sexta-feira, 13 de junho de 2014

Anotaram a placa?

Robben e Van Persie arrebentaram
Quando na véspera da estreia na Copa o meia Xavi disse que a Espanha deveria morrer com o seu estilo eu achei uma convicção radical que não combinava nem com o jeito de ser do jogador do Barcelona. Afinal, a Espanha era um time inegavelmente vencedor (são duas Eurocopas e um Mundial no meio disso tudo), mas era uma equipe quatro anos envelhecida em relação ao título da África do Sul. O retrato da decadência desse time – e não do modelo de jogo centrado na posse de bola, que fique claro – era a temporada ruim do Barcelona.

Sim, o Barcelona disputou o título espanhol até o final da temporada, mas fracassou na Liga dos Campeões e nunca apresentou um futebol como de outros tempos nos oito meses em que jogou a temporada. Isso tinha a ver as lesões de Messi, claro, mas também com o envelhecimento do time, que perdeu Victor Valdés, Puyol e viu Xavi ter sua pior temporada em anos.

O mesmo Xavi da coletiva que começou a partida desta sexta-feira como titular e viu a Holanda passear num acachapante 5 a 1 na Fonte Nova.

Vicente del Bosque apostou nesta Copa em que lhe deu dois títulos. Tanto é que trouxe 16 jogadores campeões do mundo em 2010. Mas me parece claro que havia alguns jogadores do atual elenco e, além disso, um modelo de jogar futebol pedindo passagem. Atletas como Koke e David Silva, que encerraram a temporada em alta. E o modelo do Atlético de Madrid de Simeone, o grande vencedor da temporada, apesar daquela derrota dolorosa para o Real Madrid na decisão da Liga dos Campeões.

Esse é um problema com o qual Del Bosque terá que lidar para a partida desde já decisiva contra o Chile, na semana que vem, no Maracanã. Mudar é preciso, sob pena de a Espanha repetir a Itália na Copa passada e cair na primeira fase. O grupo não é fácil como mostrou a partida que veio logo depois entre Chile e Austrália (3 a 1 para os chilenos). De um lado um time sul-americano que sabe jogar e tem um ímpeto ofensivo quase insano, um Sampaoli style. Do outro, uma equipe pesada, que joga na defesa e busca contra-ataques em velocidade, comandado pelo atacante Tim Cahill.

Para a Holanda, a Copa não poderia ter começado melhor. Digamos que os holandeses fizeram com os espanhóis o que Oberyn Martell deveria ter feito com a Montanha em “Game of Thrones”. Acabou com o rival de forma devastadora quando teve a oportunidade em uma disputa que começou perdendo e jogando menos que a adversária. 

Embora tenha sido a seleção de melhor campanha das Eliminatórias, ao lado da Alemanha, com 28 pontos conquistados, os holandeses chegaram ao Mundial sendo contestados por não ter uma geração tão talentosa quanto outras do passado. E se falava até que o Chile poderia roubar a vaga destinada aos holandeses no grupo B.

A tática do técnico Louis Van Gaal estava definida há tanto tempo que todos puderam passear na praia de Ipanema e sair na night carioca sem problemas. O treinador montou uma equipe jovem que corresse para os três craques trintões da frente, Sneijder, Robben e Van Persie, decidirem. A média de idade da Holanda na Copa é de 25,9 anos. O time que entrou em campo hoje tinha média de 25,1 sem contar com os três craques. Com eles, todos com 30 anos, a média sobe para 26,4.

E em campo, eles corresponderam. Principalmente Robben e Van Persie. O jogador do Bayern de Munique estava endiabrado e marcou dois gols. O centroavante do Manchester United e capitão da seleção holandesa fez o mesmo. Sendo que um deles foi um golaço de peixinho. De Vrij completou o placar. Xabi Alonso fez o gol espanhol num pênalti inexistente. Mais um erro de arbitragem numa Copa que começa marcado por eles.

O único problema dessa tática de Van Gaal é você ficar sem um dos três da frente. E Van Persie já recebeu um cartão amarelo em uma competição em que dois amarelos te deixa suspenso. Huntelaar é um bom centroavante, mas não se compara ao atacante do United. Assim como Kuyt ou Wijnaldum não estão no mesmo nível de Robben ou Sneijder.

Para começo de torneio e como injeção de ânimo foi bom para a Holanda, que pode garantir a classificação na quarta-feira, contra a Austrália. Mas pode faltar estofo para os holandeses chegarem longe na competição. Quanto a Espanha, a partir de agora é mata-mata até o fim.

Espanha 1 x 5 Holanda

Local: Fonte Nova, em Salvador, na Bahia

Árbitro: Nicola Rizzoli (ITA)

Gols: Xabi Alonso aos 27 minutos do primeiro tempo para a Holanda e Van Persie aos 44 minutos do primeiro tempo e aos 27 do segundo tempo, Robben aos 8 e aos 35 e De Vrij aos 19 minutos do segundo tempo para a Holanda.

Espanha: Casillas, Azpillicueta, Sérgio Ramos, Piqué e Jordi Alba; Busquets, Xabi Alonso (Pedro), Xavi, Iniesta e David Silva (Fábregas); Diego Costa (Fernando Torres). Técnico: Vicente del Bosque.

Holanda: Cillessen, Vlaar, De Vrij (Veltman) e Martins Indi; Janmaat, De Guzman, De Jong (Wijnaldum) e Blind; Sneijder, Van Persie (Lens) e Robben. Técnico: Louis Van Gaal.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Olho na Croácia

Olic, um dos destaques da boa Croácia/Vipcomm
A Copa tem algumas obviedades. Todo torneio de tiro curto tem. Quando o sorteio saiu em dezembro do ano passado e mostrou quem estaria no grupo A (Brasil, Croácia, México e Camarões) e no B (Espanha, Holanda, Chile e Austrália), o comentário geral foi que espanhóis e holandeses jogariam para não pegarem o Brasil nas oitavas de final e correrem o risco de sair do Mundial mais cedo. Pois bem. A Croácia tratou de embaralhar um pouco isso tudo.

O time dirigido pelo ex-jogador Niko Kovac mostrou que tem bola para ir longe nessa Copa. Se vai repetir o feito da geração de ouro de Boban, Suker e Prosinecki e terminar em terceiro lugar como na França, em 1998, só o futuro dirá. Mas a equipe croata é promissora. E dará trabalho para quem enfrentar nas oitavas de final. Não acredito que México e Camarões poderão fazer muita coisa nessa chave.

Os croatas têm um time técnico, que joga bem e com a bola no chão. Comandados pelo meio-campo formado por Modric, Rakitic e Kovacic, o time procura tocar bem e manter a posse de bola. É, digamos, um tik-taka dos Bálcãs. Aliás, os croatas, assim como os bósnios, são os representantes nesta Copa de uma escola muito técnica, a da antiga Iugoslávia.

Quando se defende é com segurança e sem dar muito espaço para os adversários. Tanto é que o sistema defensivo só cometeu um erro em 90 minutos da partida contra o Brasil, quando deu muito espaço para Neymar empatar a partida aos 29 minutos. Um lance em que eu achei que o goleiro Pletikosa também falhou porque caiu um pouco atrasado na bola.

Naquele momento, brasileiros e croatas empatavam por 1 a 1 (Marcelo, contra, fez o primeiro da partida), e faziam uma partida equilibrada. A Croácia começou melhor, controlando a partida no meio-campo e com Olic passeando nas costas de Daniel Alves, enquanto o Brasil se mostrava um pouco nervoso. Mas no final do primeiro tempo e no início da etapa final, a seleção jogou bem e poderia até ter virado a partida se tivesse caprichado mais nas poucas finalizações que teve (no total foram 14 chutes a gol dos brasileiros e dez dos croatas).

O domínio territorial do Brasil principalmente a partir da segunda etapa pode ser resumido pela posse de bola: 58% contra 42% dos croatas. Luiz Gustavo fazia uma grande partida na proteção à zaga, onde David Luiz também era um dos destaques. Na frente, apesar do gol, o grande nome era o do até então criticado Oscar, talvez o melhor jogador da partida.

Mas com vontade a Croácia conseguia se manter firme e segurando o placar. Até que o árbitro japonês Yuichi Nishimura marcou um pênalti inexistente em cima de Fred aos 26 minutos da etapa final. Neymar converteu e decidiu o jogo.

- Se isso é um pênalti, então podemos parar de jogar futebol agora – reclamou, com razão, Kovac após a partida.

O pênalti mal marcado prejudicou demais os croatas. E o terceiro gol, já no fim, foi consequência de uma equipe que estava no ataque em busca do empate. Ainda assim os croatas nunca estiveram desorganizados em campo e em nenhum momento deixaram de jogar dentro do seu estilo. A Croácia perdeu, mas pode se dar bem nessa Copa. Fiquemos de olho nela.

Brasil 3 x 1 Croácia

Local: Itaquerão, em São Paulo

Árbitro: Yuichi Nishimura (JAP)

Gols: Marcelo, contra, aos 11 minutos para a Croácia e Neymar aos 29 e aos 26 minutos do primeiro tempo e Oscar aos 46 minutos do segundo tempo para a Croácia.

Brasil: Júlio César, Daniel Alves, David Luiz, Thiago Silva e Marcelo; Luiz Gustavo, Paulinho (Hernanes) e Oscar; Hulk (Bernard), Neymar (Ramires) e Fred. Técnico: Luiz Felipe Scolari.

Croácia: Pletikosa, Srna, Corluka, Lovren e Vrsalijko; Rakitic, Modric, Perisic e Kovacic (Brozovic); Olic e Jelavic (Rebic). Técnico: Niko Kovac.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Godzilla, uma bomba atômica

O lagartão solta o bafo atômico
Poucas vezes a corneta esteve tão constrangida diante de uma tela do cinema quanto vendo "Godzilla". Sim, fui conferir o enésimo filme do monstro que é um cruzamento de um tiranossauro com um iguanodonte e um estegossauro (eu estudei essas coisas vendo o Ross, em “Friends”).

Godzilla é um produto tipicamente japonês como o Jaspion, o Ninja Jiraya e o Nacional Kid, mas nos últimos anos Hollywood é quem tem ressuscitado o bicho para fazer versões cada vez mais, digamos, estranhas, desse dinossauro que tem como armas a superforça, um gritinho de contrabaixo e um poderoso vômito azul sabor urânio (tipo molho de restaurante chinês).

Só que não é com o Godzilla que a humanidade precisa tomar cuidado. Nesse filme, o animal é bonzinho, fofo, meigo... Deve ser para vender brinquedos. Os vilões são os Mutos, espécie de baratas gigantes que lançam pulsos eletromagnéticos e buscam um devastador acasalamento que acabará com a humanidade. Amigo, nem a dança do acasalamento da "Família Dinossauro" era tão constrangedora quanto o beijinho de bomba atômica desses baratões.

Mas o fato do Godzilla não ser o protagonista do seu próprio filme não é pior do que o suposto herói do filme, vivido por Aaron Taylor-Johnson.

Esse papel caberia ao tenente Brody (não aquele de “Homeland”, que já está morto e enterrado. Sorry pelo spoiler). Mas o cara não tem UMA cena em que faça algo minimamente heróico. Zero, nothing. Ele é praticamente um nada. Também, ser filho do Walther White deve causar danos irreversíveis.

E não é só isso! "Godzilla" é o maior desperdício de talentos por metro quadrado. O que faz musa Juliette Binoche no filme? Nada. Deve estar precisando da grana para o aluguel. E Ken Watanabe? O que é o discurso Greenpeace dele? "Nós humanos achamos que dominamos a natureza, mas isso é arrogante e blablablá".

Para não falar de Bryan Cranston chorando pela esposa como um Rocky Balboa gritando pela Adrian e Sally Hawkins, que até outro dia fazia um trabalho digno com Woody Allen.

Nada se salva em "Godzilla". Talvez alguns efeitos especiais. Eles garantiriam alguns pontos. Mas aí eu lembrei que vi duas cenas de famílias correndo rumo ao reencontro. Não deu. Só faltava a trilha de "Carruagens de fogo".

A corneta entrou numa fria, mas alerta-los-á que Godzilla é uma bomba atômica. O lagartão precisa evoluir muito ainda para ganhar uma boa cotação. Esse filme aqui vai ficar com uma nota 1,5.

Ficha técnica: Godzilla (Godzilla – 2014 – Estados Unidos) – Aaron Taylor-Johnson (Ford Brody), Ken Watanabe (Dr. Ishiro Serizawa), Bryan Cranston (Joe Brody), Elizabeth Olsen (Elle Brody), Carson Bolde (Sam Brody), Sally Hanwkins (Vivienne Graham), Juliette Binoche (Sandra Brody), David Strathairn (William Steinz). Escrito por Max Borenstein. Dirigido por Gareth Edwards.

domingo, 25 de maio de 2014

Scarlett...

Scarlett mostra quase tudo antes de mostrar tudo
A frase está no pôster que Fox Mulder mantinha com ele na sua sala dos nerds excluídos do FBI: "A verdade está lá fora". Eles estão entre nós e adotando métodos cada vez mais sofisticados para exterminar a humanidade. A mais nova arma é baixar na terra com avatares de Scarlett Johansson. Como resistir? Como não ceder se Scarlett vem para você, te chama de lindo e faz um strip-tease? Nunca entrar num buraco negro sem volta foi tão prazeroso.

Quando um filme se vende como o trabalho em que a atriz fulana faz um nu frontal, desconfie. Desconfie muito. É claro que a corneta pisou no cinema achando que se metera numa roubada.

Mas é a Scarlett Johansson. Então lá estavam eu e mais 44 tarados de diferentes idades e sexos (sim, eu contei) para vermos Scarlett se desnudar para o mundo numa produção viajandona e com uma trilha sonora psicodélica tirada de algum filme do Kubrick que, claro, vai me causar uma semana de pesadelos.

No fim, bem, no fim eu julgaria que o filme causou controvérsia.

- Esse filme não acrescenta nada - disse um senhor enquanto deixava a sala.

Amigo, quem quer acrescentar não vai ver filme. Vai estudar matemática, que lida com soma e multiplicação.

A sensação que eu tenho é que algumas pessoas foram levadas ao cinema pelas frases "Vamos ver o filme da Scarlett Johansson" e “Vamos ver a Scarlett Johansson pelada” e não repararam que era uma ficção científica. E para o gênero, "Sob a pele" é bem bom.

A história. Scarlett é um alien que baixa na terra e sai exterminando um monte de seres humanos. Ela começa a missão pela Escócia. Sim, eu também não entendi porque os ETs começam logo pela Escócia. Talvez porque é um lugar tão vazio que dá para abordar uns caras na rua sem ninguém perceber.

O alien tem uma particularidade. Só pega homem solteiro e solitário. É um alien de coração. E só age depois de fazer uma entrevista com as vítimas mais tensa do que entrevista de emprego em multinacional. E quando os caras acham que vão se dar bem, logo percebem que aquela mulher vai é metê-los numa fria. É o que acontece com um torcedor do Celtic, cujo fim deve ter sido comemorado pelos fanáticos pelo Rangers, e o jovem aprendiz de dançarino de Lepo Lepo (que cena constrangedora).

O problema é que quanto mais tempo convive com os seres humanos, Scarlett vai curtindo. Tem uma subtrama por trás que mostra Scarlett descobrindo, tentando entender o que é ser humana. É aí que ela experimenta um bolo de chocolate, uma das melhores maneiras de estrear na culinária terráquea. E é aí também que entra a tão falada cena dela peladona.

Claro que na primeira vez que ela sente um negócio chamado piedade e toma uma atitude diferente do previsto, o chefe não vai gostar. Ao mesmo tempo, o alien também percebe que a humanidade não presta. São coisas da vida. Não importa se você é daqui ou de Urano.

No fim, "Sob a pele" prova que não é só um corpinho bonito (ou melhor, um corpaço de deusa hipnotizante), mas também tem algum conteúdo. A corneta sai do cinema satisfeita e realizada porque em cinco meses já viu Scarlett três vezes na tela grande. Que 2014, amigos! Atento aos sinais das estrelas, a corneta espera que a nota 7 para “Sob a pele” agrade aos alienígenas. Do contrário, espero que Scully me ajude.

Ficha técnica: Sob a pele (Under the skin – Estados Unidos - 2013) – Scarlett Johansson, Jeremy McWilliams. Escrito por Walter Campbell. Dirigido por Jonathan Glazer.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Trabalhadores do Brasil...

Getúlio em fase pós-Friboi
Filmes históricos são aqueles únicos em que você não se incomoda de ver sabendo de um spoiler. A corneta foi dar uma moral para o cinema brasileiro mesmo sabendo que o protagonista de "Getúlio" morre no final. Mas isso não é problema. Certas obras são como peças de Shakespeare. Não importa qual é o final, e sim como se chega a ele.

O filme de João Jardim tem um jeitão de minissérie da Globo. Um cruzamento de “Agosto” com "Anos Rebeldes”. Tudo com algumas restrições orçamentarias em comparação com o cinema americano. É em cenas como a de Alzira Vargas (Drica Moraes) vendo fotos de manifestações que percebemos que o dinheiro no cinema brasileiro ainda não jorra como no mundo encantado de Hollywood. Se fosse nos Estados Unidos, teríamos um take daqueles sanguinários com explosões e vários figurantes correndo de um lado para o outro.

Mas é uma cena digna. Como todo o filme, aliás. Jardim optou por não contar toda a vida do ex-presidente Getúlio Vargas, como 99% das cinebiografias. Pegou aqueles 20 dias finais que abalaram o Brasil a partir do atentado contra Carlos Lacerda em Copacabana para contar a derrocada de Vargas.

Estamos em 1954 e o Brasil vive uma espécie de “Game of Thrones”. Daenerys Getúlio  Targaryen, The Father of the Poor, é amado pelo povo, mas é seguidamente apunhalado pela oposição e por muitos aliados que o querem ver pelas costas como nos tempos em que o então ditador foi jogado para escanteio.

Raposa velha da política, malandro do Rio Grande do Sul, Vargas vai se equilibrando para se manter como pode no poder. Apesar da carne ruim do Palácio do Catete, muito inferior a de São Borja. Naquele tempo não tinha Friboi, né Tony Ramos?

Só que os milicos Lannisters tramam para derrubar Vargas. Eles já querem iniciar a Era das Trevas que só começaria dez anos depois. Enquanto isso, Carlos Lacerda (Alexandre Borges) dá o seu showzinho particular de oposição. Ele faz pose de Ned Stark, mas não passa de um Theon Greyjoy. Afinal, vocês sabem que o que todos desejam é o poder. Certas coisas nunca mudam. Saudades dos verdadeiros debates políticos na ágora grega.

Mas Khaleesi Vargas avisa que só sai do palácio morto e fim de papo. O cerco se fecha na medida em que as investigações sobre o assassinato do major Vaz vão chegando cada vez mais perto do gabinete do presidente. Vargas manda investigar duela a quem duela e se vê traído pelo assessor e capanga Sor Jorah Fortunato.

As conspirações crescem. Não dá para confiar em mais ninguém. Até que o presidente dá um cavalo de pau e entra para a história como nunca antes na história desse país (sorry, Lula).

"Getúlio" é um bom filme. Tem momentos que parecem novela por causa de determinados planos e enquadramentos, mas não chegar a ser uma coisa “for Teletubbies”. Desculpe se você gosta de novela. Eu também gosto de muita coisa ruim.

Mas o filme se destaca pela qualidade de dois atores em especial: Tony Ramos e Drica Moraes. Com toda a maquiagem e próteses necessárias, Tony está muito bem no papel do presidente. Dizem que Vargas tinha um sotaque forte, mas reclamar disso é coisa de cricri e a corneta é chata, mas não é cricri. Três vezes durante o filme ele solta um "Bah!". Isso para mim já é o atestado necessário de gauchice. E tudo fumando um charuto como estadistas do porte de Churchill e Roosevelt.

Já Drica é a melhor dos coadjuvantes. Sua Alzira Vargas é o perfeito ponto de equilibro entre a conselheira política e a filha amorosa. Cada cena dela, acredite, vale o ingresso. Pelo menos a meia-entrada, vai.

No fim, uma frase de reflexão atribuída ao ex-presidente Juscelino Kubitschek diz que o suicídio de Vargas adiou em dez anos o golpe militar, pois os golpistas de 64 eram os mesmos de 54. É como o filme “Premonição”. Será que era o destino inevitável do Brasil passar por aquele período sombrio? Cartas para os videntes.

A corneta não espera ter o apoio das massas após a divulgação da nota do filme. Mas consciente de que mais do que o petróleo, a corneta é nossa, saio deste post para entrar para a história com um 6,5 para "Getúlio".

Ficha técnica: Getúlio (Getúlio – 2014 – Brasil) – Tony Ramos (Getúlio Vargas), Drica Moraes (Alzira Vargas), Clarisse Abujamra (Clarisse Vargas), Alexandre Borges (Carlos Lacerda), Daniel Dantas (deputado Afonso Arinos), Adriano Garib (General Zenóbio da Costa), Paulo Giardino (Brigadeiro Eduardo Gomes), Thiago Justino (Gregório Fortunato), Fernando Luis (Benjamin Vargas), Leonardo Medeiros (General Caiado), Marcelo Médici (Lutero Vargas), José Raposo (Nero Moura).

segunda-feira, 5 de maio de 2014

O escalador de paredes brilha

Homem-Aranha e o Faísca, quer dizer, Electro
“Homem-Aranha/Homem-Aranha/Nunca bate/Só apanha”. Toda vez que eu vou ver qualquer filme do amigão da vizinhança, lembro dessa música que alguém criou a partir do tema de um desenho animado antigo do super-herói e que ganhou um sensacional cover punk rock dos Ramones. E como é legal ver que esse tema é exatamente o toque do celular de Peter Parker em “O espetacular Homem-Aranha 2: A ameaça de Electro”. Gênio. Parabéns aos envolvidos.

Quando a corneta vai ao cinema ver um filme do Homem-Aranha tem que lutar contra um sentimento de jogo praticamente ganho. Afinal, o aracnídeo sempre foi um dos meus três heróis favoritos. Fica ali junto com o Batman e o Wolverine (agora vocês sabem porque eu sou tão condescendente com os filmes dele). O Thor entraria nesse grupo, mas o Thor do cinema não é tão legal quanto o dos quadrinhos porque ele não fala em linguagem shakespeariana com legenda com frases na segunda pessoa do plural e  mesóclises. Lamentável. A mesóclise é a melhor coisa da língua portuguesa.

No caso de Peter Parker, ele é ótimo porque é gente como a gente. Um nerd que tem uma vida complicada em que nada dá certo. Que tem um chefe histérico, histriônico e maluco. Que tem problemas com as garotas, mas está sempre com um sorriso no rosto e contando uma piada. Enfim, Parker é um espelho de todos nós losers, mas nos dá uma esperança de dias melhores quando o vemos balançando pelos arranha-céus de Nova York. Deve ser por isso que ele é tão amado.

Lá se vão cinco filmes desde a primeira vez que Tobey Maguire vestiu o collant azul e vermelho do Aranha. Após dois trabalhos com Andrew Garfield já podemos fazer algumas comparações e considerações. Vamos a elas:

1) Não sou fã de reboots e era viúva de Maguire mesmo que o terceiro filme tivesse sido muito ruim. Mas é preciso reconhecer que "O espetacular homem-aranha 2: a ameaça de Electro" é tão bom quanto "Homem-Aranha", o primeiro filme lá de 2002.

2) Ok, eu me rendo. Andrew Garfield ganhou a minha simpatia com esse filme. Já o vejo perfeitamente na pele do herói. Ele ganhou pontos com sua atuação e parece mais à vontade no papel em um filme que é infinitamente melhor que o primeiro. Talvez por superar aquela fase de contar a origem. Ninguém aguenta mais filme de origem.

3) Se Garfield (o ator e não o gato preguiçoso dos quadrinhos) está quase do mesmo nível de Maguire, os filmes de Marc Webb tem uma vantagem em relação aos do Sam Raimi: o humor. Aquele humor do Homem-Aranha dos quadrinhos, o herói que faz uma piada em qualquer situação e debocha dos vilões é muito presente nesta nova fase e proporciona momentos únicos. É muito agradável o equilíbrio entre drama, comédia e aventura. Nesse ponto, o trabalho de Webb se aproxima de "Os Vingadores", de Joss Whedon.

4) Webb e seus amigos nerds responsáveis pelos efeitos especiais levaram a sério a frase do Tio Ben que acompanha Parker em todas a sua vida: "Grandes poderes trazem grandes responsabilidades". Isso significa que eu vou dizer uma coisa inédita. Finalmente temos um filme que vale a pena ver em 3D. Até então o 3D era uma picaretagem para tirar mais dinheiro do espectador honesto e trabalhador, mas "O espetacular Homem-Aranha 2" acaba com isso. O 3D é realmente uma atração a parte nas cenas de ação e nas diversas vezes que o herói transita pelos prédios de Nova York. São imagens realmente incríveis. Ultrapassa os melhores momentos do aracnídeo se balançando por aí.

E a história? Dessa vez o Aranha tem que enfrentar três vilões. Seu arqui-inimigo Duende Verde (Dane Dehaan), cidadão que tem uma obsessão patológica pelo herói, o Electro (Jamie Foxx) e sua carência irritante, e o malucão do Rino (Paul Giamatti). Fato que os três precisam de um psicanalista. Ao mesmo tempo tem que administrar um namoro vai não vai com Gwen Stacy (a fofinha da Emma Stone, maior celebridade com língua presa desde Cazuza e Romário, e namorada de Garfield na vida real). Os jovens vão se identificar com os momentos meigos dos dois.

É claro que vai dar merda. Afinal, estamos falando de Peter Parker. Algo sempre dá errado. E quem leu os quadrinhos sabe que neste filme estaremos diante de um momento importante na vida do herói. Não posso falar mais sob pena de revelar spoilers. E estou fazendo análise para tratar desse problema de língua solta cinematográfica. Só posso dizer uma coisa: que coragem de Marc Webb, meus amigos. Que coragem. Ainda me faz tudo com requintes de crueldade, quase tudo igual aos quadrinhos e logo no segundo filme!

"O espetacular Homem-Aranha 2: a ameaça de Electro" é divertido, bem feito, engraçado, tem atores de calibre em papéis importantes (Sally Field é perfeita como Tia May), um protagonista carismático e um herói no melhor da sua forma. A corneta se rende completamente, sai do cinema de alma lavada e desejando um terceiro filme o quanto antes. E quem prestou atenção em alguns detalhes, sabe que o Doutor Octopus, a Gata Negra e Mary Jane vêm aí.

Diante desse Homem-Aranha ousadia e alegria de Marc Webb, a corneta se dá por satisfeita. A nota não pode ser nada diferente de
9,5. E fiquemos com os Ramones para alegrar o nosso dia. “Homem-Aranha/Homem-Aranha/Nunca bate/Só apanha”.

Ficha técnica: O espetacular Homem-Aranha 2: a ameaça de Electro (The Amazing Spider-Man 2 – 2014) – Andrew Garfield (Peter Parker/Homem-Aranha), Emma Stone (Gwen Stacy), Jamie Foxx (Electro/Max Dillon), Dane Dehaan (Harry Osborne/Duende Verde), Colm Feore (Donald Menken), Felicity Jones (Felicia), Paul Giamatti (Aleksei Sytsevich/Rino), Sally Field (Tia May), Marton Csokas (Doutor Kafka), Chris Cooper (Norman Osborne). Escrito por Alex Kurtzman, Roberto Oci e Jeff Pinkner. Dirigido por Mar Webb.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Kung Fu

Ip Man mostra que é bom na chuva
Certa vez eu fiz uma daquelas enquetes do buzzfeed (sim, eu sou desses) que era sobre de qual período histórico você é ou deveria fazer parte. Era uma espécie de terapia de vidas passadas pela internet. Para a minha surpresa na ocasião deu uma dinastia chinesa. A corneta realmente tem um pezinho em tradições milenares e admira coisas antigas. A corneta é mais do que velha. É matusalênica! E assim ela foi empolgada ver o novo filme de Wong Kar Wai.

Se você é um diretor chinês, é praticamente uma obrigação fazer na sua vida um filme de espadachim e/ou um filme de Kung Fu. É tipo brasileiro fazendo comédia. Kar Wai, conhecido por trabalhos bonitos como “Amor à flor da pele” (2000), “2046 – os segredos do amor” (2004) e “Um beijo roubado” (2007) - ah, a torta de blueberry -, já tinha feito um filme de espadachim há 20 anos, com “Cinzas do passado”. Faltava o filme de Kung Fu.

"O grande mestre" tem tudo o que nos faz feliz com um filme do gênero. Tem lutas maneiras, um vilão com cara de mau, uma mocinha que também vai pro pau e uma série de ensinamentos de biscoito da sorte com parábolas do tipo "um tigre nunca sai da montanha" e “Não se deve lutar com monges budistas, mestres taoistas, mulheres e crianças”. As parábolas chinesas são muito mais legais que as cristãs.

Tudo em "O grande mestre" se passa do início até meados do século XX durante a guerra sino-japonesa. Enquanto o Japão invade a China numa batalha sangrenta, norte e sul do país tentam se entender sobre quem luta melhor e com dancinhas mais bem coreografadas. E tome de salto do macaco caolho de um lado, árvore frondosa que sufoca a garganta do outro, e coisas do gênero. Tudo nas artes marciais chinesas têm um nome poético.

Basicamente temos três escolas se digladiando para ver quem tem o estilo mais totalmente excelente. Os Gong são os mestres do momento, cujo patriarca rei da cocada preta reuniu dois estilos milenares e domina a temida técnica dos 64 movimentos do Baguá. Não ria, o negócio é sinistro e cheio de golpes invisíveis que fariam o Mister M cortar um dobrado para desvendar.

Mas temos também Ip Man, o nosso anti-herói vivido por Tony Leung, um outsider sem estilo que consegue assimilar por osmose as técnicas de todas as escolas. Ip Man é um cruzamento de Mística, dos X-Men, com Ayrton Senna, pois ninguém luta melhor que ele na chuva. Ele também consegue quebrar biscoitos só com a força da mente. Bom, esse poder não tem muita utilidade, mas as crianças podem curtir. Tudo isso sem amassar o seu chapéu Panamá. Ip Man é um pequeno gafanhoto de James Bond.

O problema é que ele só viu uma vez a tal das 64 formas e não conseguiu memorizar. Por isso joga um charme para a filha Gong, rola um clima, mas a vida prega peças nas pessoas. Vocês sabem disso. E o que Deus ameaça unir, a guerra trata de afastar antes.

Ip Man protagoniza grandes lutas, mas o grande momento do filme é mesmo a pancadaria entre a filha Gong e o bastardo traidor. Um duelo entre "irmãos de armas". Essa vale muito o ingresso. De fazer o Bolshoi aplaudir de pé. O desfecho? Vejam o filme. Não vou ficar aqui dando spoiler.

A corneta se amarra em filmes de Kung Fu e saiu do cinema mais sábia com os  ensinamentos de Kar Wai. Mas sabe que o leão que fita a adaga precisa buscar o caminho da montanha por fendas na cachoeira dentro da floresta (provérbio chino-marcelista). Isso é para dizer que a perfeição não está no fim, mas na iluminação conseguida pelo caminho. Assim, a corneta vai dar uma nota 8 para "O grande mestre". E não se esqueçam de uma coisa: #somostodoscorneta.


Ficha técnica: O Grande mestre (Yi dai zong shi – 2013 – China) – Tony Leung (Ip Man), Cung Lee (Iron Shoes), Qingxiang Wang (Mestre Gong Yutian), Elvis Tsui (Mr. Hung), Chia Yung Liu (mestre Yong), Ziyi Zhang (Gong Er), Chen Chang (Canivete), Jin Zhang (Ma San). Escrito por Wong Kar Wai, Jingzhi Zou e Haofeng Xu. Dirigido por Wong Kar Wai.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

O herói da América de volta

Fury, Rodgers e Viúva Negra posam para foto
Antes de entrar na sala de cinema, a corneta pensou em fazer uma enquete para saber qual é o super-herói mais coxinha dos quadrinhos: Capitão América ou Superman? Depois do filme, bem depois do filme... sorry, Superman, você levou essa.

Um dos méritos de "Capitão América - o soldado invernal" é dar um polimento, uma lapidada na "coxinhice" do Capitão América. Sim, o Sentinela da Liberdade continua lá com seus valores morais, com seu discurso e toda a sua perfeição. Ou quase. O filme dá a entender, deixa uma pequena ponta solta, de que o escoteiro da América já deu suas derrapadas. Tudo bem que foi há 70 anos, mas já é alguma coisa. Enfim, num pais conhecido por seus desvios éticos em ações militares, o Capitão América do cinema não poderia passar incólume como o dos quadrinhos.

Antes de continuar, eu vou dizer uma coisa logo. "Capitão América - o soldado invernal" é muito bom. Está entre os filmes tops sobre quadrinhos já feitos desde que isso virou gênero nas últimas duas décadas. Pensando em tudo que já foi feito na história (e confiando na minha memória, o que não é uma boa medida), podemos fazer um ranking assim (gosto de rankings, eles sempre são polêmicos e alimentam discussões de bar):

1- “Watchmen” (2009)
2- “Batman - o cavaleiro das trevas” (2008)
3- Os Vingadores (2012)
4- “Homem de Ferro 2” (2008)
5- “X-Men” (2000)
6- “Capitão América 2 – soldado invernal” (2014)
7-”“O Homem-Aranha” (2002)
8- “300” (2007) – Eu gosto, tá!
9- “Batman” (1989)
10- “Sin City” (2005)
11-“Superman” (1978)

E o que faz este filme ser muito melhor do que o primeiro, que é verdadeiramente uma palhaçada, uma patriotada, uma pachequice norte-americana?

Vamos a alguns elementos:

1 - Chris Evans finalmente se encontrou no personagem. Nem no ótimo filme dos Vingadores ele está tão bem. Lá, ele era sistematicamente engolido por Robert Downey Jr. e Chris Hemsworth. Aqui, eles teriam pelo menos tido embates de igual para igual.

2- A história é muito boa. Claramente superior ao primeiro filme, que é do gênero "veja como eu nasci". Envolve um tema ainda atual, a militarização, a cultura do medo, do atire primeiro e pergunte depois pós-11 de setembro, aliada a um esquema de espionagem e contraespionagem dentro da própria Shield, com a Hidra absolutamente envolvida. Vocês não achavam que a Hidra iria sumir assim né? É organização terrorista de primeira linha.

3- As cenas de ação estão muito bem feitas. Isso parece óbvio num filme de ação, mas tem muita tosqueira por aí. As brigas de Rodgers, as perseguições. Não tem nada mirabolante que nunca tenha sido feito. Não é o Kama Sutra da porrada, mas é o simples bem feito. Os fãs de quadrinhos curtem. A primeira entrada do Capitão América em ação é espetacular.

4- Bons coadjuvantes com histórias interessantes. A entrada do Falcão é uma boa, O Soldado Invernal (que eu descobri quem é na primeira cena, fazendo perder um pouco da graça de um pedaço do roteiro) trará consequências no futuro, e a Viúva Negra ganhou mais espaço deixando os fãs dela (eu entre eles) felizes.

5- E o filme ainda tem o luxo de ter Robert Redford, um senhor que dispensa apresentações. Não posso falar muito para não estragar a história.

Enfim, a receita de sucesso dos diretores Anthony e Joe Russo foi simples. Foi o que uma vez eu ouvi numa longínqua aula de marketing no passado: menos é mais. Principalmente se você tem US$ 170 milhões para gastar. Fez o simples, foi direto, objetivo e correu para o abraço após marcar um golaço ao som de Marvin Gaye.

Vi o filme em 3-D, o que não faz a menor diferença para o filme em si, mas proporciona algo único. Nunca na minha vida eu estive tão perto de Scarlett Johansson (vocês não acharam que eu tinha esquecido dela né?). Sim, eu sei, Scarlett é uma obsessão e eu preciso parar, mas, vejam bem, o filme não tem só a Scarlett Johansson. Ele tem a Scarlett Johansson RUIVA. Isso eleva o desejo a outro patamar. Bom, já vi Scarlett em 2D, 3D... estou avançando. Espero em breve chegar ao 6D.

Depois deste preâmbulo totalmente desnecessário de um parágrafo, vamos ao que realmente interessa: a nota da corneta. O escoteiro foi muito bem dessa vez e vai voltar para casa feliz. "Capitão América - o soldado invernal" vai ganhar uma
nota 9.


Ficha técnica: Capitão América 2: o soldado invernal (Captain America – The Winter Soldier – 2014 – Estados Unidos) - Chris Evans (Steve Rodgers/Capitão América), Scarlett Johansson (Natasha Romanova/Viúva Negra), Samuel L. Jackson (Nick Fury), Robert Redford (Alexander Pierce), Sebastian Stan (Winter Soldier/Bucky Barnes), Anthony Mackie (Sam Wilson/Falcão), Cobie Smulders (Maria Hill), Emily VanCamp (Kate/Agente 13), Toby Jones (Arnin Zola). Escrito por Christopher Markus e Stephen McFeely. Dirigido por Anthony e Joe Russo.


segunda-feira, 7 de abril de 2014

'Noé'

Noé corre para não se molhar muito
Quem diria? Hollywood redescobriu a Bíblia. Duas semanas antes de Jesus adentrar as salas de cinema com todo seu cabelo liso e olhos claros comprovando que os historiadores estão errados e o filho de Deus na verdade era norueguês, a corneta foi conferir a mais nova produção divina do cinema. Não tenho nada contra as religiões, mas lançarei, como sempre, um olhar iconoclasta para conferir se esse novo filme é ou "Noé" grande coisa.

Como vocês estão cansados de saber, "Noé" conta a história daquela vez em que Deus resolveu dar um reboot e reinstalar o Windows do mundo. O problema é que ele deixou cair um copo d'água no seu computador celestial (com wi-fi divinamente rápido) e deu no que deu.

É claro que isso resultaria na maior chacina já vista. Quase todo mundo morre no final. Desculpem pelo spoiler.

Só que esse papo de seguir a Bíblia ao pé da letra não iria atrair a geração do Face para a frente do cinema, né. Foi aí que Darren Aronofsky teve algumas sacadas. Injetou testosterona no Noé e convidou o Russell Crowe para interpretá-lo.

Crowe transformou o personagem no macho alfa que Aronofsky queria. Bom de briga, descendente direto de Adão, segundo o velho testamento, protetor da família e com uma missão divina: construir uma arca para proteger um casal de cada espécie animal do grande dilúvio que vai acontecer daqui a pouco no mundo.

Esqueçam os discursos empolados na segunda pessoa do singular ou do plural. Com Aronofsky a mensagem é direta e a missão clara. Seu "Noé" é um Mad Max Bíblico sem a Tina Turner. We don't need another hero. We already have Noé.

Neste mundo antes de Cristo, do Google e do McDonald's, o apocalipse se aproxima porque a humanidade não soube cuidar direito do planeta. E agora a natureza vai se vingar com o ajuda do cara lá de cima. O Greenpeace deve ter curtido essa versão.

Mas o que fazer para salvar os bons e os justos? Noé entra em sintonia com o Criador que lhe dá uma letra, mas ele não compreende direito. É obrigado a visitar o seu avó em busca de alguma luz.

Entra em cena Matusalém, que não poderia ser interpretado por mais ninguém além de Anthony Hopkins. O mercado de velhos, sábios anciões e pais de heróis é monopolizado por ele. Estão aí "Thor" (2011 e 2013), onde ele faz Odin, “Alexandre” (2004), onde ele é Ptolomeu, e “A lenda de Beowulf” (2007), onde ele faz o rei Hrothgar, que não me deixam mentir.

Matusalém dá um chazinho de ayahuasca para Noé, que viaja na maionese como um hippie dos anos 70. É quando Noé vê a arca e parte obsessivamente para construí-la.

Enquanto isso, a humanidade se prepara para ocupar o espaço como faz melhor. Destruindo e degradando o ambiente. Realmente a visão de Aronofsky sobre a nossa espécie não é muito romântica. Ponto para ele.

É, Aronofsky, eu gosto de você (como não gostar de alguém que fez "Réquiem para um sonho"?), mas convenhamos, "Noé" um filmaaaaaço não. Tem uns efeitos especiais maneiros, atuações apenas ok e imagens bonitas.

Mas apreciei a licença poética de fazer o mal embarcar na arca. Representado pela figura do vilão Tubal-Cain (Ray Winstone), ele é a encarnação dos sentimentos ruins do ser humano. Incluindo aí os ecologicamente incorretos. Um recado do diretor de que algumas coisas não mudaram. Ou uma previsão de que um novo dilúvio se avizinha? Afinal, a humanidade não aprendeu muito nos últimos séculos a gerir os seus recursos naturais.

Antes que um novo dilúvio venha nos consumir, vou dar logo a cotação da corneta. Entre altos e baixos, "Noé" passou raspando. Vai ficar com uma nota 6.

Ficha técnica: Noé (Noah – 2014 – Estados Unidos) – Russell Crowe (Noé), Jennifer Connelly (Naameh), Ray Winstone (Tubal-Cain), Anthony Hopkins (Matusalém), Emma Watson (Ila), Logan Lerman (Ham), Douglas Booth (Shem), Nick Nolte (Samyaza). Escrito por Darren Aronofsky e Ari Handel. Dirigido por Darren Aronofesky.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

'Tudo por Justiça'

Bale brinca de tiro ao alvo
Todo filme que tenha uma canção de Eddie Vedder já nasce bem avaliado. Mas não pensem que só por ouvir um Pearl Jam, a corneta se rende e sai distribuindo 10 igual a apuração de escola de samba. Aqui o critério é duro. Mais duro que a "Gazzetta dello Sport" em dia de mau humor.

Quando "Tudo por Justiça" começa, já temos uma ideia do que o diretor Scott Cooper pretende. Aqui ninguém vai se dar bem, amigo. Esse povo vive num lugar bizarro, com fumaça saindo das chaminés das indústrias, decrépito, enfim, feio pra cacete. Parece que é ali na Pensilvânia. É o tipo de lugar que político só vai em campanha.


E nesse local tem algo pior. Uma área lá pelas montanhas que é uma terra de Malboro. Sem lei, mundo cão, todos obedecendo às ordens de Harlan DeGroat.


Nosso vilão é vivido pelo Woody Harrelson, em mais um papel de porra louca, doidão, suicida, polêmico ou tudo isso junto na carreira. É o que o velho Woody faz de melhor. Lembre de “Onde os francos não tem vez” (2007), “Assassinos por natureza” (1994), “O povo contra Larry Flynt” (1996), por exemplo. Ele adora um tipo diferenciado.


O problema é que com Christian Bale o buraco é mais embaixo. Afinal, vocês sabem, ele é o Batman.


Bale é o nosso herói. Jovem trabalhador de uma usina que vai fechar a qualquer momento porque sai mais barato importar aço da China (é a economia, estúpido), Russell Baze tem as marcas de uma vida dura no rosto. Mas mesmo com uma existência mais ferrada do que todos nós e dando vários plantões na fábrica para pagar as contas da casa, ele sempre encontra uma razão para viver no sorriso e no jeitinho meigo de Lena (Zoe Saldana), sua jovem namorada.


Mas um dia, enquanto pagava pela enésima vez uma dívida do irmão-problema Rodney (Casey Affkeck) para o agiota John Petty (Willem Defoe), sua vida vira de cabeça para baixo e ele vai parar na cadeia. Todo o mundo aconchegante vai por água abaixo. É preciso reconstruir a vida. Mas havia o irmão problema.


"Tudo por justiça" é um filme, acredite, sobre amor. Mas também sobre vingança. Talvez até mais sobre vingança. Citando Rousseau, sem querer parecer pedante, um filme que reflete sobre como o homem é produto do meio em que vive. E das situações pelas quais passa. E a misericórdia surge quando menos se imagina. Assim como a sede de sangue.


A letra de "Release", do Pearl Jam, que está na trilha sonora, é pessimista. Fala de um homem que clama aos céus por uma solução final que o liberte da dor. É como o irmão de Russell, soldado do exército americano na guerra do Iraque que não consegue esquecer os horrores que presenciou. Ou o próprio DeGroat, um sobrevivente do seu meio que “tem problema com todo mundo”.


E na sua interpretação, que eu vou chamar de brilhante sem medo de me arrepender, Bale nos oferece um drama em todas as camadas. Vou dizer para vocês que é extremamente prazeroso ver um grande ator atuando. Bale transforma um roteiro econômico numa arma para dizer muito com gestos, atitudes, olhares. A serenidade dele na cena final diante de um ato tão cruel é coisa de poucos. Curti.

A corneta é fã de Bale e Harrelson. E gosta de ver dois atores trabalhando bem num filme pequeno como este. "Tudo por Justiça" passou no teste e vai receber uma nota 8,5.


Ficha técnica: Tudo por justiça (Out of the furnace – 2013 – Estados Unidos) – Christian Bale (Russell Baze), Woody Harrelson (Harlan DeGroat), Cassey Affleck (Rodney Blaze), Zoe Saldana (Lena Taylor), Sam Shepard (tio dos Blaze), Willem Defoe (John Petty), Forest Whitaker (policial Wesley Barnes). Escrito por Brad Ingelsby e Scott Cooper. Dirigido por Scott Cooper.