sábado, 27 de setembro de 2008

A cegueira onde se deve ver

Fazer comparações entre livros e os filmes feitos com base em suas histórias é tão inevitável quanto cruel. Embora haja películas bastante elogiadas por sua fidelidade à obra na qual foram inspiradas, nunca é possível transpor toda uma história contida em 200, 300 ou 400 páginas em duas horas de filme. O que eu não esperava é que “Ensaio sobre a cegueira”, o filme, - o trabalho que eu mais aguardava neste ano – fosse tão decepcionante, apesar da total fidelidade ao que é mostrado, quando comparado a “Ensaio sobre a cegueira”, o livro, obra-prima do português José Saramago.

Digo isso sabendo que o próprio Saramago aprovou a obra de Fernando Meirelles. Compreendeu as necessidades de cortes na história e da transposição para uma outra realidade. Saramago viu o filme e considerou o trabalho de Meirelles genial.

Portanto, ter a ousadia de discordar do próprio autor e de praticamente 90% da crítica nacional e internacional pode até soar um tanto quanto petulante, mas tenho meus motivos e, com base na leitura do livro e ao assistir o filme, hei de expô-los agora. É claro que o debate é aberto e a discussão é livre a quem quiser participar.

Antes de qualquer coisa é necessário dizer que “Ensaio sobre a cegueira” não é um filme ruim. Longe disso. Não pode ser considerado um trabalho de baixo nível uma película que tem uma Julianne Moore (sempre maravilhosa atriz) vivendo com intensidade toda a dor da mulher do médico. Ou um Mark Ruffalo (o médico) provando que sua boa atuação como o inspetor David Toschi em “Zodíaco” (2007) não foi apenas um isolado trabalho competente. Ele vive um novo patamar.

Até mesmo Danny Glover, ator limitado mais conhecido pelo detetive Roger Mortaugh, parceiro de Martin Riggs (Mel Gibson) na série de filmes “Máquina Mortífera”, surpreende no papel do velho da venda preta.

Por outro lado, “Ensaio sobre a cegueira” é o pior trabalho de Meirelles desde que ele atingiu o patamar de diretor de ponta. Guardados os devidos estilos, seu novo trabalho é bastante inferior a “Cidade de Deus” (2002) e “O Jardineiro Fiel” (2005).

Se é necessário apontar culpados pela película ser decepcionante – e um deles é a própria expectativa que eu tinha do filme – meu pêndulo acusador vai para Meirelles e suas escolhas, que considerei um tanto quanto equivocadas, e o roteirista Don McKellar, que não conseguiu transpor satisfatoriamente a história de Saramago para a tela grande do cinema.

O grande problema de “Ensaio sobre a cegueira” está ironicamente pelo que não se vê. Se na história de Saramago, os personagens são tomados por uma cegueira branca que os fazem viver eternamente numa paisagem leitosa, num mar de leite, o trabalho de Meirelles inclui inquietantes planos escuros que escondem praticamente toda a náusea, a crueldade que o livro de Saramago descreve ricamente. Sim, eu sei que a questão da eletricidade é descrita pelo escritor e que Meirelles não está de todo errado em jogar essa escuridão na tela. Contudo, isso também vira um elemento de fuga para o que o livro tem de mais inquietante.

O incómodo gerado pela leitura jamais é sentido ao assistir ao filme. Temeroso e surpreso, Meirelles chegou a declarar que o filme era pesado demais para a abertura de um festival como Cannes, o que aconteceu neste ano. Eu diria que ele é bem soft diante da escrita nauseante de Saramago. O escritor sim implementou uma leitura por vezes difícil de engolir, com capítulos em que, por vezes, é necessário parar para respirar e tentar esquecer que algo tão opressor pode acontecer na sociedade que eu, você, qualquer um capaz de ler isto, faz parte.

Não sei se foi para se incluir na censura de 16 anos, mas o trabalho de Meirelles não tem o peso que o livro impõe. O que é estranho se pensarmos o quão cru – apesar da estética pop – foi o diretor ao fazer “Cidade de Deus”. Se a embalagem videoclípica aliviava até certo ponto momentos lancinantes deste trabalho, não dá para não dizer que ele não teve seu grau de ousadia e risco. No caso de “Ensaio sobre a cegueira”, talvez fosse preciso ser mais ousado e pegar uma classificação adulta. Seria o melhor caminho para a fidelidade da obra.

Meirelles se impõe pudores e censuras que não surgem na prosa de Saramago. Na sua mão, cenas como a do banho das três mulheres na varanda já no final da obra deixam de ser um momento que eu descreveria como de purificação, principalmente pelo que vem em seguida, e se tornam quase uma brincadeira entre amigas, com direito a uma leve insinuação lésbica. Mas talvez eu esteja sendo excessivamente maldoso.

Para as terríveis cenas de estupro, a escuridão acalentadora que escondem a torpe violência e o boquete da mulher do médico que praticamente inexiste. Da mesma forma, é escondido outro momento tenso do livro, com a mulher do médico matando a tesouradas o “rei da ala 3” do sanatório, vivido por Gael Garcia Bernal.

Não estou aqui defendendo que o filme fosse uma obra pornográfica e sanguinolenta. Porém, Saramago descreve com crua riqueza todas essas cenas que são inexplicavelmente escondidas. Este é um dos momentos de náusea que o livro provoca e que aumentaria exponencialmente no cinema. Optou-se, infelizmente, pela insinuação.

É um trágico desperdício também a cena da Igreja. Tão impactante na obra de Saramago o momento em que são descritas as imagens com os olhos vendados, ela virou uma mera passagem curiosa naquele mundo de cegos que então se vive.

Além de mais leve do que o livro, o filme também peca pelo roteiro que teve suas situações mal coladas na passagem da literatura para o cinema. Na sua primeira hora, o filme caminha bem ao contar a história de uma misteriosa epidemia de cegueira branca que assola a população, mas a partir dos 40 minutos finais (a película tem 2h1min), se começa a correr demais com a história, cortar situações importantes (exemplo: a vida não fica uma maravilha quando os cegos saem do sanatório) e o filme fica deveras capenga neste momento.

Talvez fosse o caso de Meirelles ter feito um trabalho de três horas. Acredito que, apesar das dificuldades que um filme tão longo possa ter para ficar no circuito, contaria melhor a história de Saramago sem que fosse preciso mudar a marcha.

Lamentável também é a imposição do capital japonês, um dos que bancam o filme junto com o brasileiro e o canadense, no trabalho, que fazem o ator Yusuke Iseya viver o primeiro cego. Tudo bem que Saramago não descreve a etnia e o jeito das pessoas no livro, mas como ele se passa obviamente em Portugal e não há qualquer menção a um estrangeiro, é natural que ele não seja do Oriente. Isso não podia acontecer logo num personagem importante, mas reconheço que são os ossos do ofício.

É com tristeza, portanto, que digo que “Ensaio sobre a cegueira” não passa de um ensaio com muita cegueira de Meirelles. Seu filme nunca provoca, não seduz, não incomoda o espectador. Apesar destas e de outras ressalvas, é sem dúvida bom trabalho, mas está longe de ser a obra genial que o diretor podia ter feito. Faltou-lhe a ousadia de outrora.

Por outro lado, talvez eu tenha sido “contaminado” pelo livro e esteja agora exigindo demais. Um problema que não aconteceu com “O Jardineiro Fiel”, por exemplo, pois eu nunca li o livro e acho o trabalho de Meirelles acima da média. Mas ainda assim, acredito que “Ensaio sobre a cegueira” poderia ter sido menos decepcionante e mais arrebatador. Uma pena.

domingo, 21 de setembro de 2008

Um dia em terreno inimigo

Eu poderia começar esta crítica dizendo que nunca se deve deixar uma mulher escolher um filme. Mas eu não quero perder leitoras, afinal meu público já é bastante pequeno. Por outro lado, o título já é uma pequena provocação. Não com as leitoras, evidentemente, mas talvez com a situação.

Pois bem, deixei minha guitarra e amplificador em casa e fui ao cinema assistir “O mistério do samba”, documentário de Carolina Jabor e Lula Buarque de Holanda sobre a Velha Guarda da Portela. Se eu disser que sai da sala em êxtase, cantando e batendo palmas como 90% da platéia, eu estaria mentindo. Não, não paguei esse mico de bater palma para ninguém. Até onde eu sei, telas de cinema ainda não são interativas. Tipo ter uma manifestação agora e de algum ponto no fundo da película a Marisa Monte agradecer por aquilo.

Além disso, não bato palmas para qualquer coisa. Sou chato e valorizo a qualidade artística. Se eu batesse palmas para tudo, o bater de palmas seria absolutamente banalizado.

Tudo bem, estou sendo muito garoto enxaqueca. Mas eu juro de pés juntos que gostei do filme. Embora Marisa funcione muito melhor como cantora do que como repórter, postura que ela por vezes adota no longa, achei um documentário interessante. Nostálgico, é verdade. Mas diante do caos atual, como não reverenciar o passado? Diante das marchas imperiais do Carnaval do Sambódromo, como não gostar daquela malandragem, da fina ironia, dos amores e da simplicidade bem construída das letras daqueles sambistas sexagenários, septuagenários que fizeram a história da Portela e, é claro, do samba carioca?

Acho que o maior mérito de “O mistério do samba” é o resgate das deliciosas histórias que rolaram lá por Osvaldo Cruz, Madureira, enfim, toda aquela área que é berço do samba de qualidade (eu posso não gostar de samba, mas reconheço o que é bom ou ruim). É uma maneira de manter eternamente viva toda essa riqueza que se perderia no tempo com a morte de seus personagens se não tivesse sido registrada de alguma forma.

Por isso, deve-se reverenciar Marisa, Carolina e Lula (o Buarque, evidentemente, e não o Luiz Inácio). Mais do que um trabalho cinematográfico, eles fizeram uma expedição arqueológica do samba carioca.

Encontraram ótimas histórias, excelentes pessoas, e entrecortaram com boas rodas de samba, conversa e cerveja. Claro, com Zeca Pagodinho no quadro é natural saber qual é o copo que está sempre cheio.

Enfim, “O mistério do samba” tem o valor de ser um documento histórico mais do que um filme. E tenho a impressão de que com o passar dos anos, será uma obra cada vez mais importante. Agora deixa eu pegar minha guitarra de volta, pois eu gosto mesmo é de “Satisfaction”.

domingo, 14 de setembro de 2008

Tarja segue arrebatando corações

Promessa é dívida. Antes tarde do que nunca, vamos a alguns comentários sobre o show da Tarja Turunen há duas semanas.

Descrevi aqui neste espaço no final do mês passado sobre o quão encantado fiquei quando vi Tarja cantando pela primeira vez. Na ocasião eu fora a um show do Nightwish no Canecão. Há duas semanas, retornei à mesma casa de shows em Botafogo para assistir ao espetáculo de sua primeira turnê em carreira solo: “My Winter Storm”, nome do (bom) disco recém-lançado da cantora.

Após 1h45m de show, posso dizer que Tarja continua me encantando pelos mesmos motivos que há quase quatro anos: sua voz incrível, seu domínio absoluto do palco, sua energia e, claro, sua beleza capitaneada por duas esmeraldas na face no lugar de onde deveriam estar seus olhos.

Tarja é uma deusa finlandesa no palco que magnetiza todos os olhares, recolhe para si todos os flashes das câmeras (como vocês vão notar nos vídeos que selecionei e estão abaixo). Ofusca mesmo uma banda extremamente competente e que conta com nomes conhecidos como o guitarrista brasileiro Kiko Loureiro e o baixista Doug Wimbish, do Living Colour.

Eles, ao lado do baterista Mike Terrana, da tecladista Maria Ilmoniemi e do violoncelista Max Lilja, seguram muito bem a cozinha para Tarja brilhar intensamente num set que, obviamente, privilegia as canções de seu novo álbum como “Boy and the ghost”, que abre o show, a bela “Sing for Me”, “Lost Northern Star” e “Our great divide”.

A apresentação é composta por vários momentos marcantes e Tarja se sente bastante à vontade num palco do Brasil, onde recebe um amor incondicional dos seus fãs. Ela retribui cantando músicas do Nightwish. Toca “Nemo”, talvez o grande sucesso comercial do grupo, e “Wishmaster”, cantada em coro pela galera.

Mas os fãs provam que são realmente seguidores fiéis de Tarja e mostram conhecimento de sua nova fase ao cantarem com a mesma intensidade uma música como a linda “I Walk Alone”, que foi o primeiro single do disco novo.

Outra música de muito sucesso nas paradas da casa é a ótima “Poison”, cover de uma canção de Alice Cooper que cai realmente no gosto de quem ouve na linda voz da finlandesa.

Dois bis depois e Tarja parecia já ter tocado o disco quase todo. Com direito a um momento à capela com Kiko Loureiro no violão e ela entoando “Calling Grace”. Satisfeita consigo mesma e vendo seus fãs extasiados, ela promete retornar mais rapidamente do que o cruel intervalo de quatro anos que representou o hiato entre a vinda com o Nightwish e sua carreira solo.

Esperamos que ela cumpra realmente essa promessa. É sempre muito bom ver Tarja cantando. É maravilhoso vê-la no palco. Pelo menos para os que gostam de metal melódico.

Três grandes momentos do show. Tarja cantando “Poison”, “I Walk Alone” e Wishmaster”.





segunda-feira, 8 de setembro de 2008

A deusa e suas escolhas


Angelina Jolie não é má atriz. Ela pode não ser uma Helen Mirren ou uma Meryl Streep, mas tem seu valor. No entanto, por vezes ela faz cada escolha que é uma verdadeira bomba. Ultimamente então, ela tem se revezado entre um bom filme e outro absolutamente dispensável.

Fez “Alexandre” em 2004, no vergonhoso papel de mãe de Colin Farrel, a versão bicha louca daquele que outrora ficou conhecido como “O Grande”. Se recuperou em seguida com o divertido pipoca “Sr. e Srs. Smith” (2005), filme de ação em que contracena com o marido e ganhador da Mega Sena exatamente por isso Brad Pitt. Em seguida, um excelente filme de espionagem “O Bom Pastor” (2006), mas com uma atuação abaixo da crítica emendada posteriormente com outro filme constrangedor “Beowulf” (2007). No mesmo ano, a recuperação com a elogiada atuação em “A might heart” e uma indicação ao Oscar que ela já venceu em 1999 por “Garota, Interrompida”.

Entre filmes “sim” e filmes “não”, “O Procurado” é um filme não. Claro que a culpa deste filme dirigido pelo russo Timur Bekmambetov ser ruim não é da atuação piloto automático de La Jolie, que não faz muito esforço a não ser a cara de mau com aqueles lábios carnudos bem fechados, o olhar para o infinito e a maquiagem escura nos olhos fazendo o resto do serviço para que ela fique bem, digamos, “assassina” de uma Fraternidade. Pensando bem, precisa mais do que isso num filme de ação?

A culpa desta bomba também não é de Morgan Freeman, excelente ator que aparentemente estava ali ganhando uns trocados, ou de James McAvoy, elogiado por sua atuação no indicado ao Oscar “Desejo e reparação” (2007), outro ótimo filme, mas que nesta película não convence como um loser que vira um assassino. Taí outro problema da fita. Dá para confiar que um loser virará um assassino? É quase tão difícil quanto acreditar em balas que mudam de direção. Por essa nem os traficantes cariocas esperavam.

Enfim, o filme é ruim pelo conjunto da obra que vai da direção tosca que tenta imitar John Woo com suas câmeras lentas, que são mais sonolentas do que licença poética, ao roteiro sem pé nem cabeça do trio Michael Brendt, Derek Hass e Chris Morgan que, entre outras pérolas inventa a história de um grupo de assassinos que recebe ordens supostamente do destino com pedidos de assassinato vindo de marcas no tecido (será que a camisa que estou vestindo diz alguma coisa?).

Ainda há espaço para uma reflexão rala sobre livre arbítrio, fazer seu próprio destino e brincar de Deus. Ela acontece mais ou menos entre um salto e outro em câmera lenta e balas e contra-balas se chocando. Tudo muito estético, tudo muito viajante, so boring.

Linda e milionária, penso que Angelina não precisava disso. Mas ao lembrar de “Sr. e Srs. Smith”, um filme de ação com muito tiroteio, mas divertido como já disso, acho que só posso concluir que ela gosta de um pouco de adrenalina de vez em quando. Um pouco dessas injeções deve lhe fazer bem entre um filme sério e outro.

“O Procurado” é sem dúvida uma bola fora de nossa deusa. Para não dizer que o filme é uma completa perda de tempo e dinheiro, posso dizer que a câmera tem um ângulo um pouco maior do que o mostrado na foto acima. Afinal, alguma coisa tinha que ser nota 10 neste filme.

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PS: Sim, eu sei que prometi falar sobre o show da Tarja hoje, mas não pude concluir o comentário que estava preparando. Prometo que o próximo post será sobre ela.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Escorpião verde e amarelo

Vamos combinar uma coisa. O Brasil é legal, o Brasil é maravilhoso, Brazil is beautiful, Brazil is hot, mas não tem qualquer peso no mercado fonográfico mundial. Vender discos aqui ou não, não faria qualquer diferença para uma banda mundialmente conhecida. Tudo bem que vender discos hoje é um detalhe, mas isso é papo para outro post e no final das contas vocês me entenderam.

Portanto, uma banda internacional que vem seis vezes ao país é porque realmente gosta de tocar por aqui. E dessa vez o Scorpions fez de tudo para que o show no HSBC Arena fosse uma homenagem inesquecível aos brasileiros. Até questões de como sairiam as músicas acústicas – que, aliás, nem foram tão acústicas assim, mas isso fica para mais para baixo – ficaram relegadas ao segundo plano. O show de sábado passado ficará conhecido como o que rendeu homenagens, e algumas críticas, ao nosso país.

Como esquecer o vocalista Klaus Meine cantando em muito bom português “Cidade Maravilhosa” (tudo bem, ele falava txidade maravilhôssa, mas se eu tenho dificuldades para falar “ich” ou qualquer palavra que tenha trema em alemão, por que ele não pode ter algum sotaque?) e lembrando o espetáculo da banda no Rock in Rio em 1985?

E o baterista James Kottak com gorrinho do Brasil e bandeira pendurada no gongo ao fundo? Sem contar a mensagem “Rio Rock$” em frente ao palco e os muitos convidados. Foram três backing vocals e três percussionistas nacionais para fazer um batuque maneiro – com exceção do samba que eles ensaiaram com o batera – e o guitarrista do Sepultura (ainda existe o Sepultura?), Andreas Kisser, para fazer a pauleira ficar ainda melhor.

Em suma, bom ou ruim é uma questão pessoal, mas o que não se pode dizer é que o show do Scorpions não foi simpático. Teve até uma puxada de orelha com imagens da Amazônia ardendo em chamas e protestos do Greenpeace durante a execução de “Humanity”. Ora, quem gosta e é amigo também deve fazer uma crítica pertinente.

O clima era tão cool que teve espaço até para dois “Happy Birthdays” puxados pelo baixista Pawel Maciwoda e cantados pela platéia em homenagem ao aniversariante Rudolf Schenker, que fez 60 anos.

Além de simpático o espetáculo pode ser definido também como divertido. Acho que pouquíssimas pessoas não devem ter saído com um sorriso no rosto. Até porque, apesar do clima grande família, o Scorpions fez e muito bem o seu trabalho e cantou os clássicos que a galera queria ouvir como “Wind of change” (maravilhosa), “Still Loving you” (espetacular, tocante, emocionante) e “Rock you like a hurricane” (uma pauleira que fechou magistralmente o show oficial, pois depois teve mais uma música de bônus, “A moment in a million years”).

Antes do show havia alguma resistência quanto ao fato do Scorpions tocar algumas canções no formato acústico como vem fazendo na turnê. Fãs mais xiitas não gostaram disso e alguns até deixaram de ir enquanto outros poderiam até pensar em ir, mas desistiram por causa do indecente preço do ingresso, nunca inferior a R$ 130. Talvez isso possa explicar o baixo quorum no HSBC Arena. Estava tão vazio que a casa resolveu até fechar o setor de arquibancada 3 levando alguns sortudos, portanto, (eu entre eles) para o setor 1, mais perto. Ainda assim, a pista estava na metade da sua capacidade.

Não sou muito bom de “olhômetro”, mas calculo que tenha tido umas quatro mil pessoas na casa. O suficiente para abarrotar um Citibank Hall, mas que deixa claros na Arena, que deve caber umas 10 mil pessoas.

Bom, se havia algum temor quanto ao formato acústico, pode-se dizer que o Scorpions não desapontou e, mais do que isso, agradou a gregos e troianos. Além do set list rico em clássicos, a banda abriu um show, que durou pouco mais de duas horas, com o puro rock and roll capitaneado pelas guitarras de Rudolf e Matthias Jabs. Neste primeiro momento, passaram pelo palco canções novas – “Hour I”, que abre o espetáculo – e conhecidas como “Bad boys running wild” e “The Zoo”. Com a banda já com a platéia na mão, Andreas Kisser entra em cena para um mega solo intraguitarras durante “Coast to coast”. Estratégia para que o palco fosse arrumado com os banquinhos, violões e instrumentos de percussão.

“Always somewhere” abriu o set acústico, ou melhor, semi-acústico, pois os caras estavam relativamente plugados, a bateria era a mesma, o baixo não mudou e os violões só faziam, obviamente, um som um pouco mais abafado e menos estridente. Enfim, não chegou a ser um João Gilberto para assustar os fãs, que foram completamente conquistados pelo novo, digamos, formato, em “Dust in the wind”, que realmente fica excelente.

Havia ainda outra diferença em relação ao que o Scorpions registrou em um DVD (“Momento f glory”). Foi exatamente a participação dos músicos brasileiros. Lembremos que o set acústico do Scorpions sempre usa músicos e instrumentos clássicos como violoncelos. No Brasil, foi dado um toque mais de percussão que causou grande diferença principalmente em “Wind of change”. Aquelas batucadas e as backing vocals ao fundo ficaram bem legais e a canção ganhou um formato único. Foi para guardar como um daqueles momentos inesquecíveis para quem gosta do Scorpions (e não é muito xiita). “Holiday” foi outra música inesquecível da noite.

Após o set acústico estrategicamente colocado no meio do show, o Scorpions voltou para a sua melhor leva de canções a fim de fechar a noite lá em cima na sua cotação com a galera brasileira. Além das já citadas “Still Loving You” e “Rock you like a hurricane”, cantadas em coro pela platéia, é nesta parte que eles tocam “Big City Nights” e “Blackout”. Vimos uma coleção de grandes canções nos 40 minutos finais.

Enfim, o show do Scorpions foi acima de tudo uma grande festa. E os que ganharam foram os fãs que encararam o frio, a chuva e a distância do HSBC Arena para ver uma ótima apresentação. Que o Scorpions continue vindo ao Brasil com freqüência e sempre sem medo de arriscar. É sempre bom ouvir novidades das boas velharias.

PS: No domingo falarei sobre o outro show do final de semana, da cantora Tarja Turunen no Canecão.

Abaixo, o Scorpions arrebentando no Rio de Janeiro. Na seqüência, “Still Loving You”, “Rock you like a hurricane”, “Wind of Change” e “Dust in the wind”.








sábado, 30 de agosto de 2008

Um tiro de canhão em Obama

Um dia depois do apoteótico fim da convenção democrata que formalizou a chapa Barack Obama-Joe Biden para a presidência dos Estados Unidos, o candidato republicano, John McCain, dá um golpe de mestre que pode representar um tiro de canhão na candidatura de Obama ao anunciar como sua vice a governadora do Alasca, Sarah Palin.

Apresentada como “exatamente o que a América precisa”, Sarah derrubou favoritos como Mitt Romney e Joe Lieberman e pode dinamitar daqui para frente não apenas Obama como também Hillary Clinton.

O que McCain quis dizer com a frase “exatamente o que a América precisa”? Isso significa que Sarah é conservadora, mãe de família – ela tem cinco filhos, sendo um com síndrome de down e outro militar que parte para o Iraque exatamente no dia 11 de setembro -, contrária ao aborto, apaixonada por pesca e caça e integrante da polêmica Associação Nacional do Rifle. Ela é a perfeita republicana.

Como se não bastasse tudo isso, Sarah ainda é bonita (ela é ex-modelo e ficou em segundo lugar no concurso de Miss Alasca em 1984), jovem (tem 44 anos, três a menos do que Obama) e uma governadora bem avaliada.

Sarah é uma típica americana e fez questão de parecer assim quando surgiu ao lado de McCain com um visual bem anos 50, não por acaso uma "era romântica" para os Estados Unidos.

Se Joe Biden, com seus 65 anos e o status de presidir a Comissão de Relações Exteriores do Senado, foi o antídoto arranjado por Obama das acusações de que era muito jovem e inexperiente em assuntos internacionais, o contragolpe de McCain, 72 anos e chamado de velho demais, foi perfeito ao anunciar exatamente uma mulher, jovem, conservadora e ótima mãe de família. Sarah é perfeita para conquistar a classe média, os trabalhadores e o voto das mulheres. Algo, aliás, que ela já demonstrou querer logo na estréia no palanque de McCain ao avisar que “ainda não acabou a missão das mulheres”.

Obama e o Partido Democrata ganharam um problema para a reta final da campanha americana e uma derrota neste pleito pode representar para eles no mínimo mais 12 anos longe da Casa Branca. Isso se McCain não quiser um segundo mandato. Do contrário, ele terá um trunfo bem ao seu lado. Sarah roubaria facilmente o sonho de Hillary de ser a primeira mulher presidente dos Estados Unidos.

Para anular este pior cenário, Obama terá que rebolar muito, como se diz aqui no Brasil. É chegada a hora do discurso da mudança colar realmente e de posições mais pragmáticas que conquistem os trabalhadores, o eleitorado latino e as mulheres. Para isso, a ajuda de Hillary será fundamental. Novamente, estúpido, é a economia que pode decidir. Do contrário, não terá adiantado nada ter arrecadado mais dinheiro, feito discursos históricos e lembrar Martin Luther King dizendo que “o sonho americano continua”. Para que ele finalmente vire realidade, é preciso agir.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Dois bons shows nesta semana


Não me lembro da última vez que tivemos um final de semana tão interessante e com dois bons shows como teremos nesta semana. No sábado, os veteraníssimos Scorpions voltam ao Brasil pela, bem, não vou me arriscar a dizer quantas vezes eles tocaram por aqui. Digamos que o Scorpions vem para mais um show em que estão garantidos clássicos como “Rock you like a hurricane”, “Wind of Change”, “No one like you”, “Dust in the wind” e “Still Loving You”.

Serão muitas emoções na HSBC Arena com a banda alemã formada na segunda metade dos anos 60 que atualmente conta no seu line up com o vocalista Klaus Meine, os guitarristas Matthias Jabs e Rudolf Schenker, o baixista Pawel Maciwoda e o baterista James Kottak.

Em turnê com o seu 21º disco, “Humanity: Hour I”, lançado no ano passado, o Scorpions promete um set acústico. Sim, meus amigos, banquinho e violão para as feras alemãs do heavy metal.

Será interessante acompanhar algumas músicas neste novo formato. Pelo que vi dando uma vasculhada no "Youtube", elas ficaram diferentes. Palatáveis, até agradáveis, mas definitivamente diferentes. Como ninguém é de ferro, porém, principalmente o conservador fã do metal, eles também prometem um set list pesado como nos bons tempos.

No domingo, o show que tenho mais curiosidade de assistir. Quase quatro anos depois da sua última apresentação com o Nightwish no mesmo Canecão que a acolherá, a finlandesa Tarja Turunen vem ao Rio para sua primeira turnê como cantora solo.
Tarja deixou o Nightwish em 2005 – a banda, inclusive, já tem vocalista nova, Anette Olzon, e também promete visitar o país em dezembro, mas não foi confirmada ainda uma data carioca – pelas famosas “divergências musicais” e agora dá a largada nesta nova fase da carreira após lançar seu primeiro e bom disco, “My winter storm”.

Além de músicas dos seis álbuns de estúdio do Nightwish, esta apresentação será bastante focada no repertório novo, que tem pelo menos três ótimas canções “Poison”, “I walk alone” e “Die Alive”.

Na primeira vez que eu vi Tarja cantando, durante a turnê do disco “Once” (2004) do Nightwish, fiquei completamente apaixonado por ela. Ela canta demais – além de ser linda nesta mesma proporção - e entra no palco completamente possuída pelos deuses do metal (melódico, evidentemente). E pelo que andei vendo na internet, a cantora de 31 anos continua em grande forma.

Vamos ver como os dois se saem no fim de semana. Como aperitivo, quatro vídeos. O Scorpions cantando “Dust in the wind” e “Still Loving you” em versão acústica em Portugal, e Tarja detonando em duas músicas do novo disco “I walk alone” e “Poison”, em show em Zurique, na Suíça.








sábado, 23 de agosto de 2008

Eu sempre vou acreditar

Ir ao cinema para assistir a “Arquivo X – Eu quero acreditar” foi como rever velhos amigos. Depois de acompanhar por 10 anos a série que eu modestamente considero a melhor de todos os tempos e sofrer com o seu fim, embora reconheça que ele era necessário desde a saída de David Duchovny (Fox Mulder) e a natural falta de criatividade e repetição de roteiros depois de mais de 100 episódios, rever Mulder e Dana Scully (Gillian Anderson) foi como matar a saudade de tempos românticos.

Voltar às tensas quartas-feiras da Fox para saber o que iria acontecer com Mulder e Scully. Acompanhar as descobertas de um e o anteparo cético, filosófico, científico da outra.

A nova aventura no cinema, agora não mais atrelada à série como fora o primeiro filme, de 1998, mantém a qualidade de um dos muitos bons episódios que nós os fãs gostávamos de ver. Marcam presença o suspense, o mistério e um tom de sobrenatural junto a investigação de um crime bizarro. Junto disso, a dúvida.

A dúvida sempre foi o grande “personagem” de Arquivo X. Você nunca sabia se aquele cara que aparece na tela era mocinho ou bandido (às vezes ele era um pouco dos dois). É possível confiar nele ou não? O que ele diz é verdade ou não? Montar o quebra-cabeça e esperar a reviravolta no capítulo era algo delicioso.

Neste novo filme, Mulder e Scully, agora finalmente juntos desde o último capítulo da décima temporada, não são mais agentes do FBI. Ela trabalha em um hospital comandado por padres enquanto Mulder vive recluso para que os federais não o descubram e tentem prendê-lo. Lembremos que no final da série eles são perseguidos e têm que se esconder. Lutar pela verdade tem seu preço.

Mas o sumiço de uma agente e a ligação de um ex-padre pedófilo que parece ter visões com o crime, levam o FBI, disposto a retirar todas as queixas, a procurar Mulder, um especialista nos Arquivos X. Em mais um caso envolvendo fé, ciência, religião e a capacidade de acreditar em forças maiores ou não é que Mulder volta a ativa.

Escrever mais estragaria a história. Só posso dizer que ”Arquivo X – Eu quero acreditar” é um filme honesto com os fãs da série. Tem apenas um defeito. Não conquista novos admiradores.

O filme é como um grande episódio para os fãs. Quem não acompanhava a série não vai entender muitas referências, personagens e todo o clima “Arquivo X”. O pôster de Mulder com o OVNI e a frase “I want to believe”, a história de Samantha, a irmã morta de Mulder, ou as sementes de girassol (que, aliás, são gostosas, devo admitir). Ou talvez a brincadeira do tema do filme e da série sendo tocado num momento em que a câmera foca um foto de George W. Bush.

Uma outra piada, no entanto, que acontece já no final do filme será entendida pelas novas gerações. Principalmente as que acompanham “Lost” e após assistir à película conseguirão entender por que muitos comparam as duas séries. Foi uma boa sacada dos roteiristas Chris Carter e Frank Spotnitz.

Embora tenha dado entrevistas afirmando que desejava expandir o universo de fãs de “Arquivo X”, Carter, também diretor do filme, infelizmente não conseguiu isso. Não é a toa que o filme não arrecadou o esperado. Paciência. O diretor, aliás, promete continuar fazendo novos filmes. Nós, os fãs, agradecemos.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

O Ameriquinha do mundo

No momento em que escrevo este texto, o Brasil ocupava o 39º lugar no quadro de medalhas dos Jogos Olímpicos de Pequim. Atrás de “potências” como Estônia, Mongólia, Zimbábue, Etiópia e Coréia do Norte com uma única medalha de ouro e cinco de bronze. Um desempenho pífio para um país que tem dimensões continentais.

É claro que até o fim dos Jogos o país vai melhorar sua posição no “ranking” – ainda faltam as medalhas certas do vôlei e futebol feminino, por exemplo -, vai conquistar mais medalhas. Quem sabe até supere o recorde de ouros (cinco em Atenas, há quatro anos) e de total de medalhas (16 em Atlanta-1996). Ainda assim, embora muitos dirigentes – aqueles de sempre, aliás - estejam preparados para alardear que será o melhor desempenho da história do Brasil nas Olimpíadas, a verdade é que o país mais uma vez terá uma participação lamentável nos Jogos.

O Brasil é campeão mundial sim de desperdício de talento. Não preciso viajar pelo país ou mesmo sair daqui da tela do meu computador para saber que diariamente este país perde campeões, os joga no esgoto mesmo. Pela falta de oportunidades, pela falta de políticas públicas, de parcerias sérias com empresas privadas, com escolas, universidades.

Tudo é desperdiçado enquanto o país vive a ilusão dos Jogos Pan-Americanos. Quando a Olimpíada vem no ano seguinte o Brasil conhece a sua verdadeira dimensão que é a de um país pequeno. Do tamanho do Bahrein, Camarões ou Panamá, com quem divide a “honra” de ter uma única medalha dourada.

É muito desperdício de talento em 180 milhões de habitantes e uma área de mais de oito milhões de quilômetros quadrados. É triste notar que a cinco dias do fim das Olimpíadas, 636 medalhas foram distribuídas e o país conquistou apenas seis. Está atrás não apenas de “potências” como Azerbaijão, Geórgia e Quênia, mas de atletas como Michael Phelps, fenômeno da natação que conquistou oito medalhas de ouro em Pequim. Se Phelps fosse um país, diria que certamente terminaria os Jogos na frente do Brasil no quadro de medalhas. Não é difícil imaginar isso, uma vez que o Brasil nunca conquistou mais do que cinco medalhas de ouro em uma Olimpíada.

O Brasil é um gigante que esportivamente nunca acordou. As medalhas de bronze conquistadas por Keitlyn Quadros, Leandro Guilheiro e Tiago Camilo, pelas meninas da vela, e o ouro e o bronze do nadador César Cielo, assim como todas as outras desde o atirador Guilherme Paraense, ouro em Antuérpia (1920), foram vencidas por heróis. É disso que o país vive. De heróis que de quatro em quatro anos surgem para dar uma alegria a um povo que é simpático às demais nações exatamente porque nunca ameaçou a hegemonia esportiva delas.

Por mais que algumas confederações como a de judô e a de vôlei façam um bom trabalho que já atravessa pelo menos seis ciclos olímpicos, são casos isolados, atividades esparsas.

Quando este país deixará de ser uma nação de losers? Pois hoje, o Brasil é o Ameriquinha do mundo. Todo mundo adora. É uma espécie de segunda nação dos países desenvolvidos. Quando ganha uma medalha todos aplaudem e comemoram, assim como fazem as torcidas do Rio quando o América chega a uma decisão ou fica perto dela. Foi assim quando Cielo ganhou o ouro nos 50m livre. Todo mundo riu, chorou, se emocionou. Tudo lindo. É bom ver uma nação loser ganhar de vez em quando. Só que isso é muito pouco para um país gigante como o nosso.

Mas, salvo raras exceções, sempre vai se esconder a verdade da população. O oba-oba passa por todos, de órgãos oficiais até o povão. Não importa que Guilheiro ou Tiago Camilo tenham uma postura de verdadeiros campeões dizendo que não estão satisfeitos com as medalhas que ganharam e que podiam mais. Não importa que um judoca como Eduardo Santos , com uma história de vida de muito sofrimento (nestes dias vi na ESPN que o judoca Carlos Honorato leiloou um quimono para financiar uma operação no pé de Eduado o que fez com que ele pudesse continuar no esporte), diga com muita tristeza que não foi para Pequim para disputar e sim para ganhar.

O que vale é a babação cívica. É deixar a prova eliminado na primeira fase, mas feliz por estar em Pequim, satisfeito com a melhor colocação de um brasileiro naquela modalidade (normalmente algo entre o oitavo e o 12º), por rever os amigos e, o mais importante, quebrar o insipiente recorde sul-americano.

Não é que não devamos reverenciar os atletas que conquistam medalhas sob a bandeira do país (e não para o país como gostam de dizer os babadores cívicos). Devemos sim porque eles são heróis.

Mas ao mesmo tempo é preciso mostrar o desperdício de talento a que este país se impõe. E cobrar uma postura decente dos dirigentes brasileiros. Antes de gastar milhões como bobagens como uma candidatura às Olimpíadas de 2016, é preciso investir no esporte de base, desenvolver campeões e, obviamente, investir em melhorias para a população no país. Primeiro você oferece serviços de qualidade, depois se candidata a sediar um evento. Não o inverso. O Brasil não mereceu a Copa do Mundo e não merece receber as Olimpíadas.

domingo, 10 de agosto de 2008

Uma tumba de clichês

Em ano de Jogos Olímpicos de Pequim, a indústria cinematográfica não poderia deixar de aproveitar a onda chinesa e usar isso a seu favor. Leia-se faturar alguns milhões de dólares usando o que puder do velho país do outro lado do mundo. Percebendo o filão disponível e a disposição do governo chinês em receber (e investir) em uma mega-produção, a equipe responsável pela franquia da “Múmia” não pensou duas vezes e se mudou de mala e cuia para explorar novos sarcófagos.

“A múmia: tumba do imperador dragão” é um filme absoluta e essencialmente comercial. Um blockbuster nível alfa, digamos assim. Isso não é necessariamente ruim. O filme, agora dirigido por Rob Cohen - os anteriores “A Múmia” (1999) e “O retorno da múmia” (2001) tiveram Stephen Sommers na direção – é uma boa diversão. Funciona perfeitamente para uma tarde de frio e chuva debaixo da coberta. Ou para assistir com toda a família.

Porém, uma coisa me incomoda nesta nova aventura de Rick O’Connell (Brendan Fraser, sempre competente e divertido no papel do herói). São os clichês batidos, os temas já abordados em milhares de filmes em toda a história do cinema. Falo principalmente de dois deles. Primeiro a tal da relação conflituosa/redentora entre pais e filhos com pais lamentando e se perguntando onde erraram na criação das crianças. Em segundo lugar, o velho tema do herói entediado que precisa voltar à ativa para ter um pouco mais de emoção na vida por demais enfadonha. Acho que são dois assuntos que já se esgotaram.

Mas o nobre leitor que me acompanha com alguma freqüência pode lembrar que eu já elogiei os clichês em filmes de faroeste e os considero absolutamente necessários nas aventuras de James Bond. É verdade. Não retiro o que disse. Só acredito que uma aventura tão divertida e leve como a franquia da múmia não precisava disso e podia explorar assuntos mais interessantes.

Nos dois primeiros filmes, a relação entre Rick, sua mulher Evelyn (Rachel Weisz) e o filho do casal, o jovem Alex (Freddie Boath), era de plena união e companheirismo. Por mais que os hormônios da adolescência e do início da fase adulta possam mudar alguma coisa, soou no mínimo como falta de criatividade o aparente conflito entre o agora adulto Alex (Luke Ford) com Rick e Evelyn (no terceiro filme interpretado por Maria Bello).

A trama? A de sempre. Rick ressuscita uma múmia, neste caso a do imperador Han (Jet Li) e seu exército de terracota, e tem que se desdobrar para mandá-la de volta para a tumba antes que ela se engrace e tente dominar o mundo.

A mudança de cenário do Egito para a China não chega a ser problemática na história e o roteiro abre bons espaços para umas tiradas divertidas. Dispensável apenas é o duelo entre filho e pai expondo o lado moderninho de um e tradicional de outro. Como se vê, eu estava de má vontade no cinema.

Outro problema do filme foi a equivocada escolha de Maria Bello para substituir Rachel Weisz, que não quis (pelo menos é o que se diz oficialmente) prosseguir na franquia porque as filmagens desta película seriam longas e em dois continentes, no papel de Evelyn. Maria não convence, não tem o carisma (e nem a beleza) de Rachel, necessários num personagem tão forte e que nunca é uma estepe de Rick na história. Evelyn tem vida própria graças a Rachel e ao destaque que ganhou nos primeiros filmes. Em “Tumba do imperador dragão”, Evelyn é opaca e sem graça. Como a própria Maria Bello.

É lamentável que uma franquia tão divertida tenha cometido tantos equívocos. Quando “A Múmia” foi lançado choveram comparações com os filmes de Indiana Jones. Algo que era merecido e verdadeiro. Rick lembra muito o velho Indy e Frasier parecia ter assumido a vaga de Harrison Ford como herói dos filmes de aventura. No ano em que o sessentão ator retomou as aventuras de Indy em grande estilo, Frasier perdeu espaço. Pelo menos até ele ressuscitar a próxima múmia. Estaria ela no Peru?

sábado, 2 de agosto de 2008

Terapia em família

Já virou chavão dizer que Philip Seymour Hoffman é um grande ator. Embora sua consagração midiática só tenha vindo em 2006, ano em que ganhou o Oscar de melhor ator por “Capote” (2005), Seymour Hoffman sempre fez grandes trabalhos invariavelmente em papéis em que não era o centro das atenções, mas as roubava pelo talento. Falo de produções como “Boggie Nights” (1997), “Magnólia” (1999) e “Quase Famosos” (2000). O ator, de 40 anos, também salva filmes fracos, como “Missão Impossível III” (2006), e meias-bocas, como “Jogos de Poder” (2007), da tragédia completa.

Com um enorme talento e a capacidade de transitar incólume entre filmes “de arte” e produções pipoca, Seymour Hoffman realiza mais um grande trabalho em “A família Savage”.

Ao lado de outra excelente atriz, Laura Linney, ele vive um dos irmãos Savage que diante da triste doença do pai, que sofre de demência, tem que decidir o que fazer com ele. Acontece que Lenny Savage (Phillip Bosco) não foi o exemplo de pai ideal e todos esses conflitos do passado retornam quando Jon e Wendy se reencontram para juntos buscarem a melhor e menos culposa saída para o pai.

Uma decisão difícil pela qual muitos passam, mas que todos, se pudessem, gostariam de evitar. Ao colocar alguém que você ama numa casa de repouso ou asilo há sempre a sensação de estar abandonando alguém, se livrando de um peso, e de ser alguém horrível. O que não é verdade. É apenas o atestado da incapacidade de cuidar de uma pessoa que já não é mais tão independente numa vida que exige demais de você. Contudo, não deixa de ser uma decisão psiquicamente dispendiosa.

Enquanto passam por esse drama, Jon e Wendy reavaliam suas próprias vidas. Jon tem medo de se casar, mesmo já estando na casa dos 40, o que o faz abandonar a namorada polonesa, Kasia (Cara Seymour), obrigada a retornar à Europa por causa de um visto vencido. Wendy vive um caso com um dramaturgo casado e a vida dupla acaba a levando a consumir os mais variados tipos de remédios, de analgésicos a antidepressivos.

Mas todas as difíceis situações são retratadas com um fino humor que arranca gargalhadas de uma platéia que certamente se identifica com eles em diversas situações. Mérito, claro, da excelente química entre os dois atores, que dominam a película e a colocam em seus bolsos sem muito esforço nem caras e bocas. Apenas sendo gente como a gente.

“A família Savage” tinha tudo para ser um filme triste, melancólico mesmo, sobre este difícil momento na vida e os problemas causados por uma escolha. Mas no fim acaba sendo um filme interessante pelo tom natural com que trata estas situações e sem qualquer mão pesada da diretora e roteirista Tamara Jenkins na condução da história. Acaba se tornando uma mensagem para olharmos para nós mesmos e buscarmos soluções mais práticas para as nossas questões.