sexta-feira, 16 de outubro de 2026

“Primetime” perde e chance de debater o papel de programas sensacionalistas

No início dos anos 2000, o jornalista Chris Hansen apresentava um segmento de muita popularidade no Dateline NBC chamado “To Catch a Predator”. Em parceria com um grupo de voluntários chamado Perverted-Justice, o segmento do programa tinha como objetivo expor predadores que aliciavam menores na internet e os levarem a serem detidos pela polícia antes que pudessem cometer algum crime. A história de “To Catch a Predator” é a base de “Primetime”. 

Dirigido por Lance Oppenheim e com Robert Pattinson no papel de Hansen, o filme tinha um bom material para discutir alguns temas ainda atuais na sociedade. Tais como:

a) O papel de programas sensacionalistas que passam na TV.

b) O fascínio que a população em geral tem pelo sensacionalismo.

c) A ideia de que a justiça pode ser feita por meios diferentes da…Justiça

Mas o filme simplesmente opta por não abordar nada. Na verdade, “Primetime” tem quase duas horas de um certo vazio total de ideias. Oppenheim se resumiu a contar a história de um programa de TV exibindo uma série de situações que, se quiséssemos, poderíamos ver procurando ao programa original no YouTube.

Os primeiros minutos de “Primetime” são promissores. Com uma câmera com aquela carinha de início de anos 2000, antes da enxurrada de alta definição expor as rugas mais escondidas dos atores, o filme mostra o cerco a um predador, o discurso de humilhação/justiça/vingança de Hansen e a consequente prisão do criminoso. Na sequência, a produtora Andi (Merrit Weaver, o sopro de excelência do filme) sorri para Hansen e eles trocam aqueles olhares de quem diz mentalmente um para o outro: “Missão cumprida. Temos mais um belo show para entregar ao público”.

Entretanto, a partir deste começo, o filme opta por repetir cenas ao invés de refletir sobre o que vemos na tela. Segue-se um exposição de predadores atrás do outro, mas sem entendermos as reais consequências disso para a TV, para os que fazem o programa e mesmo entre o público estadunidense.

Entre a infidelidade e o afastamento da família por causa do trabalho de Hansen e a possibilidade de Andi trocar de trabalho e emissora de TV por causa de uma proposta de trabalho que recebeu, quem realmente tem um drama profundo com o que lidar é o aspirante a ator Dan Plum (Skyler Gisondo). Responsável por interpretar um jovem ator que precisa fingir ser um adolescente que aborda os predadores nas casas que servem de gravação para o programa, Plum é quem tem conflitos mesmo reais a expor porque está a fazer algo que questiona constantemente se é correto ou não. De um lado, ele tem o sonho de virar um ator a sério e entrar para o sindicato. Do outro, vive o dilema de ser alguém que está participando de armadilhas criadas por um programa sensacionalista. Por mais que o mote do programa seja expor e fazer a polícia pegar criminosos, Plum questiona-se se o meio mais correto deveria ser o que ele está inserido. Ele se incomoda com o que vê na TV, incomoda-se pela forma como se vê na TV.

E é isso que falta ao filme como um todo. Questionar o vale-tudo do sensacionalismo. Discutir, debater o papel de um programa como “To Catch a Predator” e sua popularidade na sociedade estadunidense a ponto de Hansen ser tratado como herói nacional. E quando uma tragédia acontece, o filme não discute ou expõe suas consequências. Damos um salto temporal e seguimos a vida como se nada tivesse acontecido.

Falta substância a “Primetime”. Qual era o objetivo de Oppenheim ao dirigir este filme? Fica a sensação que era apenas mostrar para as novas gerações como era a TV no início dos anos 2000. Afinal, o filme não levanta grandes questões. E mesmo como entretenimento, ele não é agradável. Até porque o tema dele é bastante pesado.

No fim, o que fica de brilhante mesmo em “Primetime” é a bela interpretação de Weaver. Sua Andi é o eixo emocional da tragédia anunciada que é o “To Catch a Predator”. No auge do programa, ela brilha e parece a dona do mundo mascando o seu chiclete. Quando os problemas surgem com o seu apresentador ou conforme aumentam as necessidades de o programa dobrar a aposta para ser um campeão de audiência, ela quase quebra, sente o stress, mas sabe que aquilo é o que gosta de fazer e o que traz algum propósito para a sua vida. Ela gosta de tragédias. É por isso que quando uma verdadeira tragédia acontece ela tem força suficiente para manter a calma e dizer: “Acho que consigo salvar o programa entrevistando um policial”. Weaver é o melhor que “Primetime” nos ofereceu.

Nota 6/10.

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