terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Os melhores filmes de 2025

"Valor Sentimental", "Pecadores" e "O Agente Secreto"
Para encerrar o ano, vamos a lista com os meus filmes favoritos de 2025. Foi um sofrimento chegar a uma lista que fosse boa e diversa. 

Tive que deixar alguns diretores que gosto muito de fora, como Guillermo del Toro (“Frankenstein”), Wes Anderson (“O esquema fenício”) e Richard Linklater (“Nouvelle Vague”), em nome de uma variedade e também porque embora tenha gostado de seus filmes, acho que faltou algo para eles estarem no top-40 deste ano. 

Fico feliz, no entanto, pela quantidade de filmes brasileiros que entrou na lista. Foram cinco, mostrando que foi um belo ano para o cinema brasileiro. E mais poderiam até ter entrado. No fim, tudo é uma mistura de gosto pessoal, equilíbrio e análise crítica. Não existe lista perfeita. E a minha está longe de ser perfeita. 

Dito isto, vamos a lista:

1 — Valor Sentimental (Affeksjonsverdi — NOR, ALE, DIN. FRA, SUE, ING, TUR). Diretor: Joachim Trier.

2 — Pecadores (Sinners — EUA). Diretor: Ryan Coogler.

3 — O Agente Secreto (O Agente Secreto — BRA, FRA, NL, ALE). Diretor: Kléber Mendonça Filho.

4 — Uma Batalha após a outra (One Battle After Another — EUA). Diretor: Paul Thomas Anderson.

5 — Dreams (Drommer — NOR). Diretor: Dag Johan Haugerud.

6 — Sing Sing (Sing Sing — EUA) — Diretor: Greg Kwedar.

7 — Homem com H (Homem com H — BRA) — Diretor: Esmir Filho.

8 — Amável (Elskling — NOR) — Diretora: Lilja Ingolfsdottir.

9 — O filho de mil homens (O filho de mil homens — BRA) — Diretor: Daniel Rezende.

10 — Bugonia (Bugonia — IRL, ING, CAN, COR, EUA) — Diretor: Yorgos Lanthimos.

11- Foi apenas um acidente (Yek Tasadef sadeh — IRN, FRA, LUX, EUA) — Diretor: Jafar Panahi.

12- A vida de Chuck (The Life of Chuck — EUA) — Diretor: Mike Flanagan.

13- A semente do fruto sagrado (Dâne-ye anjir-e ma´âbed — FRA, ALE) — Diretor: Mohammad Rasoulof.

14 — O Brutalista (The Brutalist — EUA, ING, CAN) — Diretor: Brady Corbet.

15 — Oeste outra vez (Oeste outra vez — BRA ) — Diretor: Erico Rassi.

16 — O último azul (O último azul — BRA, MEX, NL, CHI) — Diretror: Gabriel Mascaro.

17 — On Falling (On Falling — ING, POR) — Diretora: Laura Carreira.

18 — O reformatório Nickel (Nickel Boys — EUA) — Diretor: RaMell Ross.

19- Um completo desconhecido (A complete unknow — EUA) — Diretor: James Mangold.

20 — Love (Kjaerlighet — NOR) — Diretor: Dag Johan Haugerud.

21 — Vitória (Vitória — BRA) — Diretor: Andrucha Waddington.

22 — Sorry, Baby (Sorry, Baby — EUA, ESP, FRA) — Diretora: Eva Victor.

23 — Sirât (Sirât — FRA, ESP ) — Diretor: Oliver Laxe.

24 — Sonhos de Trem (Train Dreams — EUA) — Diretor: Clint Bentley.

25 — Morra, amor (Die my love — ING, CAN, EUA ) — Diretora: Lynne Ramsay.

26 — Springsteen: Salve-me do Desconhecido (Springsteen: Deliver Me from Nowhere — EUA) — Diretor: Scott Cooper.

27 — F1: O Filme (F1: The Movie — EUA) — Diretor: Joseph Kosinski.

28 — A hora do mal (Weapons — EUA) — Diretor: Zach Cregger.

29 — Superman (Superman — EUA, CAN, AUS, NZL) — Diretor: James Gunn.

30 — A história de Souleymane (L´Histoire de Souleymane — FRA ) — Diretor: Boris Lojkine.

31 — Ladrões (Caught Stealing — EUA) — Diretor: Darren Aronofsky.

32 — O ônibus perdido (The Lost Bus — EUA) — Diretor: Paul Greengrass.

33 — Honey, não! (Honey, Don´t! — ING, EUA) — Diretor: Ethan Coen.

34 — Acompanhante Perfeita (Companion — EUA) — Diretor: Drew Hancock.

35 — Pequenas coisas como estas (Small Things Like These — IRL, BEL, EUA) — Diretor: Tim Mielants.

36 — Extermínio: A Evolução (28 Years Later — ING, EUA) — Diretor: Danny Boyle.

37 — Código Preto (Black Bag — EUA) — Diretor: Steven Soderbergh.

38 — Jovens Mães (Jeunes mères — BEL, FRA ) — Diretores: Jean-Pierre e Luc Dardenne.

39 — Três amigas (Trois Amies — FRA) — Diretor: Emmanuel Mouret.

40 — Primeiro encontro (Follemente — ITA) — Diretor: Paolo Genovese.

Como este também foi um ano em que vi mais documentários do que o normal e sempre achei que documentários são muito diferentes de filmes de ficção para serem colocados dentro da mesma categoria, resolvi fazer um top-5 documentários. 

Segue a minha lista:

1 — Ernest Cole: Achados e Perdidos (Ernest Cole: Lost and Found — FRA, EUA) — Diretor: Raoul Peck.

2- Ozzy Osbourne: No escape from now (Ozzy Osbourne: No escape from now — EUA, ING) — Diretora: Tania Alexander.

3 — Becoming Led Zeppelin (Becoming Led Zeppelin — ING, EUA) — Diretor: Bernard MacMahon.

4- Ritas (Ritas — BRA) — Diretores: Oswaldo Santana e Karen Harley.

5- Apocalipse nos Trópicos (Apocalypse in the Tropics — EUA, BRA, ING) — Diretora: Petra Costa.

É isso. Um feliz ano novo a todos. Em 2026, voltamos com mais análises de filmes e listas. 

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

As melhores séries de 2025

"The Pitt", "Adolescência" e "Pluribus", o top-3
Antepenúltimo dia do ano. Chegou a hora de divulgar a lista com as melhores séries de 2025. Foi um ano de muita coisa boa. Lamento pelas que ficaram de fora, mas a regra é clara. Só vale 20.

Então segue abaixo o crème de la crème da televisão/streaming de 2025.

1- The Pitt (The Pitt — EUA — HBO) — Essa série foi uma porrada arrebatadora. Foi a mais surpreendente que eu vi em 2025. Principalmente porque eu não gosto e não ligo para séries médicas. Contudo, foi uma decisão muito sabia em dar uma chance para ela. “The Pitt” tem tudo o que uma boa série precisa ter. O roteiro é ótimo, os atores são muito bons, a série é bem dirigida, as histórias são muito boas, a tensão da urgência do hospital é permanente. Nunca soube que eu precisava de uma série médica que funciona ao estilo da antiga série “24 horas”. Sensacional.

2- Adolescência (Adolescence — ING — Netflix) — Além de ser uma série excelente sobre temas extremamente importantes e atuais, a série ainda se impôs o desafio de filmar todos os episódios em plano-sequência. Isso é praticamente uma música de rock progressivo do audiovisual. “Adolescência” foi outra surpresa extremamente agradável do ano.

3- Pluribus (Pluribus — EUA — Apple TV) — Vince Gilligan é um mago da TV. E tem a incrível capacidade de fazer séries de um jeito absolutamente refinado. Gilligan não trata o espectador como idiota e seus trabalhos tem o tempo de desenvolvimento que ele acha que deve ter, sem apelar para plot twists ou cliffhangers. “Pluribus” chegou bem no final do ano para discutir temas como positividade tóxica, entre outros, e nos colocou semanalmente para pensar sobre o que faríamos nas mais diferentes situações que seus episódios exibiam. Assim como “Breaking Bad” e “Better Call Saul”, “Pluribus” tem a marca do refinamento e o timing estabelecido por seu criador. Não vejo a hora de ver a segunda temporada.

4- O Estúdio (The Studio — EUA — Apple TV) — Uma série fenomenal sobre a indústria cinematográfica de Hollywood. Não sei como o Seth Rogen conseguiu convencer tanta gente a participar dela protagonizando muitas cenas que são críticas à própria indústria. Foram muitos episódios icônicos que fizeram com que a série figurasse no top-5 de 2025.

5- O lendário Martin Scorsese (Mr. Scorsese — EUA — Apple TV) — Série documental maravilhosa dirigida por Rebecca Miller. Uma verdadeira aula de cinema em cinco capítulos. Ela reafirma a genialidade do diretor, expõe seus demônios internos e externos e mostra o quanto Scorsese é um indivíduo muito único na indústria. De quebra, ainda reafirma a genialidade de nomes como o ator Robert De Niro e a montadora Thelma Schoonmaker, frequentes colaboradores de Scorsese, e a importância de Leonardo Di Caprio para o diretor a partir da virada para o século XXI.

6- Andor (Andor — EUA — Disney Plus) — “I have friends everywhere”. Essa frase ficou ecoando por dias na minha cabeça como um símbolo da resistência política neste que é um dos melhores trabalhos já feitos dentro do universo de Star Wars. Que série incrível.

7- Ruptura (Severance — EUA — Apple TV) — A segunda temporada de “Ruptura” continuou entregando episódios muito bons enquanto aprofundava a discussão sobre os internos e os externos. E o final foi excelente.

8- Alien: Earth (Alien: Earth — EUA, TAI — Fx/Hulu) — Além de Vince Gilligan, que eu falei aqui em cima, outro cara que sabe fazer TV de qualidade é Noah Hawley. Responsável por “Fargo” (2014–2024) e “Legion” (2018–2019), Hawley criou uma série do universo de Alien que é um misto de ficção científica, suspense e terror com design e elementos visuais que lembram muito o de “Blade Runner” (1982). Está é a primeira história do universo que se passa na Terra, onde vemos grandes corporações disputarem espécimes com incrível capacidade de adaptação e que se espalham facilmente como vírus destruidores.

9- Terra da Máfia (Mobland — ING, EUA — Paramount/MTV) — Série maravilhosa sobre a máfia de Londres com Tom Hardy e Helen Mirren inspiradíssimos e uma das melhores atuações da carreira de Pierce Brosnan.

10- Task (Task — EUA — HBO) — Brad Ingelsby praticamente repetiu a fórmula de “Mare of Easttown” (cidade insignificante dos EUA, policial longe da melhor forma física e mental e um crime para resolver) e criou mais uma série maravilhosa. É preciso estar sempre de olho no que Ingelsby está fazendo. Ele parece dominar um certo tipo de narrativa bem interessante. 

11- A Diplomata (The Diplomat — ING, EUA — Netflix) — A série está na sua terceira temporada e não perdeu o fôlego. Criada por Deborah Cahn, a série tem um humor refinado ao mesmo tempo em que fala de geopolítica e faz o trabalho de um embaixador parecer mais emocionante do que eu imagino que deva ser.

12- Slow Horses (Slow Horses — ING, EUA — Apple TV) — A quinta temporada foi uma das melhores da série protagonizada por Gary Oldman. É outra série que está longe de perder o fôlego.

13- O Urso (The Bear — EUA — FX) — Esta é uma série que vem aparecendo entre as melhores todo ano desde a sua estreia. Gostei muito da quarta temporada e a sua posição atual neste ranking não reflete uma queda de qualidade. Pelo contrário, sua força está em ter aparecido por quatro vezes na lista das melhores de um ano.

14- Paradise (Paradise — EUA — Hulu) — Esta foi uma das boas surpresas do ano. Um segurança do presidente estadunidense tenta resolver um crime dentro de um mega bunker da humanidade num mundo pós-apocalíptico. E mais eu não posso dizer.

15- Morrendo por sexo (Dying for Sex — EUA — FX/Hulu) — Imagina ter um tema super pesado para tratar como a morte iminente por câncer e juntar isso com a história de uma mulher que começa a explorar plenamente a sua sexualidade em busca de um orgasmo. Não parecia ser possível juntar as duas coisas, mas nada que um texto muito bom adaptado do podcast “Dying for sex” por Elizabeth Merriwether e Kim Rosenstock e uma interpretação maravilhosa de Michelle Williams não transformassem numa ótima, divertida, engraçada e agridoce série de TV.

16- Terra Indomável (American Primeval — EUA — Netflix) — Foi uma das primeiras séries que eu vi no ano e foi uma surpresa positiva. Fala de uma forma brutal sobre a exploração do Oeste americano. Longe do romantismo que vemos em filmes antigos, ela mostra a espiral de violência envolvendo nativos, governo, mórmons imigrantes. Tudo com muita sujeira e caos.

17- Diários de um robô assassino (Murderbot — EUA — Apple TV) — Uma grants surpresa. Não dava nada por está série, mas ela se revelou bem legal. Trata de um robô que faz segurança para humanos que hackeia o próprio sistema, se rebela e só quer ver séries de TV enquanto descobre os prazeres do mundo. Alexander Skarsgaard mostrou ter um bom timing cômico.

18- Fundação (Foundation — EUA — Apple TV) — Foi o ano da Apple TV definitivamente. “Fundação” é a sétima produção da Apple a entrar no top-20, mostrando que o streaming tem feito muita coisa de qualidade. A terceira temporada desta série foi uma das minhas favoritas e ainda teve um episódio final de tirar o fôlego. Para mim, “Fundação” só vem crescendo, ainda que pouco se fale sobre está série baseada na obra de Isaac Asimov. E definitivamente em 2026 eu preciso começar a ler Asimov. 

19- Hacks (Hacks — EUA — HBO) — A quarta temporada pode até não ter o mesmo fôlego que as anteriores, mas “Hacks” continua sendo uma série muito legal de acompanhar.

20- It: Bem-vindos a Derry (Welcome to Derry — EUA — HBO) — Esta série mostrou que há fôlego para a expansão do universo de “It”. A primeira temporada foi interessante o suficiente para figurar nesta lista e despertar a minha curiosidade para os trabalhos futuros.

Menções honrosas: “Black Rabbit” (Netflix), As quatro estações (Netflix), “Demolidor: Renascido” (Disney Plus), A idade dourada (HBO) e “O monstro em mim” (Netflix).

Amanhã voltamos com a lista dos melhores filmes do ano. 

domingo, 28 de dezembro de 2025

Os melhores álbuns de 2025

Com 2025 chegando ao fim, é hora de fazer a lista dos melhores álbuns do ano. Eis o meu top-20:

1 — Daron Malakian nd Scars on Broadway — “Addicted to the Violence” — Se tem algum fã de System of a Down com saudade de um material inédito da banda, talvez uma boa opção seja ouvir a discografia solo de Daron Malakian. O terceiro álbum do músico em muitos momentos lembra um disco do System of a Down, mas sem os vocais marcantes de Serj Tankian. Por outro lado, é um álbum que apresenta uma estrutura eclética, boas melodias e temas políticos que o fizeram ficar no topo da minha lista. (Mais sobre o disco na crítica que fiz para o site Rock on Board)

2 — Ghost — “Skeletá” — “Skeletá” pode até não ser o melhor álbum do Ghost, mas é inegável que a banda liderada por Tobias Forge, ou atualmente Papa V Perpetua, fez um dos grandes álbuns de 2025. Muito influenciado pelo rock dos anos 1980, reafirma as virtudes da banda sueca, que também proporcionou uma experiência em seus concertos que foi interessante e perdida pelos tempos modernos, em que os celulares foram proibidos. “Skeletá” é rock, é pop, é teatro, é espetáculo e merece todos os elogios. (Mais sobre o disco na crítica que fiz para o site Rock on Board)

3 — The Amazons — “21st Century Fiction” — Eu não conhecia muito bem esta banda britânica até ouvir “21st Century Fiction”. O álbum foi um arrebatamento instantâneo. Por vezes, o The Amazons me lembrou um pouco bandas como Royal Blood e Muse, mas ficar preso a isto seria limitar demais o som do grupo de Reading formado por Matt Thomson (vocais), Chris Alderton (guitarra) e Elliot Briggs (baixo), que fez um dos grandes álbuns de rock do ano.

4 — Suede — “Antidepressants” — Nunca prestei muita atenção no Suede, mas “Antidepressants” definitivamente fez com que eu achasse que devia dar uma olhada com mais atenção na banda. Décimo álbum de estúdio do grupo de Londres, o disco tem uma pegada meio soturna, gótica, explorando temas com paranoia, morte e a desconexão com a modernidade. Ao mesmo tempo e paradoxalmente há críticos que o veem como uma afirmação da vida. Eu gostei bastante do que ouvi e agora pretendo dar mais atenção ao resto da discografia do grupo.

5 — The Hives — “The Hives Forever Forever The Hives” — Sétimo trabalho de estúdio da banda sueca, este disco representa o The Hives fincando os dois pés no rock de arena, o que eles mostraram saber fazer muito bem para quem teve a oportunidade de assistir aos shows da turnê deste disco. “The Hives Forever Forever The Hives” é divertido, bem feito e levantaria qualquer um de um estado de tristeza.

6 — Lady Gaga — “Mayhem” — Que belezura de álbum. Aquele disco pop raiz que me fez transportar para uma música pop feita um pouco nos anos 1980 e 1990. Muita gente exalta “Abracadabra”, mas esta está longe de ser a melhor canção de um álbum que tem canções como “Vanish into you”, “Disease” e “Perfect Celebrity”.

7 — El Cuarteto de Nos — “Puertas” — Essa banda uruguaia tem mais de 40 anos de estrada e até então eu nunca tinha escutado nenhum trabalho dela. “Puertas” caiu no meu colo em meio a vários discos ao longo deste ano e gostei imediatamente. Agora preciso me aprofundar mais e ouvir os outros trabalhos do grupo.

8 — We Are Scientists — “Qialifying Mile” — Um álbum bem robusto musicalmente. Acho muito interessante a consistência, arranjos e escopo lírico que a banda da Califórnia criou neste que é o seu nono álbum de estúdio.

9 — Wolf Alice — “The Clearing” — Há discos que não nos ganham na primeira vez que ouvimos. “The Clearing” foi um pouco assim. Na primeira vez que ouvi o quarto álbum de estúdio desta banda britânica, eu achei legal, mas nada de especial. Foi então que resolvi ouvir de novo e a magia aconteceu, me fazendo perceber a riqueza e uma série de nuances deste disco que tem uma pegada um tanto quanto setentista.

10 — The Hellacopters — “Overdrive” — O Hellacopters é a terceira banda sueca a entrar nesta lista, mostrando que há toda uma cena roqueira interessante acontecendo por lá. “Overdrive” é um classic rock feijão com arroz bem feito e saboroso.

11 — Franz Ferdinand — “The Human Fear” — Não tenho visto o Franz Ferdinand figurar em muitas listas neste ano. Em parte acho que é porque “The Human Fear” não está entre os melhores trabalhos da banda. Em parte eu acho que é porque “The Human Fear” saiu no dia 10 de janeiro. Mas este é um outro disco que cresce muito conforme ouvimos cada vez mais. Acho um álbum gostoso demais de ouvir, meio como entrar numa festa nostálgica na night escocesa.

12 — Halestorm — “Everest” — Sempre gostei do hard rock da banda liderada por Lzzy Hale e acho que “Everest” tem algumas de suas melhores canções. Destaque para “Shiver”, que é uma das minhas músicas favoritas do disco.

13 — Bush — “I Beat Loneliness” — “I Beat Loneliness” é um pouco uma tentativa do Bush em retomar uma sonoridade que mostrava no início, mas também uma tentativa de dar uma nova guinada para o futuro. Como olhar para o passado buscando inspiração para se adaptar e seguir em frente. Eu gostei do álbum e foi mais um que cresceu para mim na segunda vez que ouvi. (Mais sobre o disco na crítica que fiz para o site Rock on Board)

14 — The Darkness — “Dreams on Toast” — O que eu mais gosto deste álbum do The Darkness é sua versatilidade. O disco tem rock, country, baladas e ainda termina com uma canção digna de um musical.

15 — Robert Plant with Suzi Dian — “Saving Grace” — Robert Plant vive muito bem e em paz com seu passado. O Led Zeppelin não é uma sombra pesada, mas algo do que ele se orgulha e não tem nenhum problema em falar sobre, visto o documentário “Becoming Led Zeppelin”, mas ao mesmo tempo é um assunto superado. Desde então, o cantor fez diversos álbuns muito interessantes e ricos musicalmente como “Band of Joy” (2010) e “Lullaby and the Ceaseless Roar” (2014). “Saving Grace”, lançado em parceria com a cantora Suzi Dian, é tão bom que me fez quebrar a regra de que esta lista só pode ser de álbuns com material original. Aqui, Plant faz uma releitura de materiais de artistas como Memphis Minnie, Moby Grape, e Blind Willie Johnson. É um álbum muito bom de um artista em paz com o passado e de bem com o presente.

16 — Buddy Guy — “Ain´t Done with the Blues” — Buddy Guy tem 89 anos, mas como o próprio nome do seu álbum indica, está longe de ter acabado com o blues. Ele fez um excelente disco que conta ainda com parcerias com Joe Bonamassa e Peter Frampton e que foi indicado ao Grammy na categoria de Melhor Álbum de Blues Tradicional. O resultado só conheceremos em fevereiro de 2026.

17 — Florence and the Machine — “Everybody Scream” — Não sou exatamente um fã de Florence and the Machine, mas “Everybody Scream” é um álbum bem interessante musicalmente e que mereceu um lugar no top-20.

18 — The Lathums — “Matter does not define” — Terceiro álbum desta banda britânica. É daqueles discos meio indie muito legal de ouvir que muitas bandas da Inglaterra fazem. Tem um que de Smiths, um que de Arctic Monkeys. Bem interessante.

19 — Coheed and Cambria — “Vaxis — Act III: The Father of Make Believe” — Quando ouvi o álbum pela primeira vez, estava pronto para colocá-lo no top-5. A segunda escutada o fez perder um pouco da força, mas ainda assim continuei gostando de ouvir este Coheed and Cambria que me pareceu um pouco diferente da imagem que eu tinha do grupo.

20 — Neil Young and the Chrome Hearts — “Talkin to the Trees” — O Neil Young que conhecemos e amamos. Aquele garage rock com pegada blueseira e canções de protesto necessárias neste tempo sombrio em que vivemos.

Amanhã eu volto com as melhores séries de 2025.

“Valor Sentimental”: investigação do trauma e reconciliação pela arte

Reinsve está maravilhosa no papel
(Atenção: Esta crítica contém spoilers do filme)

Há filmes que a gente consegue saber desde o início que estarmos diante de algo diferente. Eu tive está sensação nos primeiros minutos de “Valor Sentimental” (Affeksjonsverdi, no original), o novo filme do diretor dinamarquês Joachim Trier, o mesmo do excelente “A pior pessoa do mundo” (2021).

Nestes primeiros minutos, Trier usa a casa que pertenceu a diferentes gerações da mesma família como uma metáfora para uma exploração da intimidade desta família, revelando memórias, fraturas e conflitos não resolvidos.

Os primeiros minutos retratam a casa tendo como texto de fundo uma redação em que a jovem Nora Borg escreveu para a escola usando a casa como a protagonista. Eles dão o início de uma jornada de investigação de traumas e reconciliação pela arte.

Pulando para o presente, o cineasta Gustav Borg (Stellan Skarsgard numa atuação absolutamente fenomenal), aparece no funeral do sua ex-mulher e se vê diante de suas duas filhas, Nora (Renate Reinsve, ainda mais impactante e cheia de nuances do que no filme anterior de Trier) e Agnes (Inge Ibsdotter Lilleaas, que eu não conhecia, mas cujo trabalho magistral não fica nem um pouco atrás dos dois protagonistas). Logo de cara, percebe-se que há uma relação com arestas que precisam ser aparadas ali.

Borg representa o clichê do cineasta livre, que viveu para o cinema, negligenciando o tempo para cuidar das filhas. Nora é uma atriz de teatro de sucesso que frequentemente tem ataques de pânico e parece ter dentro de si uma tristeza e assuntos não resolvidos. Agnes é uma historiadora que não quis seguir a carreira artística, embora tenha sido a estrela mirim de um dos filmes de sucesso de Borg. As duas se ressentem da falta do pai, são magoadas pela sua ausência que vem de muito antes de sua separação da mãe.

Borg, no entanto, parece querer tentar uma reaproximação com a família. E o caminho que ele usa é o que ele mais conhece e se sente à vontade. Depois de 15 anos sem filmar, o diretor tem um roteiro novo e quer oferecer à filha. O roteiro é perfeito para ela, ele diz. Ela, no entanto, se recusa a filmá-lo numa cena em que Skarsgaard e Reinsve duelam com expressões cheias de sutilezas e extremamente ricas pelo que não é dito. Nora diz não conseguir trabalhar com Borg porque sequer consegue dialogar com ele. Fica claro desde o início que eles têm algo que os afasta.

Borg, entretanto, precisa fazer este filme. Ele é parte do seu processo de investigação do motivo do suicídio de sua mãe quando ele tinha apenas sete anos.

É quando entra em cena a famosa atriz americana Rachel Kemp (Elle Fanning, brilhante). Ela tem o dinheiro, os recursos e o nome para atrair a atenção de grandes produtoras como a Netflix. Estes momentos que envolvem a participação de Borg em um festival de cinema e a produção para a Netflix são o máximo de alívio cômico que “Valor Sentimental” nos entregará.

Kemp se esforça muito para fazer o filme, mas por mais excelente que seja como atriz, e há algumas cenas realmente maravilhosas de Fanning neste processo, ela sente que há algo de errado. Que não devia estar ali. Embora não exponha isso para além de sutis comentários e olhares, Borg também sente que algo não está certo. Mas entre o filme possível e o não filme, ele mantém os ensaios e a produção de pé.

Paralelamente, Agnes começa a investigar o passado da avó. Sua prisão e tortura por nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Ali temos vislumbres do que a mãe de Borg viveu. Vislumbres para tentarmos conectar com sua investigação pela arte.

É curioso que Trier coloque no centro desta história um diretor, uma atriz e uma historiadora. De um lado, Borg quer fazer o filme para tentar compreender as razões do suicídio da mãe. Mas o roteiro, como ele sempre deixa claro, não é (somente) sobre ela, mas também sobre a filha, Nora, que já mais para o fim do filme, descobrimos que também tentou tirar a vida em algum momento no passado.

Do outro, temos a historiadora, a acadêmica buscando dados e fatos do passado para compreender não apenas o passado, mas também o presente.

As duas camadas são importantes para nos darem pistas para construir o quebra-cabeças daquela família com relações fraturadas pelo tempo, pelo afastamento, por escolhas equivocadas, pela falta de diálogo.

Trier construiu em “Valor Sentimental” um filme monumental. É um trabalho sobre memória e o poder reconciliador da arte que conta com atuações soberbas dos seus principais atores. Se eu só pudesse escolher um filme para levar de 2025, definitivamente seria este.

Nota 10/10.

sábado, 15 de novembro de 2025

Helloween: 40 anos de puro entretenimento

Celebrando 40 anos de Helloween no Campo Pequeno, em Lisboa. Acho muito interessante que a formação da banda com dois vocalistas (ou três de lembrarmos que Kai Hansen também canta algumas músicas), deu um novo gás para a banda e power metal alemã num momento da carreira em que veteranos grupos de hard rock e metal costumam fazer aqueles pausas estratégicas nos shows para recuperar o fôlego.

Com Michael Kiske, Andi Deris e Kai Hansen se revezando nos vocais e em muitos momentos cantando juntos, o show do Helloween praticamente não para durante quase 2h30min. Ou como Kiske e Deris comentaram durante o set acústico, alguns membros fazem a pausa do cigarrinho.

Curioso ver como está formação com a volta de Hansen e Kiske, que seria apenas para a turnê de celebração “Pumpkins United” em 2017 acabou por ser um recomeço dentro da banda, gerando uma química tão boa que o grupo até lançou um novo álbum este ano, “Giants & Monsters”.

O disco marca a primeira colaboração de Hansen com o Helloween desde “Keeper of the Seven Keys: part II” (1988) e a primeira de Kiske desde “Chameleon” (1993).

Hansen, Deris e o guitarrista Michael Weikath trabalharam juntos na composição do novo álbum, que é uma dos principais chamarizes da tour. Algumas de suas melhores canções (“A little is a little too much”, “Into the Sun”, “This is Tokyo”) são tocadas no show, que também é recheado de clássicos construídos ao longo das últimas quatro décadas como “Future World”, “I Want out”, “Halloween”, “Eagle fly free”, “Power” e “Dr.Stein”.

Gostei que no meio do show tivesse um set acústico com Kiske se arriscando até a cantar um trecho de uma música de Elvis Presley. Set este que termina apoteótico “A tale that wasn’t right”, quando o resto da banda volta ao palco.

Antes do Helloween entrar no palco, a música que toca no Campo Pequeno é “Let me entertain you”, do Robbie Williams. Não poderia haver escolha mais perfeita para introduzir o espetáculo. Se teve algo que o Helloween entregou muito bem foi entretenimento. E não houve tempestade em Lisboa que impedisse os metaleiros de lotarem o Campo Pequeno.

“O Agente Secreto” e a ditadura como o monstro sempre à espreita

Wagner Moura está excepcional no filme
É muito bom ver que um ano depois de “Ainda estou aqui”, um dos melhores filmes brasileiros de 2025 e o escolhido do Brasil para tentar uma vaga no Oscar de língua estrangeira seja outro filme que reflita sobre a ditadura brasileira.

Mais do que nunca, o Brasil precisa refletir muito e martelar muito no tema da ditadura da mesma forma que os alemães refletem anualmente sobre o nazismo em seus filmes.

Dirigido por Kléber Mendonça Filho“O agente secreto” é sobre um país que segue a sua vida sem olhar para os horrores que acontecem ao lado. Sobre um país que pula carnaval enquanto a polícia não se interessa pelos corpos no meio da estrada. Um país em que pessoas vivem escondidas com medo de serem assassinadas pelo regime militar enquanto a figura do ditador Ernesto Geisel paira onipresente.

Foi um período cheio de “pirraça”, como descrito com picardia pelo diretor no início. Neste país cheio de pirraça, Marcelo (Wagner Moura) é um professor especializado em tecnologia que precisa se refugiar em Recife depois de alguns acontecimentos violentos pelos quais passou.

Marcelo encontra refúgio na casa de dona Sebastiana (a maravilhosa Tânia Maria), que logo sabemos que hospeda uma série de pessoas perseguidas, os chamados “refugiados”. Com um novo nome e emprego, Marcelo sabe que o tempo não está ao seu lado. Que ele precisa o quanto antes pegar o seu filho e sair do país antes que seja tarde demais.

Become a member

Na Recife de Mendonça Filho, a ditadura é sempre um monstro à espreita. Crimes são cometidos e encobertos por corrupção e lenda urbana, mortes são encomendadas enquanto a vida segue seu fluxo normal.

Há uma certa sensação de alienação que décadas depois gerará um bando de viúvas da ditadura que acham que o Brasil era bom naqueles tempos. Que não havia corrupção nem violência. Por isso, o filme é muito feliz em mostrar exatamente tudo isso ao mesmo tempo em que passa uma sensação de vida normal. Uma falsa sensação, mas muito palpável em meio a tensão que o filme emana desde o seu primeiro minuto.

Marcelo tem sempre uma sensação ruim à espreita, está sempre olhando para todos os lados e desconfiado de quem se aproxima dele. Vive 24h sob a tensão de ser a próxima vítima da ditadura. Para ele, o único caminho é o exílio.

Refletimos muito pouco sobre o impacto da ditadura no Brasil e especialmente nas famílias que tiveram parentes perseguidos, torturados e mortos pela ditadura. Por isso o filme é muito feliz em ter um final seco, um curto abrupto da história para mostrar o reflexo da perseguição política décadas depois.

A partir da história de Marcelo e daqueles que o cercam, vemos retratos de vidas que foram prejudicadas e destruídas pelo Estado. O que esperamos que nunca mais ocorra. O Brasil não precisa de mais “pirraça”.

OBS: Nunca me perguntem qual o meu filme favorito do Kleber Mendonça Filho. Entre “O som ao redor” (2012)“Aquarius” (2016)“Bacurau” (2019)“Retratos Fantasmas” (2023) e “O Agente Secreto” eu escolho ficar com todos, pois são todos excelentes. Que filmografia excepcional deste diretor.

Nota 9/10

sábado, 8 de novembro de 2025

“Frankenstein” e a, por vezes, monstruosa relação entre pais e filhos

Gosto de ler determinadas obras antes de ver os filmes baseados nelas não para apontar dedos ou repetir o chavão nem sempre verdadeiro de que o livro é melhor. Gosto de ler antes apenas para ter a minha interpretação é comparar posteriormente com a visão do diretor. Penso que mais do que uma adaptação fiel, um grande diretor deve dar a sua visão particular para aquela história. Ainda mais sendo um clássico.

Talvez por isso eu tenho ficado tão satisfeito com a abordagem de Guillermo del Toro para “Frankenstein”, de Mary Shelley. Para o diretor mexicano, “Frankenstein” é uma história sobre uma dura relação entre pais e filhos. Sobre culpa, perdão e a quebra do ciclo de violência. Não foi a primeira coisa que pensei ao ler o livro e ver esta história na tela do cinema me fez refletir um pouco mais sobre a obra de Shelley.

O “Frankenstein” de Del Toro é menos uma história de terror, e mais uma visão gótica sobre padrões que se repetem, padrões que precisam ser quebrados, e uma monstruosidade que é construída e não inata.

O Victor Frankenstein de Oscar Isaac é fruto da criação dura de seu pai, da falha imperdoável para com a sua mãe de quem o jovem Frankenstein julgava perfeito e da frustração para com o pai. A perda da mãe foi um trauma irreparável e que moldou a vida de Frankenstein.

Em sua ânsia de vencer a morte, Frankenstein mal percebe que, ao dar vida a sua criatura, começa a repetir os comportamentos paternos e trata a sua frustração da mesma forma dolorosa com a qual ele foi tratado. Frankenstein só conhece a violência, o desprezo e a pressão como educação e usa dos mesmos artifícios para com a criatura. Ele é o lado sombrio enquanto o irmão, William (Felix Kammerer), é o seu oposto na família.

Em sua cegueira, Frankenstein sequer percebe que, por vezes, a evolução vem de uma abordagem mais gentil. É Elizabeth (Mia Goth) quem vê uma pureza na criatura, apesar do seu aspecto monstruoso. E com ela que a criatura constrói pequenas e novas camadas de conhecimento e começa a entender aquele mundo do qual nada sabe e nem teve tempo de aprender.

Vivida magistralmente por Jacob Elordi, a criatura, por sua vez, é uma folha em branco pronta para ter a sua história escrita. Nasce adulta, mas com uma inocência infantil. E tudo é aprendizado até que ele possa formar a sua opinião.

A criatura não demorará a perceber que aquele mundo em que vive é feito da violência. Violência está que por vezes é necessária, mas que quando vem dele o transforma num demônio, pois acaba por ser julgado mais pela sua aparência do que pelos seus atos.

Nas mãos de Del Toro, “Frankenstein” deixou um pouco de lado a discussão da ética na ciência. Há apenas um breve contraponto entre fé e ciência ainda no início do filme.

Já a solidão da criatura também é um tema pouco falado, mas perpassa implicitamente cada segundo da sua existência. Ele é único naquele mundo, um ser vivo incapaz de morrer, e que sente a necessidade de ter uma companhia igual a sua para amenizar a sua existência miserável. Existência esta que ele não pediu para ter. Quão cruel é para ele perceber que é feito de restos de corpos mortos. Como criar uma existência, quando seu próprio nascimento não foi natural? E sem ninguém para ajudá-lo. Nem aquele que deveria ser um pai para ele, mas que o trata com tanto desprezo que é incapaz de o tratar como “ele”, mas como “aquilo”.

Mas o que parece interessar mais a Del Toro é o ciclo de violência e culpa. E é fascinante que quem acaba com este ciclo seja a criatura. É o monstro quem perdoa o seu pai verdadeiramente monstruoso e incapaz de ter lhe mostrado um segundo de afeto e humanidade ao longo do filme. E seu último gesto é de bondade. E uma libertação. Par si e para os que o rodeiam. Agora o monstro, que sequer tem um nome, é livre para escrever a sua própria história.

“Frankenstein” é um belo filme, em que não se destacam apenas as atuações de Isaacs e Elordi, mas também a direção de arte. Este sempre foi um dos trunfos de Del Toro. O fato de os dois principais cenários do filme, o navio dinamarquês e a torre de Frankenstein serem reais e não CGI também deixa o filme muito mais palpável e orgânico.

O seu ritmo não é para todos os públicos. “Frankenstein” segue uma cadência quase literária. E não tem exatamente cenas grandiosas. Mesmo a força da criatura é mostrada de forma econômica. O que causa um impacto maior quando a vemos.

Acima de tudo é um filme bonito em que lamento não ter tido a chance de ver no cinema para o apreciar melhor. Não sei se a adaptação de Del Toro é a definitiva (e nem precisa ser), mas seu “Frankenstein” é uma bonita visão para um clássico da literatura.

Nota 8/10.

domingo, 2 de novembro de 2025

Os filmes e as séries de outubro

Os filmes e as séries mais interessantes de Outubro:

Springsteen: Salve-me do Desconhecido (Springsteen: Deliver Me from Nowhere — EUA — 2025) — Jeremy Allen White em modo Carmy Berzatto imitando Bruce Springsteen. O filme está longe de ser perfeito, mas gosto que Scott Cooper tenha escolhido fugir do óbvio ao fazer um recorte da vida do cantor para falar do processo de criação de “Nebraska” (1982), abordando a complexa relação de Springsteen com o pai e os primeiros sinais de depressão. Como eu não li o livro no qual ele é baseaado, para mim ressignificou tanto o “Nebraska” quanto o album seguinte, “Born in the U.S.A.” (1984).

O ônibus perdido (The Lost Bus — EUA — 2025) — Brad Ingelsby está em grande fase. Fez uma grande série para a HBO e escreveu o roteiro deste belo filme da Apple TV. Dirigido por Paul Greengrass, ele conta a história real de um motorista de ônibus escolar vivido por Matthew McConaughey que salvou um grupo de crianças durante o terrível incêndio que atingiu a cidade de Paradise, na Califórnia. O filme tem a tensão e a urgência de um misto de “Velocidade Máxima” (1994) com “Voo United” (2006).

Honey, não! (Honey, Don´t! — ING, EUA — 2025) — Um filme delicioso de Ethan Coen. Uma comédia satírica sobre uma detetive que investiga uma série de crimes numa cidade pequena dos Estados Unidos. Adoro a Honey O´Donahue de Margaret Qualley e veria toda uma série dela resolvendo casos.

Coração de Lutador — The Smashing Machine (The Smashing Machine — EUA, JAP, CAN — 2025) — Gosto de como o filme de Benny Safdie é bem cru e noventista. E de como o diretor conseguiu tirar o máximo, eu diria até, o inimaginável do Dwayne Johnson. The Rock quase sumiu neste que é o seu papel mais desafiador (não que ele tenha lá grande material de comparação).

Tron: Ares (Tron: Ares — EUA — 2025) — Eu tenho vergonha de ter gostado deste filme. Ele é maniqueista até a última célula do seu figurante mais insignificante, mas eu me diverti demais com as cenas de ação. E acho que a trilha sonora do Nine Inch Nails eleva um pouco a sua qualidade.

Steve (IRL, ING) — Cillian Murphy cortando um dobrado para manter uma escola para menores infratores aberta. Um drama bem pesado sobre saúde mental, segundas chances e a luta de quem escolhe o caminho da educação como forma de ressocialização.

Task (Task — EUA — HBO) — Uma cidade insignificante dos Estados Unidos, um policial problemático e longe da sua melhor forma física e mental e um crime para resolver. Brad Ingelsby praticamente repetiu a sua formula de “Mare of Easttown” (2021) e conseguiu escrever mais uma série maravilhosa. É por produções assim que eu faço questão de pagar a HBO.

Black Rabbit (Black Rabbit — EUA — Netflix) — Jude Law e Jason Bateman vivendo uma relação complicada de irmãos enquanto precisam lidar com os trambiques de cada um e um chefão do tráfico cobrando uma dívida. Adoro como a série vai fechando o cerco e sufocando seus protagonistas a cada decisão merdosa que eles tomam.

Slow Horses (Slow Horses — Apple TV — ING, EUA) — Cinco temporadas e esta série ainda não perdeu o fôlego. A quinta temporada virou uma das minhas favoritas. Gary Oldman muito craque.

Pacificador (Peacemaker — EUA — HBO) — A segunda temporada não foi tão especial quanto a primeira e o final foi um pouco decepcionante. Eu pensava que o James Gunn não ia cometer o mesmo erro da Marvel de conectar tão umbilicalmente o seu universo DC, mas muita coisa do que aconteceu em “Superman” se reflete em “Pacificador”. Ao mesmo tempo em que fiquei com a sensação que os eventos de “Pacificador” vão reverberar em produções futuras da DC. A abertura da série continua sendo maravilhosa e se você pula ela é porque não tem coração.

Gen V (Gen V — EUA — Prime Video) — Outra segunda temprada que esteve aquém da primeira. Na verdade, ela pareceu mais uma preparação para a quinta e última temporada de “The Boys” do que uma série com uma história própria. Foram oito episódios de treinamento para Marie Moreau (Jaz Sinclair) enfrentar o Homelander. E no meio disso, umas histórias paralelas que foram sendo facilmente resolvidas. Mas foi divertido, apesar do excesso de piadas de quinta série.

sábado, 25 de outubro de 2025

“Salve-me do desconhecido”, a luta de Springsteen contra a depressão

White entre Carmy e o seu Springsteen
Fazer um filme sobre Bruce Springsteen é uma tarefa inglória. Como retratar em duas horas uma carreira tão cheia de camadas, álbuns diferentes, dezenas de sucessos e ainda cobrir a vida pessoal do cantor? O mais certeiro seria apostar no óbvio. Ou na sua jornada do início até se tornar um cantor de sucesso nos Estados Unidos e no mundo ou focar no lançamento de “Born in the U.S.A.”, (1984) que alçou Springsteen ao patamar de estrela mundial.

O diretor Scott Cooper, no entanto, preferiu não apostar em algo tão óbvio. Para além do astro, Cooper queria mergulhar na alma do Boss e trazer a tona o ser humano por trás da estrela, com todas as suas fragilidades. E apostar num momento complexo da vida do cantor, quando teve que lidar com os primeiros sinais de depressão ao mesmo tempo em que construía o bonito álbum “Nebraska” (1982).

Baseado no livro “Deliver me from Nowhere: The Making of Bruce Springsteen´s Nebraska”, de Warren Zanes, “Springsteen: Salve-me do Desconhecido” (“Springsteen: Deliver me from nowhere”, no original) foi uma aposta ousada como o próprio “Nebraska” em seu tempo. Ao contrário do excelente álbum, no entanto, o filme tem seus altos e baixos.

O filme de Cooper tem como ponto de partida o fim da bem-sucedida turnê norte-americana de “The River” (1980). Springsteen estava em alta nos Estados Unidos, consolidado com sucessos como “Born to run” e “Hungry Heart” e preparava-se para voltar para a New Jersey natal para descansar e trabalhar num novo álbum.

O filme mostra que o retorno às origens, no entanto, o fez pensar e remexer no passado. Ao mesmo tempo em que o cantor via dentro de si um incômodo silencioso e crescente.

Misturando lembranças do passado, especialmente da sua complexa relação com o pai Douglas Springsteen (Stephen Graham, em mais um ótimo trabalho) com o momento que vivia, e sua igualmente complexa relação com Faye (Odessa Young), personagem fictícia e que resume as mulheres que estiveram no entorno de Springsteen naquele início dos anos 1980, o cantor começa a trabalhar no que se tornaria o álbum “Nebraska”.

O problema é que o ambiente, as memórias e a confecção de “Nebraska” fazem Springsteen cavar um buraco na alma e se expor de uma maneira até então não vista. Ao investigar o que o atormenta, o cantor se vê perto do abismo que viria a se tornar no diagnóstico e tratamento de depressão muito causado, segundo o próprio cantor, a uma infância estressante e a difícil relação com o pai.

“Salve-me do desconhecido” é muito sobre essa jornada dolorosa do “Nebraska” e a luta do cantor para entender o que estava lhe fazendo mal, buscar ajuda profissional e começar a se reerguer internamente enquanto, paradoxalmente, tinha um país inteiro que o amava. Sem passar por isso, Springsteen talvez não tivesse forças para encarar o furacão que viria em seguida com “Born in the U.S.A.”, álbum que vinha sendo produzido quase em paralelo a “Nebraska” e que é tão diametralmente oposto ao clima de “Nebraska”. 

Um dos méritos do filme, inclusive, é resignificar tanto “Nebraska” quanto “Born in the U.S.A.”. Especialmente para quem não leu o livro de Zanes. “Nebraska” ganha ainda mais camadas profundas e nos faz entender um pouco mais onde Springsteen estava mergulhando e o que estava sentindo naquele momento. Já “Born in the U.S.A” vira mais do que um excelente álbum cheio de críticas políticas e sociais, mas também soa como um Springsteen anunciando que está voltando ao seu espírito enérgico de “Born to Run”, por exemplo. 

Assistindo ao filme, consegue-se compreender porque o cantor escolheu pessoalmente Jeremy Allen White para interpretá-lo no cinema. Em “O Urso” (2022-), White vive um chef de cozinha atormentado e com sinais de depressão após a morte do irmão. Talvez Springsteen tenha traçado paralelos entre Carmy Berzatto, o personagem de White na série, consigo mesmo.

O lado ruim desta escolha é que por mais que White tenha se esforçado e não esteja mal no papel. fica um pouco difícil ver nele algo além de um Carmy imitando os trejeitos de Springsteen. Há muito da experiência de “O Urso” no Springsteen depressivo de White. Se o filme tivesse sido lançado há cinco anos, talvez a visão pudesse ser diferente. No entanto, após o sucesso da série, é impossível não ver determinados paralelos. Especialmente porque White ainda está trabalhando na série. Portanto, não se livrou por completo do personagem. Neste ponto, Ayo Edebiri foi mais bem sucedida em sumir do papel de Sydney em “Depois da caçada” (2025).

Apesar deste pequeno apontamento, penso que o trabalho de White é um dos pontos fortes do filme. Também gosto muito de como as imagens da infância são em preto e branco, refletindo um pouco o clima mais macambúzio e sombrio do “Nebraska”. E da relação de Springsteen com o empresário Jon Landau (um Jeremy Strong mais contido do que nos acostumamos a ver). Estamos tão acostumados a ver o entorno de um artista agindo como vampiros, que Springsteen teve muita sorte em, neste momento da vida, ter não apenas apoio do empresário, mais também até certo ponto da gravadora, que não acreditava em “Nebraska”, mas aceitou todas as condições do artista, incluindo não fazer turnês nem dar entrevistas para a imprensa. E no fim “Nebraska” foi um sucesso na mesma.

O outro lado de “Salve-me do desconhecido” é que Cooper não conseguiu mostrar porque Springsteen é um artista tão único e que merece ser celebrado em uma cinebiografia. O filme não mostra a grandeza do Springsteen, praticamente o esconde do palco e não mostra a força de suas letras e da sua capacidade de contar histórias que tocam e emocionam o público. Ele arranha este tema na conversa do empresário com o chefe da gravadora, mas não é algo facilmente identificável.

Quem é fã de Springsteen pode até compreender, mas o espectador comum não sai deste filme entendendo a relevância do artista para a música. E isso é um dos principais pecados do filme.

Neste ponto, “Um completo desconhecido” (2024) se sai melhor ao contar a história de Bob Dylan apostando num ponto de virada de sua carreira, quando ele começa a tocar a guitarra elétrica e tem um embate com os tradicionalistas do folk. “Um completo desconhecido” mostra a grandeza de Dylan e diz em muitos momentos porque ele é tão relevante para a música.

“Salve-me do desconhecido” falha neste ponto. Especialmente porque estamos acostumados a ver estadunidenses contando qualquer história real. O cinema norte-americano é especialista em transformar histórias comuns e que só interessariam a uma pequena comunidade em embalagens cinematográficas épicas. No entanto, a história de Springsteen é realmente a de um artista relevante e da primeira prateleira da música. E isso podia de alguma forma estar refletido no filme.

Talvez este não fosse o objetivo de Cooper e o diretor quisesse apenas contar a história de Springsteen exorcizando seus demônios. Mas isso faz com que o filme perca a amplitude que poderia ter. Parece mais um filme para dois públicos: estadunidenses e fãs de Springsteen. Posso estar enganado, mas parece improvável que um leigo saia da sala de cinema querendo saber mais, conhecer mais sobre Springsteen e ouvir a sua obra. O que é uma pena, pois a obra de Springsteen é grandiosa.

Nota 7,5/10.

terça-feira, 30 de setembro de 2025

Os filmes e as séries de setembro

Uma Batalha após a outra (One Battle After Another — EUA) — Paul Thomas Anderson levou 20 anos para fazer este filme, o que faz com que seja fascinante como ele dialoga muito bem com o momento atual dos EUA. É uma sátira sobre a América paranóica, racista, xenófoba e dominada por uma extrema-direita militarizada e com traços de seita que persegue imigrantes e minorias. No mesmo dia em que eu vi este filme, aparecia na imprensa mais um video de agressão e truculência de autoridades estadunidenses contra imigrantes. O filme é um retrato destes tempos sombrios e caóticos. E que atuações de Sean Penn e Leonardo DiCaprio.

O último azul (BRA, MEX, NL, CHI) — Uma distopia com imagens incríveis da Amazônia que reflete sobre o etarismo e critica o capitalismo. Enquanto vivemos num mundo em que a velhice é escondida em camadas de plástico, cirurgias deformadoras e filtros de redes sociais, o filme de Gabriel Mascaro é uma afirmação da vida em que a idade não deve ser tratada como um fardo.

Por inteiro (All of you — EUA, ING) — O amor é escolha ou destino? Ou um pouco de ambos? Um filme que nos faz refletir sobre as idiossincrasias da vida. Adoro o texto, o trabalho dos atores e a fotografia. Só foi difícil acreditar num jornalista que viaja tanto e sempre se hospeda em lugares incríveis.

Downton Abbey: O Grande Final (Downton Abbey: The Grand Finale — ING, EUA) — A despedida de Downton, uma bonita homenagem a Maggie Smith e um belo final para os personagens que começaram numa série de TV e passaram para três filmes no cinema. Foram tantos acontecimentos que poderiam ter sido uma temporada, mas gostei dos desfechos dos personagens.

O Surfista (The Surfer — AUS, IRL) — Só Nicolas Cage para fazer um filme insano como este. Nunca pegar uma onda na Austrália foi tão difícil.

O clube do crime das quintas-feiras (The Thursday Murder Club — EUA) — O mistério é rocambolesco, mas é bom demais ver a Helen Mirren trabalhar. Aliás, parte do elenco do filme também está em “Terra da Máfia”. É quase como se Mirren, Pierce Brosnan e Geoff Bell tivessem combinado de fazer uma pausa na série para gravar algo mais leve.

Alien: Earth (EUA — TAI — FX) — Noa Hawley é muito bom. Talvez seja a pessoa que faz algumas das melhores series que infelizmente não atingem a popularidade que elas merecem. É assim com “Fargo” (2014–2024), com “Legion” (2017–2019), uma das melhores series de super-heróis, e parece ser com esta que talvez seja uma das melhores séries do ano. “Alien: Earth” se passa dois anos antes dos acontecimentos de “Alien: o 8º passageiro” (1979) e é a primeira produção deste universo que se passa na Terra. O que vemos aqui é uma luta de corporações trilionárias por espécimes com incríveis capacidades de adaptação e que se espalham facilmente como vírus destruidores. Um misto de ficção científica, suspense e terror com design e elementos visuais que lembram muito os de “Blade Runner” (1982).

Fundação (Foundation — IRL, EUA — Apple TV) — A cada temporada de “Fundação” aumenta o meu desejo de ler os livros de Isaac Asimov. A terceira temporada foi a melhor até agora tanto na parte da história da saga dos clones, quanto na trama que trata da Fundação. E foi definitivamente a temporada da Demerzel (Laura Birn). O episódio final é incrível.

Diários de um robô-assassino (Murderbot — EUA — Apple TV) — O robô vivido por Alexander Skarsgard representa todos nós. É alguém que só quer fica em paz vendo as suas séries e não perder tempo com coisas menores como trabalhar. A série sobre um robô de segurança que hackeia a próprio programação e é enviado para um planeta inóspito para proteger um grupo de cientistas é mais legal do que eu imaginava.

Chefe de Guerra (Chief of War — EUA — Apple TV) — Sabemos que Jason Momoa não é exatamente um Al Pacino, mas se superarmos esta barreira, esta série é bem interessante. Projeto pessoal de Momoa, ela é baseada nas guerras de unificação do Havaí que aconteceram no final do século XVIII, uma era de grandes transformações e conflitos nas ilhas antes da chegada dos europeus para tornarem tudo ainda pior. A série tem um elenco quase todo de origem polinésia e boa parte dela é falada na língua nativa do Havaí. Spoiler: Em nenhum momento o Momoa diz: “My Man!”