Quando decidiu se afastar do mundo do cinema em 2017, Daniel Day-Lewis sempre deixou claro que o problema nunca foi a atuação, mas todo o resto que envolve o mundo do show business. Vencedor de três Oscars e aclamada como um dos gigantes da sua geração, Day-Lewis nunca foi muito afeito ao ciclo de promoções de um filme e a necessidade de estar presente o tempo todo em todo lugar que o show business exige e que só piorou com as redes sociais.
Sean Bean e Day-Lewis em "Anêmona"
Parecia, portanto, que “Trama Fantasma” (2017), filme pelo qual ganhou uma indicação ao Oscar de ator e que levou um dos seis prêmios aos quais foi indicado no Oscar de 2018 (figurino) teria sido a sua última dança. No entanto, com o passar dos anos, Day-Lewis começou a trabalhar em um roteiro com o seu filho, Ronan Day-Lewis, e logo se chegou a conclusão de que era a hora de voltar.
O desejo de trabalhar com o filho e o desejo do filho de ver o pai protagonizar o seu filme eram legítimos, mas é claro que a presença e, mais do que isso, o fato de ser o filme do retorno de Day-Lewis chamam naturalmente mais atenção para “Anêmona” (“Anemone”, no original).
Calcado num drama familiar envolvendo os irmãos Ray (Day-Lewis) e Jem (Sean Bean), o filho de Ray, Brian (Samuel Bottomley), e sua ex-mulher e atual esposa de Jem, Nessa (Samantha Morton), “Anêmona” explora a complexidade dos relacionamentos, fala sobre culpa, quebra de confiança e evoca um sentimento de comiseração pelos seus personagens envolvidos.
Tudo começa com Brian tendo agredido fortemente alguém e sentindo-se amaldiçoado por ser filho de um pai que não conhece, mas que, pelas histórias que ouve, acredita ser um assassino. A agressão é a gota d´água para Nessa e Jem. Jem decide ir atrás do irmão, que vive isolado numa floresta, para tentar convencê-lo a voltar e conversar com o filho que ele nunca viu e livrar Brian dos estigmas que carrega. Mas os próprios irmãos têm questões a resolver em meio a um passado militar um tanto quanto obscuro.
A interação entre Day-Lewis e Sean Bean são a grande riqueza de “Anêmona”. Ver Day-Lewis trabalhar é um grande prazer, pois é um ator grandioso e que consegue sumir em cada um dos papéis que representou na carreira. Seu carrancudo Ray carrega uma culpa enorme e parece ter se imposto uma pena de prisão naquela vida simples, despojada de qualquer grande bem material na floresta. Ao longo do filme sabemos quais foram as motivações dele e o que o levou a se isolar da sociedade, abandonando a família e a mulher grávida.
Por outro lado, o filme perde força na direção um tanto quanto pesada de Ronan. “Anêmona” é seu primeiro longa e naturalmente tem alguns, digamos, vícios, que nos tiram um pouco da história. Um dos que mais me incomodou foi um constante uso do zoom com a câmera. Ronan abusou do recurso em contextos que nem sempre ajudavam a contar a história. Sua câmera esteve constantemente se aproximando dos atores ou de cenários que me fizeram refletir sobre os seus motivos com alguma frequência.
Mesmo seu movimento de câmera nem sempre é sutil ganhando uma presença que grita um pouco dentro do filme ao mesmo tempo em que não configura necessariamente uma assinatura.
Estas parecem questões que são muito de primeiro filme e de um diretor que está ainda construindo a sua linguagem, a sua voz como diretor enquanto experimenta a sua técnica. Antes de “Anêmona”, Ronan só havia dirigido dois curtas.
Questões técnicas à parte, “Anêmona” é um interessante filme de estreia de Ronan e um prazeroso retorno de Day-Lewis. Está longe de ser o seu melhor filme, mas ver o ator em cena é como estar diante de uma importante e inigualável pintura da história humana.
Nota 6/10.
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