quinta-feira, 16 de abril de 2020

Maratonar "The Wire" foi uma jornada fascinante

Os policiais que conduzem as escutas
Eu tenho uma amiga que sempre dá dicas certeiras sobre séries e ao mesmo tempo é necessariamente insistente e positivamente chata até que a gente finalmente as veja. E isso tudo contrasta com o meu ritmo lento para ver ou iniciar algo. Ela insistiu por mais de um ano para eu ver “Sopranos”. E quando eu finalmente vi, que jornada magnífica foi acompanhar a história de Tony Soprano. Terminado “Sopranos”, ela surgiu na minha frente tal qual os mentores dos heróis em suas jornadas e decretou: “Agora você tem que ver “The Wire”.
Eu estava em mais um limiar, mais um portal que eu precisava ultrapassar na minha jornada canônica das séries. Mas como eu disse no parágrafo anterior, meu processo é lento e gradual.
Mais de dois anos se passaram até que eu começasse a ver “The Wire”. Neste meio tempo, encontrei outro fanático pela série que insistiu. “Você tem que ver “The Wire”. E aquela minha amiga? Aquela lá de trás? Continuou insistindo tanto na esfera pública quanto na privada “Veja The Wire”!. Pareciam os mantras hipnóticos daquela antiga propaganda de chocolate “Cooooompre Batom…. Coooompre Batom…”

Pois bem. Forçado a ficar em casa de quarentena por conta de uma triste pandemia que, infelizmente, vai contando corpos pelo mundo todo, decidi finalmente maratonar “The Wire”. E foi a melhor decisão que eu tomei.
(E CUIDADO QUE A PARTIR DE AGORA AS ESCUTAS VÃO REVELAR DIVERSOS SPOILERS)
Escrevo estas linhas menos de 24 horas depois de ter visto o último episódio da série criada por David Simon e que foi originalmente ao ar pela HBO entre 2002 e 2008. Vi a conclusão de uma longa jornada de uma série de personagens em que o resultado foi tudo, menos feliz. Foi pragmático, político, foi o que deu para fazer dada uma série de situações ocorridas. Pessoas que não mereciam se deram bem. Pessoas com boas intenções se deram mal. E a vida seguiu no seu ritmo miserável dentro da dinâmica da sociedade.
O drama passado na cidade de Baltimore, principal centro urbano, financeiro e cultural do estado de Maryland, nos Estados Unidos é absolutamente excitante porque é sobre a vida. Na verdade, a cidade que no tempo da série tinha pouco mais de 650 mil habitantes é usada por Simon como um estudo do comportamento humano em comunidade a partir de um microcosmo. Estão ali, a corrupção policial, a manipulação dos números, todas as formas de ilegalidade, a corrupção e a manipulação na política, a insuficiência do estado, a falsidade, a burocracia que atravanca o avanço e traz desânimo, desespero e revolta. Estão ali todos os núcleos com seus vícios e problemas dissecados. Com suas vísceras expostas a céu aberto. E essa vida girando em ciclos enquanto uma meia dúzia de abnegados trabalha basicamente enxugando gelo numa cidade degradada.
Particularmente, “The Wire” é fascinante porque não é sobre um protagonista. Ou dois. Ou três. O protagonismo vai para a cidade de Baltimore, este organismo vivo que se move em meio a suas zonas decadentes, o crime organizado, as gangues, a alta taxa de criminalidade, a corrupção policial, os interesses políticos, a lavagem de dinheiro, o ensino decadente e o jornalismo em crise. Dentro deste organismo que parece tão caótico e desesperançado vamos acompanhando as histórias das pessoas que fazem parte da fauna de Baltimore.
McNulty, D´Angelo e Bunk no famoso sofá
“The Wire” teve cinco temporadas e um total de 60 episódios. Cada temporada funcionava como uma história fechada, mas dentro de uma perspectiva multilateral. Com isso, o protagonista de uma, passava a coadjuvante em outra ou mesmo tinha apenas uma pequena participação numa terceira temporada.
Cada temporada também era sobre um núcleo. A primeira, por se tratar de apresentar os personagens que vamos acompanhar até o fim, falava do cotidiano dos policiais de Baltimore, que enfrentam a burocracia e as próprias limitações financeiras do departamento, bem como o preconceito (e também medo) da chefia diante de uma nova forma de investigação, as tais escutas, para investigar um proeminente traficante de drogas denominado Avon Barksdale (Wood Harris).
Avon Barksdale, o grande gângster
Na segunda temporada, o foco central é o cotidiano dos estivadores. A trama segue acompanhando o tráfico de drogas, mas ruma para o porto de Baltimore, onde vemos o envolvimento de funcionários do local com contrabandistas gregos que mais a frente vão se revelar fornecedores das drogas que são vendidas nas ruas da cidade. Ao mesmo tempo, vemos a atividade econômica local enfrentando os desafios das transformações que o porto está sofrendo e os problemas enfrentados e também causados pelo sindicato.
A terceira temporada retorna ao núcleo policiais e traficantes, mas apresenta o aspecto político a partir da figura de um proeminente vereador Tommy Carcetti (Aidan Gillen), que começa a galgar as esferas do poder e terminará a série tornando-se governador de Maryland. Aqui vemos como a política interfere no trabalho policial para se beneficiar e atravancar o sistema.
Na quarta temporada, o tema são as escolas e como alunos e professores lidam com a presença do tráfico em suas vidas. Como são deixadas marcas profundas nos jovens. Muitos deles que acabarão trabalhando para os chefes do tráfico em Baltimore.
Na quinta, o centro das atenções passa a ser a redação do jornal The Baltimore Sun. Vemos o jornal lidando com a precariedade, a redução de quadros e acompanhamos histórias falsas sendo publicadas enquanto vemos a luta dos policiais para trabalhar com um orçamento precário, consequência de um problema nas escolas visto na temporada anterior.
A ideia de levar a trama para a redação na quinta temporada foi ótima, pois é numa redação de jornal que, em tese, todas as histórias circulam. Poderia ser uma forma de amarrar de vez a série que estava em sua última temporada, mas acabou que a redação se transformou num novo núcleo, também cheio de vícios e problemas. A conclusão da história, porém, seguiu a perspectiva multilateral idealizada para toda a série. E o desfecho não poderia ter sido melhor. De fato, se a redação do jornal se tornasse o centro de confluência da história, de certa forma “trairia” o espírito da série. As histórias em “The Wire” são interdependentes e cada temporada era como se David Simon nos apresentasse uma nova camada daquele universo compartilhado de Baltimore.
Freamon deu a dica: "Siga o dinheiro"
Vivendo dentro desta realidade, temos oito personagens que formam o núcleo ou circundam a divisão de Crimes Graves da polícia de Baltimore. Eles são os responsáveis pelas escutas e as investigações mais importantes do crime organizado da cidade. São eles que começam a entender que mais do que prender pequenos traficantes e “tenentes” do tráfico, era preciso seguir a máxima de Lester Freamon (Clarke Peters), um dos principais personagens da série, e “seguir o dinheiro”. E quando se segue o dinheiro, pode-se parar no Olimpo de uma organização cujos tentáculos vai do gueto de Baltimore aos altos escalões de Washington.
Os personagens que circundam as investigações são estes:
. Detetive James McNulty (Dominic West)
. Tenente Cedric Daniels (Lance Reddick)
. Detetive William “Bunk” Moreland (Wendell Pierce)
. A advogada do Ministério Público Rhonda Pearlman (Deidre Lovejoy)
. Detetive Shakima “Kima” Greggs (Sonja Sohn)
. Detetive Ellis Carver (Seth Gillam)
. Detetive Thomas “Herc Hauk (Domenick Lombardozzi)
. Detetive Lester Freamon
A partir destes oito personagens as histórias vão ganhando corpo. Não há nada em “The Wire” que não passe por eles e é a vida deles que acompanhamos mais de perto. As ascensões e quedas, as decisões certas e erradas, os dramas, o continuum da existência daquela cidade passa por eles.
Seus adversários mudam a cada temporada ou estão sempre orbitando o espectro da investigação. Os antagonistas desta história são:
. O chefe do tráfico Avon Barksdale
. Seu sócio Stringer Bell (Idris Elba)
. O chefe do tráfico Marlo Stanfield (Jamie Hector)
. Senador Clay Davies (Isiah Whitllock Jr.)
. Spiros Vondas (Paul Ben-Victor)
. The Greek (Bill Raymond)
Interagindo entre os dois núcleos há uma séries de guardiões do limiar, personagens que em algum momento circundam as histórias trazendo problemas, por vezes sendo inimigos, outras vezes tornando-se aliados momentâneos. São aqueles que vão controlar o ritmo da história na interação com o núcleo que a protagoniza ou com o núcleo que a antagoniza.
Este grupo é formado por personagens de diferentes camadas sociais. São eles:
. O informante da polícia e usuário de drogas Bubbles (Andre Royo)
. O justiceiro Omar Little (Michael K. Williams)
. O vereador Thomas Carcetti (Aidan Gillen)
. O major Howard “Bunny” Colvin (Robert Wisdow)
. O traficante D’Angelo Barksdale (Lawrence Gilliard Jr.)
. O presidente do sindicato dos estivadores Frank Sobotka (Chris Bauer)
. Seu sobrinho Nick Sobotka (Pablo Schreiber)
. O jornalista Scott Templeton (Thomas McCarthy)
. O traficante Preston “Bodie” Broadus (JD Williams)
. O estudante Namond Bryce (Julito McCullum)
. O comandante da polícia William Rawls (John Doman)
. O detetive Roland “Prez” Pryzbylewski (Jim True-Frost)
. O traficante Proposition Joe (Robert F. Chew)
. O assassino Chris Partlow (Gbenga Akinnagbe)
. O comandante Ervin Burrell (Frankie Faison)
. O prefeito Clarence Royce (Glynn Turmann)
. O major Valchek (Al Brown)
. O juiz Daniel Phelan (Peter Gerety)
. O jovem traficante Michael Lee (Tristan Wilds)
. O advogado Maurice Levy (Michael Kostroff)
. O sargento Jay Landsman (Delaney Williams)
. A vereadora Nerese Campbell (Marlyne Barrett)
Como podemos ver, temos um grupo de oito protagonistas e outro de seis antagonistas. Além de um grupo de 22 personagens que vão ditando o ritmo dos conflitos. Sem contar outros coadjuvantes que não foram citados aqui. A maioria destes 36 personagens esta entre os 40 personagens que aparecem em todas as temporadas da série. Deste grupo de 36 personagens, oito estiveram em todos os 60 episódios da série: McNulty, Rawls, Pearlman, Bunk, Daniels, Kima, Carver e Herc. Sem contar o Freamon, que aparece em 59 dos 60 episódios.
A riqueza de “The Wire” está na construção deste universo. Muitas produções. Muitas mesmo, do seu blockbuster favorito àquele escondido e empoeirado e raras vezes visto filme iraniano que você cita para se sentir superior aos demais, são baseadas numa fórmula tradicional da jornada do herói. Aquela mesma que vem da “Ilíada” e da “Odisseia”, de Homero, e foi teorizada no século XX pelo russo Vladimir Propp em “Morfologia do conto maravilhoso” (1928) e pelo professor de mitologia comparada Joseph Campbell em “O herói de mil faces”(1949). Também poderíamos incluir os arquétipos do psicanalista Carl Gustav Jung nesta brincadeira toda a partir de suas ideias em “Os arquétipos e o inconsciente coletivo” (1933).
A história do Superman é assim. A do Capitão América também. E a de “Parasitas”, filme ganhador do Oscar deste ano, também. Desculpe por decepcionar quem achava que era diferente.
Se fosse possível fazer um levantamento em toda a história do cinema, eu diria que 95% dos filmes são feitos organicamente a partir do conceito de jornada do herói. Contudo, isso é um número meramente especulativo e sem base científica. Mas é isso que acontece. Alguém vai de um ponto A ao ponto B passando por uma série de provações e recebendo a “recompensa” no final. E tudo bem. Não significa não haja filmes fascinantes, brilhantes até, feitos desta forma. Há muitos. De todos os tipos, orçamentos e alcances. Além disso, a história da humanidade sempre foi construída a partir destes parâmetros. É o que Campbell fala quando comenta as mitologias que vão de Zeus ao Rei Arthur, passando por Jesus Cristo.
McNulty se sacrificou por sua causa
“The Wire”, contudo, é fascinante porque é diferente disso. Mas não há jornada do herói em “The Wire”? É claro que há. A história do detetive McNulty é a típica história do herói trágico. Ele é um Hamlet contemporâneo que passa pelas mais difíceis provações internas e externas e sacrifica-se ao fim da jornada.
Porém “The Wire” não é sobre McNulty. O personagem é apenas um vetor da história. “The Wire” é sobre Baltimore e sobre as misérias e degradações humanas a partir deste microcosmo. É uma reflexão a partir de causas e consequências de atitudes erradas ou corruptas tomadas num determinado ponto da vida e que acabam por se refletir na vida de toda a sociedade. Não há deus ex-machina em “The Wire”. Se você pegar uma determinada rua, pode realmente ser baleado e ter a sua vida abreviada. Se você embarreirar uma investigação, pode ver os tentáculos de um traficante chegarem até o governo da cidade. Se você não ajudar aquela criança, ela se transformará em tenente do tráfico no futuro. E todas estas ações passadas geram consequências futuras para todo o organismo da cidade. E cada indivíduo precisa lidar com as consequências das decisões tomadas por ele e por outros ao seu redor.
Omar morre estupidamente
Isso gera uma imprevisibilidade saudável à série. Stringer Bell é o grande vilão? Ele morre impiedosamente na terceira temporada. Avon Barksdale é o grande gangster perseguido pelos policiais? O maior alvo? Termina preso na terceira temporada e é quase esquecido nas temporadas posteriores, reduzindo a sua influência à chefia dos presos na cadeia. É quando surge Marlo Stanfield com a coroa de rei do tráfico. Uma coroa que durou pouco. Foi preso e deliberadamente aposentado para manter a sua liberdade. Omar é o nosso herói e justiceiro que vai fazer com os traficantes o que a polícia não pode? Acaba estupidamente morto por uma criança na quinta temporada, enquanto comprava cigarros.
Duquan, Wagstaff, Michael e Namond na escola
Por outro lado, personagens supostamente bons podem mudar de lado. E vice-versa. O exemplo mais cristalino está na polaridade entre os jovens Michael e Namond na quarta temporada. Quando ela começa, Michael parece um jovem longe da influência do tráfico, pois tem uma mãe viciada. Ele quer apenas cuidar do seu irmão para não vê-lo no mesmo ciclo do tráfico. Michael, inclusive, é o único do seu grupo de amigos a recusar o assédio de Marlo Stanfield. Namond, por outro lado, é um jovem problemático, filho do traficante Wee-Bey (Hassan Johnson), um dos braços direitos da dupla Avon-Stringer Bell. Ele é uma das ovelhas negras da escola, que não sabe o que fazer diante do seu comportamento violento e antissocial. E ainda tem ligações com o tráfico nas ruas.
Diante do que a série nos apresenta, parece que acompanharemos duas histórias opostas com finais conhecidos. Quão incrível é percebermos que Simon resolve inverter a polaridade desta dupla, jogando Michael nos colos do tráfico e Namond nos braços da redenção. E isso não tem volta. Pois cada passo que damos gera consequências quão mais graves eles são.
Michael tem outra função nesta história que é expor o círculo vicioso da vida em Baltimore. Seu destino final é virar um novo Omar, inclusive empunhando a mesma arma usada pelo anti-herói. Não mais um soldado do tráfico, mas jamais um mocinho, pois a sua vida já está manchada pelos caminhos tomados por ele anteriormente.
Bubbles tem a grande história de redenção
O círculo vicioso, ou a teoria do eterno retorno de “The Wire”, também aparece na relação Bubbles-Duquan (Jermanie Crawford). Eles nunca contracenam na série, mas são espelhos um do outro. São passado, presente e futuro desta história particular. Bubbles começa a série como um viciado em drogas que trabalha por esmolas dando informações para a polícia e passa os dias catando lixo nas ruas para vender. Ele vivencia uma série de provações, dificuldades e recaídas até finalmente conseguir a sua redenção conquistando novos espaços sociais dentro da casa da irmã e na vida em Baltimore, além do auto perdão pelos erros cometidos ao olhar a sua vida em perspectiva e através do olhar de um jornalista. Mas nunca soubemos qual é o seu passado. O que o levou a se tornar a figura miserável das três primeiras temporadas. Seu passado é espelhado em Duquan nas duas temporadas finais. Um jovem sem muitas oportunidades na escola, que sofre bullying dos colegas e tem uma vida financeiramente miserável. Um jovem que mostra algum talento quando lhe dão uma chance, mas não consegue dar continuidade aos estudos, não tem casa para morar, exibe uma bondade que não serve para o tráfico e acaba a série como um catador de lixo iniciando a sua vida como consumidor de drogas. Duquan é o passado de Bubbles e o alerta da série que, para cada ex-viciado surgem novos viciados, mostrando que algo nas políticas, no combate às drogas e ao vício e na recuperação social dos indivíduos precisam ser revistos para que não se repita o círculo do eterno retorno.
Outro exemplo de personagens cujas trajetórias se espelham são o tenente Daniels e o detetive Ellis Carver. Quando a série começa, Daniels é um homem de reputação ilibada, mas que cometeu um grave erro no passado. Erro este que é recorrentemente lembrado durante todas as cinco temporadas da série. Um erro que assombra Daniels a cada momento de tentativa de mudança e subida na escala de poder da polícia. E na série, Daniels passa por capitão, major e tem uma curta passagem no comando do departamento. Nunca sabemos em detalhes qual foi o crime cometido por Daniels, mas sabemos o suficiente para saber que é grave e pode acabar com a sua carreira no alto escalão se isso vier a ser revelado. Carver, por sua vez, é um jovem policial que vemos logo na primeira temporada cometer um grave crime, imoral dentro da polícia, que seria o suficiente para marcar de vez a sua carreira. Daniels, que então é o seu chefe direto, lida com o problema muito provavelmente da mesma forma que algum chefe lidou com ele no passado. Na temporada seguinte, Daniels dá uma segunda chance a um Carver que ainda se vê como culpado pelo erro cometido. Seu personagem cresce e, não por acaso, a última cena de Carver é com Daniels, em seu último ato na polícia, o empossando como tenente, justamente o cargo que Daniels ocupava no início da série. Carver tem um crescimento moral e vira o sucessor natural de um cansado Daniels, que, por sua vez, vai para a vida civil de advogado, onde acredita poder ser plenamente correto sem lidar com as diversas pressões políticas e burocráticas da vida pública.
O círculo desesperador do eterno retorno é algo que enriquece “The Wire”. Ele mostra que não importa quem está no comando da polícia ou da prefeitura, as taxas de criminalidade precisam ser manipuladas para favorecer A ou B. Os nomes mudam no comando da polícia (Burrell-Rawls-Daniels-Valchek) ou da prefeitura (Royce-Carcetti-Nerese, mas os números que precisam ser mostrados são aqueles que precisam ser mostrados de acordo com os interesses necessários. Não importa como eles são conseguidos. São também os malditos números que fazem a escola não optar pelo ensino dos seus alunos ou o Baltimore Sun fechar os olhos para o fato de ter publicado reportagens mentirosas do jornalista Scott Templeton. O que são mentiras perto da exibição de um Pulitzer por um jornal em decadência pelos cortes de pessoal e orçamento?
Em “The Wire”, personagens de reputação ilibada também podem tomar decisões erradas. E não serão salvos por isso. O maior exemplo está no brilhante detetive Freamon, que na única vez em que saiu dos trilhos da lei pagou por isso, sendo obrigado a abandonar a carreira. Mesmo destino, aliás, de McNulty.
Freamon e McNulty, aliás, são o retrato da apoteose trágica que é a quinta temporada. As decisões que tomam ao inventar um serial killer na cidade para conseguir recursos financeiros para uma polícia financeiramente em crise resolver seus casos é a mesma manipulação, mas em outra ordem e escala, feita pelas esferas superiores do poder. Eles representam o desespero e a raiva por serem manipulados há anos e nunca conseguirem recursos para investigar os grandes culpados pela situação degradante de Baltimore. No fim, são parcialmente bem sucedidos em sua empreitada, pois em “The Wire” não existe felicidade nem tristeza plena, apenas causas e consequências dos seus atos, e pagam por isso.
Narratologicamente, “The Wire” segue o conceito de jornada coletiva, que se baseia numa jornada de múltiplas personagens que, eventualmente, se reúnem no percurso de uma história para a resolução de um problema comum. De certa forma, David Simon já fazia há 18 anos na TV o que a Marvel vem construindo em maior escala financeira e de difusão no cinema. Claro que a Marvel usa de outros recursos e também tem a importante componente transmedia nesta história, mas, na essência do que é a jornada coletiva, Simon já estava fazendo isso lá atrás e, de certa forma, repete o mesmo modelo em “The Deuce”, série que foi ao ar entre 2017 e 2019 também na HBO.
Não é fácil fazer uma jornada coletiva. Para isso, é preciso criar um universo e uma gama de personagens muito mais ampla que verdadeiramente interaja nele. Foram destacados aqui 36 personagens, mas há ainda pelo menos mais cinco ou seis que de alguma forma entram na dinâmica coletiva da série e um sem número de personagens fazendo pontuais elos de ligação em momentos específicos dela. Um filme ou uma série normal faz-se com muito menos personagens.
O escritor e produtor transmedia Jeff Gomez diz que “as histórias de jornada do herói são sobre como o indivíduo se atualiza ao alcançar uma mudança pessoal”, enquanto “as histórias de jornada coletiva são sobre como as comunidades se atualizam em sua tentativa de alcançar uma mudança sistêmica” [1].
Em “The Wire”, esta tentativa de mudança muitas vezes é frustrada. Há pequenos avanços em meio a grandes retrocessos e o círculo de eterno retorno sempre presente enquanto, filosoficamente, a série abraça o amor fati nietzschiano, o amor ao destino, mesmo em seus aspectos mais cruéis e terríveis.
“The Wire” é uma jornada extremamente rica e niilista. Terminá-la trouxe a contraditória sensação de prazer e tristeza. E assim são as grandes séries.
PS: Minha amiga diz há algum tempo que eu ia gostar de ver “Gilmore Girls”. Desta vez, vou tentar não demorar muito para ver.
[1] Jeff Gomez, “The collective journey comes to television” (Fevereiro 2017): https://blog.collectivejourney.com/the-collective-journey-story-model-comes-to-television-151bb4011ce2

terça-feira, 10 de março de 2020

Svetlana e seu inventário da alma soviética

Entre o ano de 2019 e o início deste ano, dediquei o pouco tempo que eu tive livre basicamente a duas escritoras. Duas autoras de realidades e estilos de escrita completamente diferentes, mas que me trouxeram uma riqueza literária e de conhecimento enormes. Uma delas foi a Elena Ferrante, sobre quem eu um dia talvez escreva de forma mais apropriada. A outra foi Svetlana Alexievitch. 

Jornalista bielorrussa, Svetlana escreveu três livros que são praticamente um inventário da alma soviética/russa. A gente aprende muito na escola sobre as guerras, a Revolução Russa, o colapso da União Soviética e a Perestroika, mas é muito difícil captar o que se passava de verdade com um povo tão diferente, de alfabeto, línguas e lógica de pensamento tão complexas e distintas da realidade do mundo ocidental. 

Entender é melhor do que julgar. Conhecimento é melhor do que ignorância. Enquanto muitos se apressam a exaltar que o comunismo é incrível ou o maior flagelo já construído pela humanidade dependendo de uma frágil corrente política a qual se segue na ocasião, vale a pena ouvir as vozes que viveram os martírios e os prazeres da União Soviética durante todo o século XX. 

Tudo, inclusive os problemas, passa pela necessidade e o orgulho de ser uma nação grandiosa em escala planetária. As consequências disso parecem ser uma alma coletiva fraturada de uma região que em menos de 100 anos passou de um império czarista para um regime duro comunista e viveu o colapso de sua grandiosidade com a Perestroika, a queda do regime e a separação dos países que formavam o bloco soviético.  

O resultado disso é um povo de alma fraturada e sentimentos tão díspares que é muito difícil colocar as coisas em caixinhas que dizem: isso é bom ou isso é ruim. 

O russo que exalta a ascensão de Stálin e a revolução, pois o comunismo trouxe, supostamente, a igualdade e o fim das elites imperiais, é o mesmo que sofre com as rações diárias, a vida nas datchas, e com o komsomol. É o que sofre com a falta de recursos e vê os dirigentes do partido viverem uma vida não igual ao dos czares, mas com privilégios muito acima dos do povo. 

O soldado que exalta o vigor e o heroísmo russo na Segunda Guerra, é o mesmo que luta movido também pelo medo de ser capturado e, por isso, ser automaticamente considerado um traidor. No regime stalinista, ou você vence ou você não volta com vida. Se foi capitulado pelo inimigo, automaticamente tornou-se um inimigo, pois antes disso devia ter tirado a própria vida. 

Medo e desconfiança sempre rondam a população. O soldado que chegou a Berlim como um herói, não volta para casa, mas para um campo de concentração simplesmente porque viu a vida e a “riqueza” alemã, diferente dos prédios feios e da falta de diversidade de alimentos soviéticos. Para o regime, este conhecimento não pode ser espalhado. É assustador ver que muitos heróis de guerra não viram o pesadelo acabar com a rendição alemã, mas o estenderam em campos de concentração. 

Para não falar na visão menos romântica e heroica das mulheres que lutaram no front. Sob o olhar delas, a guerra é muito mais real, dura, com gosto de sangue e suja de lama. É sem heroísmo e de muita dor. 

Fora isso, nas décadas seguintes, houve sempre o medo e a desconfiança de ser denunciado e mandado a cadeia por uma frase mal interpretado ou um pensamento diferente do oficial. Todo vizinho é um potencial delator e só há uma frágil segurança nas conversas na cozinha, o espaço mais importante das casas, onde os debates são feitos. 

Mas ao mesmo tempo há um genuíno orgulho pelo comunismo, por uma forma de viver que desafia política e culturalmente o modus operandi americano e ocidental. Orgulho que dá lugar ao ódio quando chega a Perestroika de Gorbatchev. Ali havia uma parte dos russos que queria ser livre, mas depois de décadas sob o domínio de diferentes tipos de czares, pois o comunismo soviético não deixou de ser um czarismo com outra roupagem dada a necessidade de uma figura e uma liderança tão forte, e com a população controlada em tudo, a população se viu despreparada para a jornada de consumo e competitividade voraz do capitalismo. 

Surge a pobreza, a desigualdade e com ela a nostalgia dos tempos comunistas em uma sociedade dividida. Todo povo é sempre dividido nos seus pontos de vista.

Se Dostoiévski me ensinou a entender a Rússia dos czares, Svetlana me ajudou a compreender melhor a complexa diversidade de sentimentos que acompanha o indivíduo soviético do século XX, que eu imagino que gere consequências até hoje. Afinal, o que é Vladimir Putin se não um homem com postura de czar que fez sua carreira na temida KGB durante o regime soviético e se perpetua no poder como um Stálin. Fazendo o que bem entende e sendo acusado de diversas violações à democracia. 

Esse indivíduo soviético/russo é fraturado por uma série de regimes que exaltam a grandeza e a glória de uma nação e, ao mesmo tempo, tem um pavor de ser internacionalmente humilhado. 

“Vozes de Tchernóbil”, “A guerra não tem rosto de mulher” e “O fim do homem sovietico”, bem como as séries “Chernobyl”, da HBO, é “Os últimos czares”, da Netflix, representaram uma jornada interessante para compreender um pouco melhor tudo isso. Principalmente, no caso de Svetlana, porque vem de alguém que viveu de perto essa história e colhe seus depoimentos sem um lead e um julgamento pré-estabelecidos. As conclusões ou não ficam para quem a lê. 

Definitivamente, anseio pelo novo livro traduzido da escritora, "Rapazes de Zinco", que será lançado neste ano e falará sobre a incursão soviética no Afeganistão. Será mais um momento para continuar estudando esse povo fascinante e intrigante. 

Assayas joga reflexões em filme que não se conecta

Mercado editorial e traições na mesa
O cinema de reflexão é quase uma instituição francesa. Se há um tipo de filme feito na França que eu aprendi a gostar é justamente o que tenta dar um recorte de uma realidade e refletir sobre ela. Mesmo que muitas vezes se torne um debate filosófico e burguês com adultos de classe média-alta bebendo vinhos e comendo queijos caros enquanto pensam sobre os destinos da humanidade, é interessante ver aqueles personagens que contracenam debatendo a partir das ideias desenvolvidas pelo diretor, que muitas vezes também é o roteirista destes filme. 

“Vidas duplas” é um pouco sobre isso. Mas ao mesmo tempo em que tenta criar uma história em que debate o choque entre tradição e modernidade na indústria literária, Olivier Assayas parece se perder e não criar uma conexão que traga rumos e, principalmente, um caminho para uma conclusão de sua história. Não que histórias em aberto não sejam boas. Pelo contrário. Elas são ótimas. Mas Assayas não deixa “Vidas Duplas” em aberto. Ele joga-a num limbo em que ao fim das duas horas de filme fica-se a conclusão de que se falou demais e não se foi para lugar nenhum. 

Nem os naturais pontos de conflito acusados pelos adultérios que acontecem na tela fazem o filme entrar numa erupção mínima para balançar as estruturas dos personagens. Tudo é muito passivo e sem que nos leve a algum lugar. 

No centro da história estão quatro personagens que, como o título do filme diz, vivem vidas duplas. Léonard (Vincent Macaigne) é um escritor popular que, no entanto, só consegue criar ficções a partir das histórias que de fato viveu. Ele é tão transparente nos seus textos que as pessoas se enxergam claramente nele. Ele é amante de Selena (Juliette Binoche), atriz de uma popular série de TV que está em crise com o seu papel. 

Selena é mulher de Alain (Guillaume Canet), editor de uma empresa conhecida por ter um excelente cartel de escritores, mas que está passando por uma reestruturação para se adequar aos novos tempos de leitores que compram e-books e audiolivros. Alain, por acaso, também tem uma amante, a funcionária responsável pelo departamento digital da editora. 

Léonard, por sua vez, é casado com Valérie (Nora Hamzawi), assessora de um político popular na França que está em campanha para se eleger para algum cargo que não é mencionado no filme. 

Orbitando a história dos quatro, há toda uma reflexão sobre a necessidade de se adaptar aos novos tempos e os rumos da literatura no século XXI, uma era de rápida digitalização em que pessoas leem livros pelo Iphone, blogueiros têm tanto poder de decisão e críticos veem seu prestígio decair. 

Enfim, existe todo um apanhando sobre as mudanças tecnológicas e reflexões acerca da indústria com cada um e outros personagens secundários opinando acerca do tema. 

Tudo parece interessante, mas isso não gera qualquer rumo para as histórias de cada um. Léonard continua tendo livros publicados, mas também passa a ter e-books. A editora de Alain não dá qualquer sinal de crise ou decadência. Pelo contrário. Se adapta bem à nova realidade e vira vanguarda mesmo com a troca de uma funcionária. 

E toda está trama não tem qualquer ligação com a trama paralela dos casos amorosos de Selena, Léonard e Alain. O que nos leva a refletir qual era o objetivo de Assayas ao unir os dois casos. Será que ele só queria falar sobre estas preocupações acerca da literatura e criou personagens que tivessem suas vidas sempre em choque para facilitar o debate? Não parece funcionar muito bem. E mesmo quando um adultério é revelado tudo fica surpreendentemente bem e sem sequelas emocionais. O que, convenhamos, por mais adultos que todos sejam, é inevitável que haja alguma quebra de confiança, choro, vontade de se vingar, enfim... falta "sangue" aos personagens. 

“Vidas duplas” é um filme morno. Suas ideias são sempre tratadas em paralelo aos acontecimentos vividos pelos personagens e nunca entram em choque ou se amalgamam. O que fica no fim é a sensação de que foi um bom papo regado a vinho, sexo e boa comida numa idílica primavera parisiense. 

Cotação da corneta: nota 6,5

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

A DC ainda está nos devendo um filme bom da Arlequina

Arlequina e as Aves de Rapina
Sabemos que por mais que filmes baseados em quadrinhos sejam enquadrados no gênero “filme de super-herói”, cada uma destas histórias são contadas de uma forma diferente, se inserem em gêneros diferentes e são voltadas para públicos diferentes. Mas é inevitável que depois de um filme tão fora da curva da DC como o “Coringa”, que mal ou bem foi indicado a 11 Oscars e ganhou duas estatuetas, e, principalmente, depois do fracasso retumbante do “Esquadrão Suicida” que se esperasse um pouco mais sobre o filme-solo da Arlequina. 

E o primeiro problema de “Aves de Rapina (e a fantabulástica emancipação de Arlequina)" está justamente aí. O que supostamente se vendeu como um filme-solo da Arlequina, tem um título que evoca um grupo de heroínas, mas ao mesmo tempo o que se vê na tela é 80% de sua real protagonista e tudo é tão confuso, que não dá para entender para onde a diretora Cathy Yan e os roteiristas do filme querem ir. 

“Aves de Rapina” (e vamos reduzir o enorme título a isso a partir de agora) era para ser um quase reboot de personagem que era uma das poucas coisas, talvez a única, de positivo em “Esquadrão Suicida”. De fato, Margot Robbie soube captar um pouco da loucura e da alma da personagem, que viria a ser a namorada do Coringa e se destacar naquele filme absolutamente esquecível. 

O problema é que colocaram a Arlequina num roteiro bobo e com tiradas dignas das piores comédias. É claro que é preciso levar em conta que o filme claramente é voltado para um público adolescente. Ninguém estava esperando reflexões como as que envolvem “Coringa” (2019) ou “Batman - O cavaleiro das trevas” (2008), mas ainda assim as ideias do filme parecem difíceis de comprar, até porque muitas coisas são jogadas na tela e elas tem uma ligação muito frágil dentro do filme e até dentro do universo da DC, se é que "Aves de rapina" terá alguma conexão com o universo expandido da DC. 
  
A ideia do filme é mostrar uma aventura divertida que viesse com o descolamento da personagem principal do Coringa a partir de uma quebra de relacionamento. Arlequina sofre como todo adolescente sofreria ao perder um amor, mas faz das suas para superar. Isso envolve mortes e loucuras em geral. 

E onde entram as Aves de Rapina propriamente ditas? Durante o filme vamos sendo apresentados as personagens Renée Montoya (Rosie Perez), Caçadora (Mary Elizabeth Winstead) e a mais conhecida de todos os que acompanham quadrinhos, a Canário Negro (Jurnee Smollett_Bell). Enquanto acompanhamos a aventura de Arlequina, as três vão cruzando o caminho dela entre confrontos e alianças momentâneas para resolver problemas pontuais. Basicamente, temos aqui a visão da Arlequina para a formação do grupo de heroínas e até de certa forma como ela foi decisiva para isso. A ideia parece boa, mas a execução não ficou tão interessante como poderia ter sido. No fim, temos três personagens cujas biografias não são muito aprofundadas e as motivações precisavam ser mais bem trabalhadas. Mas é preciso dizer que o tempo de um filme seria curto para tudo isso. Talvez as Aves de Rapina merecessem uma série de TV. Seria mais interessante do que inseridas num filme que era para ter sido todo da Arlequina. 
  
Mas alguns dos piores momentos do filme ficam mesmo com Ewan McGregor, um bom ator que se reduziu a uma figura canastrona no papel Máscara Negra com algumas das cenas mais constrangedoras de "Aves de Rapina". É possível perceber a tentativa de fazer do Máscara Negra um homem abusivo e aterrorizante para as mulheres ao seu redor. E há um mérito em trazer para os filmes de super-herói uma temática importante, mas o desempenho do ator aqui é sofrível.

O que sobra, portanto, é muito pouco. Talvez o que Aves de Rapina traz de melhor são as cenas de combate, todas muito bem coreografadas e divertidas. A cena da Arlequina na delegacia de polícia é ótima, divertida e muito plástica e toda a cena final, inclusive a parte da Arlequina surgindo de patins na perseguição ao carro do Máscara Negra é ótima. Mas é tão pouco, que fica difícil salvar o filme só com isso.

Falta a “Aves de Rapina” uma história interessante - a trama do diamante e a história cruzada com a família italiana é confusa - um norte que apontasse sobre o que o filme queria tratar (Uma aventura da Arlequina? A formação das Aves de Rapina, que nada tem a ver com a Arlequina? - coesão no argumento, diálogos melhores do que piadas bobinhas à moda Marvel filmes e até atuações mais inspiradas, ainda que Margot Robbie seja uma presença carismática na tela. 

É uma pena, mas a DC continua devendo um filme bom que envolva uma personagem tão legal quanto a Arlequina. “Aves de Rapina” está muito longe de ser isso e ainda é um filme problemático sob um aspecto que vemos também no “Coringa” e no “Venom” (2018). Ao filme de vilão como protagonista, falta o antagonista. No arquétipo natural da construção destas histórias, não existe vilão sem herói. E a Arlequina sequer entra em confronto de fato com as Aves de Rapina, que deviam ser suas antagonistas. Elas se associam, tem pequenos entreveros, mas não há nada que represente de fato uma cisão dela com as heroínas, que, na verdade, deviam é caçar a Arlequina, uma vez que, não podemos esquecer, ela é uma assassina. 

Enfim, o filme é uma grande confusão. Esperemos que a Arlequina seja melhor aproveitada em futuros filmes da DC. “Aves de Rapina”, no entanto, é só mais um filme ruim do estúdio. 


Cotação da Corneta: nota 4,5.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Sam Mendes expõe os horrores da guerra numa história sem heróis

A batalha nas trincheiras da primeira guerra
É muito comum que filmes de guerra sejam construídos a partir de um olhar de seus heróis e seus feitos heroicos e sacrifícios. O diretor Sam Mendes resolveu caminhar por outros percursos. Baseado nas histórias contadas por seu avô, Alfred H. Mendes. Sam fez do seu “1917” um épico sem rosto apenas para falar sobre os horrores da Primeira Guerra Mundial. 

Ocorrida entre 1914 e 1919, a primeira guerra não costuma ser retratado com tanta frequência quanto a segunda no cinema, mas foi um conflito extremamente duro e que causou a morte de 16 milhões de pessoas entre soldados e civis. 

A história que Mendes retrata se passa no ano descrito no título do filme. Na ocasião, soldados britânicos preparavam um ataque que supostamente seria decisivo contra o exército alemão. Mas o que os britânicos não sabiam é que se tratava de uma emboscada que causaria a morte de pelo menos 1.600 soldados. 

É neste contexto que o general Erinmore (Colim Firth), envia os soldados Schofield (George MacKay) e Blake (Dean-Charles Chapman) para o meio do conflito na França com o objetivo de avisar a tropa do coronel Mackenzie (Benedict Cumberbatch) que havia uma emboscada e cancelar o ataque. 

Assim Schofield e Blake partem numa missão quase suicida. Acompanhando a jornada deles, Mendes vai nos expondo a crueza e implacabilidade do confronto mundial ocorrida há pouco mais de cem anos. Passamos pelas trincheiras enlameadas e cheias de armadilhas, por cidades completamente devastadas e por bombardeios e tiroteios que podem surgir a qualquer momento quando o silêncio parece imperar. 

Acima de tudo, Mendes exibe as marcas do conflito. Os corpos putrefatos a céu aberto, os ratos devorando tudo a frente, a sujeira inerente e os traumas psicológicos sofridos pelos soldados. 

Tudo isso vem acompanhado pelos olhos dos soldados Blake e Schofield, que estão longe de serem heróis nesta história. Blake é um soldado qualquer escolhido por sua habilidade em ler mapas e por ter um irmão na tropa que precisa ser informada da armadilha. Já Blake escolhe o amigo com quem estava para ir com ele simplesmente porque ambos descansavam ao pé de uma árvore quando ele foi chamado. 

Protagonistas da história, eles são rostos desconhecidos enquanto passamos por atores com mais história fazendo quase participações especiais no filme. Além de Firth e Cumberbatch, vemos Mark Strong e Richard Madden, que interpreta o irmão de Blake.

Não sei se esta sempre foi a ideia de Mendes, mas acabou caindo bem dentro de um conceito de despersonalizar, e tirar o heroísmo da guerra. Chapman e MacKay, por exemplo, são rostos comuns e ainda não estrelados em Hollywood. 

Combinando isso com o comportamento que as personagens têm no filme, que chegam até a negação do desejo de seguir em frente, temos anti-heróis aqui não fazendo nada além de cumprir ordens. Morrendo de medo de dar cada passo e com uma fragilidade e um instinto de sobrevivência pouco comum em filmes do gênero. A guerra de Sam Mendes não é a dos grandes feitos. É a de pequenas conquistas de cada trincheira por homens que queriam estar em qualquer lugar, menos naquele ao qual foram destacados para defender violentamente territórios que a política falhou em negociar. 

E tudo isso é realizado pelo diretor em dois planos-sequência que trazem todo um olhar especial e dão um tom realista à jornada. Com sua câmera, Mendes vai passeando pelos horrores dos cenários, revelando corpos mutilados, soldados apodrecendo, ratos comendo restos de corpos... esmiúça-se nos arames retorcidos das trincheiras, reforça a tensão por cada casa, porta ou fresta pelas quais os soldados precisam passar. No meio do filme, temos um corte para acelerar a passagem de tempo. O resto fica com truques de câmeras para que as 24 horas de ação se condensem em duas de filme. 

Acho sempre um trabalho fascinante o de fazer um plano-sequência, pois tudo precisa ser muito bem ensaiado para dar certo e os cortes precisam ser imperceptíveis. Foi uma tarefa ao qual Mendes conseguiu realizar com sucesso para entregar um filme que fica marcado por cenas impressionantes. Isso porque mesmo que em boa parte do filme não haja ação, o espectador é envolvido pela enorme tensão de que algo iminentemente irá acontecer e porque a câmera nunca revela a amplitude do cenário. A próxima trincheira, o próximo obstáculo pode sempre ser fatal. 

“1917” é um belo filme de guerra. E uma história impressionante que sobre a primeira guerra que estava escondida. Tem defeitos, como um roteiro que praticamente não tem história. Mas tem o mérito de trazer um pouco mais de realidade e menos heroísmo aos filmes do gênero, ainda que isto não seja necessariamente original. Também tem como mérito nos mostrar o quão terrível é a experiência de uma guerra mundial. Esperamos que conflitos deste tipo jamais voltem a ocorrer. 

Cotação da corneta: nota 8,5.