a xenofobia na América. A carta de Abraham Lincoln, aliás, é tão atual para tantos lugares. 

Entre um "nigger" e outro. Entre uma fala contra os mexicanos e outro, Tarantino expõe todas as vísceras possíveis do discurso do preconceito. E o melhor é que o seu texto não faz concessões. O filme fala do jeito que o povo (preconceituoso e xenófobo) fala, com aquele ódio e a violência verbal que já vimos algumas vezes na vida real. Parece que é para chocar de propósito. Sob a cortina histórica do recente fim da guerra civil americana, período em que se passa o filme, o diretor quer mostrar que o comportamento não mudou muito em 200 anos. 

Tarantino não tem papas na língua. Usa o gênero mais americano de todos, o western, para tocar na ferida com ferro quente e girar o bastão com crueldade. Ele já tinha feito algo semelhante em "Django Livre". 

Em quase três horas de filme separado em cinco capítulos, quase um Lars von Trier pop, Tarantino expõe a beleza das paisagens geladas de Wyoming (o filme é lindo demais, assim como a trilha sonora de Ennio Morricone), e conta a história de oito caras que vão ter que se aturar na taverna de Minnie até uma nevasca passar. 

Ali tem dois caçadores de recompensa (Kurt Russell e Samuel L. Jackson, um habitué dos filmes do diretor e que está maravilhoso no papel do major Marquis Warren), um futuro xerife de Red Rock (Walton Goggins), um velho general sulista (Bruce Dern), um inglês (Tom Roth), um mexicano (Demián Bichir), um cowboy (Michael Masen), e uma prisioneira que John Ruth, personagem de Russell quer mandar para a forca em troca de dez mil dólares (Jennifer Jason Leigh, merecidamente indicada ao Oscar). 

Como numa peça de teatro filmada, eles discutem, entram em conflito e falam sobre o passado enquanto degustam o famoso guisado da Minnie. 

É um belo filme. É um filme maduro. Não o melhor do diretor americano, mas digno de sua filmografia. Por falar nisso, e como essa corneta está muito séria, vamos fazer o ranking Tarantino para tentar gerar uma polêmica. 

1. Bastardos Inglórios 
2. Pulp fiction
3. Cães de aluguel 
4. Os oito odiados
5. Django Livre
6. Kill Bill volumes 1 e 2 (pra mim é um filme só)
7. Jackie Brown

Os três primeiros dessa lista são o que fazem de Tarantino um cara genial. Os demais até Kill Bill mostram que ele é um cara foda. Jackie Brown é um erro que o torna humano. Tipo o que "Obladi Obladá" representa para os Beatles.

Enfim, sem ódio e só com amor no coração, a corneta dará para “Os oito odiados” uma nota 7,5

Indicações ao careca dourado: Atriz coadjuvante (Jennifer Jason Leigh), fotografia e trilha sonora original.


segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Jornalismo selvagem

Como reunião de pauta é chato
Como é duro o trabalho do jornalista, amigos. São horas e horas apurando uma história que, por vezes, se torna tão importante que vira a manchete do jornal. Você leva a porta na cara de muita gente, é tratado mal, xingado dos maiores impropérios, leva trabalho pra casa e, muitas vezes, a única coisa que tem para jantar na sua casa bagunçada são duas linguiças que você ferve no fogão. É muito sofrimento. Mas tem gente que gosta. 

Entre os indivíduos que gostam muito estão Walter “Robby” Robinson (Michael Keaton sendo Michael Keaton), Mike Rezendes (Mark Ruffalo), Matt Carol (Bryan Darcy James) e Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams), que não tem nenhum parentesco nem com a Michelle, nem com a Silvia. Eles eram jornalistas até certo ponto privilegiados, pois faziam parte do Spotlight. 

Mas o que é esse tal de Spotlight que mais parece nome de música da Madonna?

Spotlight é um grupo de... Vingadores que trabalham no “Boston Globe”. Uma galera escolhida a dedo para fazer grandes reportagens que podiam durar até mais de um ano para serem apuradas. Tudo dependia de sua complexidade. E de Vingadores, vocês sabem, o Mark Ruffalo entende. Principalmente quando ele fica verde de raiva (Quase rola no filme! Deve ser por falta de uma alimentação balanceada com brócolis e carnes brancas). 

Mas, como eu dizia, esse grupo um dia ouviu do novo chefão, Marty Baron (Liev Schreiber), um haole judeu barbudinho vindo de Miami e que não gostava de beisebol (como pode??), a seguinte dica: "Siga o dinheiro". Ops, não. Esse é outro filme. Ele disse: "Siga aquele padre". 

E foi o que o supergrupo fez. Liderados pelo Birdman, Hulk aliou-se à policial Bezzerides, tentando uma nova vida após a famigerada segunda temporada de “True Detective”, e ao Valdir Bigode para tentar desvendar os segredos obscuros da Máfia Pedófila da Batina. 

Mas não era uma missão fácil. Além de inicialmente a reportagem parecer uma loucura do novo chefão, Boston era praticamente uma filial do Vaticano na América. A Igreja tinha tentáculos em todos os lugares. Das grandes instituições ao Starbucks onde você comprava um donut. Até o “Globe” ajudou a varrer para baixo do tapete a história dos padres pedófilos antes da entrada dos Vingadores em cena.

Mas com a Spotlight em campo não pode ter placar em branco. Mesmo com o Bin Laden atrasando as investigações por causa dos atentados às torres gêmeas do World Trade Center, eles seguiram em frente. Contra tudo e contra todos. Fazendo novos inimigos e perdendo amigos. A ordem do editor era clara. Não era para derrubar um cardeal ou 70 padres, mas abalar a boca do balão do sistema e bagunçar até o Vaticano. Ou seja, deixar a Ilze pirada. 

Dirigido por Tom McCarthy, "Spotlight – segredos revelados" conta a história da reportagem que deu ao “Boston Globe” um Pulitzer (a única premiação que importa no jornalismo) em 2003, e fez diferença em Boston com ecos no mundo todo. Inclusive Arapiraca e Mariana, no Brasil. Pelo menos é o que dizem nos créditos finais do filme.

Mais de 600 artigos foram publicados pelo “Globe”. E 249 padres foram acusados de pedofilia. Mas como o filme não é um conto de fadas, o cardeal Bernard Law não foi punido, mas mandado de volta para Roma para comandar a bela Igreja de Santa Maria Maggiore. 

Para os quatro repórteres a vida seguiu depois daquele período intenso. Rezendes continua trabalhando no “Globe” como articulista e repórter investigativo. Robby também permanece como editor do Globe. Sacha saiu do jornal e voltou em 2014, enquanto Carroll deixou o jornal em 2014 e foi trabalhar no laboratório de mídia do Massachusetts Institute of Technology.

O filme de McCarthy vai agradar aqueles que gostam do gênero “filme-de-investigação”, embora não tenha nada mirabolante no enredo. Eram apenas quatro indivíduos fazendo o seu trabalho e enfrentando as dificuldades normais da vida. Além dos fãs de trabalhos que falem sobre jornalismo no estilo “Todos os homens do presidente” (1976).

No fim tudo deu certo. Abalou Boston, ecoou no mundo e hoje o chefão Baron é chefão do “Washington Post”. Bem que no filme disseram que ele ia acabar indo embora da cidade, pois não era da comunidade. 


“Spotlight” tem atuações ok (destaquemos o Mark Rufallo), uma história bem contada e uma trilha sonora que ficou na minha cabeça. Vai ganhar o careca dourado? Cara, vocês já ganharam um Pulitzer. Querem um Oscar também? Não sei. Só vou comentar quando ver todos os filmes indicados. Por enquanto, o que “Spotlight” levará da corneta é uma nota 7,5.