domingo, 11 de outubro de 2026

“O outro lado das redes” mostra de o papel das redes sociais na ascensão da extrema-direita

“Democracy is the best form of government, it isn´t the best form of everything” (“A democracia é a melhor forma de governo; não é a melhor forma para tudo”).

“While we all have a voice, not everybody deserves a microfone” (“Embora todos tenhamos uma voz, nem todo mundo merece um microfone”).

Me peguei pensando muitas vezes sobre estas duas frases ditas pelo personagem Jeff Horwitz (Jeremy Allen White) após assistir a “O outro lado das redes” (“The Social Reckoning”, no original), filme que é uma espécie de continuação ainda mais amarga e pessimista de “A rede social” (2010).

Baseado numa série de reportagens do jornalista Jeff Horwitz para o Wall Street Journal em 2021, o filme escrito e dirigido por Aaron Sorkin, roteirista de “A rede social”, mostra o papel perverso que as redes sociais exercem na nossa sociedade. Sob a pecha de defenderem uma democracia, ou melhor, uma democratização dos discursos, dando voz a todos, e após adotarem uma uma série de mudanças nos algoritmos,, como mostrado no filme, as redes sociais da Meta ajudaram a amplificaram o discurso de ódio e preconceito em geral, estimularam o crescimento de grupos extremistas e têm um papel central na radicalização das pessoas ao redor do mundo. Radicalização esta que vemos muito claramente na ascensão da extrema-direita ao redor do planeta. Inclusive no Brasil, que passa por eleições presidenciais neste ano de 2026.

Sorkin não tem nenhuma pretensão de criar um filme que seja um entretenimento. As quase duas horas de “O outro lado das redes” são dedicadas a expor fatos de forma extremamente didática, com esquetes dignas de campanhas publicitárias de conscientização dos malefícios de uma droga. Pois está mais do que óbvio que rede social devia ser tratada como um problema de saúde pública como qualquer outra droga ou as apostas online.

De um lado, o filme mostra o trabalho de Horwitz ao lado da ex-funcionária do Facebook Frances Haugen, vivida no filme pela atriz Mikey Madison, vencedora do Oscar por “Anora” (2024). Madison está muito bem num papel tão diferente do que vimos no filme de Sean Baker.

Do outro, o filme fala muito claramente sobre a omissão do Facebook, que após a crise e a série de reportagens de Horwitz mudaria de nome para Meta, no papel de moderar o conteúdo que é postado em suas plataformas.

Sob o falso argumento de defender uma espécie de democracia, o Mark Zuckerberg vivido por Jeremy Strong está constante e repetidamente dizendo que o seu site é apenas uma plataforma para as pessoas postarem o que pensam e que não controla o que estas mesmas pessoas pensam. Uma das metáforas mais fortes do filme é quando ele afirma que o Facebook é um mural de cortiça. Cabe as pessoas que o usem pendurarem o que quiserem neste mural. Em contraponto, Sorkin coloca outro jornalista vivido por Bill Burr dizendo algumas verdades para um lacônico e opaco Zuckerberg.

São trechos que ressaltam o didatismo do filme, que mais se assemelha a uma defesa de tese de mestrado com tons de documentário encenado do que a uma obra de entretenimento. E isto não é uma crítica, mas apenas uma constatação.

“O outro lado das redes” é muito claro em mostrar o lado nocivo das redes sociais. Há algum tempo eu defendo que elas não deviam existir, pois só criaram radicalização de discurso, problemas de saúde mental, histeria e dependência. 

O filme mostra que as redes sociais são responsáveis pela ascensão da extrema-direita, pela amplificação do discurso de ódio e tentam se eximir de tudo sempre batendo na tecla da democracia. Uma democracia para funcionar precisa ter leis claras, regulamentação e seguir princípios básicos com base na lei. E as redes sociais não são responsáveis por amplificar a democracia, mas sim por abalarem gravemente as suas estruturas. Apenas para que uma meia dúzia de bilionários mantenham a sua fortuna.

Nota 8/10.

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