quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Sir Eric em ação

Clapton fez um belo show na Arena/Reprodução
Eu tenho uma amiga que se tivesse a oportunidade de ter assistido ao show do Eric Clapton viraria para mim e diria: “Ele é um homem phyno" (fino, de classe, para os não íntimos ao neologismo). Gostaria de dizer que isso é propriedade de todos os cidadãos ingleses condecorados com o título de sir, mas não vou me arriscar. Neste diálogo que não aconteceu, no entanto, eu certamente concordaria com ela. Clapton, o guitarrista que teve o nome pichado nos muros ingleses com o hiperbólico apelido de Deus aliado ao seu nome, é um artista phyno.

E um artista phyno se impõe pela sua música. Clapton não chega no palco e diz “I love you Brazil”. Não ensaia palavras em português, não ergue bandeira nem faz qualquer tipo de manifestação brasileirinha. Ele é o que construiu em 48 anos de carreira. Ele é a sua música e os mestres que ele homenageia como Robert Johnson e Willie Dixon, aqueles que o influenciaram e o levaram a se tornar um mestre na arte de tocar guitarra e de compor clássicos.

Após duas semanas de muita papagaiada, muito “tira o pé do chão” e alguma música no circo do Rock in Rio, Clapton nos traz a arte pura. É o contraste mínimo no mundo de excessos do showbizz. Seu “Thank you” aliado a um leve sorriso é o mesmo de dez anos atrás, quando ele lotou uma Praça da Apoteose para fazer um show de despedida de suas turnês internacionais. Show marcado por sucessos, clássicos, e alguma coisa que Clapton gostava, mas que dividiu opiniões, pois “Reptile” (2001), o disco que ele então lançara e justificava a turnê não era dos mais elogiados.

Se o disco não foi agraciado por público e crítica, o show também não receberia os mesmos elogios. Para mim, no entanto, estar ali já era algo mágico. Afinal, se os muros de Londres estivessem certos, não é todo dia que você se encontra com Deus.

Dez anos se passaram e a promessa de Clapton obviamente não se cumpriu (Ainda bem). O guitarrista voltou com uma banda diferente daqueles tempos – Chris Stainton (piano), Tim Carmon (órgão), Michelle John e Sharon White (backing vocals), Steve Gadd (bateria) e Willie Weeks (baixo) –, para lançar um disco melhor do que o “Reptile", "Clapton" (2010), e fazer um show mais intimista, porém, arrebatador.

Aos 66 anos, Clapton trocou o agrado ao público para um show que ele faz para agradar a si próprio como numas férias prolongadas e espera, claro, que o público o acompanhe nessa jornada. Clássicos que fizeram a sua fama, obviamente, estão presentes. Leia-se as baladas “Wonderful Tonight” e “Ode to Love” e os rocks “Layla” e “Cocaine”. “Layla”, no entanto, ganha um arranjo diferente, menos “acústico MTV”, mas também no meio do caminho de sua versão original. O resultado é uma canção mais lenta, com a participação ativa das backing vocals por vezes fazendo a primeira voz, e em outras oportunidades acompanhando Clapton enquanto a bateria de Gadd ganha um trecho quase militar. E Clapton, sentado no banquinho, sola com a sua guitarra Fender Stratocaster azul de uma forma que leva o público ao delírio.

Além de seus clássicos, o guitarrista homenageia outros mestres. Os já citados Johnson e Dixon e até Bob Marley numa versão de “I shot the Sheriff” considerada por muita gente boa melhor do que a original. São 16 músicas do seu repertório de quase cinco décadas de rock and roll. Dezesseis joias para serem apreciadas pelo público sentado em cadeiras (o único ponto negativo), mas que não consegue ficar parado quando o mestre usa a sua guitarra e o seu violão.

Estas joias são estendidas até onde ele acha que elas devem ir. Há solos de teclado, solos de Clapton. Ele está se divertindo no palco, curtindo o momento com a guitarra, que é quase uma extensão dele mesmo. Às vezes a postura pode ser meio blasé, mas Clapton está experimentando e deixando a música o levar.

Eric Clapton é único, faz um show único e leva pouco mais de dez mil pessoas ao delírio. Foi um grande espetáculo no HSBC Arena. E nada mais precisa ser dito. Apenas apreciado nos vídeos abaixo. Uma degustação para phynos.

Set list – “Key to the Highway”, “Going down slow”, “Hoochie coochie man”, “I shot the Sheriff”, “Old Love”, Driftin’Blues”, “Nobody knows you when you’re down and out”, “Lay down Sally”, “When somebody thinks you’re wonderful”, “Layla”, “Badge”, “Wonderful Tonight”, “Before you accuse me”, “Little queen of spades”, “Cocaine” e “Crossroads”.

"Layla"

"Cocaine"


"Old Love"


"Hoochie Coochie Man"

sábado, 8 de outubro de 2011

E lá se foi o festival, bebê

O vocalista do System of a Down
Quem acompanhou este blogueiro pelo Twitter e por aqui sabe o quanto eu fui extremamente crítico com o Rock in Rio. Afinal, o festival que se encerrou no domingo passado ficará para a história como o que teve as atrações com o pior nível em relação às outras três edições.

Se alguns shows foram para serem lamentados, o festival, porém, teve os seus pontos positivos. Entre elas a oferta de locais para comer muito maiores do que em 2001, por exemplo, e os brinquedos que podem parecer um tanto infantil na visão de alguns, mas ajudaram a distrair o povo que chegava lá na Cidade do Rock cedo e evitava a concentração da galera num determinado ponto.

Outros dois pontos altos foram a Rock Street, espaço inspirado em New Orleans que sempre contou com bons shows, e o Palco Sunset com suas misturas de artistas de diversos estilos. Alguns shows ali foram tão bons que para muitos deveriam estar no palco mundo. Caso da cantora Joss Stone e do Sepultura. Estes dois realmente mereciam um palco maior.

Com o fim dos sete dias de festival, é chegada a hora de fazer aquele balanço dos melhores e piores shows. É claro que não consegui ver todos eles. Estive in loco em três dias e procurei ver o maior número possível de apresentações pela internet nos outros dias.

Se você sentir falta nessa lista, portanto, de nomes como Red Hot Chilli Peppers, Rihanna, Shakira, Capital Inicial ou Snow Patrol, saiba que eles não estão nem na lista dos melhores nem na lista dos piores porque simplesmente foram shows que eu não vi. Das 35 apresentações no Palco Mundo, eu consegui assistir 25. Será a partir daí e de alguns shows no Palco Sunset que escrevo o meu top 5 do bem e do mal nas próximas linhas. Então, parafraseando a atriz Christiane Torloni, vamos às críticas, bebê.

Os melhores shows:

O Metallica fez o segundo melhor show
Quando terminou o primeiro fim de semana do Rock in Rio, parecia impossível tirar o título de melhor show do Rock in Rio do Metallica. A banda tinha feito uma apresentação espetacular na Cidade do Rock, tocando muitos dos seus clássicos e mostrando que os anos passam, mas James Hetfield (voz e guitarra), Lars Ulrich (bateria), Kirk Hammett (guitarra) e Robert Trujillo (baixo) continuam mandando muito bem ali em cima do palco. Só que no último dia tinha o aguardado show do System of a Down. Um sonho antigo finalmente realizado.

Resultado? Daron Malakian (guitarra e vocal), Serj Tankian (vocal), Shavo Odadjian (baixo) e John Dolmayan (bateria) fizeram um show inesquecível. A apresentação estava dentro da turnê de volta do grupo, que fez um show de duas horas calcado nas músicas dos cinco discos lançados entre 1998 e 2005. A banda americana-armênia-libanesa correspondeu à todas as expectativas dos fãs e brilhou no palco da Cidade do Rock. Foi daqueles espetáculos inesquecíveis. De deixar o cidadão horas, dias, inebriado.

Os mascarados do Slipknot se divertiram muito
Assim, a medalha de prata ficou com o Metallica. O bronze? Este foi para o Slipknot. Os americanos fizeram, digamos, o show mais pirotécnico do Rock in Rio com imagens impressionantes que vão ficar para sempre marcadas no festival como a bateria que quase virou de cabeça para baixo e o mosh duplo de um dos integrantes dos mascarados da banda. Ah, e ainda teve a música que enlouqueceu o público. Eles passaram a impressão também de que foram os caras que mais se divertiram no festival. Estavam totalmente à vontade no palco.

Completam a minha lista dos cinco melhores o Motörhead e o Sepultura, que fez um shomzaço infelizmente em um palco menor, o Sunset.

Os piores shows:

Faltaram bons shows, mas sobrou cada bomba neste Rock in Rio que só comprovou a ideia que foi o pior line up da história do festival. Partindo do pressuposto de que Claudia Leitte e Ivete Sangalo são hors-concours porque nem deveriam ter sido convidadas para a festa, vamos à minha lista.

O pior de todos os shows foi o do Glória. A banda de metal conseguiu ser uma das poucas atrações do palco mundo vaiada e ainda perdeu público para o Sepultura que tocou no mesmo horário no palco Sunset por conta de um atraso na programação.

Ali muito pertinho do Glória, o segundo lugar vai para a Ke$ha, Eu não precisei de mais do que cinco minutos para ver o quanto a cantora que tem um cifrão no nome é fraca. Ainda assim, aguentei mais um pouco, tempo suficiente para fazer com que ela entre no top 5 das bizarrices do festival carioca.

O Jamiroquai irritou
O bronze muito bem dado vai para a banda que veio para o Rock in Rio tocar uma única música, mas ninguém percebeu. Com todo o respeito aos fãs do Jamiroquai, mas a sensação que eu tive foi que a música dele é sempre a mesma. E pior do que isso, é chata. Muitos concordaram comigo, porque o que eu vi de gente sentada esperando mesmo é pelo Stevie Wonder enquanto Jay K ficavam com o seu cocar de índio andando de um lado para o outro no palco não foi pouca coisa.

O quarto pior show foi o do Evanescence. Gosto (ou gostava?) da Amy Lee como cantora. Quando eles tocaram aqui em 2007, porém, parte do encanto foi embora. Tudo bem, Amy Lee cantava muito bem, mas a banda, que já não era a mesma dos dois primeiros discos que a levaram ao sucesso, “Fallen” (2003) e “The Open Door” (2006), mostrava pouca coisa no palco. Parecia um grupo desentrosado fazendo escada para a Amy Lee. No Rock in Rio, no entanto, foi ainda pior. Amy Lee fez um show constrangedor. Até ela estava mal. Por isso o quarto lugar na lista do mal.

Fechando o top 5 do horror, não podia deixar de faltar o Guns N’Roses. É triste dizer isso, principalmente porque eu sou um fã de carteirinha da banda, mas Axl Rose pagou um dos maiores micos da sua carreira neste festival. Errou letras, não teve fôlego para cantar outras, e desafinou até no assobio de “Patience”! (Mais detalhes no post abaixo). Realmente foi uma apresentação de chorar que me fez desejar que Axl se aposente mais cedo ou tente cantar outra coisa que não rock. Quem sabe ele não emplaca uma parceria com João Gilberto ou Chico Buarque?

Ah, e vale uma menção honrosa aqui ao Maroon5. Vai fazer show ruim assim lá em Los Angeles.

As decepções:

Aqui não tem como fugir de dois caras que são considerados lendas, mas fizeram shows muito mornos no Rock in Rio. O primeiro é Elton John. Estrela do primeiro dia do festival, o inglês fez um show para lá de sonolento e ainda não cantou “Your Song”, música aguardadíssima pelo público e que estava no set list.

O segundo é Stevie Wonder. Não me incluo entre os que acharam o show do americano espetacular. Achei para lá de meia boca e ainda teve aquela apelação desnecessária dele cantar “Garota de Ipanema” e “Você Abusou”. Numa boa, se eu quisesse ouvir “Garota de Ipanema” pegava um DVD do Tom Jobim ou aquela famosa gravação do Tom Jobim com o Frank Sinatra.

Pelo fim do cover e de manifestações brasileirinhas:

Isso me leva, aliás, a um problema do festival. Acho que tirando o System of a Down quase todas as bandas fizeram algum cover. Para o próximo Rock in Rio espero mais originalidade e menos cópia de músicas alheias, mesmo que seja na roupagem de uma homenagem.

Também gostaria que as bandas e cantores estrangeiros se concentrassem na sua música. Esse negócio de levantar bandeira, vestir camisa da seleção brasileira, dizer palavras em português, cantar música em português ou escrever “Rio” com coraçãozinho é uma grande palhaçada. Duvido que quando eles chegam na França cantem Piaf, gritem “Viva la France” ou entoem versos da Marselhesa. A gente gosta destes caras exatamente por causa da música deles. Não queremos sambinha nem “Rio, eu te amo”. Por isso, tudo o respeito ao System of a Down, que não ensaiou nem um obrigado. Sua música falou por si para fazer o melhor show do festival. No final, só ergueram uma bandeira jogada no palco pelo público, mas em respeito ao fã ali do gargarejo. Assim, em 2013, menos papagaiada e mais música.

Os brasileiros:

O Skank fez um show animado
Não vi o Capital Inicial que sempre faz um show animado. Assim, o que para mim foi o destaque do Brasil (além do Sepultura, que é parte gringo), foi o Skank. Não gosto do Skank, não gosto de suas músicas, mas é preciso admitir que os caras fizeram um belo show. Melhor até do que o da atração principal no seu dia, o Coldplay e seu show sem graça. No palco Sunset, é preciso destacar o showzaço do Matanza com o BNegão. Inesquecível. Assim como o Angra, que ainda tocou junto com a fantástica cantora finlandesa Tarja Turunen.

E a Pitty, me perguntariam alguns? Pitty não entra aqui pela minha total incapacidade de avaliá-la com isenção, embora eu já tenha feito isso aqui em outros posts. Para mim, ela está sempre ótima e fim de papo. E não ouse discordar! Por isso, ela é hors-concours. Mas de qualquer maneira, o show dela foi muito bom e certamente estaria entre os cinco melhores entre os brasileiros.

Entre os brasileiros não gostei do Frejat e da Orquestra Sinfônica reunida com os ex-membros da Legião Urbana. O primeiro porque usou pouco o próprio repertório. E alguém que tem uma história tão rica na música nacional não precisava ser tão tímido. No caso do segundo, a intenção da homenagem foi boa, mas não deu certo. Quase ninguém foi bem interpretando as músicas da Legião Urbana. A galera se empolgou? Claro, eram as músicas de Renato Russo. Mas na análise fria dos fatos, não deu certo, apesar das boas intenções.

É isso. Que em 2013 o Medina escale um elenco mais bem qualificado para o seu festival. Esse ano, o Rock in Rio deixou um pouco a desejar, apesar de alguns bons shows.

Abaixo, os shows completos de System of a Down, Metallica, Slipknot e Motörhead:




sexta-feira, 7 de outubro de 2011

As rosas murcharam

Axl estava irreconhecível no palco
Sentado com um olhar atônito e vazio diante do céu que já começava a clarear na Cidade do Rock, um amigo fã do Guns N’Roses me sussurra uma pergunta buscando um bálsamo que contrarie o que seus olhos acabaram de presenciar: “Foi ruim?”. Minha resposta foi com a sutileza de um javali: “Foi uma merda”.

Eu demorei a escrever sobre o show do Guns N’Roses. Aliás, eu nem iria fazer um post específico sobre um show. Pretendia apenas falar sobre o Rock in Rio como um todo (o que virá no próximo texto). Mas eu demorei porque ainda tentava entender o que eu vira na madrugada de segunda-feira, durante o encerramento do festival. O que aconteceu com Axl Rose? Como pode um cara como ele errar o assobio de “Patience”? Não ter fôlego para cantar “You could be mine” ou “Paradise City”? Como pode a banda errar tudo em “November Rain”?

Resolvi voltar no tempo. Mais precisamente até abril do ano passado, onde assinei um post aqui no blog com o título “A ressureição de Axl Rose”. Nele eu falava sobre o show do Guns N’Roses que fora realizado dias depois de um adiamento por causa da queda de parte do palco em uma chuva torrencial no Rio de Janeiro.

Ao reler o texto, recordo passagens como frases que eu colhi naquela noite em que Axl, claro, se atrasou muito (o show só começou 1h30m). Ali eu lembrava a frase de um fã que resumiu a essência daquele Guns N’Roses que renascia com os guitarristas DJ Asbha, Ron Bumblefoot e Richard Fortus, o baixista Tommy Stinson, o baterista Frank Ferrer e o velho parceiro que sobrava do velho Guns ao lado de Axl, o tecladista Dizzy Reed. Um fã perto de mim dizia: “Ele está cantando como nos discos. Parece que estou ouvindo os discos do Guns”.

Em outros trechos eu lembrava que o enterro artístico de Axl estava muito longe de acontecer e que o cantor apresentara uma surpreendente forma física e vocal, embora continuasse gordo. E uma banda afinada. E lembrava da tragédia do Rock in Rio de 2001, quando Axl errou tudo e mais um pouco. Assim como no Rock in Rio de 2011. Será que o problema está no festival capitaneado por Roberto Medina?

Eu considerei aquele show do Guns um dos melhores do ano passado da mesma forma que o que eu vi na segunda-feira pode ser descrito como uma das coisas mais constrangedoras em 15 anos de shows e mais alguns ouvindo esse tal de rock and roll.

Axl estava devagar, começou mal com “Chinese Democracy”, não se acertou com “Welcome to the jungle”. Cometeu bobagens em “Nightrain” e esteve apático em praticamente todo o set list previamente anunciado com 39 músicas, mas que mal passou de 20.

Tudo bem que ele estivesse receoso de tomar um tombo no palco molhado pela chuva que caía e por isso não dava aqueles conhecidos piques ali em cima. Mas a chuva não podia tê-lo impedido de cantar de uma forma minimamente decente. Isso não tem desculpa.

Axl já tinha começado o dia mal após a história de que perdeu o voo. Já no Brasil, não passou o som com a banda. Grupo este que embarcou na mediocridade de Axl para se mostrar irreconhecível em relação ao show de 2010. Como convencer os meus amigos que não estiveram na Apoteose em abril do ano passado, que DJ Ashba é um bom guitarrista e não uma caricatura do Slash? Impossível. A apatia tomou conta de todos.

Não vi as apresentações do Guns no Rock in Rio de 1991, quando a banda estava no auge e com sua formação mais clássica com Slash (guitarra), Duff McKeagan (baixo), Matt Sorum (bateria) e Gilby Clark (guitarra). Só tenho na mente três shows, justamente estes três últimos. Dois ruins e um bom. O que me faz pensar que o que eu vi no ano passado, na realidade, foi mais um canto do cisne do que uma ressureição.

Aos 49 anos, Axl parece ter acabado cedo para a música. Se for para ser desse jeito, Axl, é melhor você ir para casa e deixar apenas o seu legado de pelo menos três álbuns inesquecíveis: “Appetite for destruction” (1987), “Use your Illusion I” e “Use your Illusion II” (1991). As pistolas parecem não ter mais munição. Enquanto isso, as rosas murcharam.

Abaixo, cenas de uma tragédia no Rock in Rio em cinco capítulos:




domingo, 2 de outubro de 2011

Dois sessentões no palco

David Coverdale em ação
Diz a lenda que antes de morrer Kurt Cobain não via muito futuro para o tipo de música que fazia em dez anos porque neste período sua garganta já não seria mais a mesma e ele não poderia soltar seus berros guturais que eram uma das marcas do Nirvana. O palco do Citibank Hall viu recentemente dois exemplos de como o tempo pode ou não ser cruel com um vocalista de hard rock e heavy metal quando a idade começa a chegar.

Seis anos depois da última turnê que fizeram juntos e passou pelo Brasil no mesmo local no Rio de Janeiro, Whitesnake e Judas Priest voltaram a se encontrar em terras cariocas para dois shows em que o tempo foi o protagonista em tudo que ele tem de bom e de ruim, mas que também foi marcado por momentos de muita emoção em 3h35m de muito rock and roll (1h20 de Whitesnake e 2h15m de Judas Priest).

Em seis anos, deu para notar o quanto o tempo foi pesado para David Coverdale. Se ele ainda está longe dos micos que Ian Gillan paga a cada turnê do Deep Purple, é possível notar que o velho David, 60 anos, hoje já joga mais para a galera do que naquela época. Muito mais do que há três anos, quando a sua banda esteve aqui em turnê do disco “Good to be bad”.

Coverdale já não conserva mais a voz de outrora e está visivelmente acabado, mas tem carisma e uma penca de canções que levantam a galera. E é isso que emociona e faz o povo vibrar com ele, os guitarristas Doug Aldrich e Reb Beach, o baterista Brian Tichy, o baixista Michael Devin e o tecladista Brian Ruedy.

Para o Whitesnake, a receita “Espero morrer antes de ficar velho” cantada por Roger Daltrey em “My Generation” como prólogo do show é uma alusão dos velhos e felizes tempos que começa com “Best Years”: “Você veio como um sol na noite/Tirou-me das trevas para a luz/Agora esses são os melhores anos/Verdadeiramente os melhores anos da minha vida”.

Para retomar os tais melhores anos, o Whitesnake exibe três canções do novo disco. Boas músicas com a marca do Whitesnake: “Steal your heart away”, “Love will set you free”, com refrão grudento para pegar e cantar junto, e “Forevermore”, baladinha estilo Coverdale para cantar com a mão no coração e que o cantor diz que foi feita para homenagear os fãs que apoiam a Cobra Branca desde a sua fundação em 1978.

Mas é nos clássicos de outrora, nas eternas músicas com “love” no título que o Whitesnake ganha a galera. “Give me all your love” esquenta para a explosão da sequência com “Love ain’t no stranger” e “Is this love”.

Dois solos de guitarra e de bateria (este um show a parte de Brian Tichy jogando suas baquetas para o alto) depois, que revelam pausas estratégicas para Coverdale respirar, e a banda ataca de “Here I Go Again”. Com “Still of the night”, Coverdale acaba com o que lhe restava na garganta. O fim apoteótico com “Burn” é com o refrão levado pelo guitarrista Reb Beach e o público cantando “Buuuuuurnnnn”.
O Judas Priest mandou bem

O tempo foi mais generoso com Rob Halford, 60 anos. O cantor do Judas Priest mostrou que não perdeu muito da forma apresentada em 2005 e fez uma apresentação de clássicos da banda que é uma das mais importantes do heavy metal.

Inicialmente a turnê “Epitaph” era para marcar a despedida do Judas Priest. Depois virou a despedida da banda de grandes turnês e, por fim, um tchauzinho com promessa de novo disco em breve e, quem sabe, mais alguns shows. O que explica esse recuo estratégico do Judas, dizem, é a entrada do novo guitarrista Richie Faulkner. O músico de 31 anos (portanto o mais novo do quinteto) entrou na banda porque K.K. Downing pediu o boné antes do início da turnê e deu novo gás ao grupo.

Faulkner está à vontade no Judas. Entrou como se fosse membro desde sempre e deu novo gás ao time. É dele muitos dos bons momentos do show marcados por clássicos da banda.

Rob Halford canta tudo o que os fãs querem ouvir e segue a cartilha Judas Priest. Ou seja, entra no palco com aquela roupa de couro preta pesada, andando como um paquiderme que carrega o peso da história do metal nas costas. No bis, não falta o número da moto Harley-Davidson no palco.

Perto de David Coverdale, a voz de Halford ainda dá para o gasto e ele manda bem mesmo nas músicas do Judas que o exigem um pouco mais. Mas em “Break the law” deixa tudo a cargo da galera, apenas regendo do palco.

Aliás, a parte final do show é a que concentra as melhores músicas do Judas. Tem “Painkiller”, “Hellbent”, “Live after midnight”, que fecha os trabalhos, “Blood red skies” e “Sentinel”. Petardos que valem o ingresso de uma noite emocionante protagonizada por dois sessentões do rock.

Set list do Whitesnake: Best Years, Give me all your love, Love ain’t no stranger, Is this love, Steal your heart away, Forevermore, Love will set you free, Here I go again, Still of the night, Soldier of fortune, Burn/Stormbringer.

Set list do Judas Priest: Rapid Fire, Metal Gods, Heading fot the highway, Judas Rising, Starbreaker, Victim, Never Satisfied, Diamonds and rust, Prophecy, Nightcrawler, Turbolover, Beyond the realms, Sentinel, Blood Red Skies, Green Manalish, Breaking the law, Painkiler, Hellion/Eletric Eye, Hellbent, Another Thing, Living after midnight.

Abaixo, alguns bons momentos dos dois shows:











domingo, 4 de setembro de 2011

Capitão Piada

Evans estraga o Capitão América
Há alguns anos o signatário deste blog vem acompanhando com ansiedade quase juvenil os filmes baseados em quadrinhos da Marvel com suas conexões que vão desembocar no ambicioso projeto do primeiro filme dos Vingadores. Quase todos eles variavam entre excelentes películas e razoáveis, mas nenhuma delas até aqui tinha sido patética. Pois bem. Na hora de tirar o 10 e deixar o fã dos quadrinhos com água na boca pela chegada dos Vingadores em 2012, a Marvel faz a patetice chamada “Capitão América – O Primeiro Vingador”.

É difícil saber o que é pior no filme de Joe Johnston. Diretor conhecido pelos seus trabalhos em “Rocketeer” (1991), Jumanji (1995), “Jurassic Park III” (2001) e “O Lobisomen (2010), ou seja, nada de relevante, o próprio Johnston é um dos responsáveis por tudo o que dá errado no filme.

Junte isso ao roteiro mequetrefe escrito por Christopher Markus e Stephen McFeeley, que passa a impressão de ser uma mera colagem de alguns quadrinhos do herói em 2h e temos um desastre.

O que transforma o desastre em tragédia? O elenco como um todo seria uma boa resposta, mas vamos nos concentrar no protagonista. O que faz Chris Evans num filme de super-herói? Ele pode, para começo de conversa, ser considerado no mínimo pé frio. Dos filmes sobre quadrinhos que considero ruins, Evans participa de três.  Para quem não lembra, o ator interpreta o Tocha Humana nos dois e ridículos trabalhos do Quarteto Fantástico lançados em 2005 e 2007 e completamente dispensáveis. Agora é o protagonista deste trabalho do Capitão América que quase me faz sentir saudades do filme de 1990. E olha que aquele lá não era grande coisa. E pensar que Johnston praticamente implorou para Evans vestir o uniforme do Sentinela da Liberdade.

“Capitão América – O Primeiro Vingador” era para ser o último estágio antes dos Vingadores. Era para exibir a origem do jovem franzino Steve Rogers, que sonha em se alistar no exército para derrotar os nazistas na Segunda Guerra Mundial e acaba sendo o único experimento acertado do programa do governo americano para a formação de supersoldados.
Hugo Weaving e seu circense Caveira

Por representar esse início, entramos em contato com personagens conhecidos da história do herói como o eterno parceiro Bucky Burnes (Sebastian Stan) – e não acredite que ele morreu como o filme supostamente mostra –, Peggy Carter (Hayley Atwell) e o arquiinimigo, o Caveira Vermelha (Hugo Weaving, numa atuação, para ser educado, lamentável). Em torno deles, orbitará Rogers, que para defender os Estados Unidos com lealdade, justiça e aquele blablablá cívico aceitará passar por todas as provações possíveis.

É verdade que um filme sobre o Capitão América poderia parecer datado. Esse furor patriótico não convence mais muita gente (ainda bem), mas Johnson e a dupla formada por Markus e McFeeley poderiam ter criado um filme com menos cheiro de naftalina. Sem contar que eles têm zero de talento para a comédia (para não falar da falta de timing de Evans). Os diálogos escritos para serem engraçadinhos são na verdade constrangedores.

Paralelo ao enredo da origem do Capitão América, o filme conta a história de parte da organização americana na Segunda Guerra, inserindo aí uma batalha contra uma organização criminosa alemã chamada Hidra, liderada justamente pelo Caveira Vermelha, ele também um supersoldado criado na Alemanha, mas num experimento que deu errado e o fez ficar com aquela cara de caveira que conhecemos.

Mas no filme a Hidra parece mais uma organização chiliquenta com desejos megalomaníacos de domínio mundial no melhor estilo Dr. Evil, o vilão-trapalhão dos filmes do Austin Powers. O Caveira tem até no doutor Arnin Zola (Toby Jones) uma espécie de mini-mim.

Enquanto isso, Evans segue salvando os fracos e oprimidos e de máquina de propaganda começa a se transformar em máquina de guerra, com direito a sair atirando por ai, o que sinceramente não me lembro de ter visto o Capitão América fazer nos quadrinhos. Sua única arma sempre foi a superforça e o escudo. Mas em meio a tantos erros, esse é o menor dos problemas.

Mas de tudo o que vimos em “Capitão América”, o que sobra? Duas coisas. A primeira é a presença interessante de Howard Stark (Dominic Cooper), que vem a ser o pai de Tony Stark (Robert Downey Jr), o Homem de Ferro, mostrando que ele tinha a quem puxar. Tem até uma cena parecida com a que vemos em “Homem de Ferro 2” (2010), quando ele apresenta uma nova invenção num evento público.

A segunda é a cena extra no final do filme, que na realidade é um trailer do filme dos Vingadores quando pela primeira vez vemos todos os heróis juntos. É empolgante. Só espero que Evans não consiga estragar mais esse filme baseado em quadrinhos. Se bem que para cada mancada do ator, sempre existirá neste caso um Robert Downey Jr. para brilhar em cena. E ainda tem Scarlett Johansson como a Viúva Negra, Jeremy Renner como o Gavião Arqueiro, Mark Ruffalo como Bruce Banner, o Incrível Hulk. Um elenco que deve garantir a qualidade do filme. Espero.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Só um macaco salva

O macaco de olhos verdes que gosta de cookies
Macacos evoluídos têm olhos verdes. Macacos evoluídos gostam de cookies (e quem não gosta?). Estas foram duas conclusões sacanas que tirei ao assistir à “Planeta dos Macacos: a origem”, a enésima versão da história que nunca será superada por aquela protagonizada por um tal de Charlton Heston em 1968, que verdadeiramente era impactante. Para começo de conversa porque não tinha um “a origem” antes dele. Entendíamos o que tinha acontecido no final do filme como uma daquelas revelações bombásticas.

James Franco e Freida Pinto também formam o casal mais insosso do ano no cinema. Esta é outra conclusão, porém ácida, que tiro do filme. Eu acho que um casal de tartarugas de um documentário da Discovery Channel filmado na Nova Zelândia mostraria mais intimidade, química e talento diante de uma câmera do que o indicado ao Oscar deste ano por “127 horas” e a estrela do mediano “Quem quer ser um milionário?” (2008).

Nunca gostei de Franco. Acho-o fraco desde que o conheci nos filmes do Homem-Aranha no papel de Harry Osbourne, vulgo Duende Verde. Como apresentador do Oscar, ele foi desastroso. E ele ainda não tem a beleza de Anne Hathaway, de quem perdôo tudo só por causa daqueles olhos e daquele sorriso irresistíveis. Também acho Freida fraquíssima. E ela só comprova a minha avaliação com sua atuação constrangedora em “Planeta dos Macacos”.

Com um casal como Franco e Freida, o que sobra no filme de Rupert Wyatt? Em primeiro lugar, a boa atuação de John Litgow, que faz Charles Rodman, o pai de Franco que sofre do mal de Alzheimer. Ele ilumina o filme, mas não é suficiente para pagar o ingresso.

O que vale a pena mesmo é um macaco. E quando um macaco é a estrela do filme, a coisa não pode dar certo. Pelo menos não para mim que não gosto muito de filmes com bichinhos em geral. O macaco em questão é Ceasar, criado com computação gráfica a partir da atuação de Andy Serkis, um ator do qual não conhecemos o rosto, mas aprendemos a gostar. Quem não se lembra do “my preeeeeciousssss” Golum da trilogia do Senhor dos Anéis? Por trás do monstrinho estava Serkis atuando com uma roupa especial e um cenário verde no fundo.

Agora ele é o macaco que vai liderar a pequena revolução contra a opressão humana. Tudo começa com a tentativa de um médico, Will Rodman (James Franco) de tentar encontrar uma cura para o Alzheimer e, consequentemente, curar o seu pai. Apertando um fast foward na fita, tudo dá errado, o remédio que ele desenvolve não encontra a cura, mas faz os macacos desenvolverem uma inteligência acima do normal. E o primeiro filho desta leva de macacos evoluídos é Ceasar, a quem ele cria como filho ou mascote em casa.

Ceasar cresce e começa a desenvolver rapidamente o seu QI, mas o instinto animal sempre esteve presente. É o que o leva a ser confiscado pelo governo após atacar um vizinho que agredia o pai doente de Will. A partir daí ele vai entender que a vida não é fácil para ninguém, mesmo para um macaco evoluído acostumado a comer cookies, e vai iniciar um levante revolucionário depois de dar um pouquinho da droga do Will que deixa todos os macacos evoluídos e com os olhos em tom verde-ariano.

Várias coisas são impressionantes na atuação de Serkis. Ele faz com que a gente tenha medo da evolução de um macaco. Pense na imagem de Ceasar numa postura semelhante ao “O Pensador”, de Rodin, pense nele falando para uma multidão de macacos como um Cristo no alto da montanha e se assuste quando você vê aquele macaco proferindo a sua primeira palavra. Um “não” fruto da agonia, repressão e revolta. É emblemático que “não” seja a primeira palavra da nova civilização que vai tomar primeiro a ponte Golden Gate na melhor cena do filme e posteriormente o mundo. Mas isso é papo para outro filme.

Aqui estes são pontos positivos no filme de Wyatt que tem como mérito ter ainda um roteiro simples escrito por Rick Jaffa e Amanda Silver. O primeiro não tem trabalhos de grande destaque. A segunda escreveu “A mão que balança o berço” (1992). Você entende a história numa boa. O problema é que, em geral, os atores são fracos e deixam o caminho aberto para um macaco brilhar. E Serkis/Ceasar cumpre a sua missão perfeitamente.

Por ser uma tentativa de explicar os acontecimentos do filme de 68 (esqueça a bobagem feita por Tim Burton em 2001), o filme até faz umas ligações interessantes. Em uma cena, é exibida uma imagem de TV mostrando os primeiros astronautas em uma missão tripulada para Marte. Era do espaço que o astronauta Charlton Heston voltava quando se deparou com uma Terra desértica e tomada por macacos evoluídos (mas sem olhos verdes) no “Planeta...” original. Lá houve uma hecatombe nuclear. Aqui, o início do ataque de um vírus criado por Will que deveria curar o Alzheimer, mas faz é muito mal aos humanos.

E com isso “Planeta dos Macacos: a origem” se torna o primeiro filme que vi na minha vida que promete mais por sua continuação do que pelo que expõe em duas horas de cinema. O próximo tem tudo para ser mais interessante se mostrar uns anos a frente na destruição humana e o domínio dos “macacos arianos” na Terra. O atual, embora com alguns bons momentos, se mostrou muito mais vezes enfadonho. E se não fosse o Ceaser teria sido muito pior. Mas sempre é possível confiar em quem gosta de cookies.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Mergulho psiquiátrico de Von Trier

Kirsten Dunst nada feliz com o casamento
O dinamarquês Lars Von Trier gosta de uma polêmica. Dois anos depois de provocar vaias e aplausos com o seu “Anticristo” em Cannes, ele voltou ao palco do tradicional festival de cinema francês para virar persona non grata após suas declarações controversas de que entendia Hitler. A piada de mau gosto ofuscou o seu “Melancolia”, bom filme que então fora exibido no festival, mas não impediu a atriz Kirsten Dunst de deixar a premiação com a Palma de melhor atriz.

“Anticristo” e “Melancolia” guardam algumas semelhanças. Primeiro as óbvias: a presença da atriz Charlotte Gainsbourg e uma abertura com uma composição clássica e imagens em câmera lenta. Lá o escolhido era Händel, aqui Von Trier atacou de “Tristão e Isolda”, de Richard Wagner (ouça no vídeo no fim do post). Logo Wagner, o nazista Wagner, e o diretor ainda me elogia Hitler. Queria brincar com fogo.

Uma terceira semelhança é que suas histórias não deixam de ser um certo “drama psiquiátrico”. Se em “Anticristo” Charlotte vive uma mãe em luto eterno e numa dor profunda pela culpa da morte do filho e acaba mergulhando num estado de loucura enquanto o marido psicólogo vivido por Willen Defoe tentava buscar formas de curá-la, em “Melancolia” Kirsten Dunst é a protagonista que navega entre um estado melancólico e a profunda depressão a partir da noite do seu casamento.

Dividido em duas partes, “Justine” e “Claire”, nomes das personagens de Kirsten e Charlotte, “Melancolia” começa com o casamento de Justine, uma noite que teria tudo para ser de muita felicidade numa festa organizada por sua irmã, Claire, com o dinheiro do marido ricaço John (Kiefer Sutherland, cuja imagem não consigo dissociar do Jack Bauer. Sempre acho que ele vai puxar uma arma, torturar alguém em busca de informação ou dizer um dos seus bordões do tipo “Do it, now!!”).

No início Justine parece feliz com Michael (Alexander Skarsgard) e o casal tira de letra e com bom humor um imprevisto com a limusine que não consegue passar por uma rua estreita. Mas é um filme de Von Trier. Não poderíamos esperar que a noite fosse feliz. Aos poucos Justine mostra que sua felicidade é aparente, é para o mundo exterior e o casamento e a vida feliz é algo enfadonho. Justine sofre de depressão. Por isso entendemos a preocupação extrema de Claire com a irmã. A mesma ainda tem que se preocupar com a mala da mãe, Gaby (Charlotte Rampling), mulher que não acredita no casamento e na tal felicidade a dois e faz questão de deixar isso claro no meio da festa. E Rampling está maravilhosa soltando o seu veneno nas poucas cenas que participa.

A verdade é que Justine já não consegue mais disfarçar que o casamento para ela não faz mais qualquer sentido assim como a sua própria vida. Ela tenta manter a capa de felicidade para justificar a festa, mas nada daquilo tem importância e ela mergulha numa profunda depressão após jogar tudo para o alto.

Paralelo ao caso de Justine, “Melancolia” conta a história de um planeta de mesmo nome do título da película que estaria em rota de colisão com a Terra. A possibilidade da morte, que John garante que não acontecerá, paralisa e deixa transtornada Claire, pois ela não consegue entender que seu filho pequeno não terá um futuro por conta dos caprichos da natureza.

Lendo informações sobre o filme, descubro que Trier resolveu filmar essa história após uma sessão de terapia quando ele se tratava de depressão. Na ocasião, o terapeuta lhe informou que uma pessoa depressiva tende a reagir mais calmamente do que as demais diante de uma situação de grande pressão porque ela já tem a expectativa de que coisas ruins vão acontecer.
Kirsten Dunst nua diante de Melancolia

O diretor pegou esse fiapo de informação para fazer o seu muito particular filme-catástrofe. Diante da iminência de o planeta ser atingido pelo Melancolia, Justine e Claire mudam completamente de lado. Justine, que mal conseguia tomar banho sozinha se acalma e até se entrega ao destino inevitável numa bela cena em que Kirsten Dunst aparece nua ao “luar da melancolia” (não podia deixar de destacar isso e postar a foto ai de cima). O fim do planeta representa para ela o fim da dor, o fim de uma vida sem sentido e finalmente a paz que ela nunca teve.

Para Claire, saber que a morte lhe baterá a porta em uma semana é desesperador. Ela “recebe o diagnóstico” de que tem uma semana de vida e não consegue aceitar. Pensa no futuro que o filho não terá e em tudo o que não realizou. As palavras pessimistas de Justine obviamente não a reconfortam e ela passa toda a segunda parte buscando um fiapo de esperança que a mantenha sã. No final, ambas acabarão aceitando o seu inevitável destino.

“Melancolia” é um bom filme, mas me deixou com uma pontinha de decepção por ser exatamente o que se propõe a ser. Esperava algo mais desafiador como “Anticristo” e outros trabalhos anteriores de Von Trier que o forçam a ter mais imaginação.

Mas é impossível assistir ao filme sem celebrar a ótima atuação de Kirsten Dunst. A atriz de 29 anos que até então era conhecida por interpretar a Mary Jane, a namorada de Peter Parker na trilogia do “Homem-Aranha” (entre 2002 e 2007), e a rainha Maria Antonieta no dispensável filme de Sofia Coppola de 2006, tem aqui o seu primeiro grande papel e encara muito bem o desafio. Kirsten é um dos pontos altos do filme e sua atuação é daquelas que valem o ingresso. Ela tem aquele olhar melancólico, derrotado, devastado e depois passa perfeitamente sua serenidade pós-depressiva.


É uma atuação irretocável. Quem vê “Melancolia” entende os motivos que a levaram a ser premiada em Cannes e Kirsten acaba sendo o ponto alto do filme mais óbvio de Von Trier.


domingo, 21 de agosto de 2011

A reflexão existencialista de Malick

A família O'Brien
De uma cidadezinha do Texas, uma família é o ponto de partida para as reflexões de um diretor  sobre a origem da vida, a formação da civilização e tudo o que ela gera de mitos e concepções religiosas. Ela é o microcosmo que representa a natureza e a graça divina na qual o homem se equilibra e contesta suas próprias convicções se jogando numa realidade niilista e devastadora que marca profundamente o ser humano e o faz à poeira voltar. Reflexão existencial, contestação religiosa, muitos caminhos tomam o diretor Terrence Malick na sua obra que usa como mote o conceito de árvore da vida, que aparece na ciência, na religião, na filosofia e na mitologia, entre tantas outras áreas.

“A árvore da vida” é a obra-prima e minha reconciliação com o diretor sobre o qual cuspi abelhas africanas quando me vi diante de “Além da linha vermelha” (1998). Se o filme que usa a batalha do Monte Austin, durante a Segunda Guerra Mundial, para refletir sobre a moral humana e a necessidade da guerra era uma suprema chatice de curar qualquer um que sofra de insônia, apesar de suas sete indicações ao Oscar, a película que faturou a Palma de Ouro de Cannes neste ano me paralisou diante da tela e me conquistou desde os seus primeiros minutos com a câmera de Malick escolhendo planos incomuns com ângulos num campo de girassóis, no movimento do mar ou na explosão de um vulcão, foco em detalhes que vão de uma expressão a um galho de árvore e o brilho do sol sempre a iluminar um determinado ponto que será focado dentro da abordagem a que o diretor se propõe.

Sim, o filme é absolutamente hermético. Sim, ele é de difícil entendimento e um desafio a quem está acostumado com o padrão diálogos/cenas de ação/diálogos/cenas de sexo e por aí vai. Não tem nada disso em “A árvore da vida”. Em suas quase 2h20m, muito do tempo é gasto em reflexões, pensamentos “jogados em voz alta” ou simplesmente imagens que talvez não façam sentido num primeiro momento, mas que casam perfeitamente (acredite!) com o que o diretor se propõe a fazer. Há um longo período só de abstrações na tela que parecem testar o espectador e saber até onde ele pode ir na viagem de Malick da origem do universo até os anos 50 do século passado no Texas.

O filme começa com uma citação do livro de Jó, que diz: “Onde você estava quando eu fundava a Terra... enquanto as estrelas da manhã cantaram juntas e todos os filhos de deus rejubilavam?” Uma imagem disforme é a deixa para sermos introduzidos aos O’Brien, vividos por Brad Pitt e Jessica Chastain, ambos excelentes passando a infelicidade e a frustração de uma vida muito longe daquela que eles sonhavam, mas aturam numa casinha tipicamente americana de um subúrbio tipicamente americano.

O casal tem três filhos criados com disciplina militar pelo pai, um ex-integrante da Marinha, e amor pela mãe, dona de casa. Jessica olha para o céu, observa as folhas das árvores, o cenário bucólico e pensa que a vida é feita de natureza e de graça e que é preciso viver entre uma e outra para atingir a felicidade. Uma felicidade que ela desde sempre aparenta não ter.

A natureza para Malick é tudo aquilo que existe de belo, mas ao mesmo tempo agressivo. É paixão, mas é fúria, é sublime, mas é devastador. É uma dualidade extrema que na sua versão humana é representada por Pitt, um pai que ama os seus filhos, mas não deixa de, ao seu modo, prepará-los para uma vida dura e cruel, pois a sua visão de mundo é pessimista. Pitt é um ser humano frustrado. Sonhava em ser um músico famoso, mas só lhe resta um piano sem plateia. Tem facilidade em criar coisas. Detém 27 patentes, mas seus inventos são rejeitados mundo afora de tão inúteis como inútil é ele para a fábrica que fechará. Seu destino o envergonha e atinge o seu orgulho e sua moral dentro da família.

Jessica é a encarnação da graça divina. É amor acima de tudo e até dela mesma. Sua existência é melancólica, seus prazeres se resumem a sentir a grama do jardim tocar os seus pés e a água a banhá-la limpando mais do que o corpo, mas a sua alma num dos poucos momentos em que ela parece sentir paz. Sua dor é eterna em um casamento infeliz, mas ela nunca deixa faltar aos filhos o beijo e o carinho para que eles tenham o exemplo de que só o amor constrói uma vida sólida.

Cinquenta anos se passam e nos deparamos com Jack (Sean Penn), o filho mais velho, o problemático, o que desafia o pai sendo fruto desse conflito entre os progenitores. Jack tem um olhar declinante, vazio e busca um sentido para a vida em meio a turbulência dos mercados financeiros e aos prédios com seus vidros espelhados que nada refletem. A morte de um dos irmãos quando ele tinha 19 anos (provavelmente em alguma guerra), é uma marca profunda. Havia uma união inquebrantável entre eles. E no seu interior, ele vê o pai e a mãe sempre em conflito como as forças da natureza por vezes entram em choque.
Sean Penn como o Jack adulto e atormentado

A água que escorre da pia não é com a mesma naturalidade com que a que a família O’Brien se banhava no quintal em brincadeiras que ilustravam os raros momentos de felicidade em meio a tensão diária. A casa simples foi transformada num luxuoso, insipiente e vazio apartamento em que ele sequer troca olhares com a mulher que estava na sua cama. O mundo é diferente, embora a ganância seja a mesma. Lá atrás, era o que fazia o pai invejar os donos de grandes propriedades. Hoje é o que derruba os mercados. A natureza não é mais a mesma. A árvore que o jovem Jack (Hunter McCracken) subia ou equilibrava o seu balanço, hoje é, metaforicamente, a sobrevivente solitária de uma selva de pedras de uma metrópole americana.

Me arrisco a escrever que, em Malick, é essa árvore que contém a história da vida. É ela que faz a interconexão dos fatos, que une a explosão solar, os dinossauros que vivem e morrem na Terra, a família O’Brien e, por fim, Jack. Conceitualmente falando, a árvore da vida é uma tentativa de explicar que toda a vida no planeta está interconectada e que uma ação, gera reações e uma cadeia evolutiva que passa das raízes as folhas. Repare no cenário em que dois dinossauros, um maior e outro pequeno se encontram. Repare na forma como o maior segura com a pata a cabeça do menor caído indefeso num riacho e o observa fixamente. Agora compare na forma como Pitt segura seu filho mais velho pelo pescoço, ele tem aquele mesmo olhar firme, às vezes terno, às vezes cruel. É como se a vida no mundo fosse um eterno retorno. E isso é Nietzsche tentando me fazer entender Malick.

A árvore da vida conecta todas as formas de criação. Seu mito é listado desde o Egito Antigo e no Cristianismo ela representa também o amor de Deus. Na Bíblia, a citação no livro das Revelações diz que “o anjo me mostrou o rio da água da vida, claro como cristal, que sai do trono de Deus e do cordeiro no meio da rua principal da cidade. Em cada lado do rio estava a árvore da vida, que produz doze frutos, dando seu fruto de mês. E as folhas da árvore são para a cura das nações”.

Mas o conceito também aparece na ciência e no “A Origem das Espécies”, de Charles Darwin, que vê nas suas ramificações e interconexões uma forma de as espécies evoluírem porque ela “em algum grau pequeno conecta por suas afinidades dois grandes ramos da vida, e que aparentemente foi salvo da competição fatal por ter uma estação habitada protegida”.

Ao contrário de uma suposta imortalidade que uma fictícia árvore da vida poderia nos oferecer como em “A fonte da vida” (2006), de Darren Aronofsky, aqui Malick concebe a mortalidade como instrumento natural para a sequência dos acontecimentos. E fica claro também o quanto ele questiona esse poder divino que tanto se atribui questionando os motivos pela morte de alguém bom e inocente como um dos irmãos O’Brien. A mãe questiona, Jack questiona e pede ainda a eliminação do próprio pai, com quem no início de sua adolescência entra muitas vezes em conflito, mas acabará percebendo que ele o ama da sua forma bem particular. E o momento é do tiro iconoclasta de Malick sobre esse poder superior.

Não há conclusões em “A árvore da vida”, com seu enredo que tem passagens que lembram “2001, uma odisséia no espaço” (1968), de Stanley Kubrick. É uma reflexão existencialista e talvez aqui Malick tente dizer que está um tanto pessimista quanto à humanidade. Ou talvez eu tenha viajado demais.

Seja como for, “A árvore da vida” é uma obra-prima do diretor. Polêmica, difícil, complexa, desafiadora a quem vai ao cinema, mas fantasticamente bem concebida pelo recluso Malick, um cineasta que, agora sim, começo a achar interessante.