Gente bonita e de ar blasé sofrendo de tédio e depressão |
Eu acho Terrence Malick brilhante. Mas também um cara
difícil. Então, toda vez que eu vou ao cinema sempre me surpreendo quando vejo
a sala cheia. Terrence Malick não é o tipo de diretor que enche uma sala.
Infelizmente.
Mas
talvez por ser um cara recluso e que não aparece na mídia, não dá entrevista,
enfim, se faz de gostoso. Talvez por isso, as pessoas se esqueçam dele e acabem
voltando para ver novos filmes dele.
Em
"A árvore da vida" (2011), que eu considero um filme genial, vi pelo
menos quatro pessoas irem embora antes do filme acabar. Em "Amor
pleno" (2012), colhi comentários divertidos de espectadores incomodados.
Ouvir as pessoas após um filme de Malick é sempre uma diversão. Eis alguns
exemplos:
1-
"Que porra foi essa?"
2-
"Não acredito que a gente viu isso"
3-
"Que filme chato, arrastado"
4-
"Era melhor a gente ter ido ver "Transformers"
Malick
é um cara difícil. E "De canção em canção" é um filme que é fiel à
sua filmografia e tem toda a sua assinatura. Narrativa fragmentada, sequências
bem curtas, frases jogadas na tela, closes nas expressões dos atores e cenas
idílicas.
"De
canção em canção" não é tão brilhante quanto "Amor pleno", muito
menos genial como "A árvore da vida", mas que puta filme lindo.
Tal
como eu, Malick curte um pôr-do-sol. São muitas tomadas. Acho que 95% do filme
é crepuscular. É a hora mais linda do dia. E cada cena ganha um tom idílico que
parece uma pintura de Vermeer (Ou Van Gogh, ou Rembrandt).
O
crepúsculo também serve como metáfora do estremecimento das relações. O fim do
dia é igualmente como a implosão de um triângulo amoroso que se forma entre o
cantor BV (Ryan Gosling), o produtor Cook (Michael Fassbender) e a corretora,
secretaria e aspirante à música Faye (Rooney Mara).
BV
e Faye formam um casal bonito, mas ela está infeliz na relação. Cook entra na
jogada e a faz experimentar uma vida além dos limites, dando-a uma falsa
sensação de liberdade. O empresário é um predador parasita que vive
intensamente a superficialidade do show business. A relação íntima com Faye
estremece por completo a amizade com BV, que também faz questionamentos
profissionais. O cantor também deseja se libertar das grilhões do empresário e
produtor para ter mais autonomia sob a sua música.
A
amizade implode, a infelicidade é um padrão de vida e cada um dos três
encontrará uma forma de conforto em outras relações. Cook com a garçonete
Rhonda (Natalie Portman), que totalmente alheia ao mundo do show business do empresário, não aguenta a pressão de viver aquela vida. Faye tenta buscar a
delicadeza e a compreensão que não tinha com nenhum dos dois homens com Zoey
(Bérénice Marlohe). BV vê em Amanda (Cate Blanchett), uma mulher mais velha, ao
mesmo tempo em que é um protótipo mais jovem e idealizado de sua própria mãe, uma tentativa de escapatório.
Nada
dá certo. Relações vêm e vão apenas para compreendermos que a perfeição só é
encontrada na beleza pictórica da câmera de Malick ao passear pelas mais belas
paisagens com o sol como protagonista.
"De
canção em canção" é um filme bonito como só os do Malick são. É uma
reflexão sobre as relações humanas e a busca de um mínimo de verdade num mundo
efêmero como o do entretenimento.
Enquanto
por ele desfilam nomes como Red Hot Chilli Peppers, Iggy Pop e uma participação
pra lá de especial de Patti Smith (além de um Val Kilmer quase irreconhecível
fazendo um roqueiro velho decadente com um quê de Axl Rose), Faye procura algum
equilíbrio. Entre a estabilidade e a aventura, o gozo e o tédio, ela só quer um
pouco de paz. E a chance de não se arrepender das escolhas.
Cotação
da Corneta: nota 7,5.
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