quarta-feira, 10 de junho de 2026

Spielberg oferece respostas fáceis e conciliação ao tema dos extraterrestres em “Dia D”

O tema da vida fora da Terra sempre fascinou Steven Spielberg, que, não por acaso, já dirigiu cinco filmes sobre o assunto: “Firelight” (1964), “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” (1977), “E.T. — O Extraterrestre” (1982), “Guerra dos Mundos” (2005) e o novo “Dia D” (“Disclosure Day”, no original). Não vi o “Firelight”, filmado por um Spielberg ainda com 17 anos, mas pelo menos em cada um destes quatro últimos, o diretor aborda um aspecto diferente a partir de uma premissa básica: O que faríamos se descobríssemos que não estamos sozinhos no universo?

O que Spielberg oferece como resposta em “Dia D” é uma visão até certo ponto romântica e conciliadora sobre o tema. E com respostas fáceis a uma questão que parece longe de ter uma resposta fácil. Ainda, que, por outro lado, o filme tenha algumas qualidades que o tornam muito interessante.

“Dia D” começa com a tentativa de Daniel Kellner (Josh O´Connor) de recuperar a namorada Jane (Eve Hewson), que fora sequestrada pelos capangas do dono de uma empresa chamado Noah Scanlon (Colin Firth). Não sabemos nada sobre a vida destes personagens. Apenas que Kellner roubou algo de Scanlon e agora precisa enfrentar o dilema de devolver o que roubou em troca da namorada feita de refém.

Em outra parte da cidade, Margaret (Emily Blunt) vive uma crise existencial porque deseja mais do que ser a moça do tempo no telejornal local. Mais do que insatisfeita ela está inquieta e pensando em mudanças, o que deixa Jackson (Wyatt Russell), o seu namorado, preocupado, pois ele não deseja mudar de cidade mais uma vez. A visita de um pequeno pássaro vermelho, porém, muda ainda mais a dinâmica do casal, uma vez que subitamente após olhar para o pássaro, Margaret começa a falar em russo com Jackson.

Somente nestes 15 minutos iniciais, vemos aquela que é uma das grandes qualidades de “Dia D”. Spielberg não está disposto a contar tudo imediatamente na velocidade de um tik tok como vemos em muitas produções do cinema atual. Nenhuma pergunta a qualquer “esquisitice” ou “estranheza” que o filme apresenta fica sem resposta, mas precisamos pensar e ter paciência para ver a construção da resposta na tela.

É assim com o comportamento de Margaret, que, além de falar todas as línguas, começa a saber tudo sobre a vida de quem faz contato visual. É assim com Kellner, que tem uma incrível capacidade de compreender matematicamente a linguagem que lhe aparece quando Margaret é vista aparentemente grunhindo na TV. É assim com o biólogo Hugo Wakefield (Colman Domingo), que sempre aparece num cenário sendo construído, o que nos faz pensar o que ele estaria fazendo num estúdio de TV. Só descobrimos isso na parte final do filme.

O mesmo acontece com os objetivos estranhos, os truques mentais realizados com o auxílio de tecnologia e tudo o mais que gera uma pergunta na nossa cabeça. O ritmo do filme de 2h25min é o da paciência. Com paciência todas as respostas vão surgir. Podem não ser as que queremos, mas perguntas não ficam sem respostas.

Se é louvável que Spielberg faça um filme com ritmo de um cinema de poucas décadas atrás num mundo audiovisual com velocidade de videoclipe, penso que em alguns aspectos da forma e das ideias que o filme apresenta é um trabalho abaixo do que o diretor já nos ofereceu.

Num mundo cheio de conflitos e segredos, governos que não se importam com a verdade, corporações com poderes de Estado, bilionários comandando gigantes com influência em governos e redes sociais derretendo o cérebro do ser humano comum, é difícil imaginar a fluidez com que o filme atravessa os seus conflitos em seu tema central: revelar ao mundo a existência de vida extraterrestre e revelar ao mundo que o governo dos Estados Unidos guardava este segredo há décadas.

Scanlon é um personagem que resiste para manter os segredos guardados por sua empresa até simplesmente desistir e apenas aceitar o que virá pela frente como um espectador privilegiado de um telejornal. E mesmo Casper Boyd (Henry Lloyd-Hughes), o seu capanga principal, que dava sinais de que poderia se rebelar do chefe para “evitar o pior”, simplesmente nunca atinge por fim o que parecia ser o seu destino. Boyd é a metáfora do indivíduo que prefere permanecer na ignorância a saber a verdade. No entanto, Spielberg estabelece um limite que ele não pode avançar. A verdade prevalecerá.

Essa ausência de um conflito maior é o que perpassa o tema da fé que o filme tenta mostrar. Um dos pontos mais comuns quando se questiona sobre a possibilidade de haver vida fora da Terra é a relação destes seres com as nossas divindades. Afinal, se somos todos filhos de Deus, se somos a imagem e semelhança do Criador, quem são estes seres que não são semelhantes a nós? No entanto, a ex-noviça Jane vai do questionamento sobre a fé e a dúvida sobre a existência de Deus que poderia ser causada com a divulgação da informação confidencial para uma sensação de paz resolvida em duas linhas da Bíblia citada pela Irmã Maura (Elizabeth Marvel). Ou seja, um conflito facilmente resolvido.

É louvável o esforço de Spielberg em apostar na conciliação e acreditar que respostas fáceis sobre temas complexos satisfariam a humanidade, que pararia passivamente para assistir ao furo do século em sua rede de TV favorita. De certa forma, é um pouco o Spielberg lúdico de “E.T” numa nova roupagem em “Dia D”.

No entanto, paremos e pensemos um pouco sobre o mundo em que nós seres humanos vivemos atualmente. Estamos nos tornando cada vez mais individualistas e egoístas. De tempos em tempos, elegemos pessoas desprezíveis para comandar nossos governos, como o que vemos nos Estados Unidos de hoje. Acreditamos em mentiras espalhadas feito vírus por redes que são muito mais antissociais do que sociais. Nos tornamos dependentes destas mesmas redes sociais e suas diárias injeções de dopamina. Há grupos que acreditam que a Terra é plana e grupos que não confiam em vacinas. Não aceitamos conviver com as diferenças e perseguimos imigrantes, homossexuais, negros ou qualquer outro grupo que vemos como “potencial ameaça” ao nosso status. Há cada vez mais guerras pelo mundo, que geram perdas de vidas, crise econômica, desemprego e inflação. Rapidamente passamos a depender de Inteligência Artificial como quem depende de água. Água esta que está sendo consumida pelos data centers que mantém a IA ativa. Vivemos crises contínuas de saúde mental e uso de drogas (legais e ilegais). A humanidade vive uma crise em que só historiadores podem encontrar paralelos na história humana. Eu não tenho essa capacidade.

Diante deste breve cenário, acreditar que a revelação da existência de alienígenas ocorreria de forma pacífica ou com pouca resistência como vemos em “Dia D” é de uma inocência admirável. Tal revelação seria um ponto de virada na história humana, com consequências que eu não consigo imaginar.

Apesar desta breve reflexão sobre a substância do filme, penso que, apesar e um certo grau de opacidade, “Dia D” tem qualidades. É uma aventura que se mantém tensa do início ao fim a partir dos seus três vértices principais: Kellner, Margaret e Hugo. Vamos de um a outro personagem nesta corrida contra o tempo para revelar a verdade enquanto Scanlon tenta impedir a grande revelação. E há uma certa ansiedade para que o trio se encontre e nos dê as respostas que queremos ter. No fim, embora não seja um filme que esteja entre seus melhores trabalhos, “Dia D” ainda é um bom entretenimento que Spielberg nos oferece.

Nota 7,5/10

Nenhum comentário: