Tom Cruise passou os últimos vinte anos “salvando o mundo” (e algumas vezes o cinema por tabela). São duas gerações de pessoas que praticamente só conhecem o ator por papéis como Ethan Hunt, da série “Missão Impossível”, Maverick, de “Top Gun: Maverick” (2022), Jack Reacher e outros heróis de ação menos cotados. Papéis em que ele mostrava toda a sua habilidade para correr, mas que não exigiam muito de seu talento como ator em comparação com personagens mais dramáticos.
O que os jovens não sabem é que Cruise pode ser de fato um bom ator e que já foi três vezes indicado ao Oscar por “Nascido em 4 de julho” (1989), “Jerry Maguire, a grande virada” (1990) e “Magnólia” (1999). Entretanto, depois de três frustrações seguidas, pareceu que Cruise resolveu desistir de ter a bênção da Academia e se focar em ser o maior nome do entretenimento no cinema. Tanto que desde 1999, os dois filmes mais “sérios” ou com ambições artísticas que fez foram o drama político “Leões e Cordeiros” (2007) e o excelente “Colateral” (2004).
O ator foi definitivamente bem-sucedido na sua missão de ser o grande nome do entretenimento. E parecia confortável nela. Por isso soou muito interessante quando ele anunciou logo após o último “Missão Impossível”, “O Acerto Final” (2025), que ele trabalharia no próximo filme do diretor mexicano Alejandro González Iñarritu, de filmes como “Birdman” (2014) e “O Regresso” (2015) e que não costuma ser uma unanimidade entre crítica e público. O resultado desta colaboração que chega agora aos cinemas é “Digger”.
Sátira política sobre a nossa cada vez mais presente tragédia climática, o novo filme de Iñarritu tem um Cruise inspirado. Fora da sua zona de conforto, o ator mostra para toda uma nova geração o quão bom ator ele é e que os filmes de ação não transparecem isto.
No filme, Cruise faz o bilionário do petróleo Rockwell, empresário cuja empresa está sugando todo o óleo que pode da Groelândia e de outras reservas naturais próximas ao Ártico com o apoio de um governo estadunidense que ele tem na mão.
Quando uma tragédia acontece em um dos seus poços causando um grande desastre climático e a morte de milhares de pessoas na Europa. Rockwell se vê obrigado a controlar a narrativa criando alguns dos maiores absurdos que, infelizmente, encontram paralelos no nosso mundo real. O maior exemplo disso é a cena no parlamento europeu, o momento em que Cruise brilha mais intensamente em sua interpretação. Uma interpretação exagerada, caricata, mas que combina bem com toda a proposta do filme de Iñarritu.
Uma das coisas mais interessantes do filme está na forma como o diretor conta a sua história.
E aqui vai algo que poderia soar como um spoiler do filme.
Num dado momento nos é revelado que toda aquela história é uma peça de teatro baseada em fatos reais. Ou seja, estamos num mundo em que a tragédia já aconteceu, os que sobreviveram precisam conviver com as consequências dela e estão acompanhando a história recente deles em um teatro restaurado com uma tragédia que foi transformada em entretenimento para as massas e uma forma de escapismo aos horrores do mundo lá fora. Peça de teatro esta que é bancada pela fortuna de um misterioso personagem vivido por Jesse Plemons. A peça dentro do filme é uma sátira sobre o horror causada por homens terríveis e patéticos que governaram o mundo, o transformando num lugar cujas condições de vida pioraram sensivelmente. É desalentador pensar que isto pode vir a ser um sinal sobre o futuro.
O formato interessante escolhido por Iñarritu acaba por virar um palco para Cruise mostrar sua versatilidade. Num dado momento ele é Rockwell, no outro Curtis, um alter ego para o próprio ator ser ele mesmo e debater os rumos da peça e seus aspectos estéticos, morais e de roteiro.
Assim como outros filmes de Iñarritu, “Digger” não será uma unanimidade. Ou próximo de uma unanimidade, pois é impossível qualquer obra de arte atingir 100% de aceitação. Ele pode ser visto como bobo, pueril, exagerado, caricato. Além disso, as pessoas podem ou não gostar do trabalho de Tom Cruise, no que o filme é muito centrado, ainda que a obra também dê algum destaque a Riz Ahmed, que faz um cientista que denuncia constantemente o horror causado pelos poderosos, e John Goodman, que faz um patético presidente dos Estados Unidos. Qualquer semelhança com muitos políticos atuais não é mera coincidência.
Um lado ruim de “Digger” está no fato de o filme ser super direto e didático. Tendo a não curtir muito filmes que desenhem para o espectador sobre seus temas. Por isso não gosto muito de “Não olhe para cima” (2021), por exemplo. Contudo, entendo que vivemos num mundo em que sutilezas e metáforas são difíceis de se assimilar e a mensagem precisa mesmo ser passada de forma quase literal para que as pessoas entendam o que está acontecendo na nossa frente, mas o algoritmo das redes sociais e outras distrações irrelevantes e terríveis não nos deixam ver. E nesse ponto “Digger” é preciso. Só não vê quem não quer.
Nota 8/10.

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