segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

“O morro dos ventos uivantes”: fetiche, desejo e humilhação

Muito tesão e pouca substância
Após três longas, pode-se dizer Emerald Fennell está construindo um padrão em sua carreira como diretora. Ela gosta de fazer filmes em que seus personagens são humilhados até a mais completa destruição. Os três protagonistas dos seus três longas até aqui escolhem um alvo e o torcem e espremem até não lhes sobrar nada. É assim em “Bela Vingança” (2020). É assim em “Saltburn” (2023). É assim na nova versão de “O morro dos ventos uivantes”.

Muito livremente adaptado a partir da obra de Emily Brönte, “O morro dos ventos uivantes” (Wuthering Heights, no original) aposta em um humilhado Heathcliff (Jacob Elordi) como protagonista. A sua jornada é a de um homem obsessivamente apaixonado e que fará de tudo para ficar com Cathy (Margot Robbie). Cathy, que por sua vez, não nega o desejo que tem pelo jovem com quem cresceu junto, mas que, condicionada ou não por fofocas e/ou condições econômicas desfavoráveis, opta por buscar um casamento que lhe garantirá algum conforto futuro.

Como infelizmente eu não li o livro, não tenho termo de comparação, mas a visão de Fennell para a relação entre Cathy e Heathcliff parece ser é a de toxicodependentes cercada de fetiche e tesão. Primeiro, ainda crianças, eles traçam o padrão. Heathcliff é nomeado por Cathy, que a trata como algo entre um pet e um brinquedo. Ali a relação de dominação se estabelece e vai durar até a fase adulta.

É quando são adultos que o desejo toma conta dos dois, mas Cathy inicialmente o renega em nome de um casamento que a salvará de uma vida miserável e de um pai alcoólatra miserável e viciado em jogo.

Humilhado, Heathcliff vai embora. Apenas para voltar cinco anos depois rico, de barba feita e brinco na orelha. A partir daí, a relação de dominação se alterna. Ambos procuram o desejo, exploram as mais diferentes formas de trepar, mas uma hora o limite precisa ser imposto.

Heathcliff não aceita. Casa com a irmã do marido de Cathy apenas para atazanar a sua vida. O desfecho que vemos parece inevitável até para quem não leu o livro.

“O morro dos ventos uivantes” de Fennell não quer ser fiel ao livro. A diretora usa o livro de Brönte apenas para exercitar a sua tese baseada em como o desejo tem um poder destruidor. Fennell filma a humilhação do amor doentio e suas consequências dramáticas. Tudo com alguns cenários lindamente enevoados, outros takes que parecem verdadeiros quadros, mas uma escolha de figurino pesada e gritante que parece mais atrapalhar a história do que ajudar a comunicá-la.

Gosto da tese que Fennell levanta. Acho que o filme tem um início promissor ao erotizar a morte a partir da cena do enforcamento. Ali ela já dava as bases do que veríamos na relação tóxica entre Cathy e Heathcliff. Mas o que vemos nas duas horas seguintes é um filme que beira o insuportável.

Por vezes, penso que Fennell está repetindo um pouco a história de “Saltburn”, que eu adoro. O problema é que “Saltburn” tinha a sua dose de originalidade. Curiosamente, naquele filme, Jacob Elordi era a vítima do personagem de Barry Keoghan. Aqui, ele é vítima e algoz de um amor doentio e sufocante. Acho que isso me vem a mente pela ideia da destruição de um personagem até as últimas consequências. Algo que ela fez melhor em “Saltburn” e, definitivamente, fez de forma mais divertida em “Bela Vingança”.

O problema de “O morro dos ventos uivantes” não está apenas nas ideias de Fennell nem nas questões polêmicas envolvendo sua adaptação (o whitewhasing de Heathcliff, por exemplo). Pelo trailer já se perceberia que a ideia não seria ser fiel ao livro, mas usar a obra para desenvolver uma tese. Uma tese que na minha visão é baseada em três eixos: fetiche, desejo e a ideia de posse.

O problema é que a execução teve pouco cuidado em criar um bom enredo que interligasse bem a história e justificasse melhor as ideias da diretora, bem como as eventuais mudanças em comparação com o livro. Por vezes, “O morro dos ventos uivantes” parece esquecer alguns personagens (e eles nem são muitos) e não dar continuidade ao (pequeno) drama deles. O maior exemplo é a irmã de Edgar (Shazad Larif), Isabelle (Alisson Oliver). Ela tem a profundidade de uma piscina infantil entre as suas transições de jovem devotada e parceira de Cathy a rival por um amor que ela sabe que nunca terá. Sem falar na transição abrupta e artificial da relação entre ambas.

O mesmo problema identifica-se em Nelly (Hong Chau). Nunca compreendemos 100% o que a motiva a tomar suas decisões. Podemos especular e chegar a uma conclusão nossa, mas não sabemos se é inveja, prazer pelo sofrimento de Cathy, autopreservação, desejo de ascender socialmente e sair do buraco de Heights… Nelly faz tudo o que faz pensando em si ou em Cathy? E o seu desfecho só é inglório e sem sentido. Talvez se eu tivesse lido o livro compreenderia melhor esta personagem. Pelo filme de Fennell, ela só é incompreensível, embora eu tenha as minhas suspeitas.

Robbie e Elordi também estão longe de seus melhores trabalhos. Gosto mais do Heathcliff de Elordi do que da Cathy de Robbie, mas nenhum dos dois me dão qualquer sinal dos seus melhores trabalhos. Por outro lado, acho que o texto que tiveram para trabalhar era fraco. Pareciam migalhas do original.

No fim, infelizmente resta muito pouco a se aproveitar desta nova versão de “O morro dos ventos uivantes”. As ideias até estavam lá, mas sua execução deixou muito a desejar.

Nota 2/10.

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