quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Sessão nostalgia

Tudo começou com um comentário de uma amiga totalmente excelente que vibrara ter um dia de folga que coincidia com a exibição de um dos seus filmes favoritos na “Sessão da Tarde”. No dia seguinte, tomado por um certo tom nostálgico, crise dos 30 ou qualquer coisa do gênero, pensei: Tem muitos anos que eu não fico em casa vendo um filme da "Sessão da Tarde".

Foi quando tive a ideia de reunir 30 filmes inesquecíveis da "Sessão da Tarde" num mega post aqui em Memórias da Alcova. Inicialmente seria apenas o meu top 10, mas um almoço com a mesma amiga e outras duas pessoas ampliaram o leque de tal forma que eu não resisti. Afinal, aqui no meu espaço a edição é como o gol para o Parreira, apenas um detalhe. Então vamos à minha lista.

1-“Curtindo a vida adoidado” (Ferris Bueller’s Day Off – 1986) – Disparado o número 1 da "Sessão da Tarde". Vi pelo menos umas 15 vezes. O filme conta a história de Ferris Bueller (Matthew Broderick), que num belo dia de sol de Chicago resolve inventar que está doente para matar aula e curtir o dia. Para acompanha-lo nas desventuras, Ferris convoca o melhor amigo, o hipocondríaco Cameron (Alan Ruck), e a namorada Sloane Peterson (Mia Sara), que ele tira da escola dando um dos seus muitos golpes. Dirigido por John Hughes e com diversas cenas antológicas, “Curtindo a vida adoidado” tem o seu ponto alto com Ferris cantando “Twisted and Shout”, dos Beatles, em uma parada alemã fazendo todos os cidadãos de Chicago dançarem com ele. Até o pai, que acha que o filho está doente em casa. Como todo bom filme de "Sessão da Tarde", “Curtindo a vida adoidado” tem a participação de um ator desconhecido que ganharia notoriedade depois. É Charlie Sheen, que aparece numa ponta na delegacia beijando a irmã de Ferris.



2- Gotcha! – uma arma do barulho (Gotcha! – 1985) –Um dos meus favoritos. Na trama dirigida por Jeff Kanew, Jonathan Moore (Anthony Edwards) é um estudante da UCLA que joga com seus amigos de faculdade um jogo muito popular chamado “Gotcha”, uma espécie de paintball jogado sempre em qualquer lugar. A cada vez que alguém acertava um alvo, ele dizia: “gotcha”. E isso valia para ela se vingar de garotinhas que lhe davam um fora manchando as roupas delas com a tinta vermelha. Um dia, Moore e seu colega de apartamento, o espanhol Manolo (Jsu Garcia), vão passar férias em Paris. Lá, o nosso herói conhece a sexy Sasha (Linda Fiorentino), uma gata tcheca que vai tirá-lo a virgindade, e leva-lo para Berlim. Mas tantas nights de sexo cobram um preço. Moore acaba envolvido em uma trama de espionagem na Alemanha envolvendo a CIA, soviéticos, enfim, todas essas coisas de antigamente de um tempo em que o mundo era mais simples. Com isso ele acaba tendo de lidar com uma arma de verdade, mas sua habilidade com o “Gotcha” vai acabar ajudando a se dar bem e ficar com a Sasha, porque, afinal, é um filme de "Sessão da Tarde".



3- “O grande dragão branco” (“Bloodsport” – 1988) – A melhor atuação da vida de Jean-Claude Van Damme! Não que isso seja grande coisa, mas “O grande dragão branco” é um clássico. No filme de Newt Arnold, Van Damme é Frank Dux, um jovem do exército que passou a vida inteira sendo treinado pelo pai adotivo Tanaka e deseja honrar o nome da família no Kumite, um torneio de artes marciais em Hong Kong. Van Damme dá seus melhores golpes neste filme, se apaixona por uma jovem jornalista que quer se infiltrar no local secreto para escrever uma reportagem (ô raça), e ainda faz de bobo os dois policiais que vão ao seu encalço. Um deles é vivido por Forest Whitaker 18 anos antes de ganhar um Oscar por “O último rei da Escócia”. É claro que tudo dá certo (finais felizes são fundamentais na "Sessão da Tarde"), Dux ganha o torneio, a mulher e ainda humilha o vilão caricato Chong Li (Bolo Yeung) fazendo-o dizer: “matêeeee”.



4- Karaté Kid – A hora da verdade (Karatê Kid – 1984) – Nós que éramos crianças e adolescentes nunca imaginamos, mas este filme tinha muita qualidade. Tanto é que Pat Morita foi indicado ao Oscar de ator coadjuvante em 1985. Dirigido por John G. Avildsen, o filme conta a história de Daniel San (Ralph Maccio), jovem nerd, fracote, idiota e boboca da escola, que apanha dos valentões, não consegue pegar ninguém e ainda me entra numa festa a fantasia vestido de banheiro. Mas a vida resolve sorrir para Daniel. Embora a dublagem faça a gente pensar que ele é gay, Daniel gosta de mulher e consegue até sair com Ali Mills (Elisabeth Shue, uma espécie de musa da "Sessão da Tarde"). Mas é o senhor Myagi que será fundamental na vida de Daniel. Usando técnicas revolucionárias de ensinar o karatê (coisa como limpar o carro e pintar cercas), o garoto aprenderá a se defender dos valentões e ainda vai vencer um torneio de karatê usando o famoso golpe do balé!



5- Top Gun – Ases Indomáveis (Top Gun – 1986) – Na minha adolescência, Tom Cruise era amado por todas as meninas (quer dizer, menos as mais roqueiras que idolatravam o Axl Rose). E a culpa disso é deste filme. “Top Gun” é um clássico da "Sessão da Tarde" onde um jovem Tom Cruise (ele tinha 24 anos) vivia o personagem Maverick, piloto de aviação que sonha em fazer parte dos ases indomáveis, da elite, dos Top Gun da Força Aérea americana. Mas é claro que nesta sua caminhada ele terá algumas pedras pelo caminho. A maior delas é Iceman, o vilãozinho do filme vivido por Val Kilmer. Como um bom filme de "Sessão da Tarde", nosso herói vai se apaixonar pela única mulher em cena em praticamente todo o filme e será correspondido após um pequeno momento de conflito. Esta mulher vem a ser Charlotte (Kelly McGills), uma das instrutoras do programa (olha a "Sessão da Tarde" nos ensinando que devemos pegar nossas professoras). É claro que no final Tom Cruise vai se dar bem e as menininhas vão suspirar ao som de “Take my breathe away”, do Berlin. Um verdadeiro clássico este filme de Tony Scott e agora se fala até numa sequência. Será que o velho Tom (hoje com 50 anos) ainda encara essa?



6- Caçadores de emoção (Point Break – 1991) – As mulheres amam “Dirty Dancing” e “Ghost”, mas o melhor filme de Patrick Swayze é este dirigido por, vejam só, Kathryn Bigelow muitos anos antes de sequer imaginar que um dia ganharia um Oscar, o que aconteceu há dois anos com “Guerra ao Terror”. No filme, Swayze é Bodhi, um surfista líder de uma quadrilha de assaltantes de banco que se disfarça de ex-presidentes americanos (Ronald Reagan, Lyndon Johnson, Richard Nixon e Jimmy Carter). Para tentar desmascarar a quadrilha dos Ex-presidentes, o agente do FBI Johnny Utah (Keanu Reeves) tem que se infiltrar nela. Mas para isso, este rauli tem que aprender a surfar e vai levar muitos caldos. Mas Bodhi é um “bandido-beleza”, um cara que rouba para realizar um sonho: ele quer viajar para Bells Beach, na Austrália, onde uma mega tempestade formará uma onda única e mortal que ele precisa surfar. Como na convivência os dois, bandido-surfista e policial-neo-surfista, atingem um ponto de camaradagem, tudo termina numa boa onda no mar. Uhuuu!!!



7 – Os Goonies (The Goonies – 1985) – Dirigido por Richard Donner, este é um verdadeiro clássico da "Sessão da Tarde". Mostra um grupo de garotos numa aventura atrás de um tesouro depois que eles encontram um mapa de um pirata qualquer. O mais legal de rever “Os Goonies” é perceber que alguns nomes que se envolveram nele viraram pessoas famosas. É o caso de Josh Brolin. O ator que já foi indicado ao Oscar de coadjuvante por “Milk” em 2009 e estrelou filmes como “Onde os fracos não tem vez”, “Bravura Indômita” e “W”, era uma das estrelas dos “Goonies”. Ele tinha 17 anos quando fez o papel de Brand Walsh. O nome de Sean Astin também pode não te trazer muitas lembranças, mas o ator que então tinha 14 anos e fez o irmão de Brand, Mikey Walsh, ficaria mais tarde conhecido por ser o Sam, o melhor amigo de Frodo na trilogia do “Senhor dos Anéis”. Verdadeira “divisão de base” do cinema, o filme tinha ainda como roteirista Chris Columbus, que ficaria conhecido por ser o diretor de dois filmes da série “Harry Potter”.



8 – Velocidade Máxima (Speed - 1994) – Um dos melhores filmes de Keanu Reeves. Dirigido por Jan de Bont, ele se passa em uma Los Angeles ameaçada por um terrorista maluco vivido por Dennis Hopper. Reeves é o policial Jack Traven que terá que salvar as pessoas que estão dentro de um ônibus desgovernado pelas ruas de LA. Ônibus que em parte do filme será dirigido pela mocinha Annie Porter (Sandra Bullock), por quem o policial vai se apaixonar e, bem, você sabe como essas coisas funcionam.



9 – Elvira – a rainha das trevas (Elvira – mistress of the dark – 1988) – Descrito com muita propriedade no YouTube como o primeiro pornô de toda criança, o filme é estrelado por Cassandra Peterson, que ficaria eternamente conhecida pela personagem que usava roupas com decotes generosíssimos. Era impossível não ficar vidrado nos peitos da Elvira. A história? Bem, em Los Angeles, Elvira deixa o emprego depois de ser assediada sexualmente pelo novo dono da TV que ela trabalhava. Se muda para a pequena e conservadora Fallwell, em Massachusetts, e logo provoca um verdadeiro auê na região com suas roupas e estilo, digamos, chocantes. Elvira acaba dando a volta por cima a tempo de nos premiar com a inesquecível cena dos peitos giratórios.



10 – De volta para o futuro (Back to the future – 1985) – Todo fã de "Sessão da Tarde" idolatra Michael J. Fox. Afinal, ele é o astro de uma das trilogias mais legais da história do cinema. Neste primeiro filme dirigido por Robert Zemeckis, Fox, ou melhor, o inesquecível Marty McFly, parte no carro invocado do doutor Emmett Brown (Christopher Lloyd) para o ano de 1955, e encontra os seus futuros pais no ginásio. Num verdadeiro drama freudiano, ele ainda tem que lidar com o interesse de sua futura mãe nele, romance que se fosse consumado mudaria completamente o futuro e o faria desaparecer! Ou ser pai dele mesmo! Na história, McFly descobre ainda que o pai sofria bullying na escola e os três acabam vivendo grandes aventuras. E McFly acaba se tornando involuntariamente o inventor do skate.



11 – Uma linda mulher (Pretty Woman – 1990) – Você que acha que Julia Roberts, o mais belo sorriso de Hollywood, é a “namoradinha da América”, saiba que ela já fez um papel de prostituta. Tudo bem que era uma puta de luxo e sem cenas quentes, afinal, os filmes da "Sessão da Tarde" são família. Pois neste filme de Garry Marshall com a bela trilha sonora de Roy Orbison Julia é Vivian Ward a linda prostituta por quem Edward Lewis (Richard Gere) vai passar o filme inteiro tentando conquistar. Ai vem aquelas coisas típicas de comédias românticas: os dois mundos em conflito, as diferenças, um tendo que aceitar o outro como ele é até viverem felizes para sempre. E pensar que originalmente o filme era para ser um drama sobre prostituição em Nova York. Acabou virando uma película light passada em Hollywood que deu a Julia uma indicação ao Oscar.



12 – Procura-se Susan Desesperadamente (Desperately Seeking Susan – 1985) - Tudo o que a Madonna faz no cinema é tosco. Mas este filme é tão tosco, mas tão tosco, que chega a ser bom. Quando fez este "Procura-se Susan desesperadamente", Madonna era uma estrela em ascensão na música. Tinha acabado de lançar “Like a Virgin” e começava a ser conhecida como a material girl que todo homem desejava. Ai a Susan Seidelman a escalou para ser a garota porra-louca Susan que marca encontros com o namorado por anúncios de jornal. Só que nisso surge Rosanna Arquette e sua Roberta, dona de casa de vida sem graça que mora em Nova Jersey e se mete na história para tentar dar alguma emoção a sua existência. As duas brigam, ficam amigas e no final tudo acaba bem. No meio dessa história toda, uma ponta de John Turturro, o mestre de cerimônias de um clube aonde as duas vão.



13 – As minas do Rei Salomão (King Solomon’s Mine – 1985) – Muito antes de Sharon Stone dar aquela cruzada de pernas inesquecível, ela já mostrava o seu potencial como a heroína que dá trabalho e leva Allan Quatermain (Richard Chamberlain) a loucura neste clássico da "Sessão da Tarde". Sharon era Jesse Huston, moça que contrata Quatermain para tentar encontrar o pai que teria desaparecido numa expedição na tal mina do título da película. A partir daí eles vão viver aventuras e passar por poucas e boas na tribo de Kukuana. E, claro, vai rolar um affair entre os dois.



14 – Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida (Raiders of the lost ark – 1981) – Mas quando se trata de aventuras em lugares bizarros, nada supera o grande Indiana Jones (Harrison Ford). Escolhi o primeiro filme para representar aqui toda a trilogia de Steven Spielberg e George Lucas. Neste trabalho, nosso bravo arqueólogo vai para o Nepal e o Cairo numa trama que envolve artefatos históricos, nazistas (o filme se passa em 1936), muita correria, algumas brigas e o seu velho chicote. “Os Caçadores da Arca Perdida” ganhou quatro Oscars em 1982, todos em categorias técnicas.



15 – Esqueceram de mim (Home Alone – 1990) – Chris Columbus dirige a jovem estrela (que ficou presa no passado) Macaulay Culkin no divertido filme sobre o garoto de oito anos (o ator tinha dez na época) que é abandonado pelos pais quando saem de viagem. Ai ele terá que aprontar muito para impedir que dois ladrões vividos por Joe Pesci e Daniel Stern roubem a casa de sua família. Como o filme se passava no Natal, era figurinha carimbada na "Sessão da Tarde" quando dezembro chegava.



16 – Meu primeiro amor (My Girl – 1991) – Mas o jovem Macaulay Culkin não sabia apenas fazer comédia. A estrela prodígio que naufragaria na idade adulta também sabia fazer um drama e o filme que tinha a trilha sonora da conhecida música dos Temptations fez muito marmanjo chorar. O filme se passa na Pensilvânia onde duas crianças vivem as experiências do primeiro amor. Fofo, né? O problema é que uma tragédia acontece e o luto fará Vada Suntelfuss (Anna Chlumsky) aprender muitas coisas sobre a vida com o pai Harry (Dan Aykroyd). Mas a grande questão disso tudo é: por onde anda Anna Chlumsky? Na época do filme ela tinha 11 anos. Três anos depois, estrelou a bizarra continuação “Meu primeiro amor 2” (não deveria ser Meu segundo amor?) e desapareceu. Participou de algumas séries e não fez nada de relevante no cinema. Será sempre lembrada pela garotinha do “Meu primeiro amor”.



17 – Os Caça-Fantasmas (Ghostbusters – 1984) – Muito antes do Gasparzinho, o Geleia também era um fantasminha camarada. Embora fosse um pouco gosmento. “Os Caça-Fantasmas” reunia um trio de malucos da Universidade de Columbia que, como o próprio nome dizia, saia pelas ruas de Nova York a caça de fantasmas. Com Dan Aykroyd, Bill Murray e Harold Ramis como astros, o filme de Ivan Reitman contava ainda com a participação de Sigourney Weaver e chegou a ter duas indicações no Oscar de 1985, uma delas para a música “Ghostbusters” que era um dos chicletes da "Sessão da Tarde". E quem não se lembra do inesquecível marshmallow gigante aterrorizando Nova York? Nunca houve um vilão tão, digamos, fofo.



18 – Máquina Mortífera (Lethal Weapon – 1987) – Martin Riggs é um dos meus heróis favoritos. O personagem de Mel Gibson em “Máquina Mortífera” sempre me divertia nas tardes com seu jeito insano e a maneira com ele se relacionava com o parceiro meio medroso Roger Murtough (Danny Glover). Os quatro filmes da série são de Richard Donner e resolvi escolher o primeiro para representar todos na lista como uma forma de homenagear a divertida série.



19 – Um tira da pesada (Beverly Hills Cop – 1984) – Por falar em policiais divertidos (filmes de policiais eram muito comuns na "Sessão da Tarde"), como não lembrar nesta lista de Eddie Murphy e seu Axel Foley? “Um tira da pesada” era tão bom, mas tão bom, que chegou a ganhar uma indicação ao Oscar de roteiro. “Um lugar no coração”, que ninguém lembra, acabou ganhando o prêmio num ano em que também concorria “Splash, uma sereia em minha vida” (meldels!). No filme de Martin Brest, Foley, um policial gaiato de Detroit vai até Beverly Hills investigar a morte de um amigo. Só que ele não está autorizado a fazer isso e durante o filme enrola o sargento John Taggart (John Ashton) e o detetive Billy Rosewood (Judge Reinhold), policiais encarregados de prendê-lo. Sem contar o tenente Andrew Bogomil (Ronny Cox). Era um tempo em que Eddie Murphy era diversão garantida.



20 – Corra que a polícia vem ai (The naked gun: from the files of police squad! – 1988) – Seguindo a linha de policiais inesquecíveis, Leslie Nielsen não poderia faltar nesta lista. Astro deste primeiro filme de uma trilogia, o ator é o detetive Frank Drebin, o policial mais atabalhoado que se tem notícia e que se mete em incontáveis e hilárias cenas. No elenco, a musa de Nielsen era a ex-mulher do Rei, Priscilla Presley. Sem contar O.J. Simpson, que apanhava bastante. O ex-jogador de futebol americano acabaria no futuro sendo preso e condenado a 33 anos de prisão pela morte de sua ex-mulher, Nicole Brown Simpson e um amigo dela, Ronald Goldman.



21 – Mad Max (Mad Max – 1979) – Continuemos na seara da lei para falar de um policial do futuro. Estrelado por um então menino de 23 anos chamado Mel Gibson, “Mad Max” fala de um policial num futuro apocalíptico em busca de uma vingança após uma gangue de motoqueiros ter matado a sua família. Gibson então vai fazer justiça com as próprias mãos e mostrar aos caras quem é que manda. Esse é o filme mais legal da trilogia. George Miller agora planeja um quarto filme, mas já disse que Mel Gibson está fora. Aí não tem graça. Ele é a alma do filme.



22 – Rambo – programado para matar (First Blood – 1982) – É claro que em qualquer lista de filmes da "Sessão da Tarde" não podia faltar algum do Sylvester Stallone. E o grande herói mentiroso (afinal, ele derruba um helicóptero sozinho no terceiro filme) John Rambo é o representante. Rambo é o herói amargurado das forças especiais do exército americano que descobre que um amigo morreu por causa da exposição ao agente laranja, arma química que os militares jogaram na população vietnamita. Rambo acaba se envolvendo com problemas com as autoridades da cidade de Hope, em Washington, é torturado e lembra dos seus tempos de prisioneiro de guerra. Tsc, tsc, péssimo momento para o xerife da cidade provocá-lo. Rambo vai mostrar que ele se meteu com o cara errado e iniciará uma jornada de vingança contra os caras e nem o Coronel Trautman (Richard Crenna) conseguirá impedí-lo.



23 – Edward, mãos de tesoura (Edward Scissorhands – 1990) – Este filme comprova que desde cedo Johnny Depp gosta de interpretar um tipo esquisito. No trabalho de Tim Burton, Depp é o personagem do título, homem gentil e melancólico por ser diferente, ter as mãos de tesoura. É ai que o filme faz o merchandising da Avon: é uma vendedora dos produtos vivida por Dianne Wiest quem resolve visitá-lo e ao vê-lo tão sozinho o leva para a sua casa. Logo Edward fica amigo do filho dela e do marido, vivido por Alan Arkin. Mas é pela filha deles, Kim (Winona Ryder antes da cleptomania) que ele vai se apaixonar. Ai é aquela história, amor impossível, dor e um desfecho melancólico para Edward e Kim. Mas o Avon deve ter faturado muito com a popularidade.




24 – Flashdance – em ritmo de embalo (Flashdance – 1983) – Um filme feito basicamente para mostrar como é dura a vida da bailarina. No filme de Adrian Lyne, Jennifer Beals é Alex Owens, mocinha de Pittsburgh que trabalha como soldadora durante o dia e à noite solta a franga dançando em um bar. Seu sonho? Virar uma dançarina famosa. Para isso ela tem que treinar muito para entrar para uma companhia de balé profissional. Não consegue em duas tentativas, perde a confiança, mas é aí que o filme nos ensina que não devemos desistir nunca dos nossos sonhos. Ou qualquer coisa do gênero. E no fim, ela dá um show na audição ao som da música-chiclete “What a feeling”. Depois deste filme, Jennifer, então com 20 anos, acabou desaparecendo, não fez nada muito relevante até reaparecer como uma lésbica no seriado “The L World”.



25 – Dirty Dancing – ritmo quente (Dirty Dancing - 1987) – Filme sobre dança, música-chiclete, bem temos outro representante desta safra aqui. Estrelado por Patrick Swayze e Jennifer Grey, “Dirty Dancing” é daqueles filmes que se você falar mal compra uma briga daquelas com sua patroa. Por quê? Ora, porque ele conta uma história de amor que todo mulher gosta. Swayze é o cara bonitão e forte que briga até o fim pela menina frágil mesmo com os pais sendo contra o relacionamento porque acham que ele é um vagabundo e não serve para a filha. No meio disso tudo tem gravidez, acusações falsas de roubo, demissão do instrutor de dança vivido por Swayze. Sabe como é, né, o clichê faz sucesso. E tome de Patrick Swayze rebolando ao som de “The time of my life”.



26 – Cocktail (Cocktail – 1988) – Esse papo de funcionário se apaixonar por uma mulher que está ali passando pelo seu emprego me lembrou de outro filme. No caso de “Cocktail” é o barman Tom Cruise quem vai para a Jamaica trabalhar e ai...ele conhece Elisabeth Shue, que estava ali passando férias. Papo vai, papo vem, Cruise exibe toda a sua técnica para preparar drinques e pronto, o amor está selado. Como numa novela da Globo, Cruise pisa na bola, Elisabeth não gosta, se separa, fica devastada, mas o herói vai atrás dela, enfrenta a sua família porque o que importa é o amor. Fica tudo bem e o casal até abre um barzinho no final.




27 – Robin Hood – o príncipe dos ladrões (Robin Hood – Prince of Thieves – 1991) – Esqueça a recente versão com Russell Crowe. Era até boa, mas muito mais legal é este filme estrelado por Kevin Costner. O ator faz o príncipe dos ladrões, cuja clássica história é contada pelo diretor Kevin Reynolds com a ajuda de um elenco conhecido, como Morgan Freeman (Azeem), Mary Elisabeth Mastrantonio (Lady Marian), Christian Slater (Will Scarlett) e Alan Rickman (xerife de Notthingham). A estragar apenas uma música chata do Bryan Adams, mas que rendeu à película uma indicação ao Oscar.



28 – Beethoven – o magnífico (Beethoven – 1992) – Eu detesto filme de bichinhos, mas tenho que reconhecer que não existe "Sessão da Tarde" sem filme de bichinhos (tá, fui também convencido a incluir um na lista). O filme conta a história do são bernardo com nome de compositor clássico que é adotado pela família Newton, mas tem uma galera que quer fazer experiências mortais com ele ou coisas assim. Beethoven faz todo o seu papel de cachorro fofo dos filmes de bichinho e todos vivem felizes para sempre no filme. Curiosidade da vez: os atores principais desapareceram na história do cinema. Foram os coadjuvantes que vingaram como Stanley Tucci e Oliver Platt, que aparecem como sequestradores de cães, e David Duchovny, que na época do filme ainda não tinha estreado no Arquivo X, série de TV que o tornaria famoso.



29 – Mudança de Hábito (Sister Act – 1992) – Não existe "Sessão da Tarde" sem Whoopi Goldberg. E “Mudança de Hábito” é o seu filme mais divertido. No filme, Whoopi é a cantora Deloris Van Cartier que acaba sendo colocada por um programa de proteção a testemunhas num convento em São Francisco para fugir do namorado mafioso, Vince (Harvey Keitel). Lá ela vai se meter em um monte de situações engraçadas que foram o riso garantido das nossas tardes.



30 – A Lagoa Azul (The Blue Lagoon – 1980) – Para fechar a lista, não poderia deixar de citar o filme mais repetido da história da "Sessão da Tarde". Tudo bem, eu não tenho estatística disso, mas alguém duvida? Estrelado por Brooke Shields e Christopher Atkins, o filme conta a história de dois jovens que ficam isolados numa ilha após uma tempestade destruir o seu barco. Os anos passam, eles descobrem o amor, fazem um sexo e, enfim, vocês conhecem o resto da história. Esta versão já é a refilmagem de um filme de 1949, mas prepare-se para o pior: algum louco está planejando uma nova versão do filme. Meu Deus! Depois de “A Lagoa Azul” tanto Brooke (hoje com 46 anos) quanto Atkins (hoje com 50) não fizeram nada de relevante. Ficaram eternamente presos na ilha da fantasia da Lagoa Azul.


terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Tubarões canibais

O mercado financeiro não é para santos. E isso é uma coisa que “Margin Call – o dia antes do fim”, deixa bem claro. Desde o início é um individuo querendo puxar o tapete de outro para salvar a própria pele e ainda faturar alguns milhões de dólares para garantir uma vida mais tranquila.

Primeiro trabalho do diretor J.C. Chandor, o cenário deste filmaço é a crise econômica de 2008 que iniciou com a quebra do Lehman Brothers. O nome do banco nunca é citado, mas sua história está nas entrelinhas da companhia comandada com inteligência e sagacidade por John Tuld (o sempre ótimo Jeremy Irons). Tuld não entende absolutamente nada de mercado financeiro. Nada do que faz nos mínimos detalhes a empresa que comanda. Mas é um líder e tem visão a frente do seu tempo e isso basta para fazê-lo sentar na cabeceira da mesa e prever o apocalipse com algumas poucas palavras ditas pelo jovem Peter Sullivan (Zachary Quinto), que, para resumir tudo e usar uma linguagem que até um cachorro entenderia, descobre que tem coisa fedendo ali e vai dar merda.

Voltemos um pouco no tempo. Um passaralho está voando pelo banco e cortando cabeças em doses industriais. É um massacre de alta proporção e quem permanece pode se considerar vitorioso.

Uma das vítimas dos agentes de demissão (igual aquele personagem do George Clooney em “Amor sem escalas”) é Eric Dale (Stanley Tucci), da área de riscos. As mulheres com cara de poucos amigos o oferecem um acordo que é aceitar e pegar a grana ou aceitar na marra e ficar sem nada. Dale ainda argumenta sobre uma pesquisa que está fazendo e recebe o seco: “Isso não é mais problema seu”. Em seguida, como um prisioneiro culpado deixa o local escoltado por um segurança mal encarado sem nem ter a chance de retirar suas coisas do seu computador. Sua senha foi bloqueada, seu telefone ficou bloqueado e só lhe resta pegar uma caixa com seus poucos pertences e voltar para a casa.

Antes, porém, entrega um pen drive-bomba para Sullivan, o jovem promissor que ele contratara. Pede que analise os dados com carinho e, principalmente, muito cuidado. O que se segue é a crônica da tragédia da qual os Estados Unidos ainda tentam se reerguer e pode custar a cabeça de Obama na eleição do ano que vem. Afinal, o problema sempre foi a economia, estúpido.

Sullivan tem uma mente brilhante, mas é esta mente que vai provocar o ocaso da companhia a menos que um plano de emergência canalha seja posto em prática. Vender todos os ativos podres para gente que não sabe que eles são podres o mais rápido possível antes que a imprensa comece a investigar e descubra que há algo de, com o perdão da redundância, podre no reino de Wall Street.

Tuld sabe que o que acontece no seu terreno é o divisor de águas. E como águia do mercado quer se antecipar até na tragédia para se reerguer mais forte e antes de todos. O problema é que, aparentemente, Sam Rogers (Kevin Spacey, brilhante), ainda tem um resquício de dignidade nos seus olhos. Talvez a doença do seu cachorro, o único companheiro de um homem separado e sem nada além do trabalho como motivação, tenha amolecido o coração deste velho homem de 34 anos bem frisados na companhia.

Mas Rogers sabe o que deve ser feito. Tuld também. Assim como Will Emerson (Paul Bettany) e Sarah Robertson (a constrangedora Demi Moore). Sarah é a cabeça que Tuld entregará aos investidores, o boi de piranha que terá que aceitar seu destino em troca de um bom acordo. Emerson é o cara que vai se dar bem por estar no lugar certo e na hora certa. É outro que se antecipa aos acontecimentos por conhecer a história da economia do mundo. Sabe que não será demitido e ainda vai faturar uma grana. Previra um colapso, afinal algo tinha que estar errado com tanta gente comprando carros e casas e consumindo cheia de felicidade. Uma hora a bolha iria explodir.

Assim, estes e outros personagens vão se digladiando enquanto o mercado estremece. Uns tiram vantagem de outros, uns se dão bem, outros saem pela porta dos fundos e a tensão toma cada segundo do filme.

“Margin Call” tem muita linguagem econômica. Neste ponto lembra o primeiro Wall Street, “Poder e Cobiça” (1987), mas não é preciso ser versado no glossário de bônus e hipotecas para sentir a tensão do filme. Mérito dos ótimos atores e da direção e roteiro de Chandor. E o que se tem no fim é um filme sensacional. Talvez o melhor que eu tenha visto sobre a mais recente crise. Agora os outros é que vão ter que correr atrás para produzir algo melhor sobre a lama de Wall Street.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Comentários e a seleção do Brasileiro

O Corinthians ergue a taça/Reprodução da internet
No ano passado, a grande história do Campeonato Brasileiro foi a do Fluminense. O time tricolor que arrancou da sarjeta em 2009 para o título de 2010 comandado por um meia incansável, um enganche chamado Dario Conca, que jogou todas as partidas. Neste ano, o Brasileiro foi muito atípico. O craque da vez ficou muito longe da disputa do título. Neymar foi inegavelmente o grande jogador da competição talvez com o Dedé ficando ali com o vice-campeonato (sem qualquer provocação, por favor, não estou em boteco).

Não existe campeão injusto nos pontos corridos. Logo o Corinthians mereceu levantar a taça e sua vitória ficou até mais simpática como uma forma de homenagem a Sócrates, um craque em tudo o que fez. Um craque que mesmo após conquistar um título pelo Corinthians declarou: "Ganhar ou perder, mas sempre com democracia". Mais condizente com o que este blogueiro pensa sobre o esporte e a vida, impossível.

O Corinthians que me dê licença, no entanto, mas a grande história do ano foi a do Vasco. Imagine um time que começou o ano com o pior início de Campeonato Estadual (aquele torneio de bairro que insistem em valorizar) de sua história. Quatro derrotas seguidas, técnico demitido (PC Gusmão), estrela do time afastada (Felipe), e o caos instalado. Uma nau sem rumo.

Veio Ricardo Gomes e tudo mudou. Com um time valente, operário e com alguns lances de técnica e um zagueiro que se consolidava como o melhor do Brasil, o Vasco se reconstruiu do horror para a glória. Sim, o time foi vice-campeão brasileiro, não conseguiu conquistar o título, mas o que importa?

O que importa é que o Vasco voltou a ser protagonista. Que se reergueu ainda no torneio de bairros para ser campeão nacional de novo. A conquista da Copa do Brasil foi um marco. Foi quando pensaram: agora o Vasco vai relaxar como todos fazem, afinal já está na Libertadores.

Não relaxou. Jogou com seriedade até o fim e só sucumbiu no Brasileiro e na Copa Sul-Americana no final. Superou até a doença de Ricardo Gomes, que sofreu um Acidente Vascular Encefálico (AVE) no final do primeiro turno. Cristóvão Borges, o auxiliar, assumiu e manteve o trabalho vencedor. Somente um time pode ser campeão. O Vasco não teve como levantar a taça no final, mas foi o grande vencedor da temporada e o melhor time carioca disparado mesmo diante de um Flamengo e um Fluminense com muitas estrelas e pouco futebol, apesar da boa arrancada tricolor no segundo turno.

Dito isso, vamos à minha seleção do Campeonato Brasileiro:

Goleiro: Júlio César (Corinthians) – Fernando Prass jogou todos os jogos e fez um grande campeonato pelo Vasco, mas este goleiro de 27 anos, o único do time campeão formado na base, é um dos principais responsáveis pelo pentacampeonato do Timão. Foram grandes defesas e muitos pontos garantidos que foram decisivos na reta final.

Lateral-direito: Fágner (Vasco) – Confesso que escolher os laterais da minha seleção foi muito, mas muito difícil. Não vi tanto assim o Figueirense jogar (uns cinco jogos no máximo) para chegar aqui e dar uma de gato mestre e dizer: Bruno na direita e Juninho na esquerda. Não dava para votar em jogador de um time que eu pouco vi. Na direita resolvi ficar com o jogador do Vasco pelas boas partidas que ele realizou no campeonato, pela absoluta falta de concorrência e pela minha falta de visão para observar melhor os jogos do Figueirense.

Dedé, o melhor zagueiro do Brasileiro/Divulgação
Dupla de zaga: Dedé (Vasco) e Antônio Carlos (Botafogo) – Dedé é uma unanimidade e a sua presença não se discute. O seu companheiro aqui poderia muito bem ter sido o Anderson Martins se ele não tivesse preferido ir para o chamado “mundo árabe”. Assim eu fiquei com um problema na zaga. Quem escalar? Nenhum zagueiro me inspirou muita confiança. Pensei no Chicão. Fez um bom início de campeonato pelo Corinthians, caiu de produção, foi afastado, barrado, mas voltou a tempo de erguer a taça. Ainda assim não era o ideal. Acabei jogando a camisa para o alto e quem pegou foi o Antônio Carlos, que não fez um mau campeonato e marcou alguns gols importantes pelo Botafogo.

Lateral-esquerdo: Cortês (Botafogo) – Pelos mesmos motivos listados no texto do lateral-direito, me faltaram opções. Acho que no cômputo geral Cortês fez um bom campeonato, embora tenha caído muito de produção na reta final junto com todo o time do Botafogo. Mas foi uma revelação do Brasileiro e vai pegar a camisa seis do meu scratch.

Dupla de volantes: Paulinho (Corinthians) e Rômulo (Vasco) – Volante é o que não falta nesse país. Volante que saiba jogar, mais ou menos. Mas os dois que entraram aqui na minha seleção fazem parte deste segundo time. Paulinho talvez tenha sido o grande nome do Corinthians campeão. É dessas unanimidades do campeonato. Rômulo também fez uma grande competição e na minha avaliação ganha a vaga que poderia muito bem também ser ocupada por Arouca (Santos), Ralf (Corinthians) ou Renato (Botafogo).

Felipe jogou muito/Divulgação
Dupla de meias: Felipe (Vasco) e Ronaldinho (Flamengo) – Esqueça o Ronaldinho que se arrastou na reta final. Lembre-se do craque que estava fazendo a diferença a favor do Flamengo e chegou a colocar o time rubro-negro na rota do título. A equipe desandou, é verdade, mas Ronaldinho com seus gols e seus passes precisos fez o Fla sonhar. Teve atuações de gala como naquele histórico 5 x 4 contra o Santos e merece um lugar neste seleção, principalmente numa posição em que não houve um único destaque em todo o campeonato. Ao seu lado, um maestro. Felipe jogou muito neste Brasileiro e merece estar na seleção por tudo o que fez ao Vasco, levando o time até o fim a disputar o título.

Ataque: Neymar (Santos) e Fred (Fluminense) – Qualquer um pode gritar. Borges (Santos) foi o artilheiro do campeonato sim, mas não vai entrar na minha seleção. Minha dupla tem a marca do craque do Santos, o melhor jogador do campeonato, e o artilheiro tricolor que se mostrou decisivo na reta final do Brasileiro e terminou apenas um gol atrás do atacante santista. Antes de Borges, Leandro Damião (Internacional) poderia ter entrado nesta festa, mas sua lesão na reta final o fez perder terreno para Fred e seus gols que chegaram a colocar o Flu na disputa do bicampeonato.
Fred, o vice-artilheiro do Brasileiro/Photocamera

Técnico: Ricardo Gomes e Cristóvão Borges – Tite fez um excelente trabalho no Corinthians, Jorginho foi a grande surpresa no Figueirense, mas a dupla do Vasco tirou leite de pedra. Basta rever alguns jogos do time para ver como Cristóvão mudava a escalação de acordo com o adversário e os jogadores se adaptavam e conseguiam surpreender os adversários. O time chegou na reta final bem treinado e jogando com alma, mérito da dupla que fez o Vasco renascer na temporada.

Concluindo – Então a seleção do Brasileiro ficou assim: Júlio César (Corinthians), Fágner (Vaco), Dedé (Vasco), Antônio Carlos (Botafogo) e Cortês (Botafogo); Paulinho (Corinthians), Rômulo (Vasco), Felipe (Vasco) e Ronaldinho (Flamengo); Neymar (Santos) e Fred (Fluminense). Técnico: Ricardo Gomes e Cristóvão Borges. Em relação ao time do ano passado, apenas o zagueiro Dedé está presente.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Uma nova musa e um belo filme

O jovem Thomas Doret e Cécile de France
Não sou muito fã dos irmãos Dardenne. Nada contra a dupla de cineastas belgas. A culpa é minha mesmo. Sempre achei que tive uma incapacidade para entender seus filmes da mesma forma que tenho para compreender coisas como, sei lá, Física ou ver hora em relógio de ponteiro. O conhecimento deste último sempre esqueço segundos depois de aprender. No primeiro, bem, basta revisitar minhas provas na escola para entender que eu era um aluno medíocre na matéria.

Sobre os irmãos Dardenne vi dois filmes. Não gostara de ambos apesar dos elogios da crítica especializada. O mais recente foi “O silêncio de Lorna” (2008), quando me esforcei muito para não dormir no cinema. E olha que o filme ganhou o prêmio de melhor roteiro em Cannes.

Mas eu sou insistente e estava empolgado para ver “O garoto da bicicleta”. As credenciais dele eram boas: venceu o Grande Prêmio do Júri em Cannes neste ano e era estrelado por Cécile de France, a bela e competente atriz belga de 36 anos que eu já vira no início do ano em “Além da vida”, de Clint Eastwood. E não sai do cinema insatisfeito.

Na trama, Cécile é Samantha, uma cabelereira que vai cruzar na vida de Cyril (Thomas Doret), jovem que vive em um internato após ser abandonado pelo pai, e começará a cuidar dele. Problemático, Cyril não consegue lidar com a rejeição de Guy (Jeremie Renier), o pai que não quer ter a responsabilidade de cuidar do garoto, que se sente incomodado, mesmo desconfortável com a sua presença. Mesmo quando o menino demonstra todo o seu amor pelo pai, Guy age de forma fria e quer que o garoto suma da sua vida.

Cyril inicialmente não consegue acreditar na rejeição paterna. O persegue insistentemente para desespero dos assistentes sociais do internato. Ao mesmo tempo quer recuperar a sua bicicleta que ele acredita estar na casa do pai, mas que fora vendida.

Recupera-a num ato de bondade de Samantha, que a compra da criança para quem o Guy tinha vendido a bicicleta e a entrega a Cyril. Era o primeiro gesto de um amor gratuito pelo qual Samantha começará a nutrir pelo garoto.

Vislumbrando inicialmente em Samantha uma chance de reencontrar o pai e restabelecer uma relação, Cyril pede a cabelereira para cuidar dele como guardiã nos fins de semana. Sem muita explicação, ela aceita.

Aos poucos, Samantha vai nutrindo uma relação de amor pelo jovem. Por ele, fará sacrifícios financeiros e sentimentais que vão reforçar no garoto, que passará por tantas situações difíceis, um sentimento de companheirismo com Samantha. Ele precisará do amor dela para se reconstruir após tantas pancadas da vida, a maior delas esta rejeição inexplicável do pai. Tem medo nos seus olhos, está perdido, sem qualquer referência e um olhar que reflete uma falta de esperança na vida.

É Samantha quem vai lutar por ele, para que Cyril possa recomeçar e curar as feridas da alma. E depois de tantas turbulências, os dois vão construir uma relação de amor sincero.


Jean-Pierre e Luc Dardenne constroem um filme delicado sobre o amor gratuito de dois desconhecidos. Se Cyril precisava de Samantha, no fim percebemos que a própria Samantha também tinha a necessidade de ter na sua vida alguém como aquele garoto de 11 anos. E a bela atuação de Cécile é um elemento que nos deixa sair do cinema regozijados.

domingo, 20 de novembro de 2011

Recomeço

A banda no palco do Circo/Marcelo Alves
Eu vi Liam Gallagher cantando com o Oasis em um Wembley lotado de ensandecidos, sei lá, vou chutar, 65 mil ingleses e dois brasileiros (eu e um amigo. Não tenho registro de outros). Eles cantavam todas as músicas e iam a loucura jogando copos de cerveja para o alto dando banhos entre si (eu tomei uns dois). Eu não escrevo isso para contar vantagem ou ser pedante. Até porque viajar para a Europa é uma realidade bem mais palpável hoje para a classe média brasileira e em qualquer país do mundo você vê de tudo, o melhor e o pior do indivíduo tupiniquim.

Eu digo isso para mostrar a sensação de estranheza que é ver aquele cara que dizia que cantava na banda mais importante da história desde os Beatles entrando no acanhado Circo Voador para cantar diante de um público infinitamente menor.

E isso não é uma crítica ao Circo Voador. Pelo contrário. Adoro quando tem show lá. Só é estranho ver um cara que ali pelos anos 90 era quase um dos donos do mundo num palco acanhado e diante de uma pequena plateia. Embora efusivamente apaixonada.

O que deve ter passado pela cabeça de Liam Gallagher ao se dirigir de carro do seu hotel para a casa de show? E quando entrou no camarim? E, em seguida, ao passar por um espaço pequeno, entrar por uma portinha para ser saudado pelo seu apaixonado público? Infelizmente são respostas que não tenho. Se tivesse sido malandro como foi uma amiga minha, poderia tê-lo esperado após o show para tentar fazer estas perguntas. Diante de um surpreendentemente simpático Liam, ela até conseguiu uma foto com o cantor.

Mas esta é, por enquanto, a nova realidade de Liam. Aquele show que eu vi em Wembley há dois anos foi um dos últimos do Oasis que após aquela turnê se separaria depois da enésima briga de Liam com o seu irmão Noel. O cantor pegou o que fazia parte do Oasis – os guitarristas Gem Archer e Andy Bell e o baterista Chris Sharrock – e fundou uma nova banda, o Beady Eye. Noel preferiu preparar um disco solo que já é mais elogiado do que o primeiro trabalho da banda do seu irmão, “Different Gear, Still Spending”. Natural. Noel sempre foi melhor compositor do que Liam.

O cartaz lembrando a goleada do City/Marcelo Alves
Mas é com seus defeitos e virtudes que o Beady Eye se apresenta no Circo Voador. Sim, este é o novo Liam Gallagher. Um Liam Gallagher que se apresenta surpreendentemente simpático diante da plateia. Não sei se é o clima do Circo ou se são as doses cavalares de bajulação dos seus fãs, que vestiam camisas do Manchester City, o time do coração de Liam, também acionista do clube, e exibiam cartazes que lembravam uma recente goleada de 6 a 1 sobre o rival Manchester United ou, bem humorados, perguntavam: “Who the fuck are Man United”.

“Vou responder, Man United sucks!”, mandou o cantor após a primeira canção da noite, “Four Letter World”. É o jeito simpático de ser de Liam, que mostrou estar se divertindo em toda a noite. Quando viu o cartaz referente aos 6 a 1 sobre o United já no fim do show, Liam apontou para o alto e fez um “V”. Estava em casa, quase se sentindo no City of Manchester Stadium.

O show do Beady Eye é irregular como o disco. Muitos ficaram contrariados na casa e eu ouvi muitas críticas. De palavras suaves ao bom e velho “que merda”. Não acho que tenha sido para tanto. É preciso entender que esta é uma nova banda de um cantor que avisara previamente que não tocaria uma única canção do Oasis. “Talvez na próxima turnê”, disse em entrevista ao Globo alguns dias antes do show, quando desfilou a sua marra dizendo que já tinha "ótimas" canções para um segundo disco do Beady Eye.

Com o Oasis fora da festa, sobrou a Liam tocar “Different Gear, Still Spending” na íntegra em 1h20min de show. E dai surgem canções que não são tão ruins assim como a própria “Four Letter World”, “The Roller”, uma das primeiras que eu ouvi e gosto, “Bring the light” ou “The beat goes on”. E outras que são dispensáveis e certamente não estariam num show em que Liam pudesse selecionar um repertório maior.

Se fosse qualquer outro artista, aliás, alguém diria que o cantor teria sido ousado ao optar não usar o recurso fácil de cantar músicas de sua banda anterior. No caso de Liam, poderia ser pura marra de um cara que vivia as turras com o irmão. Talvez tentando provar que poderia fazer um disco e um show excelente sem a ajuda do brother. São coisas que só a psicologia pode explicar.

Difícil saber. Só posso dizer que esse toque de ousadia (ou loucura?) de Liam resulta num show morno para aqueles que ainda não conhecem direito o som do Beady Eye. Embora para os fãs, aqueles com camisas do Manchester City e alguns até com corte de cabelo igual ao de Liam, tenha sido intenso. Eu confesso ter ficado surpreso com a quantidade de gente cantando as letras do Beady Eye como se fossem sucessos do Oasis. Para estes, foi um show espetacular.

No final, parece que todos no palco saíram satisfeitos e muitos na plateia também. O Beady Eye não é o Oasis. Nem nunca será. Mas é um recomeço para Liam Gallagher. Quem sabe em breve ele não estará tocando novamente em Wembley.

Set list do show: “Four letter world”, “Beatles and Stones”, “Millionaire”, “Two of a kind”, “For Anyone”, “Three Ring Circus”, “The Roller”, “In the bubble with a bullet”, “Bring the light”, “Standing on the edge of the noise”, “Kill for a dream”, “The beat goes on”, “Man of misery”, “The morning son”, “Wigwam”, “World outside my room”, “Sons of the stage”.


Abaixo, alguns momentos do espetáculo:

"Four Letter World"

"The Roller"


"The beat goes on"

"Millionaire"

"Bring the light"

"Sons of the stage"

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Mais do que uma banda

Eddie Vedder/ Site do Pearl Jam
Parece não existir algo que seja impossível para Eddie Vedder. Há seis anos, eu conversava com um amigo e nós chegávamos à conclusão de que nem o próprio Pearl Jam conseguiria superar uma apresentação tão perfeita quanto a que viramos na Apoteose naquele dezembro de 2005. Era a primeira vez da banda no Brasil para uma turnê que passou por diversas capitais e terminaria com pouco mais de 2h30m de um show espetacular que ficaria marcado na memória das 40 mil pessoas que estiveram no local.

“Sambódromo, eu lembro muito bem daqui”, disse o vocalista, se esforçando para falar português durante o show da noite de domingo no mesmo lugar seis anos depois. Lembrou e para recompensar os seus cerca de 35 mil fãs presentes, os anos de espera e todas as emoções que todos viveram naquela noite, Vedder tratou de se esmerar junto com o seus colegas de banda – Mike McCready (guitarra), Stone Gossard (guitarra), Jeff Ament (baixo) e Matt Cameron (bateria) – para tornar aquela noite ainda mais inesquecível.

E conseguiu. Em 2h40m e 30 músicas, o Pearl Jam repassou a sua carreira de nove discos de estúdio, pouco mais de uma centena de álbuns ao vivo e algumas compilações na apresentação que marca os 20 anos de carreira da banda comemorados com disco, documentário dirigido por Cameron Crowe (que ainda não estreou no cinema aqui, mas passou no Festival do Rio), e biografia. É o “Pearl Jam Twenty”.

Mike McCready e Jeff Ament / Site do Pearl Jam
Em uma carreira tão rica e como o show não costuma ter muito mais do que três horas, é claro que sempre vão faltar músicas. Eu gostaria de ter escutado “I am mine”, “World Wild Suicide”, “Porch” e “Animal”, mas tirar qual do set? Não dava para trocar nada. Só acrescentar. Vedder fez com que tudo fosse perfeito de “Unthought Known”, a canção que abriu os trabalhos, a “Yellow Ledbetter”, a que fechou o show com as luzes da Apoteose já acesas e aquela vontade de não ter que ir embora.

Aos 46 anos, perto de completar 47 daqui a um mês e meio, Vedder continua cantando com a alma, como eu gosto de dizer. Seu jeito emotivo de cantar, segurando com as mãos no microfone e com os olhos fechados reforçam a imagem messiânica que os fãs veem no cantor embora ele mesmo não leve isso muito a sério. O resultado são milhares de marmanjos com camisas pretas da banda ou blusas de flanela, um ícone da estética grunge, chorando copiosamente e/ou imitando o cantor ídolo. Enquanto isso, o vocalista olhava feliz para a plateia entre um gole e outro em uma de suas garrafas de vinho que no final do show foi dividida com os fãs do gargarejo. Só faltou alguém dizer que era o sangue de Vedder, o salvador.

Todos querem ser Eddie Vedder e o cantor retribui esse carinho dando tudo de si no palco. Ao seu lado, McCready é o responsável pela maior parte dos solos que fizeram a marca do Pearl Jam. Com frequência dialoga com Gossard levando o público ao delírio enquanto Cameron e Ament completam um quinteto que está entre os mais azeitados do rock.

Delírio é uma palavra que poderia ser frequentemente repetida ao longo da noite. Foram poucas as músicas que tiveram alguma recepção fria. Três, talvez quatro. Na maioria das vezes, muita emoção e letras na ponta da língua, por mais que isso possa parecer impossível diante das difíceis letras do cantor. “Jeremy” ganhou um coro até quando a banda já tinha deixado o palco para uma pausa. “Given to fly” e “Do the evolution” foram cantadas a plenos pulmões, assim como músicas do “Ten”, o disco que tem duas décadas celebradas neste ano. Além de “Jeremy”, foram tocadas “Even Flow”, “Alive”, “Black” e “Why Go”. Do mais recente álbum, “Backspacer” (2009), vieram, além de “Unthought Know”, as ótimas “The Fixer”, “Got Some” e “Just Breathe”, cantada por Vedder apenas no violão. Faltou apenas “Johnny Guitar” para ficar perfeito.

Entre a primeira e a 30ª canção, o Pearl Jam não deixou passar nada. Lembrou todas as fases da sua carreira e ainda fez uma surpresa. “É a primeira vez que cantamos essa música”, disse Vedder, antes de começar a tocar “Mother”, do Pink Floyd. Este foi um dos três covers da noite, que teve ainda “I believe in miracles”, dos Ramones, logo após “Come Back”, música que o cantor explicou ter sido feita em homenagem ao seu amigo Johnny Ramone (“Sinto falta dele todos os dias”), e “Keep on rocking in the free world”, o clássico de Neil Young que o Rio não viu em 2005. Esta e “State of love and trust”, foram aquisições sonhadas pelo público carioca, que finalmente pôde ver a banda tocar as duas músicas ao vivo.

Foi uma noite perfeita que já tinha começado muito bem com o X, banda punk de Los Angeles que Vedder trouxe para abrir os shows do Pearl Jam no Brasil. Noite perfeita e agora sim insuperável. Será?

Abaixo, o set list e alguns momentos inesquecíveis do show. Durante a semana vou colocando mais vídeos aqui enquanto for encontrando no YouTube.


Set list: “Unthought Known”, “Last Exit”, “Blood”, “Corduroy”, “Given to fly”, “Nothingman”, “Faithfull”, “Even Flow”, “Daughter”, “Habit”, “Immortality”, “The Fixer”, “Got Some”, “Elderly woman behind the counter in a small town”, “Why Go”, “Rearviewmirror”. Primeiro bis: “Just Breathe”, “Come back”, “I believe in miracles”, “State of love and trust”, “Off the Earth”, “Do the Evolution” e “Jeremy”. Segundo bis: “Mother”, “Betterman”, “Black”, “Alive”, “Rockin’In the free world”, “Indifference” e “Yellow Ledbetter”.

"Jeremy"
"Given to fly"
"Black"
"I believe in miracles"

domingo, 6 de novembro de 2011

O thriller de Almodóvar

Elena Anaya como a misteriosa Vera
Pedro Almodóvar é responsável pelo que talvez seja o vilão mais cruel, traiçoeiro e frio que eu vi neste ano no cinema. O cirurgião plástico Robert Ledgard é a personificação da perversão no trabalho que marca o reencontro do diretor espanhol com o ator Antonio Banderas depois de 21 anos. Desde “Ata-me” (1990), Banderas, hoje com 51 anos, não era dirigido por Almodóvar. Nestas duas décadas, o ator colecionou alguns bons filmes – “Entrevista com vampiro” (1995), “A balada do pistoleiro” (1995) – e muitas bombas dispensáveis.

Banderas nunca foi necessariamente um ator fantástico, mas engana direitinho num filme azeitado. É o que acontece em “A pele que habito”. Na nova película de Almodóvar, ele é Ledgard, o tal vilão maquiavélico que eu descrevi acima capaz de traçar e executar um plano tão bizarro e perverso que faz o thriller de Almodóvar dar uma virada de embrulhar o estômago.

Ledgard é um bem sucedido cirurgião que faz experiências transgênicas para criar uma pele que seja resistente a picadas de mosquito e queimaduras. Por trás da obsessão do cirurgião está um dos seus traumas: a morte da mulher, que comete suicídio meses depois de ficar completamente queimada após um acidente de automóvel em que o carro em que ela está com o amante e irmão de Ledgard pega fogo.

Claro que muito do que ele faz não é considerado legal pela comunidade científica. Por isso usa a sua própria mansão para as suas experiências. Entre elas, está manter a misteriosa Vera (Elena Anaya) presa num dos quartos vestindo apenas um collant que cobre o seu corpo todo, cuja pele é, nas palavras do cirurgião, extremamente macia. Uma pele perfeita como a que ele sonhara.

Vera tem papel fundamental na trama de Almodóvar. Dentro do intrincado roteiro escrito pelo cineasta, ela é a personificação da esposa morta de Ledgard, mas quem assiste ao filme descobrirá que ela é muito mais do que uma personagem que atiça os desejos não apenas de Ledgard, mas do seu irmão.

Vera não é o único ponto fraco do cirurgião numa trama cercada de vingança e paixão de um homem frágil e à mercê das mulheres que o cercam. O trauma com a morte da mulher potencializa com o destino semelhante da filha Norma (Blanca Suárez), menina que está em tratamento de uma fobia social, mas acaba quase sendo estuprada numa festa por Vicente (Jan Cornet), jovem que apronta muito em Toledo, mas vai pagar caro por este último ato. Após acordar de um desmaio, Norma acha que foi estuprada pelo pai, tem que ser novamente internada, e acaba dando cabo da vida da mesma forma que viu a mãe fazer.

No thriller de Almodóvar, canções abrem portas traumáticas na mente, os personagens são psicologicamente perturbados e mesmo as mulheres fortes que são a marca de seus trabalhos revelam alguma fragilidade. Todos tem algum ponto fraco que os despedaça, uma carência que fragiliza.

“A pele que habito” é um thriller clássico, mas tem o toque do diretor espanhol nesta sua primeira incursão neste gênero. O bom humor que é uma das marcas dos seus filmes, assim como as cores fortes, são deixados um pouco de lado em nome de um forte clima de suspense. Mas os temas homossexuais e fortes sentimentos de desejo e paixão estão lá expostos em carne viva a cada passo de Ledgard, o vilão frio e calculista que terá o destino clássico em um filme tenso em que Almodóvar tem o mérito de abrir uma nova pasta nos arquivos de thriller da produção cinematográfica.

É impossível não sair incomodado de uma sessão de “A pele que habito”. Almodóvar usa o tema da cirurgia plástica para dissecar a alma e fazer refluir dela o monstro que habita o inconsciente humano. Ou ao menos aqueles que estão entre os mais perversos deles. E o desfecho de sua experiência é um trabalho que resulta num dos melhores filmes do diretor neste século e talvez um dos melhores de sua filmografia.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O Palhaço

“Eu faço todo mundo rir, mas quem é que vai me fazer rir?”, questiona o palhaço Benjamin (Selton Mello) numa frase cortante que resume o seu sentimento de crise existencial, insatisfação e sensação de que não faz parte do mundo em que vive. Benjamin está cansado. É um adulto sem carteira de identidade, que não tem endereço fixo, um amor, nem um sentido para a vida. O circo do seu pai, Valdemar (Paulo José), toma todo o seu tempo, suga a sua vida, mas ele não está dando conta. Precisa parar. Parar nem que seja para voltar a um ponto inicial revigorado. Ou não. Buscar outra vida que o deixe mais feliz.

A jornada de Benjamin é o tema central do novo filme de Selton Mello como diretor, “O Palhaço”. Longe da melancolia do seu primeiro trabalho, o ótimo “Feliz Natal” (2008), a nova película de Selton, que também assina o roteiro com Marcelo Vindicato, parceiro do primeiro trabalho, é mais revestida de ternura e uma homenagem ao trabalho de circo e ao artista em geral do que o primeiro parágrafo deste texto pode sugerir.

Sim, “O Palhaço” tem drama. Mas também sabe ser divertido e engraçado. Mostra o valor de sentimentos como amor, amizade e companheirismo e emociona. Pacote completo para todas as idades e gêneros.

De volta a Benjamin. Herói numa trajetória de autoconhecimento, ele é o palhaço Pangaré, artista de circo que junto com o seu pai, o palhaço Puro Sangue, percorre pequenas cidades do interior do Brasil levando o riso às comunidades como a atração principal do circo Esperança. Um nome curioso e contraditório com o momento vivido inicialmente pelo personagem de Selton.

A cada cidade Benjamin tenta descobrir o nome do maluco local, da zona, e do prefeito e sua mulher, sempre cortejados no número principal de sua rotina de fazer rir. Longe do picadeiro, ele tem que administrar um circo que tem seus problemas e com funcionários com suas demandas como qualquer outro lugar pequeno e que vive em dificuldades financeiras se apresentando para plateias minguadas.

Benjamin acha que não está dando conta. Anda com uma maltratada certidão de nascimento, a única prova que ele existe legalmente. Quer tirar uma carteira de identidade para finalmente poder comprar um ventilador à prestação e mudar de ares. Está cansado de andar pelo interior numa máquina caindo aos pedaços e lidar com as corrupções dos tipos bizarros de cada local. Quer se estabilizar, encontrar um amor e dar início a uma nova fase na vida. Está infeliz.

É assim que ele toma a difícil decisão de abandonar o seu pai e a sua família do circo. Distante daquela realidade é que Benjamin vai perceber que aquela é que é a sua vida. Sente saudades da estrada e de fazer as pessoas rirem. E descobre que ser palhaço é que o torna especial e único.


“O Palhaço” é uma bonita homenagem de Selton ao trabalho do artista de circo e todos aqueles que lutam diariamente contra as dificuldades para viver da sua arte. É um filme terno e de muita sensibilidade do ator que vem se transformando num diretor capaz de contar ótimas histórias de uma forma simples e objetiva. Um belo trabalho.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Uma delicada história de amor

Não tenho a cultura dos filmes antigos de Zhang Yimou. Infelizmente ainda não vi trabalhos como “Sorgo Vermelho” (1987), “Amor e sedução” (1990) ou “Lanternas Vermelhas” (1991). Aprendi a gostar do diretor chinês com três filmes que foram lançados neste século: “Herói” (2002), “O clã das adagas voadoras” (2004) e “A maldição da flor dourada” (2006).

Estes trabalhos mostram uma temática única falando sempre da China do tempo dos imperadores, disputas marciais envolvendo honra, coragem e glória, além de traição, amor e vingança. Eram filmes também que abusavam de cores vibrantes, instrumentos que remetiam a estados de espírito e situações-limite de seus personagens.

“A árvore do amor” não tem nada disso. Mas se eu pudesse traçar um paralelo entre o novo filme de Yimou e estes trabalhos anteriores do diretor é a delicadeza com que o chinês conta as suas histórias. O diretor sempre faz com que sua câmera capte uma expressão ou um cenário que diga muito sem precisar de uma única palavra.

Duas cenas ilustram muito bem o que estou querendo dizer. Em uma delas, Sun (Shawn Dou) está deitando no ombro de Jing (Dongvu Zhou). Atrás de uma carroça que ele improvisou de vestiário para ela para que pudesse vestir um maiô e nadar com ele no rio, ele tem uma expressão terna, mas seu rosto é marcado pelo cansaço de quem trabalha horas a fio e tem raros momentos para descansar. Ao seu lado, Jing o conforta enquanto os raios do por do sol os iluminam.

Minutos depois, Yimou nos presenteia com outra cena magnífica. Sentindo que veria Jing pela última vez na sua vida, ele pede à mãe da moça por um último ato antes de desaparecer: trocar o curativo nos pés queimados dela pelo trabalho na quadra da escola. O que vem a seguir é uma obra-prima. Num quarto pequeno que é praticamente a casa da família dela, Sun se ajoelha, coloca um dos pés da moça em cima da sua perna e começa a enfaixá-lo. No ar, apenas o som de uma marreta usada pela mãe trabalhando sentada em cima da cama. Enquanto segue lentamente o seu ritual, você sente a expressão de Sun mudar e o reflexo disso são as lágrimas escorrendo no seu rosto. Yimou então foca no rosto de Jing que também começa a chorar.

“A árvore do amor” é uma belíssima, tocante e emocionante história de amor baseada numa história real que aconteceu na China da Revolução Cultural de Mao Tsé Tung em meados da década de 60. Naquela época de repressão do governo chinês para neutralizar a oposição, jovens eram mandados para o interior para viver com camponeses e o ensino superior foi praticamente desativado, pois os intelectuais eram potenciais inimigos do governo local.

Foi nesse contexto que o geólogo Sun conheceu Jing, jovem que sonha em ser professora, mas é de uma família vigiada pela “revolução”, pois o pai é de direita e está preso na cadeia. Qualquer erro cometido por Jing pode acabar de vez com a vida de sua mãe e de seus dois pequenos irmãos.

Jing e Sun se conhecem numa viagem que ela faz ao campo. As horas de conversa se transformam numa admiração mútua e no fim de uma tarde fria, o geólogo não consegue mais esconder que está apaixonado por ela. Há uma barreira, no entanto: “Minha mãe não vai me deixar namorar antes dos 25 anos”, ela diz. “Eu espero”, ele responde. “E se ela continuar proibindo?”, ela questiona. “Eu espero a vida toda por você”, ele insiste.

As palavras de Sun são o alicerce que dá base ao amor que vai nascendo entre os dois. É o que os faz driblar as dificuldades e a repressão nos piores momentos para conseguir viver pequenos momentos de felicidade em um país marcado pela sisudez de um regime repressor e onde sorrir é quase uma afronta ao "grande líder". É também o que vai segurar a distância forçada que eles são obrigados a manter pelo bem dela.

Enquanto faz a sua crítica à Revolução de Mao, Yimou mostra um amor sem um único beijo e uma relação tão intensa que vai perdurar para sempre, mesmo após uma tragédia. A China começaria a mudar politicamente, algum progresso viria, e somente uma coisa jamais mudaria: o amor entre Jing e Sun. E no fim, ele acabaria cumprindo a sua promessa.