sábado, 26 de julho de 2008

Por trás e além de um simples blog


Clara Averbuck é uma blogueira que começou a fazer sucesso muito antes da febre dos blogs e do próprio termo “blogueiro” existir. Bem antes da internet rápida também. Com sua conexão discada – com direito aquele barulhinho enjoado que todos que têm mais de 18 anos conhecem muito bem – Clara começou a escrever. Na sua escrita versava sobre suas dores, seus prazeres e se expunha da maneira que achava melhor e sem qualquer censura interna, como você pode mesmo pode conferir nos blogs “Brazileira!Preta”, já extinto, e “Adios Lounge”, sua, digamos, atual casa.

Uma exposição crua, direta, sem delongas ou rodeios. A cada post lançava a sua filosofia de vida rascante que acalentava o sonho secreto de viver de escrever. Neste ponto, porém, entra a ficção, pois a própria Clara já postou em seu blog que escrever “aconteceu” e não foi uma busca obsessiva.

Já adentrando, portanto, no roteiro escrito por Murilo Salles, Melanie Dimantas e Elena Soarez, o blog fundamentou a escrita de Camila e foi o ponto básico para que Clara lançasse dois livros: “Máquina de Pinball” e “Das coisas esquecidas na estante”. Dos livros e do blog, o diretor Murilo Salles cria uma história levemente adaptada em sua vida e a chamou de “Nome Próprio”.

Para o desafio de viver algo próximo do que foi e é Clara, pois a própria já disse que o filme é uma adaptação livre de sua vida, Murilo escalou a atriz Leandra Leal, também uma blogueira que escreve “Alice me persegue”. É sob a inspiração de Clara e a pele de Camila que Leandra vive o que talvez seja o seu mais importante papel no cinema.

Sem medo de se expor e abraçando de corpo e alma essa mulher que faz da intensidade a mola mestra da sua vida, Leandra é, com o perdão do trocadilho, o nome de “Nome Próprio”.

No filme ela é Camila, mulher sem endereço ou amores fixos, de vida cigana e disposta a se arriscar para fazer cada página de sua vida única. Cada marca, cada cicatriz, é valorizada. Cada post do seu blog tem a alegria intensa ou a dor lancinante. Enfadonho é uma palavra que inexiste no seu dicionário.

Mas essa opção por estar sempre no limite gera marcas, feridas profundas, cicatrizes no corpo (algumas) e na alma (milhares). Somando isso à bebida, ao cigarro e às pílulas que ela toma, Camila é uma mulher deliciosamente perigosa.

Como não se apaixonar por esse espírito intenso e livre? Ela certamente não é a nora que toda mãe pede a Deus, mas é um furacão às vezes necessário para bagunçar existências mais pacatas.

Camila reconhece que vive no caos. Pensa em organizar tudo, dar um jeito em si, machucar menos as pessoas. E quando isso aparentemente vai acontecer, quando ela tenta deixar a vida do blog (sem deixar de escrever no blog) para se reescrever, é novamente jogada nas profundezas da dor. Afinal, não há um homem certo para domar essa fera.

Mas há uma mulher para entendê-la a ponto de interpretá-la. “Nome Próprio” nunca será o maior filme da sua vida nem é algo fácil de digerir como um blockbuster, mas a atuação de Leandra Leal vale o ingresso e encobre os erros históricos que só os chatos percebem como a falha no roteiro quando ela diz “garota BBB” ou quando paga uma garrafa de bebida com uma nota de R$ 20. Duas coisas que não existiam no tempo da internet discada.

domingo, 20 de julho de 2008

A piada mortal


Há sete meses uma overdose de remédios tirou do mundo um ator que tinha tudo para se tornar um dos grandes de sua profissão. Elogiado pelo seu trabalho em “O segredo de Brokeback Mountain (2005) e “I´m not there” (2007), o australiano Heath Ledger não viveu para ver a sua maior criação, o seu maior trabalho nas telas do cinema.

Alguns meses atrás eu consideraria uma absoluta heresia falar o que pretendo dizer agora, mas, numa comparação direta entre os dois atores apenas no momento em que viveram o mesmo personagem, Heath superou Jack Nicholson. O ator, que morreu no dia 22 de janeiro aos 28 anos, fez do seu Coringa o maior e mais brilhante vilão da história dos filmes baseados em quadrinhos.

Poucas vezes eu vi um personagem dos quadrinhos transposto para a tela com tamanha perfeição. Heath viveu intensamente e foi o próprio Coringa. A cada vez que ele aparece em “Batman – O Cavaleiro das Trevas” domina a cena e coloca o filme no bolso do seu paletó roxo.

A risada assustadora, o gosto sádico de provocar o caos e inúmeras mortes, a indumentária suja, a maquiagem desbotada, os cabelos desgrenhados. O Coringa sombrio de Heath Ledger é brilhantemente construído e quase a criação viva de Bob Kane.

Confesso que quando vi em “Batman Begins” (2005) a carta do Coringa surgindo na última cena, fiquei com o pé atrás. Achava que ninguém faria este personagem tão bem quanto Jack Nicholson e não me parecia que o diretor Christopher Nolan pretendia escalá-lo novamente no papel do mais famoso vilão dos quadrinhos. Algo que se confirmou quando Nolan escolheu Ledger, então famoso por ter vivido um cowboy gay em “Brokeback Mountain”.

Pronto, achei que tudo estaria perdido. Um “viadinho” vivendo o Coringa só poderia ser piada de mau gosto. Até que no ano passado surgiram suas primeiras e assustadoras imagens. Despertou a minha atenção aquela visão de um lunático psicopata com cara de palhaço. Ao assistir ao trailer do filme, fiquei ainda mais animado. O filme, no entanto, não deixa dúvidas: Ledger está perfeito e é o novo dono da atuação definitiva do Coringa. Maldito dia em que ele apareceu morto. Será difícil encontrar um substituto. Por enquanto, o Coringa terá que ficar muito tempo internado no Asilo Arkham enquanto Batman combaterá outros vilões. Outro Ledger não será fácil de encontrar.

Agora se discute se o ator merece ganhar um Oscar póstumo por sua interpretação, o que só aconteceu uma única vez, em 1976, com Peter Finch por “Rede de intrigas”. É difícil dizer se ele merece, porque daqui até fevereiro, outros grandes trabalhos podem surgir. Pesa contra o ator, o fato da Academia nunca premiar filmes baseados em quadrinhos por mais geniais que eles sejam – e "Batman - O Cavaleiro das Trevas" é. Digamos que estes tipos de filmes não são considerados sérios (por isso Jack Nicholson, que merecia ganhar pelo outro Coringa, sequer foi indicado). No que convém lembrar o Coringa e perguntar: “Why so serious?”.

Por outro lado, sua intensa e perturbadora atuação e a sua própria morte podem garantir ao ator uma indicação e até uma vitória como forma de homenagem. Merecida, aliás. Só não sei dizer se isso faria os filmes baseados em quadrinhos serem vistos com a seriedade que são por estúdios (afinal, estes trabalhos dão muito retorno financeiro e de merchandising), diretores e atores, que têm feito um trabalho cuidadoso e de muito respeito para agradar os fãs xiitas como eu e aqueles que nunca pegaram uma revista para ler.

Mas o Coringa é só o ponto mais alto de um filme de muitos acertos. Nolan tem feito um trabalho brilhante ao reinventar a história do Batman dentro da cinematografia do herói, o único a ter seis filmes. Depois de quatro filmes muito irregulares ou excessivamente carnavalescos feitos por outros diretores, Nolan acertou mais uma vez em “O Cavaleiro das Trevas”. Em suas mãos, Gotham é o que sempre foi nas revistas. Uma cidade-problema, com muita violência, um verdadeiro caos, um Rio de Janeiro de hoje em dia.

Para defendê-la, um justiceiro que tenta limpar essa metrópole e se equilibrar na ética e em regras morais básicas. Mas como seguir regras se seus adversários estão dispostos a quebrá-las? O próprio Batman, portanto, será obrigado a quebrá-las. Tempos difíceis e com terroristas, como a polícia gosta de chamar o Coringa, requerem medidas extremas. Certamente um tema atual que o filme aborda e que deve se pensar. Mas Batman não é perfeito como o Superman e também comete seus erros. Não sem tempo de corrigí-los e se doar por um bem maior. Afinal, ele é o herói.

O conflito interno vivido por Batman/Bruce Wayne (o ótimo Christian Bale, que nasceu para ser o homem-morcego) é diametralmente oposto ao caos impetrado pelo Coringa. Eles são protagonista e antagonista. Um não vive sem o outro, como o próprio Coringa faz questão de lembrar, e isso é a essência das histórias em quadrinhos. É uma oposição ferrenha, com um testando o limite do outro.

Entre os dois, o grande trunfo dos filmes do Batman dirigidos por Nolan que não se encontra em outras adaptações. Grandes atores em papéis-chave que dão um peso e uma importância a cada cena com histórias paralelas que se encontram a todo o momento. Não haveria um filme da qualidade de Batman sem Michael Caine como o mordomo Alfred ou Morgan Freeman como Lucius Fox, o presidente das empresas Wayne, além de Aaron Eckhart, como o promotor Harvey Dent, que viria a se transformar no Duas-Caras.

Acima deles e próximo de Ledger está Gary Oldman, que abraçou o papel do tenente Jim Gordon, que agora se torna finalmente o comissário Gordon que conhecemos. Oldman também tem o filme nas mãos quando está em cena e seus duelos com Ledger são ótimos de assistir.

Com tantos talentos, Bale nem precisa aparecer o tempo todo nas 2h32m de filme. Pelo contrário, há um saudável equilíbrio num trabalho que bem poderia ser do comissário Gordon, por exemplo. Ou do Coringa. Há quem diga que já é. A verdade é que o herói é apenas parte de uma história sobre Gotham City, uma metrópole tomada pela violência e com ataques que aterrorizam a população. Uma cidade que tenta ser salva por um justiceiro e a boa vontade e a coragem de alguns poucos cidadãos honestos infiltrados numa polícia e numa política tomada pela corrupção e os vícios do crime organizado. Poderia ser o Rio de Janeiro. Poderia ser o Brasil. Mas nos falta um herói para nos encorajar. Falta-nos um Batman.


“Batman – O Cavaleiro das Trevas” (em que pese o título nada ter a ver com a história em quadrinhos original de mesmo nome escrita por Frank Miller) é um dos melhores trabalhos sobre quadrinhos que eu já vi. Como há uma deixa para um terceiro filme – eu captei a história do uniforme a prova de gatos e não engoli a “morte” de Rachel Dawson (Maggie Gyllenhaal). Será que ela vai virar a Mulher-Gato? – que ele venha o quanto antes. Já estou ansioso para ver o próximo capítulo dessa história de Gotham e seu justiceiro. Só lamento que Ledger não possa continuar na pele do Coringa. Um triste desfecho para seus fãs e para os fãs do arquiinimigo do Batman.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Rambo volta para casa

Antes de qualquer coisa, devo confessar que quando era criança tinha dois bonecos do Rambo. Um dele normal e outro quando se “transformava” realmente no exército de um homem só com direito aquela faixa vermelha na cabeça. Feita essa ressalva que o fará, nobre leitor, dirimir o que possa vir a ser um elogio mais exagerado, devo dizer que, movido por lembranças da infância, assisti ao velho Sylvester Stallone voltando ao papel de John Rambo e não me decepcionei.

Ao contrário de Rocky Balboa, outro personagem famoso de Sly que teve um retorno abaixo da crítica no ano passado, a volta de Rambo é, no mínimo, digna do personagem criado para lamber as feridas da humilhante derrota norte-americana no Vietnã na década de 60.

Nessa nova aventura, o veterano da guerra vive no sudeste asiático, onde sempre morou desde a segunda aventura de 1985, quando era buscado pelo coronel Trautman (Richard Crenna, morto em 2003, de câncer) para resolver algum problema para o exército americano.

Vinte anos depois da terceira aventura do herói no Afeganistão, com direito a vê-lo em uma cena histórica derrubando um helicóptero com uma metralhadora, Rambo dessa vez tem que se meter no conflito de Mianmar (Birmânia para alguns) para libertar alguns missionários que foram levar a boa nova e só receberam chumbo em troca.

O enredo se resume a isso. Rambo, o herói niilista. Qualidade que ele mantém nas duas expressões usadas por Stallone ou no roteiro fraquinho de frases feitas. Afinal, convenhamos, escrever nunca foi o forte de Stallone, que compôs o roteiro ao lado de Art Monterastelli, mais conhecido por escrever episódios de seriados de TV como “Brothers and Sisters”.

Os vilões são aqueles que bem conhecemos. Assassinos sanguinários que falam línguas que desconhecemos, não têm escrúpulos e não pensam duas vezes se tiverem a chance de matar inocentes ou estuprar mulheres e crianças.

Tudo muito óbvio como sempre foram as aventuras de Rambo, mas que eram uma diversão da Sessão da Tarde. É assim que Rambo parte para mais uma batalha – com direito a muito sangue despejado em cenas para lá de trash - quando perceberá que a paz que tanto buscava no local que muitos americanos caíram não será encontrada.

É aí que a história do herói avança. Antes um parêntesis. Muitos dizem que os filmes de Rambo não passavam de propaganda militarista e isso só se intensificou quando o ex-presidente republicano Ronald Reagan disse que se precisasse de alguma ajuda para definir as atividades militares dos Estados Unidos veria os filmes do herói.

Em parte, é verdade. Mas os três primeiros filmes são também (não riam) uma crítica ao próprio governo americano. Em uma cena de um dos filmes, Rambo, que nunca seguia as ordens de superiores que não fosse Trautman, discute com o próprio coronel e questiona por quê eles, os soldados, foram abandonados naquele atoleiro do Vietnã. “Eu nunca deixei de amar a América. Vocês é que nos abandonaram. Por que vocês nos abandonaram?”, pergunta o herói. Sem contar as inúmeras vezes que Rambo mete a porrada em oficiais americanos.

É por isso que Rambo resolve continuar vivendo no sudeste asiático, no meio da selva que foi sua algoz. Não se sente mais em casa na América, nem parte dela, pois se sente traído. É onde foi sua queda, que ele tenta reconstruir uma vida ou uma meia-vida. As marcas da guerra são muito profundas e ele quer esquecer que foi uma máquina de matar. Apesar dos apelos de Trautman, o herói nunca decidiu voltar para casa e nem sabíamos até agora se ele ainda tinha família.

Em “Rambo IV”, porém, descobrimos que ele tem um pai dono de um rancho no Arizona. Percebendo que o isolamento não curará suas feridas e que estes são fantasmas eternos na sua alma, John Rambo então resolve voltar para casa. Um desfecho dado à história que não contava apenas com um contratempo: o sucesso do filme nos Estados Unidos que já gera especulações sobre mais duas seqüências. Fazer o que se apesar dos clichês e obviedades, Stallone acertou a mão fazendo o simples e sem inventar muito.

Stallone não é um diretor de mão cheia, nem um roteirista de muitas virtudes, mas ao menos me deixou satisfeito com a retomada do personagem. É melhor que continue assim, fazendo o básico. Dizem que agora ele quer se arriscar filmando a biografia do poeta inglês Edgar Alan Poe. Aí o buraco é mais embaixo. Sinceramente, não consigo encontrar nele a delicadeza necessária para fazer um filme sobre um artista. Mas ele pode surpreender. É esperar para ver.

sábado, 12 de julho de 2008

Uma vida sem limitações

Editor da revista "Elle", Jean-Dominique Bauby (Mathieu Amalric) tinha a vida que muitos desejariam. Mulheres aos seus pés, carro conversível, filhos lindos, um pai que o ama e que ele corresponde com o mesmo amor e o poder que só os jornalistas renomados têm. Num trágico dia de 1995, ele resolve pegar um de seus filhos na casa de sua ex-esposa (a linda Emmanuelle Seigner) para levá-lo para passear no carro novo e acaba sofrendo um AVC.

De uma hora para outra, a vida excitante de outrora era interrompida e Jean-Do, como era mais conhecido, se vê quase que completamente paralisado. Dependente de todos e com limitações eternas, Jean-Do não nega que tenha pensado em morrer, mas resolve deixar os pensamentos ruins de lado e renascer dentro do possível.

Com a ajuda de uma técnica de linguagem desenvolvida pela ortofonista Henriette (Marie-Josée Croze), Jean-Do usa apenas o olho esquerdo para se comunicar com o mundo exterior. Uma piscada é sim. Duas representa não. A isso se resume a sua vida a partir de agora.

Dentro de si, porém, há um mundo de enorme a ser explorado. Locais nunca visitados, comidas saborosas a serem experimentadas. O corpo está limitado, mas é da mente que Jean-Do tira forças para sobreviver e atravessar as dificuldades para ter um final de vida que considere digno e não ser alvo da pena alheia.

É essa história de superação que o diretor Julian Schnabel leva para a tela em “O escafandro e a borboleta”, meu filme francês da vez até o momento (eu sempre tenho um todo ano).

Levar para as telas essa história real foi um desafio e tanto para Schnabel, que ganhou o corpo, a alma e a dedicação de Amalric. Juntos, no entanto, ambos conseguiram contar a história com dignidade e sem cair nos naturais recursos de dramatização para fazer o espectador se debulhar em lágrimas.

Nem nas situações mais agudas se têm pena de Jean-Do. Há momentos em que se lamenta da sua arrogância. Há momentos até em que se ri dele e com ele. Mas nunca há pena. Por outro lado, não há a sensação de que ele mereceu isso.

Schnabel escolhe e transpassa o caminho da neutralidade. Um triste acidente ocorreu. Daí se seguiu uma rica história de vida culminada com um livro todo ditado por Jean-Do contando suas experiências. O livro, que tem o mesmo nome do filme, fala sobre a vida do jornalista, suas limitações e explica como ele as superou. Ele poderia viver num escafandro (roupa hermeticamente fechada e provida de aparelho respiratório, que permite à pessoa trabalhar debaixo d’água), mas sua imaginação, sua riqueza por dentro, era a da viagem da borboleta que não encontra limitações no seu vôo.

É preciso muita força de vontade, muita garra para fazer o que ele fez. Muitos não têm isso. Jean-Do teve (ele morreu em 1997, aos 44 anos, duas semanas depois de ter publicado seu livro) e, tendo que infelizmente cair na raia do clichê, devo dizer que ele é uma lição de vida. E “O escafandro e a borboleta” é uma cinebiografia digna de seu rico personagem.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Ainda o Fluminense...

O futebol retrocedeu séculos no tempo. Vivemos uma era medieval do esporte, onde o clima bélico suplanta qualquer discussão em alto nível do ponto de vista esportivo e faz até amigos cometerem atrocidades.

Um relato tão triste quanto verdadeiro colhido numa lanchonete da cidade na gelada noite de domingo. Com exceção da minha pessoa, os personagens permanecerão anônimos.

- O Fluminense ganhou hoje?

- Não sei (Eu saberia depois que havia perdido de 1 a 0 do Goiás)

- Cara, espero que continue perdendo.

(...)

- Você ficou triste com a derrota na Libertadores?

- Foi uma dor horrível.

- Eu não sou nem um pouco solidária à sua dor.

Só duas vezes na minha vida eu senti uma dor tão grande quanto a que vivi quarta-feira passada. Momentos dramáticos da minha existência que não cabem ser contados neste espaço. Um deles é até infinitamente mais sério e absolutamente irreversível que, para muitos, jamais poderiam ser comparados a um jogo de futebol.

Mas a dor de quem ama é sempre avassaladora. Imagina quando você recebe um “tô nem aí” de personagens que você considere amigos.

A única coisa que eu ganho é pura bile, um discurso figadal. Palavras de ódio das massas que nos últimos dias consumiu até pessoas inteligentes. O clima de nazi-intolerância que atingiu o Rio de Janeiro persegue pessoas inocentes e cria guetos nada esportivos. O esporte prega a união, o olimpismo. A disputa existe, mas a fidalguia deve sempre prevalecer em nome, no mínimo, da boa educação. Mais ou menos o que o tenista Rafael Nadal ensinou após derrotar Roger Federer na decisão de Wimbledon.

Mas o que vejo no meu MSN são mais manifestações de ódio. Assisto calado sem deixar de pensar: onde foi que o futebol foi parar? Onde está a alegria? A gozação sadia? A provocação? Tudo coberto por um manto negro.

Nos últimos dias cheguei a me questionar se estava exagerando. Só eu estou vendo isso. Até que a página “Logo”, do jornal “O Globo”, abordou exatamente o ódio no futebol. Para ilustrar, um jovem torcedor do Feyenoord, da Holanda, que com o tamanho e as feições de quem não tinha mais do que cinco anos mostrava-se possuído e fazendo gestos obscenos na imagem.

Acima, um relato de um jovem tricolor de 11 anos que, além de superar a tristeza por uma derrota que eu sempre vou considerar injusta, teve que enfrentar na longa volta para casa um corredor polonês de xingamentos e humilhações pelas ruas que passava. Ele se perguntava se era para se sentir culpado, se talvez fosse esse o desejo de quem estava ali às 2h da manhã para agredi-lo.

Tive a certeza de que eu não era o único a apontar os exageros de uma noite surreal que revelou a verdadeira face do futebol no Brasil por trás das tão exaltadas letrinhas de música sem xingamentos e da aparente (e só aparente) tranqüilidade das torcidas organizadas.

Certa vez, muito antes de Libertadores, um colega me disse que não gostaria que o seu filho que ainda ia nascer gostasse de futebol. “A gente sofre muito”, ele justificou. Eu brinquei dizendo que é do muito sofrimento e das poucas alegrias que o futebol se alimenta e o faz ser o mais apaixonante de todos os esportes.

Quando eu vejo no que o esporte que eu amo tanto vem se transformando, começo a mudar de opinião. Se um dia eu vier a ter um filho, acho que também desejarei que ele não goste disso. Mas não porque a gente sofre muito, e sim porque eu jamais iria desejar que um filho meu deixasse o Maracanã para ser xingado e humilhado. E jamais iria aceitar que um filho meu xingasse e humilhasse alguém. Isso é comportamento pequeno. De gente mesquinha.

No meu caso, já sou burro relativamente velho. Algumas coisas ainda me emocionam no futebol e é possível encontrar uma rivalidade sadia em outros países. Ou talvez seja o momento de submergir. Ficar um pouco de fora. Só observando o movimento da bola.

PS: Acima, o quadro “O Ódio”, do pintor espanhol José Luis Fuentetaja. A pintura é de 1971. Naquela época, nenhum clube carioca era campeão da Libertadores, o futebol era mais romântico, mais bem jogado e só havia espaço para o ódio nas telas de um artista.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Desabafo

O futebol é o mais cruel de todos os esportes. É o único em que nem sempre o melhor vence, mas isso nem sempre é engraçado. Principalmente quando você vê um time fazendo uma campanha belíssima, superando dificuldades, adversários superiores, jogando com muita garra. O coração na ponta da chuteira e uma disciplina dentro de campo que raras vezes se vê. O Fluminense é um time que não bate e eu, como apreciador do esporte, tenho orgulho disso.

Diante de tantas dificuldades, de tantas dores vividas na última década, eu subverto a lógica das coisas para dizer que ontem eu vi uma das maiores injustiças no futebol nos meus 26 anos de vida.

Não falo dos dois pênaltis não marcados a favor do Flu. Da péssima arbitragem do argentino Hector Baldassi. Da má vontade de Dodô. Eu até poderia citar isso tudo como desculpa para uma derrota.

Uma derrota doída. Mas não é pelo coração em frangalhos, o choro que eu tenho que segurar diante de todo mundo. Pessoas que talvez jamais entendessem esse amor. Não é por isso tudo que eu vi essa injustiça.

Apesar do bom time da LDU e do que eu previra que esta decisão seria o jogo mais difícil de todos, mesmo após passar por São Paulo e Boca Juniors, a sofrida derrota tricolor foi injusta por todas as dores que vivemos, por todas as dificuldades que passamos. Assim mesmo, no plural, pois o torcedor é o que mais sofre quando vê o seu time na pior.

Foi injusta pela alegria das pessoas. Bastava ter coração para se contagiar pela felicidade de um senhor que passava sorrindo pela rua, pelos esperançosos torcedores que arrumavam a bandeira com carinho para levar ao estádio, pela garota na rua com a sua camisa falando ao celular enquanto um carro coberto pela bandeira verde, branco e grená passava na rua.

Bastava ter algum sentimento para se emocionar com a bonita festa que a torcida fez no Maracanã, pela reunião nos bares e no sambódromo. Pessoas felizes.

Uma cidade em que é tão fácil ser assassinado. Basta ir a uma boate ou andar na rua errada e na hora errada, merece momentos de alegria, mesmo que eles só venham neste momento do esporte.

É por isso tudo que eu não consigo entender a cabeça do ser humano. Não entendo como alguém torce pela desgraça alheia. Não entendo como alguém quer cercear a inocente felicidade de outros. Alguns falam que é do esporte. Que é a rivalidade. Não sei quão sadia é essa tal de rivalidade que faz alguém torcer pelo sofrimento do outro. Será que não há limite para ela? Quão sádica uma pessoa pode ser ao gostar de ver outra tendo a alma definhada pela dor? E sem que haja motivo para isso. Não houve confronto. Não houve eliminação direta. É apenas o prazer de ser espírito de porco.

Eu nunca tive pensamento tão mesquinho. Tão pequeno. Posso falar de camarote. Na noite em que eu estava em êxtase pela vitória sobre o Boca, lamentei as eliminações de Botafogo e Vasco da Copa do Brasil. Gostaria muito de ter visto uma final carioca. Lamentei ainda a derrota do Flamengo para o Santo André na decisão da Copa do Brasil de 2004. Eu cobria o clube naquela época e não tinha como torcer contra ao ver tantos torcedores felizes e dando o título como certo. O clima na cidade era da vitória que infelizmente não veio.

Não sei até onde vai minha dor. Exagero ao dizer que nunca mais serei feliz. Sei que um dia eu vou olhar para trás e ter orgulho desse time: Fernando Henrique, Gabriel, Thiago Silva, Luiz Alberto e Júnior César; Ygor, Arouca, Cícero, Conca e Thiago Neves; Washington. Técnico: Renato Gaúcho. E mais Roger, Maurício, Tartá, Allan e outros que jogaram e não me lembro agora. É uma equipe que foi vice-campeã da Libertadores e isso é muita coisa.

Mas hoje eu sofro. Gostaria que essa dor fosse embora junto com o temporal que cai agora como se até os céus se debulhassem em lágrimas por essa derrota. É muito triste ver um sonho interrompido numa disputa de pênaltis. É uma crueldade. A gente não merecia isso.

sábado, 28 de junho de 2008

Clichês que não incomodam

Há clichês que incomodam e outros que são necessários. Ver James Bond dizendo sua famosa frase “My name is Bond, James Bond”, pegando todas as mulheres e não falhando nunca na captura de bandidos é mais do que esperado por todo fã da série de filmes. É uma necessidade. É por isso que o agente secreto agora vivido por Daniel Craig me incomoda tanto. Ele é tudo de ruim e não tem qualquer classe.

Outro caso em que clichês são bem-vindos são nos filmes de faroeste. Não adianta fazer muita graça quando você vai filmar uma história do gênero. Tem que ter um mocinho carismático, um bandido sedutor, personagens interessantes e marcantes, mulheres frágeis e precisando ser salvas, muitos tiros, índios, duelos, etc.

Tudo bem que “Os Imperdoáveis” (1992), filmaço de Clint Eastwood, não tem muito disso e ainda assim é um dos melhores westerns da história, tendo conquistado, inclusive, cinco Oscars. Mas ele é de um tempo em que o faroeste era dado como morto e enterrado e foi ressuscitado com nova roupagem por alguém que iniciou a carreira exatamente fazendo esse tipo de filme. Eastwood conhece como poucos o gênero e soube ganhar novas platéias com maestria.

É válido, mas um faroeste ao estilo John Wayne para os que gostam do gênero também é agradável. É mais ou menos isso que o diretor James Mangold tenta nos oferecer em “Os Indomáveis”, filme baseado em conto do escritor Elmore Leonard, um especialista no gênero bangue-bangue.

O filme conta a história do carismático bandido Ben Wade, vivido por um sempre ótimo Russel Crowe. Com sua pistola imortal e um cavalo que o obedece com um mero assobio, ele lidera um bando que aterroriza os moradores de diversos condados e causa muitos prejuízos à ferrovia que está desbravando o Oeste.

A paixão por uma bela mulher acaba sendo fatal para ele que é preso e será levado para o trem que sai às 3h10m da tarde para o presídio de Yuma. Daí o título original do filme “3:10 to Yuma”. Para escoltá-lo um bando eclético que reúne um eterno inimigo de Wade, Byron McElroy, vivido por Peter Fonda, e o fazendeiro Dan Evans (Christian Bale), que entra na empreitada não apenas pelo dinheiro, mas para provar ao seu filho que ele também pode ser um herói.

No caminho para a cidade de Contention, Wade e Evans passam por diversas situações de perigo, são sempre perseguidos pelo bando de Wade e acabam descobrindo ter muitos pontos em comum. Mais do que uma rivalidade, desenvolvem um respeito mútuo a ponto de Wade se permitir correr riscos para ajudar este pai de família que ele nunca pôde ser devido à crueldade que a vida lhe impôs.

“Os Indomáveis” é um grande faroeste que não tem muitas preocupações estéticas e nem tem a intenção de fazer nada além do que entreter os fãs deste gênero. Um gênero que não morrerá jamais, por mais que tentem colocá-lo numa lápide.

domingo, 22 de junho de 2008

Sai o psicologismo, entra a ação

Os filmes baseados em histórias em quadrinhos da Marvel ganharam um novo status nos últimos tempos. Eles deixaram de ser histórias isoladas e com suas vidas contadas linearmente para ganharem um divertido encadeamento que está deixando os fãs cada vez mais ansiosos, pois eles já sabem onde isso vai dar lá na frente, mais especificamente em 2011 (se a data não mudar), com lançamento do filme dos Vingadores.

Se em “Homem de Ferro” vimos sinais na casa de Tony Stark (Robert Downey Jr.) como o escudo de um certo Sentinela da Liberdade perdido no meio de seus experimentos, e ficamos de boca aberta ao ver Nick Fury (Samuel L. Jackson) aparecendo na cena final (você não esperou os créditos terminarem né?) convidando Stark para um certo projeto Vingadores, em “O Incrível Hulk” é Stark quem dá o ar de sua graça na cena final falando na formação de “um time” para o general Ross (William Hurt), sem falar no soro do supersoldado tomado por Emil Blonsky (Tim Roth), fórmula criada na Segunda Guerra e ligada àquele Sentinela.

Com suas conexões paralelas às histórias individuais, os filmes de quadrinhos viraram uma minissérie e a cada dia a película que reunirá os Vingadores está mais próxima. Principalmente depois de projetos que já estão sendo tocados com vôos solos do Thor (previsto para 2010) e do Capitão América. (previsto para 2011).

Este projeto e as seqüências de Hulk e Homem de Ferro devem dar a base final para o ambicioso projeto da Marvel de reunir a superequipe que na sua formação original ainda tinha o Namor, mas no filme ainda pode contar com o Homem-Formiga (também com projeto de filme solo), a Feiticeira Escarlate, a Vespa e o Visão.

Mas enquanto este sonhado dia não vem, o assunto aqui é o Hulk que aporta nos cinemas deixando de lado o psicologismo e o lado humano muito bem explorados por Ang Lee no trabalho de 2003, estrelado por Eric Bana e Jennifer Connelly, e partindo para uma aventura mais simples e com muita ação.

Numa comparação entre os dois trabalhos, o "Incrível Hulk" de Louis Leterrier, diretor conhecido pela série “Carga Explosiva”, estrelada por Jason Statham, tem como vantagem um ator muito melhor no papel de Bruce Banner e a melhor versão digital já feita do gigante esmeralda.

Se Ang Lee tentou nos mostrar o lado humano – e o Hulk nada mais é do que a materialização do lado negro de Banner – foi o trabalho da Rythmen & Hues que deu feições mais humanas ao monstro que surge quando Banner fica com muita raiva.

Se Norton é melhor do que Bana (embora não acrescente nada de especial na personalidade de Banner), o filme de Ang Lee tem uma Betty Ross bem mais interessante do que o de Leterrier. Sorry, Liv Tyler, mas Jennifer Connelly é uma musa.

Apesar disso, no entanto, e se Hulk é um ótimo trabalho de Leterrier, que não deixou de homenagear um Hulk tão clássico quanto tosco colocando Lou Ferrigno, estrela do seriado dos anos 80, para fazer a voz do gigante, gostaria que ao menos o cineasta francês mantivesse o aspecto do conflito psicológico da história original.

Dizem até que Edward Norton teria reclamado disso, pois essa parte foi cortada na edição final. Uma cena, por exemplo, que está no trailer que mostra Norton conversando com o psiquiatra Leonard Samson (Ty Burrell) sequer aparece no filme.

É uma pena que se tenha feito essa escolha, pois é no aspecto de domar o seu lado negro (o que Banner mostra estar fazendo no final do filme) é que reside a grandeza desse personagem dos quadrinhos.

Apesar das diferenças e de algumas semelhanças, o novo filme do Hulk agrada a todos os que gostam da história do golias esmeralda. Deve-se ressaltar ainda, ao menos para os brasileiros, o cuidado que Leterrier teve ao retratar o país nas cenas filmadas no Brasil e que ocupam a meia hora inicial da película. Elas não tinham qualquer clichê, mas achei muito estranho a dublagem. De qualquer forma, os takes na favela da Rocinha (na realidade a Tavares Bastos, no Catete) são algumas das melhores partes do filme que conta com muita ação e uma boa briga com o Abominável no final.

“O Incrível Hulk” é, portanto, um belo trabalho de Leterrier, que soube ser fiel aos quadrinhos com o cuidado necessário de atualizar uma história que tinha que sofrer algumas transformações naturais em relação ao original. E é mais um capítulo naquele promissor futuro de 2011 que nós fãs esperamos encontrar.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Parto difícil

Quando o filme romeno “4 meses, 3 semanas e 2 dias” não apareceu na lista final dos indicados para o Oscar de melhor filme estrangeiro deste ano, ninguém entendeu muito bem a opção da academia de Hollywood. Afinal, o trabalho de Cristian Mungiu, que escreveu e dirigiu a película, havia sido premiado com a Palma de Ouro de Cannes, para mim, o mais importante prêmio do cinema mundial. Falava-se até em um cenário romeno na indústria cinematográfica.

Ao descartar este filme, além do novo trabalho de Denys Arcand, “A era da inocência”, que já ganhou um Oscar pelo excelente “As invasões bárbaras” (2003), continuação de outro excelente trabalho, “O declínio do império americano” (1986), a academia causou estranheza. Foram escolhidos “Die Falscher”, da Áustria (que acabou conquistando o prêmio), “Beaufort”, de Israel, “Katyn”, da Polônia, “Mongol”, do Cazaquistão, e “12”, da Rússia.

Assistindo a “4 meses, 3 semanas e 2 dias”, percebi porque o filme de Mungiu não ficou entre os indicados e, sinceramente, fiquei confuso e não entendi o por quê de tantos elogios que ele recebeu.

“4 meses...” é ruim. Muito ruim. Não diria horrível, como cheguei a ouvir dentro do cinema, mas é bem abaixo da expectativa. É um filme que não avança, não se posiciona, não diz a que veio.

A coisa funciona mais ou menos assim. Uma colegial faz besteira na Romênia de 1987 em plena ditadura chapa quente de Nicolau Ceausescu e fica grávida. Naquela época tudo era proibido e a Romênia era um país muito mais sombrio do que qualquer conto mais chinfrim possível sobre o velho Conde Drácula.

Gabriela Dragut (Laura Vasiliu) resolve fazer um aborto e conta com a ajuda de sua amiga, Otília (Anamaria Marinca, uma das poucas coisas que se salva na película) para achar um médico disposto a encarar o risco, não sem antes cobrar um preço alto. E para desespero delas, esse preço não é em dinheiro. O tal do senhor Bebê (Vlad Ivanov) faz o serviço sujo, elas vão para o restaurante e fim de filme. É isso.

Como ponto positivo. Aliás, positivo não, curioso, é apenas o estado decrépito que era a Romênia há 20 anos. Foi ontem, mas nota-se o quanto o país era atrasado. Não conheço a nação de Hagi e outros jogadores que marcaram época na Copa do Mundo de 1994, justamente a primeira pós-ditadura cruel de Ceausescu, mas acredito que melhorou bastante.

De qualquer maneira, se você não tem essa curiosidade ou poderia matá-la numa olhadela em livros de história, sites romenos ou qualquer coisa que faça uma alusão a este país do leste europeu, passe longe de “4 meses, 3 semanas e 2 dias”, a maior decepção deste ano até agora.

sábado, 14 de junho de 2008

A natureza dá o troco

Os leitores que ainda acompanham esse blog (Cabe até um censo. Serão ainda sete?), sabem o quanto eu sou fã do cineasta indiano M. Night Shyamalan. Já o chamei aqui neste espaço de gênio, de homem que subverte as leis do suspense, de arauto da renovação deste gênero e um seguidor de Alfred Hitchcock (embora eu nunca o tenha escutado dizer isso). Seus roteiros criativos e sempre surpreendentes me deixam fascinados desde o desconhecido “Wide Awake” (1998) até “A dama na água” (2006), passando pelo melhor dos seus filmes, seu masterpiece, “O Sexto Sentido” (1999). Sou, portanto, um incondicional apaixonado pelo seu trabalho.

É exatamente por ser do time que o ama que me sinto a vontade para dizer que em “Fim dos Tempos”, seu mais novo filme, Shyamalan errou a mão. Não que o filme estrelado por Mark Wahlberg seja ruim. É, para criar um neologismo, “assistível”. Apenas, porém, não é o padrão Shyamalan no qual estamos acostumados.

Acredito ser uma questão do roteiro escrito pelo indiano, com passagens pouco inspiradoras, por vezes infantis, e em outros momentos com situações constrangedoras (não dá para agüentar Wahlberg conversando com uma planta de plástico). Mas é impossível acertar sempre. Não cabe crucificá-lo e taxá-lo de acabado porque um trabalho razoável dele, como é “Fim dos Tempos”, é ainda superior a muita coisa que vejo por aí.

Neste filme que eu vou rotular como um terror ecológico, a natureza resolve contra-atacar. Depois de milênios de destruição, os humanos recebem o mesmo tratamento genocida que eles dão aos outros seres vivos. Assim, de repente e sem qualquer motivo, eles passam a cometer suicídios. Digamos que a natureza resolveu fazer uma limpeza étnica sem muito critério. A explicação está lá em toxinas e outras “cositas mas” que não me cabem descrever, pois estaria contando a história (algo mortal em filmes de Shyamalan). Mas posso adiantar que os ambientalistas radicais vão adorar a película.

Dentro dessa história surreal em que desta vez não há reviravoltas, ainda podemos encontrar todos os elementos estilísticos que fizeram de Shyamalan um sucesso. Detalhes como a "incômoda" trilha sonora acompanhada pela câmera em tom pausado sempre a descobrir um novo e surpreendente enquadramento (e diante do background dos filmes anteriores, sempre se espera algo dela), os sustos (ah os sustos!), a relação fé-ciência/razão, e a presença de Shyamalan escondido em algum lugar bem ao estilo Hitchcock. Mas dessa vez, ele foi bem mais comedido do que em “A dama na água”, quando assumiu um protagonismo que incomodou muita gente. Eu, por exemplo, pela primeira vez não desvendei sua presença no filme. Só pesquisando depois.

Tudo isso suscita uma questão que eu já adianto não ter resposta. Pois, se como diz Umberto Eco, “a obra é aberta”, a interpretação é multifacetada e sem verdades absolutas.

E o que coloco em questão aqui em “Memórias da Alcova” é o seguinte: Teria Shyamalan se tornado refém do seu estilo?

Muitas das suas marcas registradas listadas acima (com exceção para o truque de câmera), parecem ter sido colocadas como se fossem para mostrar que aquele era um filme de Shyamalan. E por isso parecem um tanto quanto artificiais. Além disso, não embasam o roteiro ou são auxílio à história. É como se o diretor estivesse dizendo à sua platéia: como vocês podem perceber, este é um filme meu.

Claramente percebemos isso numa cena dos já famosos sustos que ele gosta de promover (eu pelo menos pulei da cadeira). Era necessária aquela cena? O que ele quis dizer com aquilo? Não sei informar e não passa pela minha cabeça qualquer tipo de especulação. Mas foi a partir deste ponto que me encontrei diante dessa questão. Aguardemos o seu próximo trabalho para saber se terei uma resposta ou se “Fim dos Tempos” foi apenas um momento natural de queda numa elogiável filmografia.

Apesar de tudo vale a pena ver “Fim dos Tempos”. Sem querer ser contraditório, Shyamalan tem uma marca e é sempre bom ver diretores que sejam o mais próximo de serem considerados autorais. Espero que ele continue lapidando daquela cabeça louca roteiros ainda mais criativos e surpreendentes, mesmo que por vezes tenha que pisar na bola, pois isso acontece até com os gênios.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

O inferno somos nós

Se o escritor Jean-Paul Sartre certa vez disse que “o inferno são os outros” (mais precisamente no livro “Entre Quatro Paredes”, de 1944), o diretor de cinema Sidney Lumet fez questão em “Antes que o diabo saiba que você está morto” de fazer com que esse conceito reverberasse dentro de nossas almas tratando de apontar a ferida e, diante do espelho, acusar que o inferno somos nós.

Mais recente trabalho do cineasta de 83 anos, conhecido por obras-primas como “Serpico” (1973) e “Assassinato ao Oriente Express” (1974), “Antes que o diabo...” é um intenso filme de inebriante trilha sonora que te pega de jeito na esquina da vida e revela muito do que há de podre no ser humano. Ressentimento, vingança, ódio, ciúme, rejeição são sentimentos nada belos que permeiam o filme. Além do fracasso. Não uma fraqueza em si, mas o medo de ser um fracassado ou a própria sensação da derrota que acaba movendo um homem a fazer de tudo por um punhado de dólares.

E mais do que isso, transparece na película o vazio existencial de um personagem como Andy Hanson (Philip Seymour Hoffman) que sobrevive de pequenos golpes na imobiliária para a qual trabalha para alimentar sua dependência química, vive um casamento sem sentido com Gina (Marisa Tomei) e faz parte de uma família da qual ele sempre se sentiu excluído. Chega um momento em que a vida não é completa. E aí, para onde você vai?

O caminho que Andy escolhe é o de tirar uma parte para si. Aquilo que ele acha merecer por ter suportado um pai que, na sua cabeça, o rejeitava. Este é o caminho da vingança e a sua porta de fuga para uma vida supostamente feliz esquecida no passado, mais precisamente na lua-de-mel no Rio de Janeiro. Um grande golpe, um golpe de mestre em Charles Hanson (Albert Finney) é o que ele internamente precisa para dar uma lição em quem o rejeitou.

Andy não conseguiu solucionar seu problema freudiano com o pai. Sua relação mal resolvida com a figura paterna resulta no pior e mais enlouquecedor golpe no seu coração: a morte da mãe Nanette (Rosemary Harris), figura no momento errado, na hora errada e no dia errado que se vê atropelada pelo destino.

O plano perfeito de Andy pára também na covardia do irmão Hank (Ethan Hawke). Incapaz é o adjetivo que persegue Hank. Incapaz de ir além na vida (mas seria por falta de oportunidades ou talento?), incapaz de dar uma vida melhor à sua filha (embora definitivamente a deseje, apesar da falta de reconhecimento de Chris (Aleksa Palladino), a ex-mulher e da própria criança). Incapaz de levar uma vida normal, sendo amante da cunhada. Incapaz de mesmo ser o autor de um assalto.

Ele deseja irromper o prefixo de negação. E acha que o dinheiro fácil o ajudará a ser um novo homem. Devia saber que a vida fácil do crime coloca sempre o diabo à espreita.

Andy planeja o assalto de forma fria e calculista que sequer passa pela sua cabeça a possibilidade do imprevisto. O destino prega peças, ele devia saber. Uma pessoa errada, uma arma disparada e um turbilhão de acontecimentos desabam sobre ele e sua consciência. E nem mesmo a droga aplacará a fúria do inevitável. Quando o cerco se fechar, a postura radical é que vai selar o seu futuro.

Dentro do mosaico criado por Lumet e pelo roteirista Kelly Masterson, a história de “Antes que o diabo saiba que você está morto” se desenvolve para além da linearidade, pois a vida é feita de nuances, de sinuosidades. É como se os diferentes ângulos da câmera mostrassem mais do que a perspectiva de cada personagem, mas lhe dessem a chance de saber que para cada porta que se abre, cada caminho que se toma, há sempre outras portas para trás que ficaram por abrir. Há sempre a escolha não feita.

Construir isso é trabalho de gente grande. Coisa para Guillermo Arriaga, roteirista de filmes como o excelente “21 Gramas” (2003) e o apenas razoável “Babel” (2006), ou Christopher Nolan, que em “Amnésia” (2000) aposta na contra-linearidade para contar sua história e tentar criar a sensação de perda de memória recente, ou memento no título original do filme, vivida pelo protagonista Leonard (Guy Pearce).

Quando se descobre que “Antes que o diabo...” é o primeiro roteiro de cinema de Masterson esta-se diante de uma revelação e um revigorante frescor de novidade na escrita para o cinema, ultimamente tão cercada de clichês e fórmulas. Nada mal para um bancário de Manhattan que iniciou a carreira escrevendo peças de teatro.

Em entrevista concedida durante o lançamento do filme, Masterson tentou explicar como chegou ao roteiro de “Antes que o diabo saiba que você está morto”. Reproduzo as frases que dão pistas sobre a construção de sua obra:

“Eu não sei. Era inverno e eu acho que estava deprimido quando escrevia. Eu sempre fui fascinado pela amplitude da natureza humana. Amo personagens que podemos entender e até com quem somos solidários, mas que sempre balançamos a cabeça negativamente quando percebemos o quão estupidamente eles agem. Isso provavelmente vem dos meus estudos de teologia (realizados na Universidade da Califórnia), mas eu amo os grandes temas do bem e do mal e de como somos uma grande combinação de ambos. Nós tentamos separar as coisas e viver no lado bom, mas sempre teremos nossos impulsos malignos”, explicou Masterson.

O roteirista tentou por oito anos ver o seu roteiro ganhar o cinema. Lumet mostrou sensibilidade ao identificar uma grande história em “Antes que o diabo…” e apostou nele. Com um elenco de qualidade ímpar, construiu um filme que não deve nada aos seus clássicos e tem tudo para ele mesmo se tornar também um clássico em alguns anos. Não haveria destino melhor a qualquer filme.