Desde o início sabia-se que a cinebiografia de Michael Jackson seria chapa branca. O controle da família e daqueles que o cercaram, retratados na lista de produtores do filme, que pode ser encontrada em qualquer site especializado de cinema, eram mostra suficiente de que temas delicados seriam evitados ou suavizados. Eu só não imaginava que “Michael” fosse um filme tão sem alma e sem personalidade e que foi incapaz de retratar a complexidade de um artista como Michael Jackson.
Na verdade, estou sendo ligeiramente injusto. “Michael” tem alma em alguns momentos. Mais especificamente eu seus números musicais. Eles são o ponto alto do filme dirigido por Antoine Fuqua, tanto quando vemos o Michsel criança interpretado com magnetismo por Juliano Valdi, quanto quando vemos o sobrinho de Michael, Jaafar Jackson mimetizando os passos, os trejeitos e a forma de cantar do tio. São nestes momentos que o filme ganha vida, emociona e faz o espectador cantar junto. Mas é só. Quando entramos nos intervalos dos “clipes musicais” e é preciso contar a história, “Michael” é superficial, por vezes incorreto, por vezes injusto e não investiga a alma por trás do artista biografado.
“Michael” tem um vilão óbvio: Joseph Jackson (Colman Domingo), o pai controlador, violento e manipulador. O homem que praticava abuso físico e psicológico com os filhos, em especial o mais jovem e talentoso deles. Mas o que se vê na tela é apenas o necessário para pintar um vilão sem que se possa aprofundar a relação complexa de Michael com o pai e a família como um todo.
Tudo é muito passageiro e pouco aprofundado na cinebiografia. O filme compreende o início dos jovens Jackson 5 e vai até o fim definitivo do grupo, quando Michael já fazia muito sucesso em carreira solo após ter lançado os álbuns “Off The Wall” (1979) e “Thriller” (1982). Mesmo compreendendo um período de tempo que vai até metade da vida de Michael, Fuqua não consegue dar um norte preciso ao filme.
A infância de Michael passa rapidamente e se resume a números musicais e opressão paterna. E quando Fuqua tenta investigar os problemas psicológicos do artista, ele apenas mostra sinais muito sutis, como a criança que vê no produtor da Motown uma figura paterna que não tem em casa. Aliás, no filme Michael nunca chama Joseph de pai. É sempre Joseph. Outro sutileza que não é mais explorada. Ficam apenas os sinais de que havia algo errado ali.
Quando passamos para a adolescência e início da vida adulta, vemos um homem solitário e sem amigos, que se apega a bichos exóticos. Mas mais uma vez a solidão de Michael é apenas citada ao largo enquanto passamos para mais um número musical arrebatador. E eles são arrebatadores, pois a música de Michael Jackson é fenomenal e implacável.
Também não conseguimos de fato mergulhar na alma atormentada de Michael quando ele se vê dividido entre o amor a família e a necessidade de seguir em carreira solo. Jaafar Jackson tenta explorar isso, mas Fuqua não consegue dar voz a esse esforço, deixando sempre o filme num tom superficial, que infelizmente é a maior marca de “Michael”.
Faltam alma e ideias claras ao filme de Fuqua. Filme este que comete dois erros graves. O primeiro é a ausência de Janet Jackson. Talvez o segundo membro mais famoso da família, Janet não existe no filme. E ela já era uma adolescente quando Michael lançou “Thriller”. Se houver mesmo um segundo filme, como “Michael” deixa claro em suas cenas finais, quero ver o que irão fazer, uma vez que Michael gravou uma música de sucesso com a irmã (“Scream”, que está na coletânea “History”)
O segundo e mais importante é a desimportância dada ao produtor Quincy Jones. Essa foi de uma desonestidade intelectual brutal. A parceria entre Michael e Jones é uma das mais importantes da história da música. Jones era um midas da indústria. A genialidade de Michael só aflorou ao lado do produtor que, no filme, é retratado apenas como mais um na vida do cantor. Na verdade, o guarda-costas Bill (Keilyn Durrell Jones) e o advogado John Branca (Miles Teller) têm mais importância no filme do que Jones. Não que eles não fossem personagens relevantes, mas o apagamento do produtor foi dos erros mais graves de “Michael”.
Em resumo, “Michael” é fascinante em seus números musicais. Principalmente para seus fãs, que vão se ver sentindo saudade do ídolo morto em 2009. Por outro lado, é vazio e superficial ao focar somente no artista no palco e não nos trazer um retrato ou ideias sobre o homem e um artista complexos fora dele.
Nota 6,5/10

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