domingo, 7 de dezembro de 2008

A hora de abrir o olho

Deixando um pouco de lado o problema da tentativa de manipulação de jogos, o Campeonato Brasileiro deste ano pode ser considerado um divisor de águas na história do futebol carioca. Há mais de uma década vivendo do passado glorioso, o Rio de Janeiro caminha para o nono ano sem ver um clube sequer ser campeão brasileiro. Desde que o Vasco de Romário, Juninho Pernambucano, Juninho Paulista, Euller, Viola e outros nomes de peso conquistaram a competição de 2000, o Rio bateu na trave algumas vezes com o Fluminense, neste ano com o Flamengo e foi muitas vezes ameaçado de rebaixamento. Além de cair com o Botafogo e agora com o Vasco.

Neste meio tempo, o São Paulo foi tricampeão (2006-07-08), o Santos foi bicampeão (2002 e 2004), e o Corinthians faturou o título de 2005. Os únicos a quebrar a hegemonia paulista foram o Atlético-PR em 2001 e o Cruzeiro em 2003. O Rio ficou chupando dedo ou vivendo de pequenas glórias nas Copas do Brasil de 2006 (Flamengo) e 2007 (Fluminense).

O Rio começou o ano de maneira promissora. Com dois times na Libertadores (Fla e Flu), parecia que seria a redenção. Apesar do vice-campeonato do Flu, um baque muito duro para o torcedor tricolor, mas de valor pela dificuldade da competição, o Fla liderava o Brasileiro e dava pinta de que poderia brigar por pelo menos uma nova participação na Libertadores.

O fim de ano ao invés de significar uma subida de degrau na corrida atrás do futebol paulista, representou muito mais do que um rebaixamento, no caso do Vasco, mas uma redução ainda maior do poderio fluminense.

Em 2009, o Rio de Janeiro terá três times na primeira divisão – contra seis dos paulistas – nenhum clube na Libertadores, após o patético fim de campeonato do Flamengo, que perdeu por 5 a 3 para o Atlético-PR, e apenas três times na Sul-Americana (a dupla Fla-Flu, “rebaixada” em âmbito internacional, e o Botafogo). Neste ano, os quatro grandes cariocas disputaram uma competição internacional.

Nem a história está mais ao lado do Rio. Por 16 anos, o Flamengo bateu no peito para dizer que era o maior vencedor de títulos brasileiros do país - embora isso sempre fosse discutível, pois essa conta simplesmente ignorava os títulos de Santos e Palmeiras na Taça Brasil e no Torneio Roberto Gomes Pedrosa, precursores do atual Brasileiro -, agora o São Paulo é hexa (acima, na foto de Wander Roberto, de divulgação da Vipcomm) e o Flamengo, apenas penta.

Por tudo isso, o futebol carioca termina o ano menor do que entrou. Menor do que estava no meio do ano. Será que o Rio continuará insistindo em dirigentes amadores e incompetentes? Até quando o mês terá 60 ou 90 dias por aqui? O Rio precisa reagir. Precisa abrir o olho. Do contrário, será um pôster amarelado na parede do bar.

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PS: O fim do Campeonato Brasileiro me fez adiar a postagem da crítica do shomzaço do Queen + Paul Rodgers. Mas na quinta-feira prometo pagar essa dívida.

Outra contaminação

Um dia antes da última rodada do Campeonato Brasileiro eu planejava fazer um balanço da competição que foi muito emocionante na tabela, mas sofrível dentro de campo. Sem bons times, com poucos jogos dignos de nota, para mim este Brasileiro foi um dos piores. Apesar da tabela.

Ainda assim, num exercício natural em cada fim de campeonato, me arrisquei a fazer uma seleção da competição e até que o cômputo final não ficou tão ruim. Algo como Marcos (Palmeiras), Leonardo Moura (Flamengo), Miranda (São Paulo), Ronaldo Angelim (Flamengo) e Leandro (Palmeiras); Ramires (Cruzeiro), Hernanes (São Paulo), Wagner (Cruzeiro) e Alex (Internacional); Guilherme (Cruzeiro) e Alex Mineiro (Palmeiras). Técnico: Muricy Ramalho (São Paulo). Até que não é nada mal. Levando-se em conta que eu ainda teria no banco jogadores como Rogério Ceni (São Paulo), Jonathan (Cruzeiro), Juan (Flamengo), Thiago Silva (Fluminense), Jean (São Paulo), Arouca (Fluminense), Sandro Silva (Palmeiras), Marquinhos (Vitória), Tcheco (Grêmio), além dos atacantes Nilmar (Inter), Keirrison (Coritiba) e Kleber Pereira (Santos).

Só que meus planos de análise do Brasileirão foram suplantados por uma nova reflexão após mais um possível escândalo de arbitragem no futebol nacional. Dessa vez envolvendo o árbitro carioca Wagner Tardelli, cujo nome estaria sendo usado por alguém que só a CBF sabe, mas não quer contar como vejo na ESPN, para a manipulação de resultados na competição. Em troca disso, duas versões. Uma diz que é dinheiro, outra que é um envelope com ingressos para o show da Madonna. Essa cantora realmente adora um escândalo.

Tardelli, que aparentemente (e por enquanto só aparentemente), não tem qualquer envolvimento no caso foi afastado do jogo decisivo deste domingo entre Goiás e São Paulo, que pode valer o título para o Tricolor paulista na disputa contra o Grêmio, que enfrenta no mesmo horário – 17h – o Atlético-MG. No seu lugar foi escalado Jailson Macedo de Freitas.

A menção de mais uma notícia de manipulação de resultados fez vir à tona a velha expressão “campeonato contaminado” usada em 2005, quando o escândalo Edílson Pereira de Carvalho desvendado pela revista Veja explodiu como uma bomba atômica no futebol brasileiro. Na ocasião, movimentos muito suspeitos de todos os lados (CBF, STJD, etc...) anularam 15 jogos apitados por Edílson que foram decisivos para o título do Corinthians num momento em que Internacional e Fluminense disputavam a liderança da competição.

Sem contar o escandaloso pênalti não marcado pelo árbitro Márcio Rezende de Freitas em cima de Tinga numa partida decisiva entre Inter e Corinthians no Pacaembu. Aquele campeonato (aparentemente, e só aparentemente) tinha que ser mesmo da misteriosa parceria Kia/Corinthians. Aliás, de onde vinha o dinheiro do iraniano?

Se o Brasil fosse um país sério, ou melhor, mais ou menos sério, o Brasileiro de 2005 não teria continuado. Até porque eu não conheço esquema de uma pessoa só e nesta confusão toda só quem se deu mal foi o Edílson. Não que ele não tivesse qualquer culpa. Ele, inclusive, assumiu a sua parte. Os demais é que continuam nas sombras.

Um exemplo de um país que eu considero mais ou menos sério - afinal, quem elege diversas vezes Silvio Berlusconi para primeiro-ministro não pode ser plenamente sério: a Itália. Nos últimos 28 anos, o país teve três sérios escândalos de manipulação de resultados. O primeiro, o famoso escândalo da Totonero em 1980, resultou como principais conseqüências a punição de dois anos para o atacante Paolo Rossi, que, ressaltemos, foi punido não por participar, mas por saber da história e não ter revelado, e o rebaixamento de Milan e Lazio para a segunda divisão.

No segundo, em 1986, também envolvendo a loteria esportiva italiana, um esquema semelhante resultou no rebaixamento da Udinese para a Série B, além de punições para times da segunda, terceira e quarta divisões.

O terceiro, mais recentemente, envolvendo manipulação de resultados, resultou no cancelamento do campeonato de 2004-05, conquistado pela Juventus, no título da Inter na temporada 2005-06 ganho no tapetão por causa do envolvimento da Juventus, que foi rebaixada para a segunda divisão com direito a perda de pontos, e na perda de pontos de diversos times na Série A, o principal deles o Milan, que começou com 15 pontos a menos.

No Brasil, a título de comparação, aconteceram quatro escândalos de arbitragem/manipulação de resultados nos últimos 12 anos, mas ao contrário da Itália a impunidade imperou por aqui.

Por causa da patética cena do ex-presidente Álvaro Barcelos estourando uma garrafa de champagne para comemorar a “virada de mesa” do Fluminense, rebaixado em 1996 e mantido na primeira divisão em 1997 (até cair de novo), pouca gente lembra que aqueles anos foram marcados pelo escândalo Ivens Mendes. O esquema envolvia manipulação de jogos, financiamentos para eleições e figuras que até bem pouco tempo estavam ainda comandando seus clubes como se nada tivesse acontecido. Daquele tempo para cá, nada aconteceu realmente – além da morte de Mendes - e o esquema caiu no esquecimento. A única alteração foi a manutenção de Fluminense e Bragantino na primeira divisão de 97.

Além disso, tivemos o caso Loebeling, cujo chefe na comissão de arbitragem, Armando Marques, o pediu para adulterar uma súmula. Lembravam disso? Pois é. Mais recentemente o já listado esquema de 2005 e agora esse que mancha o campeonato deste ano. Nos três anteriores, uma única marca: a impunidade. Continuará assim? A saber.

O fato é que se houve manipulação de jogos é preciso ter a coragem de pedir desculpas aos torcedores e simplesmente acabar com o campeonato. Sem choro nem vela. Sem volta olímpica, sem grito de campeão. Provada qualquer tipo de manipulação, a “contaminação” do campeonato é inerente. E aí só restará a lamentação. Mas ninguém terá coragem de fazer isso. A CBF jamais teria coragem de fazer isso. Não fizera antes, por que faria agora?

Assim, fica apenas uma pergunta. Enquanto a impunidade estiver mandando no futebol – e no Brasil como um todo, aliás – você confiará no que vê na TV ou no estádio? Eu só sei que hoje meu amor por esse esporte foi novamente atingido, aumentando ainda mais a minha descrença.

sábado, 29 de novembro de 2008

Ainda tentando entender o ogro

Quando Cassino Royale (2006) estreou, eu destilei bile sobre o 007 de Daniel Craig. Violento demais, sem classe, com uma leve tendência a não apreciar a vida e as mulheres a sua volta e cometendo erros infantis, Craig era praticamente a antítese de um James Bond imortalizado basicamente na pele de três atores: Sean Connery (principalmente), Pierce Brosnan e Roger Moore (menos).

Craig então, na minha opinião, se credenciava a ficar no limbo dos Bonds fracassados como George Lazenby, que fez um filme apenas, e Timothy Dalton, que estragou dois filmes. Se o 007 de Craig tinha todos os defeitos listados acima, o de Lazenby entrou para a história como o primeiro e único a se casar, embora a noiva tenha sido assassinada logo em seguida em “007 – A serviço secreto de sua majestade” (1969), e o de Dalton, estrela de “007 - Permissão para Matar” (1989) e “The Living Daylights” (1987), era simplesmente apático e sem graça.

Em “007 – Quantum of Solace”, portanto, eu não esperava de Craig nada diferente do que o ogro mostrado em sua estréia no papel do agente secreto mais famoso do mundo. Embora algumas coisas ainda me incomodem como a sua postura absolutamente ranzinza com a vida, o amor que ele ainda nutre por uma bondgirl, no caso Vesper Lynd, morta em “Cassino Royale”, o excesso de violência e a falta de classe, ainda permanentes, devo reconhecer que Craig evoluiu no papel.

Ele está longe de ser o 007 ideal, muito longe dos três Bonds clássicos, mas se esforça para melhorar. Ou o seu personagem, que parte do zero na filmografia do herói, começa a entender também seu papel no mundo. Embora eu discorde disso tudo que os produtores resolveram criar para o herói, pois quando um agente do MI-6 recebe a permissão para matar – no caso o 00 do seu número – ele já é próximo da perfeição na hierarquia dos agentes secretos.

Porém, “Quantum of Solace” não é um filme superior do que “Cassino Royale” apenas pela evolução de Craig. Pelo contrário. Se Judi Dench, mais uma vez no papel de “M”, dá a classe, sobriedade e altivez ao filme, é Mathieu Amalric, no papel do vilão Dominic Greene, que dá o molho que faltou a “Cassino Royale”, que tinha um vilão com tudo para ser carismático, Le Chifre, vivido por Mads Mikkelsen, mas que infelizmente não funcionou em cena. Faltou química.

Neste ano, Amalric já apareceu para nós num filme mais desafiador do que qualquer Bond, no papel do jornalista Jean-Dominique Bauby em “O escafandro e a borboleta” (2007). Neste trabalho, o ator francês é um editor arrogante da revista “Elle” que sofre um acidente vascular cerebral e fica com o corpo paralisado. Seu único meio de comunicação é através de uma linguagem desenvolvida por sua fonoaudióloga em que ele usa unicamente o olho esquerdo.

Em 007 Amalric troca a arrogância e mau-humor de Jean-Do pelo deboche e sensação absoluta de impunidade de seu vilão, que tem uma empresa de fachada, supostamente para defender o meio ambiente, mas que ele usa pura e simplesmente para se dar bem como um excelente vilão deve fazer. Dominar o mundo, assim como o dólar descrito no filme, não está mais com nada. O que importa é faturar, mesmo que seja necessário patrocinar um golpe de estado na Bolívia.

Alguns dos melhores momentos de “Quantum of Solace” são com Amalric em cena. O Bond de Craig não é páreo para ele, pois não combate sua soberba com o que os 007 sempre tiveram de melhor e Craig não demonstra: a ironia. A vida é muito séria para o Bond de Craig. Alguém precisa ensinar esse cara a levá-la mais na flauta.

Além de melhorar o humor, o 007 de Craig precisa corrigir duas coisas primárias. Tratar melhor as mulheres (ele não leva o menor jeito com Camille, vivida pela ucraniana Olga Kurylenko) e não ser tão violento (afinal, é Bond, James Bond e não Jason Bourne). Suas falhas desanimam um bondmaníaco. Continua matando demais, sendo emotivo demais, sofrendo, onde já se viu um Bond sofrer?

É curioso que esse James Bond tão violento tenha saído das mãos do diretor Marc Forster, conhecido por obras tão delicadas, acuradas como “O Caçador de Pipas” (2007) e “Em Busca da Terra do Nunca” (2004), e do roteirista Paul Haggis, vencedor do Oscar por “Crash” (2004), além autor de “Cartas de Iwo Jima” e “A Conquista da Honra”, ambos de 2006. Convocados para fazer um Bond supostamente “mais humano”, eles o transformaram numa máquina de matar que não pensa direito e age por impulso.

Enfim, entre altos e baixos, continuo tentando entender o ogro interpretado por Craig que nada tem a ver com o velho Bond de sempre. E, claro, ainda tentando entender os motivos da substituição de Pierce Brosnan. Mas já que temos que engoli-lo, prometo ceder um pouco e continuar acompanhando seus “bondtrabalhos”. Todavia, Craig ainda não me parece a figura ideal para viver o agente secreto de Sua Majestade.

Bom, pelo menos a trilha sonora continua boa. A deste filme é de Jack White e Alicia Keys. Confere abaixo o clipe da música “Another way to die”.


domingo, 23 de novembro de 2008

Reconciliações

Tenho um defeito cinematográfico. Nunca gostei de Woody Allen. Confesso que vinha me esforçando para curar essa doença, afinal, se todo mundo que eu gosto de ler no mundo da crítica gosta dele, o problema só pode ser comigo. Se eu me esforçava vendo praticamente todos os seus últimos filmes, pode-se dizer que o diretor americano, ou melhor, nova-iorquino, não me ajudava.

Achei “Match Point” (2005) um filme apenas razoável e “Scoop” (2006) ainda abaixo daquele, apesar da presença de Ian McShane, que abrilhanta o filme como um jornalista morto que aparece para uma jovem jornalista vivida por Scarlet Johansson para dar uns conselhos. Não vi o elogiadíssimo (sempre) “Sonhos de Cassandra” (2007), pois ficou pouquíssimo tempo em cartaz. Aliás, parece que hoje em dia para ir ao cinema você precisa correr mais rápido do que o Usain Bolt. Mas isso é papo para outro dia.

O que importa é que eu dei mais uma chance para Woody Allen (ou seria para mim mesmo?) e fui assistir “Vicky Cristina Barcelona”, seu mais novo trabalho, que passou por aqui no Festival do Rio – sempre num horário impróprio para um trabalhador, mas isso também é reclamação para outro dia – e agora estréia verdadeiramente no circuito nacional.

E o que posso dizer do diretor de 72 anos? Finalmente não sou mais um pária. O filme é excelente. Arrisco-me a dizer, sem ter conhecimento de sua obra completa (quem tem? São mais de 60 películas), um dos melhores filmes de Allen.

Ele conta a história de duas amigas que viajam para Barcelona para passar o verão. Vicky (Rebbeca Hall), frígida, metódica, sem graça e prestes a se casar com um americano almofadinha (Doug, vivido por Chris Messina) e Cristina (Scarlet Johansson, a musa do diretor, presente em três dos seus últimos quatro filmes), apaixonante, envolvente, imprevisível e com um enorme naipe de decepções amorosas nas mãos.

Completamente diferentes, as duas vão até a cidade espanhola também com objetivos distintos. Vicky quer completar o seu mestrado em cultura catalã e Cristina esquecer traumas passados e passar um tempo se distraindo e se dedicando à sua nova paixão: a fotografia.

Acontece que lá eles conhecem o pintor Juan Antonio (vivido de maneira extrema e deliciosamente canalha por Javier Bardem), que não perde tempo e logo as convida para um fim de semana em Oviedo com boa comida, bom vinho e um sexo a três.

Juan Antônio estava então se recuperando de uma confusa separação de sua mulher, Maria Elena (Penélope Cruz em uma de suas melhores atuações), que simplesmente havia tentado lhe matar. Como o próprio pintor diz, porém, eles foram feitos um para o outro e não foram feitos um para o outro. É um casal explosivo.

Sob protestos de Vicky, as duas vão até Oviedo onde começa o triângulo amoroso que levará Vicky a repensar sua vida completamente “boring”. Mas é Cristina, mais afeita aos sedutores encantos do pintor, que cai nas garras de Juan Antônio e vai morar com ele.

Só que Maria Elena retorna e quer o marido de volta, afinal sempre o amou. Mas vê como extremamente vantajoso manter química do romance entre Cristina e Juan Antônio. Daí para um relacionamento aberto e a três não demora. Quando menos se espera, Cristina se vê envolta em diferentes emoções e tendo relações com Maria Elena, Juan Antônio e com ambos. E não questiona isso. Não há limite para amar.

A partir desse inusitado quarteto amoroso de tonalidades completamente diferentes das usuais e digna de um surrealismo de Salvador Dalí, Woody Allen constrói seu roteiro de ótimas tiradas. Mas é a sua capacidade de captar o espírito da cidade em que filma a grande sacada do diretor. Se “Match Point” e “Scoop” eram quase fleumáticos e com momentos de formalismo dignos da Londres que ele escolheu filmar (até mesmo na hora em que os crimes são cometidos), em “Vicky Cristina Barcelona” ele capta toda a sensualidade da Espanha, principalmente a Barcelona que ele deseja focar, que a própria cidade se torna um vértice dos casos amorosos que ele constrói.

Barcelona, Oviedo, sejam quais forem, são cidades envolventes e que, graças ao excelente roteiro de Allen e às interpretações dos principais atores, cercam o espectador e o enredam na louca trama construída pelo diretor.

“Vicky Cristina Barcelona” é uma aventura de verão de suas protagonistas, uma sedutora viagem pela Espanha, mas, acima de tudo, um clássico de Woody Allen, que mostra estar, mais do que com a câmera, com a pena afiada para escrever um roteiro tão brilhante, embora não cercado de muita sofisticação. E daí? Grandes filmes também são feitos com simplicidade.

domingo, 16 de novembro de 2008

Da caipirinha a cerveja em sete anos

Muitos podem não concordar comigo, mas eu acho o R.E.M. uma das melhores bandas do mundo em atividade. Em 28 anos de carreira, os americanos de Athens, na Geórgia, colecionam bons discos – o mais recente dos 21 álbuns, “Accelerate”, lançado neste ano – e sempre fazem shows que ficam no imaginário de quem os presencia.

Mesmo que você não seja fã da banda, a apreciaria ao vê-la tocar. No palco, eles são simples, sem rodeios, mas extremamente competentes. Um telão é o que há de mais “luxuoso” na arena que reúne o vocalista Michael Stipe, o guitarrista Peter Buck e o baixista Mike Mills, acompanhados pelo guitarrista Scott McCaughey e pelo baterista Bill Rieflin. Os cinco fazem o que há de melhor deles com o mínimo de esforço, que pode parecer até não muito empolgante, ou meio blasé para quem olha de fora, mas basta observar os rostos felizes da platéia para ter a certeza que o show é excelente.

No sábado passado, assisti ao segundo show do R.E.M. no Brasil. Foi a primeira vez que eles vieram ao país desde aquela espetacular apresentação no Rock in Rio de 2001, um dos melhores shows daquele festival, talvez só inferior ao do Neil Young. Sete anos mais velhos, Stipe, 48 anos, Buck, 51, e Mills, 49, mantêm a mesma vitalidade e a disposição para experimentar de tudo. Não é a toa que dessa vez Stipe resolveu dispensar a caipirinha de outrora se arriscar bebendo uma cerveja nacional. “Não sei como se fala. Itapaiva. Muito bom”, diz o vocalista, num marketing espetacular para os donos da marca, que, porém, não é muito cultivada entre os especialistas no assunto.

Em turnê de lançamento do novo disco, o R.E.M. fez, obviamente, um set list bastante diferente do que o apresentado no Rock in Rio. O que não os impediu de brindar a galera, composta por muitos que ainda lembravam e estiveram no show de 2001, com clássicos da banda como “One I Love”, “Losing my Religion”, “Everybody Hurts” e “It’s the end of the world as we know it (and I feel fine)”. Todas acompanhadas por um empolgado público que respondia a todos os estímulos feitos por Stipe. Se ele pedia para cantar, o público respondia. Uma resposta, a galera estava lá. Aplausos eram sempre e merecidamente constantes.

Não é a toa que Stipe e a banda pareciam realmente felizes em voltar. O vocalista agradeceu a todo o momento o carinho do público brasileiro e, com uma imagem do presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, no telão pediu desculpas pelos últimos oito anos de governo Bush. “We are fucking happy”, disse ele, sobre a vitória de Obama.

A política, aliás, não esteve presente apenas na reverência a Obama. No set list, foi incluída “Exhuming McCarthy”, do disco “Document” (1987), que traça um paralelo entre a perseguição política aos esquerdistas feita pelo senador Joseph McCarthy nos anos 50 – bem reproduzida no filme “Boa Noite, Boa Sorte” (2005), de George Clooney – e uma espécie de "americanismo" da era Ronald Reagan (1981-89), quando os americanos acreditavam estar por cima da carne seca. Com um gravador na mão, Stipes reproduzia a discussão entre o então advogado do Exército americano Joseph Welch e McCarthy: “Have you no sense of decency, sir, at long last? Have you no sense of decency?”. Era como se Stipe estivesse dizendo o mesmo para Bush e sua era do terror.

Em duas horas, o R.E.M. desfilou sua competência em 24 excelentes canções, a maioria delas dos discos “Accelerate” e “Automatic for the people” (1992), um dos grandes clássicos da banda. Deste álbum, a banda tocou “Drive”, “Ignoreland”, a já citada balada “Everybody Hurts”, cantada em coro por um emocionado público que encheu satisfatoriamente a HSBC Arena, “Sweetness Follows”, “Night Swimming” e “Man on the moon”, uma das melhores do R.E.M. que fechou brilhantemente o espetáculo.

Com músicas de dez discos diferentes, reverenciou, portanto, seu passado, mas sem qualquer sentimento de nostalgia. De “Accelerate”, a platéia ouviu as boas “Living well is the best revenge”, que abriu os trabalhos, “Man Sized Wreath”, “Hollow Man”, “Horse to Water” e a ótima “Supernatural Superserious”. Eu, que não havia escutado ainda o disco novo, fiquei com uma ótima impressão de que “Accelerate” lembra o que há de melhor do R.E.M.

De “Reveal”, lançado meses depois da última apresentação no Rio, a banda trouxe a excelente “Imitation of Life” e “She just wants to be”. Deu espaço ainda para canções novas pinçadas de coletâneas ou trilhas sonoras, como “Bad Day”, tirada do “Best of R.E.M. 1998-2003”, que mais parece uma nova “It’s the end of the world as we know it”, e outra grande canção, “Great Beyound”, do disco “Man on the moon” (1999), trilha do filme de mesmo nome de Milos Forman estrelado por Jim Carrey sobre a vida do comediante Andy Kaufman, que morreu em 1984.

Houve ainda espaço para momentos intimistas, como quando a banda se reuniu num canto do palco para cantarem para si sob os olhares da platéia, “Let me In”, e para um barulho de qualidade com, por exemplo, “What’s the frequency Kenneth?”. Que grande canção esta.

“Nós somos o R.E.M. e viemos aqui para fazer música”. Assim, Stipe anunciou a banda. Ao final do show, ninguém teve dúvidas de que o R.E.M. faz mais do que música. Eles produzem canções e espetáculos que se tornam clássicos.

Foi difícil demais selecionar os vídeos para colocar aqui. Tirei algumas, fiquei com pena de não ter colocado outras, mas, de qualquer maneira, se estiverem interessados, o show inteiro está no youtube. Aproveitem.

“Man on the Moon”


“The Great Beyound”


“Losing my religion”


“What’s the frequency, Kenneth?”



“Exhuming McCarthy”

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Ensinando a votar

Quando chamam o Brasil de terceiro mundo, há quem fique puto ou pelo menos chateado com a afirmação. Mas é inegável que este país está algumas décadas (para ser bem bonzinho) atrás de nações mais desenvolvidas. Pode-se falar o que quiser dos americanos – e eu tenho muitas restrições quanto a eles, principalmente pelo seu conservadorismo ferrenho -, mas quando é preciso votar decentemente, num momento em que uma perspectiva de mudança se avizinha, eles não titubeiam e fazem o que deve ser feito.

Tudo bem, alguém poderia argumentar que os americanos não são tão espertos assim, uma vez que eles reelegeram o senhor da guerra George W. Bush. Mas não ficamos muito atrás em decisões semelhantes.

Há muitas semelhanças entre a campanha de Obama e a de Fernando Gabeira (PV) para a prefeitura do Rio, guardado o devido peso de cada uma. Ambos propuseram uma certa dose de mudança. “Change” era um dos bordões de Obama, assim como “Yes, we can”. Sim, nós podemos mudar este país, podemos construir um mundo melhor. Um rosto novo, longe do stablishment de Washington, que propunha uma revolução silenciosa. Perfeito para o marketing e sedutor o suficiente para conquistar o eleitor.

A mudança de Gabeira começou na campanha com ruas limpas, sem ataques aos adversários e campanha enxuta e agradável na TV. Promessas foram apenas três. Todas cumpridas: não sujar as ruas, não atacar os adversários e transparência. Caso eleito, ele propunha ainda mais. Queria conduzir o Rio de Janeiro a uma mudança de paradigma. Convocar a cidade a governar com ele numa co-participação saudável e jamais testada.

De histórias de vida absolutamente ricas, mas totalmente opostas, tanto Obama quanto Gabeira fizeram da internet sua trincheira de batalha mais importante. A partir dela, tiveram uma arrecadação recorde de dinheiro para a campanha (Obama) e mobilizaram os jovens (ambos).

Foram modelos de inspiração e trouxeram de volta uma palavrinha surrada e desacreditada: esperança.

No entanto, e voltando aquele papo iniciado lá em cima, a educação faz uma diferença danada. Enquanto os americanos superaram o preconceito racial e apostaram no novo, o Rio de Janeiro preferiu mergulhar no arcaísmo da velha política. Obama venceu, porque, entre outras coisas, os americanos, que não são obrigados, foram às ruas para votar. Saíram de casa, encararam horas e horas de filas porque sabiam que seu voto faria diferença. Eles têm consciência do poder do voto.

Aqui, embora o voto seja obrigatório, sempre é possível justificar, pagar uma módica quantia de multa, e seguir na praia. Afinal, esse negócio de política é muito chato. Diante da ignorância, basta um feriado antecipado para facilitar as coisas.

O desafio de Obama não será fácil. Bush deixou os Estados Unidos financeiramente e moralmente destruídos. A imagem dos USA fora do país é a pior possível. Internamente, terá que lidar com guerras em curso – dois atoleiros chamados Afeganistão e Iraque – um déficit de mais de US$ 1 trilhão, dívida pública de mais de R$ 10 trilhões e uma crise financeira só comparável à Grande Depressão iniciada em 1929. Internacionalmente, terá desafios no Oriente Médio e de lidar com as questões nucleares de Irã e Coréia do Norte. Além disso, uma mudança de paradigma não será completada se Obama não tomar uma atitude diferente para a prisão de Guantánamo e o embargo econômico de Cuba.

Como se pode ver, “change” ou “mudança” são palavras curtas tanto em inglês quanto em português, mas dão muito trabalho para fazê-las ter algum sentido. Se Obama será capaz de promover uma mudança no espírito americano, só o tempo dirá. A única certeza que existe é que os americanos lhe deram uma chance para provar isso. Se arriscaram a quebrar a cara, mas não fugiram da raia. Yes, they can.

O Rio preferiu viver o seu momento avestruz e enfiar a cabeça no buraco. Optou pelo velho modo de fazer política. Observar a mudança (ou não) de longe é o que restou ao carioca. Essa é a nossa Grande Depressão. No, we can’t.

Abaixo, o discurso histórico de Obama após ser confirmado como o novo presidente dos Estados Unidos.

sábado, 1 de novembro de 2008

Dois craques e um filme médio


Com mais de 130 anos de carreira somados, Turk (Robert de Niro) e Rooster (Al Pacino) são mais do que parceiros, mais do que amigos. Eles se completam. Com é bem lembrado em “As duas faces da lei”, são como o Lennon e McCartney da polícia. Veteranos do Departamento de Polícia de Nova York, eles se deparam com o caso de um vigilante que estaria fazendo justiça com as próprias mãos matando os bandidos da cidade. A única conexão entre eles são os poemas deixados pelo assassino. Uma suspeita: ele é policial.

A partir desta premissa começa um jogo de gato e rato que até guarda semelhanças com o outro encontro cinematográfico entre estes dois monstros sagrados das telas: “Fogo contra Fogo”. No filme de 1995 dirigido por Michael Mann, porém, Pacino e De Niro estão em lados opostos e sequer travam diálogos. De Niro vive o ladrão Neil McCauley e é perseguido pelo detetive Vincent Hanna, interpretado por Pacino.

Em “As duas faces da lei”, por outro lado, os dois são amigos de longa data e trabalham juntos perseguindo alguém que pode até ser um deles. E todas as suspeitas conduzidas pelos detetives Perez (John Leguizamo) e Riley (Donnie Whalberg) recaem sobre Turk, policial violento, mas extremamente correto, de comportamento diferente do aparentemente frio e cético Rooster.

Um enredo, portanto, que daria um ótimo filme, principalmente pelo final que só se torna óbvio pela maneira como o diretor Jon Avnet e o roteirista Russel Gewirtz conduzem a história. Faltou um pouco mais de tato para conduzir esse filme a um thriller policial de qualidade.

É claro que em filmes do gênero não faltam clichês como os refletidos nas personalidades de Turk e Rooster. Mas a premissa de caçar alguém do próprio meio e utilizando a possibilidade de um dos dois atores principais ser, na verdade, o vilão da história, não deixa de ser interessante por isso.

Acontece que a película dá pistas de mais, escolhe caminhos excessivamente óbvios o que conduz a um desfecho meia-boca e nada dramático (é claro, porém, que eu não vou contar quem na verdade é culpado pelos assassinatos).

“As duas faces da lei” só não é um filme completamente dispensável pela oportunidade de assistir a dois atores como Pacino e De Niro juntos em cena. São dois mestres. E é sempre bom ver craques deste quilate contracenando. Pelas suas idades avançadas – Pacino tem 68 anos e De Niro, 65 – é cada vez mais difícil vê-los em películas novas, pois é natural que diminuam o ritmo de trabalho. Mas diante da câmera, eles, mesmo, de longe, não cumprindo a melhor de suas atuações, ainda dão prazer em quem gosta de um bom cinema.

domingo, 26 de outubro de 2008

Da solidão

Na casa dos 60 anos, o professor David Kepesh (Ben Kingsley numa de suas melhores atuações) desafia o tempo com os mesmos hábitos que tinha aos 40 e aos 50. A cada semestre, escolhe uma vítima para levar para o seu abatedouro particular. Tudo é planejado. Da seleção que é feita nos primeiros dias de aula ao momento certo, no caso, uma festa precedida das notas finais de sua matéria.

Foi assim há 20 anos com Carolyn (Patrícia Clarkson), hoje empresária de sucesso e habitué da sua cama, será assim com Consuelo Castillo (Penélope Cruz), jovem por quem ele desejará simples e loucamente transar.

Divorciado e com um filho com o qual não mantém bom relacionamento desde que se separou de sua mulher, Kepesh “vampiriza” a juventude de suas mulheres para se manter espiritualmente jovem. Ele mesmo reconhece que devia estar “fazendo coisas da sua idade”, mas não consegue parar. A arte da sedução é algo que o excita e o estimula. Ainda mais numa cidade com tantas mulheres interessantes.

Kepesh não contava, porém, que Consuello retornasse. Não apenas uma, duas ou três noites. Mas com a freqüência suficiente para concluir que estavam apaixonados. Eis que Kepesh, tão seguro de si, com sua vida de conquistas e transas corriqueiras, perde o chão. Vê-se tendo sentimentos juvenis, sofrendo com a distância como um adolescente. Torna-se um novo velho jovem.

Baseado no livro “Dying Animal”, de Philip Roth, “Fatal”, péssimo e incompreensível título em português para “Elegy”, aborda sob um diferente ponto de vista uma relação mais do que carnal entre professor e aluna. Se o óbvio, o chavão, sempre foi marcado pela aluna que seduz o professor bobalhão, “Elegy” coloca um duplo mestre – na arte de ensinar e seduzir – como ponta da lança. Kepesh é o desencadeador de uma relação cujo rumo invariavelmente será o do questionamento sobre o futuro que inexiste para um e que aparentemente é longo para a outra.

E este é um dos temas do filme dirigido por Isabel Coixet. Diante da inevitável finitude das coisas e da vida, é necessário planejar tanto a ponto de 30 anos de diferença entre duas pessoas serem um empecilho para um relacionamento?

Por outro lado, o medo de Kepesh de ser mais dia menos dia trocado por alguém mais jovem faz com que ele mesmo mine esse relacionamento. Um caso que, ao mesmo tempo em que curte, o incomoda, acomodado que está com sua vida solitária aplainada por visitas constantes e diferentes para suas necessidades primitivas (ou primevas).

Sua indefinição e sua paixão juvenil, parecendo, inclusive, ser o seu primeiro grande amor, acabam minando o relacionamento com Consuelo, jovem até certo ponto pacata e centrada. Nem os conselhos do poeta George O’Hearn (Dennis Hopper, excelente), construídos sempre em deliciosos encontros no café da cidade ou numa quadra de squash o fazem amadurecer. Não do ponto de vista da experiência amplamente acumulada, mas nas idéias.

Ainda lidando com suas angústias, Kepesh ainda terá de O’Hearn é um novo ensinamento com sua morte fruto de problemas decorrentes da própria velhice. E quando a jovem Consuelo lhe reaparece com um câncer de mama, ele desaba em lamentações, dores e percebe o valioso tempo que perdeu ao não ter feito nada de relevante com Carolyn ou assumido verdadeiramente o relacionamento com Consuelo. Ou mesmo de não ter se esforçado mais para melhorar o relacionamento com seu filho, Kenneth (Peter Sarsgaard).

Quando tenta de alguma forma recomeçar, já é tarde para alguns. Carolyn diz que já não dá mais para fazer alguma coisa depois de 20 anos naquela vida. Perdeu a esperança em qualquer mudança e também está acomodada. Mas com seu filho, a conexão que é o hospital onde Consuelo se opera é a largada para uma reconciliação. Uma reconciliação paterna e, quem sabe, com a própria vida.

É por isso que o filme de Coixet é muito menos “Fatal”, que pode significar a proximidade da morte, mas também um nível de sedução, e mais a elegia do título em inglês. Um poema, no caso cinematográfico, devotado ao luto e à tristeza, mas que busca um balanço reflexivo da existência.

domingo, 19 de outubro de 2008

Pequenos grandes shows


Sempre gostei de assistir à mega-concertos mesmo de bandas que eu não seja muito fã. Para um aficionado por espetáculos como eu, é muito legal ver toda a produção de um show, as eventuais surpresas preparadas, enfim, há muito por trás de uma banda e no mundo do rock a música é o que há de mais importante, mas não a única coisa a admirar. O que seria o Kiss sem toda aquela teatralidade de Genne Simmons e cia. com sangue, explosões, fogos de artifício, etc? Uma grande banda, mas talvez não uma banda lendária.

Com esse espírito apreciador vi, por exemplo, um bom show do Police no Maracanã no ano passado, embora não considere a banda de Sting nem uma das 50 melhores da minha lista particular.

Por outro lado, e sem que isso seja contraditório, também sempre gostei de pequenos shows, que fossem focados mais naquela coisa de baixo-guitarra-bateria-voz e platéia. Tudo meio improvisado, simples, com uma banda no palco e um público honesto e fiel.

A cada dia, porém, eu gosto mais desses pequenos grandes shows do que dos mega-concertos que rolam por aqui. Na semana passada, tive mais uma mostra de como eles estão mais prazerosos.

Estive no Circo Voador para ver pela segunda vez o Mudhoney tocar ao vivo aqui no Rio de Janeiro. A última já havia sido espetacular. Lembro-me até hoje de que após vê-los abrindo para o Pearl Jam no show de dezembro de 2005, disse que o espetáculo magistral da banda de Eddie Vedder fora, para mim, gratuito, pois o Mudhoney já havia “pago o ingresso”, como se diz na gíria.

Desde aquele show espetacular, o Mudhoney lançou mais dois discos (a banda tem nove no total): Under a Billion Suns (2006) e The Lucky Ones (2008). E veio uma vez ao Brasil antes do show que vi, mas só tocaram em São Paulo no ano passado.

Assim, esta apresentação foi a primeira desde aquele dia 4 de dezembro de 2005. Num palco diferente (o grupo tocara no Sambódromo) e com muito menos gente – dos 40 mil daquela ocasião para uns mil ou talvez um pouco mais de agora – a banda de Seattle formada por Mark Arm (vocal e guitarra), Steve Turner (guitarra), Matt Lukin (baixo) e Dan Peters (bateria) manteve ao menos duas semelhanças com relação ao show de três anos atrás: a potência do seu som e uma apresentação irretocável.

O público era pequeno, mas aguerrido. Cantava boa parte das músicas, pulava muito, fazia as tradicionais (e, convenhamos, desnecessárias) rodas no meio da pista, enfim, era uma platéia empolgada. Muitos ali já tinham visto o Mudhoney tocar pelo menos uma vez, mas mantinham a alegria de ver a banda.

E aí está o grande diferencial dos shows pequenos atualmente. Os fãs ficam onde realmente deveria estar, grudados no palco, tentando subir para tocar nos ídolos e sendo violentamente jogadas para fora, fazendo toda aquela algazarra saudável. Bem diferente do cordão de isolamento chamado área vip dos médios e grandes shows da atualidade aonde os verdadeiros fãs, aqueles que chegam cedo para ficarem mais próximos do seus ídolos, aqueles que contam cada centavo do dinheiro para comprar o ingresso sempre absurdamente caro (o do Mudhoney nem estava tão caro, pois todos podiam pagar meia desde que levassem um livro ou um quilo de alimento não perecível para doar), ficam tão distantes daqueles que eles tanto admiram.

O preconceito forjado por organizadores incompetentes de espetáculos não existe em shows pequenos. Dessa forma, o fã fica próximo do ídolo e acontece aquela saudável alimentação cíclica. A banda toca bem, o público se empolga e faz a banda tocar melhor que empolga ainda mais a sua platéia. Isso faz os concertos serem inesquecíveis e diferencia um show correto, mas frio como o do Police de uma apresentação incendiária como a do Mudhoney ou a de um Iggy Pop, por exemplo.

Sem contar que só um show pequeno numa casa pequena, embora bastante aprazível, como o Circo Voador poderia proporcionar um encontro antes da apresentação entre fãs e banda como aconteceu com os aficionados que chegaram cedo na casa. Eles puderam tirar fotos, pedir autógrafos, gritar e espernear com a presença fortuita de Mark Arm e Steve Turner, que chegaram por volta das 23h, pouco antes do Rockz iniciar o show de abertura.

Por falar em Iggy Pop, é impossível não lembrar dele ao ver Mark Arm no palco. Nos momentos em que está sem a sua guitarra ele parece o velho roqueiro cantando. Os mesmos trejeitos, a mesma disposição. Um animal no palco. Quando o set exige mais um guitarrista, ele se transforma naquilo que Seattle produziu de melhor. É quase um Kurt Cobain no auge.

Nas mãos do Mudhoney está o que restou do grunge. O som que viveu o seu auge nos anos 90 capitaneado pelo Nirvana e pelo Pearl Jam, mas que tinha outros dois grandes representantes no Soundgarden e no Alice in Chains, acabou saindo do cenário com a bala que matou Cobain e a mudança de estilo da banda de Eddie Vedder para um rock mais tradicional.

É a cada show do Mudhoney, porém, que o pessoal da minha geração ressuscita as camisas de flanela xadrez e vai para imensas rodas no meio da platéia para celebrar por um momento aqueles dias pós-Nevermind (1991) e Ten (1991), talvez os dois mais importantes discos do grunge, respectivamente do Nirvana e do Pearl Jam.

Nas quase duas horas de espetáculo, a banda procurou cobrir toda a sua história com muito peso, distorção e tudo o mais que caracteriza o grunge. Se clássicos como “Touch me, I’m sick”, primeiro single do álbum de estréia do Mudhoney, “Superfuzz Bigmuff” (1988), continuam sendo uma das favoritas, e outras grandes músicas como “You gotta it (keep it out my face)”, “Sweet young thing and sweet no more” e “Hate the Police”, mostram que o Mudhoney não banda de uma música só, as novas canções mostram a qualidade do novo trabalho do grupo.

Cinco delas foram cantadas – pouco menos da metade do novo disco - e tiveram ótima recepção da galera. “The Lucky Ones” é a melhor, mas “I’m Now”, “Next Time” e “Tales of Terror” também têm seu valor e ajudam a manter o peso da banda. Elas também comprovam que o Mudhoney continua sendo uma banda essencial e que com eles o grunge nunca morrerá.

Foi difícil escolher quatro vídeos para postar aqui. Aqui vão algumas pedradas citadas acima:
“Touch me, I’m sick”


“You gotta it (keep it out my face)”



“Sweet young thing and sweet no more”



“The Lucky Ones”



sábado, 11 de outubro de 2008

Troféu olho de peroba

É sempre possível ficar impressionado com a cara-de-pau alheia. É que ela nunca tem limites. E no Brasil está sempre pronta para atingir novos estágios. O Brasil é, indubitavelmente, o país de caras-de-pau. E dessa vez não estou falando dos políticos. Falo de Carlos Arthur Nuzman.

Na semana passada, Nuzman convocou uma eleição as pressas, sem oposição, sem data marcada com antecedência, sem muita coisa que existe num regime que seja minimamente democrático. Ele convocou uma eleição para ser aclamado presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), entidade que comanda desde 1995, por mais quatro anos.

No subsolo de um hotel, como se fosse um gangster de quinta categoria jogando pôquer em Chicago, sem a presença da imprensa, Nuzman foi aclamado, aplaudido, homenageado por seus pares, que assim como ele têm como esporte favorito se eternizar no poder, e ficará no comando do COB pelos próximos quatro anos. Ora, quem fica 13, pode ficar 17, não acham?

Mas eu fico feliz que algumas pessoas não ficaram caladas e protestaram. Vejam só, Ricardo Teixeira, presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e no poder da entidade desde 1989, criticou a eleição. Disse que ela não foi transparente. Tendo Ricardo Teixeira como baluarte da democracia, eu realmente me sinto mais tranqüilo. Já posso até dormir.

É impressionante. Se eu tivesse que lançar o troféu óleo de peroba do esporte brasileiro teria muita dificuldade em saber a quem eu daria o prêmio. Mas Nuzman e Teixeira certamente sairiam na frente.

A cara-de-pau destes senhores, verdadeiros déspotas do esporte nacional não têm fim. Eu poderia dizer que pelo menos Nuzman fez uma eleição. De araque, mas fez. E o Ricardo Teixeira que foi automaticamente reeleito até 2014 quando a Fifa escolheu que o Brasil seria a sede da Copa?

É inadmissível que o comando do esporte olímpico brasileiro esteja na mão de uma única pessoa há tanto tempo. E o mesmo vale para o futebol brasileiro. Se o presidente da República, cargo máximo do país, por melhor ou pior que seja não fica mais do que oito anos no posto, como pode um dirigente de uma confederação ficar 17 ou 25 anos no poder? Que país é esse? Que democracia é essa?

A título de comparação. Desde que Nuzman assumiu o COB, cinco pessoas passaram pelo Ministério do Esporte do país. De Pelé a Orlando Silva, que, aliás, se cala sobre o episódio da reeleição fantasma mesmo sendo o responsável por repassar mais de R$ 700 milhões ao esporte brasileiro. Para ser mais esclarecedor, foram todos os ministros do Esporte que o Brasil teve, pois a pasta foi criada em 1995 durante o governo Fernando Henrique Cardoso. Ou seja, Ricardo Teixeira, assumiu a CBF antes mesmo que existisse um ministério sobre o assunto.

Ah, esqueci. O Nuzman deu duas entrevistas esclarecedoras (e estarrecedoras) para a ESPN Brasil que mostram tudo o que ele pensa sobre democracia. Durante o programa “Brasil Olímpico”, ele foi claro, cristalino. Disse com todas as letras: “Eu sou contra limitação de mandato”.

Na semana passada, após a “reeleição”, afirmou que não vê nenhum vantagem em ter um adversário e disse que o vôlei brasileiro quando ele foi dirigente da CBV só evoluiu quando ele “praticamente não tinha oposição. Tanto é que o entreguei campeão olímpico”.

Pode ter entregado o vôlei campeão olímpico, mas o esporte brasileiro sob o seu comando só teve campanhas pífias em todas os Jogos que disputou. Foram quatro Olimpíadas de fracassos retumbantes. Quatro Olimpíadas em que o esporte brasileiro viveu de heróis que lutaram muito para realizarem seus sonhos. Pois não há, nunca houve uma política esportiva para o país.

É lamentável e revoltante que o esporte brasileiro ainda viva na ditadura. Tomado por uma piscina cheia de ratos como magistralmente cantou Cazuza. Quando os “Fidéis” da Barra da Tijuca vão largar o osso? Alternância de poder é regra básica da democracia. Não importa se a gestão é boa ou pífia.

Depois disso tudo, só me resta protestar. Que país é esse? Como dizem as platéias a cada vez que esta música da Legião Urbana é tocada por aqui: “É a porra do Brasil”.





Cazuza - "O tempo não pára"



sábado, 4 de outubro de 2008

Tabelinha de craques

Walter Salles é um craque que a cada dia parece jogar melhor. Tirando a bomba “Água Negra” (2005), que ele mesmo disse que não gostou, desde “Central do Brasil” (1998), muito elogiado e premiado, mas que eu não gostei muito, ele tem feito filmes cada vez melhores seja sozinho ou com Daniela Thomas, sua parceira habitual.

“Diários de Motocicleta” (2004), cinebiografia do jovem Che Guevara antes de ele se tornar um líder revolucionário, já era uma obra-prima. E “Linha de Passe”, seu mais novo trabalho construído ao lado de Daniela, segue o “absurdo” padrão de qualidade que ele impõe à sua filmografia.

Capitaneado pela atriz premiada em Cannes Sandra Coverloni (Cleuza), o filme conta a história de uma dona-de-casa grávida que trabalha como empregada doméstica e se desdobra para cuidar dos quatro filhos, o moto boy Denis (João Baldasserini), o frentista evangélico Dinho (José Geraldo Rodrigues), o aspirante a jogador de futebol Dario (Vinicius de Oliveira, uma das estrelas de “Central do Brasil” e hoje com 23 anos), e o jovem Reginaldo (Kaique Jesus Santos).

Quatro filhos de pais diferentes que vivem dramas paralelos. Denis tenta se equilibrar entre suas aventuras sexuais, o pouco dinheiro e um filho para sustentar. Dinho se apega à religião para se recuperar do passado de crimes que sempre o persegue. Dario busca vencer no futebol mesmo já tendo 18 anos, uma idade cruel para jovens promessas, mas descobre que é preciso mais do que talento e sorte no mundo corrupto da bola. E Reginaldo passa a vida entre a escola e passeios de ônibus à procura da identidade do pai, que ele sabe ser apenas um motorista.

Em meio a isso tudo, Cleuza tem que se equilibrar em ser a provedora da casa, enfrentar as frustrações de seus filhos e manter o emprego numa casa de classe média-alta, pois é ele que coloca a comida no prato.

Além da relação co-sanguínea, Cleuza é o elo de ligação entre estes irmãos que saem por São Paulo construindo e desconstruindo suas histórias, tentando vencer na dura realidade brasileira.

Se filmes como “21 Gramas” (2003) e “Babel” (2006), ambos de Alejandro Gonzalez Iñarritu, partiam de diferentes pontos para se cruzarem em alguns momentos na história numa narrativa fragmentada, Walter Salles inverte essa relação e faz da casa pobre na periferia de São Paulo, o ponto de partida para esta família ganhar de alguma forma o mundo com seus dramas pessoais nunca compartilhados entre si.

E destas histórias a mais interessante é a de Dario. Ao desnudar o mundo podre do futebol, Walter Salles (e provavelmente nem era essa a intenção dele) expõe o que todo mundo já sabe, mas um filme sempre reforça de maneira importante, como é o calvário de jovens que tentam o estrelato no mundo da bola.

Bom jogador, Dario sabe que não vencerá nessa vida se não molhar a mão de quem deve ser molhada. O pagamento de propinas é apenas uma das faces perversas das divisões de base do futebol, que envolve dirigentes corruptos, empresários interesseiros que querem apenas o lucro, e, como conseqüência, clubes falidos. Mais ou menos como tem mostrado a série de reportagens da ESPN intitulada "O Buraco Negro do Futebol"

Sempre arraigado ao último fio de esperança e sabendo que só o talento não basta, Dario, num ótimo trabalho de Vinicius de Oliveira, tem a história mais comovente na minha opinião. E seu desfecho ainda é deixado em aberto como uma grande obra cinematográfica. Coisa de feras como David Lynch em “Cidade dos Sonhos” (2001), “Veludo Azul” (1986) ou “Império dos Sonhos” (2006).

Mas ao contrário das loucas obras de Lynch, o trabalho de Walter Salles mostra um recorte da realidade e não uma história acabada. Adoro filmes com este tipo de construção.

Com seu título de metáfora futebolística, só posso dizer, portanto, que “Linha de Passe” é coisa de craque. De um craque chamado Walter Salles, que agora trabalha para finalizar seu mais novo trabalho, “On the Road”, filmagem do famoso e cultuado livro de Jack Kerouac com previsão de lançamento para o ano que vem. Alguém tem dúvida de que será outro grande filme?