sexta-feira, 1 de maio de 2026

“O Diabo Veste Prada 2” e a morte agonizante do jornalismo

Dá uma certa melancolia assistir a “O Diabo Veste Prada 2”. Exatamente vinte anos depois do primeiro filme, a sequência, também dirigida por David Frankel, tem uma realista e dura visão sobre o mundo do jornalismo a partir das transformações sofridas ao longo das últimas duas décadas. Se o primeiro filme era sobre a indústria da moda, mas também sobre o mercado de trabalho a partir dos desmandos de uma chefe abusiva, o segundo parte da mesma premissa da indústria da moda, mas nos pega de surpresa ao ser mais sobre a morte agonizante do jornalismo.

Ao longo do filme, acompanhamos as transformações pelas quais passaram a jornalista Andy Sachs (Anne Hathaway), a outrora primeira assistente de Miranda, Emily (Emily Blunt) e a própria Miranda Priestley (Meryl Streep).

Desde que deixou de trabalhar para Miranda, Andy construiu uma carreira de sucesso no jornalismo, que era o seu grande desejo há 20 anos, quando começou a trabalhar como assistente de Miranda. O problema é que o mundo e o mercado de trabalho vêm mudando constantemente, passando por transformações, e o jornalismo sofre com isso. Foi assim que Andy e toda a equipe de reportagem da qual ela faz parte acaba por ser demitida por e-mail pelo jornal para o qual ela trabalha justamente na noite em que ela está a receber mais um prêmio importante por uma de suas reportagens.

Desde o início, portanto, Frankel dá o tom sobre o que será o filme. Será sobre crise, desemprego, necessidade de adaptação ao mundo moderno e as transformações que não impactaram somente as redações, mas também o mundo da moda.

Do outro lado, Miranda também não vive os seus momentos mais gloriosos. Agora controlada pelo RH e por sua primeira assistente, Amari (Simone Ashley), Miranda não pode mais ter o comportamento venal que costumava ter no passado, nem tecer comentários terríveis sobre a aparência ou que mostrem que ela está a praticar assédio moral com seus funcionários. Ainda assim, Miranda permanece com a língua afiada e os olhares matadores que só a Meryl Streep sabe fazer.

Uma reportagem aparentemente mal apurada coloca a “Runway” em maus lençóis e acaba forçando Miranda a se juntar novamente a Andy, agora contratada para chefiar o departamento de reportagem da revista.

A partir daqui o filme vai traçando as diferenças sobre a “Runway” do passado e a atual e do próprio mercado de trabalho. Miranda se vê forçada a ceder e a engolir sapos, pois os anunciantes têm cada vez mais poder de decisão. É o caso da Dior, onde agora Emily está trabalhando. Ela também se vê sendo forçada a lidar com orçamentos mais apertados, mudanças nos padrões de qualidade e na forma como a revista se colocar diante de um mundo tecnológico e em constante transformação. Andy, por sua vez, tem que lidar com o jeito Miranda de ser e ainda tentar manter o seu trabalho.

Eu acho curioso como neste segundo filme, Andy é como a personificação da resistência do jornalismo neste mundo hiperconectado em que todos vivemos marcados por uma pluralidade de vozes, mas pouca qualidade no discurso. Ela é a jovem que ainda tem garra para brigar, mas que está em negação diante da realidade de uma decadência galopante, corte de custos, novas lideranças que não entendem nem querem entender o negócio e só pensam em números, demissões em massa… Uma realidade que afeta até uma revista poderosa como a “Runway”.

Parte de Miranda, porém, a grande e amarga visão do futuro. Miranda resiste porque é um bastião daquilo que de melhor (e também pior) existiu no mundo do jornalismo. Ela resiste, mas sabe que o fim está próximo. Afinal, uma de suas qualidades é estar cinco passos a frente de todos ao seu redor. O olhar dela para a famosa Galleria Vittorio Emmanuelle II, em Milão, é de prazer e despedida, pois sabe que o grande desfile que a revista acabou de organizar, com direito a um concerto de Lady Gaga, possivelmente será um dos últimos não dá carreira dela, mas da história da revista, pois o jornalismo não comporta mais orçamentos desta magnitude.

Parte de Miranda, aliás, a frase mais triste e premonitória do jornalismo, quando ela se vira para Andy e diz que a “Runway” é como uma tora boiando durante o afundamento do Titanic. Ou seja, elas ainda estão sobrevivendo naquele mundo. Mas até quando?

“O Diabo veste Prada 2”, tem essa tristeza, mas também provoca uma feliz nostalgia. Rever o primeiro filme antes do segundo pode ser interessante para enriquecer a experiência. Logo em uma das primeiras cenas, vê-se os dois cintos que no primeiro filme causaram tanta controvérsia na chegada de Andy a “Runway” sendo vendidos num camelô nas ruas de Nova York. Ela dá um sorriso, segue em frente e o espectador que tem o primeiro filme fresco na memória sorri junto. Ali, vemos uma referência, mas só depois percebemos que o filme estava também plantando a sua temática sobre as transformações sofridas pelo mercado nestas décadas que se passaram. O filme também é cercado de referências e piscadelas ao trabalho original que farão o fã sorrir ou se lembrar de situações e compará-las com o que está vendo na versão de 2026.

Muito sobre o filme de Frankel é sobre a mudança dos tempos. Em alguns aspectos elas foram para melhor, como a necessidade de controlar o comportamento abusivo de Miranda. Outras permanecem iguais, como o regime ainda terrível de suas assistentes. E quando se trata do mundo do jornalismo, bem, qualquer um que tenha passado por uma redação nos últimos 20 anos, reconheceu todos os movimentos que o filme mostra. O que prova que o trabalho da roteirista Aline Brosh McKenna foi impecável.

Já Stanley Tucci, continua sendo um coadjuvante de luxo. O seu Nigel, fiel escudeiro de Miranda, é um dos pontos altos do filme. Especialmente em suas interações com Andy, que, são cercadas de nostalgia do primeiro filme. E aos poucos ele tem o destaque que merece por ser um braço direito não muito reconhecido de Miranda.

A luz do filme, no entanto, é, e sempre foi Meryl Streep. A atriz sabe muito bem dizer muito com poucas falas. Sua postura, seu olhar… Streep está em um dos seus grandes trabalhos neste segundo filme. E ainda ganhou um companheiro de luxo na pele do novo marido vivido por Kenneth Branagh.

Se eu tivesse que fazer uma crítica ao filme está mais na forma como a Emily foi tratada nesta sequência. Ela tinha uma perspectiva interessante sobre o trabalho no mundo da moda ao trocar uma revista por uma marca de luxo. Na sequência, porém, há uma tentativa de transformá-la numa espécie de vilã do filme a partir de uma virada de roteiro, mas que o próprio filme não sustenta muito. Parece que Emily está um pouco perdida ao longo da história e que não era exatamente um desejo do roteiro de fazê-la ser uma antagonista surpresa de Miranda. A personagem de Emily Blunt ficou um pouco prejudicada neste segundo filme. Até porque no fim, o que “O Diabo Veste Prada 2” nos mostra é que o grande vilão da história é mesmo o capitalismo.

Nota 8/10

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