Qual foi a pior coisa que você já fez na vida? Uma brincadeira inocente entre amigos em uma noite de vinhos às vésperas do casamento de um dos casais da mesa torna-se o estopim para todo um… drama antes da cerimônia que unirá em definitivo (ou não) Emma (Zendaya) e Charlie (Robert Pattinson).
Esse casamento será tenso
A chocante revelação de Emma sobre algo que ela nunca fez, mas planejou fazer, jogou uma nuvem de dúvidas e rancores em um casamento que já tinha naturalmente a sua dose de drama, sofrimento e ansiedade. E nos faz refletir a partir de dois conceitos até bastante clichês:
1) Até onde conhecemos de fato nossos parceiros?
2) Será de fato a ignorância uma bênção?
Se eu tivesse que responder a estas duas questões sob um ponto de vista meramente pessoal, diria primeiro que nunca conhecemos de fato não apenas nossos parceiros, mas todos ao nosso redor. Até mesmo nossos pais. De certa forma, todos temos algum esqueleto no armário. Não necessariamente tão pesados e que causem um evidente desconforto como o que acontece com Charlie e seus amigos, mas o suficiente para não querermos exibi-lo nem para nossos melhores amigos.
Em segundo lugar, penso que é sempre melhor ter conhecimento do que viver na ilusão da ignorância. Por mais dolorosa que possa ser, a verdade é sempre melhor. E ela foi bem dolorosa para Charlie quando ouviu o que Emma havia revelado.
(Atenção que a partir de agora tratarei de spoilers do filme)
Quando Emma revela que na adolescência planejou um ataque a sua escola que só não foi a frente por circunstâncias da vida, Charlie fica não apenas chocado, mas obcecado por descobrir se a sua futura mulher é, digamos, normal ou uma psicopata.
Toda a revelação pega não apenas Charlie, mas Rachel (Alana Haim), a melhor amiga e dama de honra do casamento, e Mike (Mamoudou Athie), amigo de Charlie, de surpresa. Curiosamente, Mike é o único que age com naturalidade e tentando evitar que a conversa escale enquanto a sua mulher simplesmente não perdoa Emma. Por trás da dor de Rachel está o fato de sua irmã ser vítima de um school shooting que hoje vive numa cadeira de rodas.
A partir daí, uma série de situações vão acontecendo em “O Drama” que fazem jus ao nome do filme. Por vezes, toda a celeuma causada por aquela brincadeira supostamente inocente em um jantar parece todo um dramalhão desnecessário. Afinal, Emma não cometeu de fato nenhum crime. Apenas pensou e planejou fazê-lo. Já Rachel, por exemplo, fez coisa pior em seu passado, na medida em que cometeu de fato um ato de violência contra um colega.
O diretor Kristoffer Borgli, do bom filme “O Homem dos Sonhos” (2023), consegue equilibrar de um jeito muito especial drama e comédia neste filme que tem um texto muito divertido e que trabalha um pouco com quebras de expectativas.
Borgli é norueguês e eu consigo ver um pouco do estilo do cinema norueguês de abordar relacionamentos retratado no filme. É o caso do fato de eles estarem sempre conversando abertamente sobre os temas necessários e uma certa objetividade que pode facilmente ser confundida com um tom de frieza. Embora esta frieza acabe por ser quebrada pelos momentos de comédia (ou de quando rimos de nervoso) do filme. Deve-se isso a um leve toque de melodrama no filme. Especialmente pela forma como a história de Emma se instala na cabeça de Charlie de tal maneira que o faz ser consumido de forma obsessiva.
Se tem duas pessoas que entenderam bem o tom implantado por Borgli foram as atrizes femininas de “O Drama”. Não apenas Zendaya, que está naturalmente muito bem, mas Alana Haim e Hailey Gates (Misha), estão muito bem nos seus papéis. Haim consegue muito bem ser aquela mulher fria e julgadora sem se importar com contextos, só para impor a sua verdade. Gates tem uma pequena participação, mas é como a explosão da última granada que pode significar a implosão definitiva daquele casamento que ainda sequer foi celebrado. E toda a cena do casamento no final é puro ouro.
“O Drama” me surpreendeu positivamente. É um filme que tem um texto muito divertido e um casal de atores carismático que soube aproveitar bem o que texto lhes oferecia.
Nota 8/10.
Nenhum comentário:
Postar um comentário