domingo, 1 de março de 2026

Book Review: “A Cor do Hibisco”, Chimamanda Ngozi Adichie

“- Ifeoma, chamaste um padre? — perguntou o Pai.

- É só isso que tens para dizer, Eugene? Não tens mais nada para dizer, gbo? O nosso pai morreu! Tens a cabeça virada do avesso? Não me ajudas a enterrar o nosso pai?
 — Não posso participar num funeral pagão, mas podemos conversar com o padre da paróquia e organizar um funeral católico.

A Tia Ifeoma levantou-se e desatou aos gritos, numa voz instável.

- Mais depressa eu vendia a sepultura do meu marido morto do que organizava um funeral católico para o nosso pai, Eugene! Ouviste? Eu disse que mais depressa vendia a sepultura do Ifediora! O nosso pai era católico? Estou a perguntar-te, Eugene, ele era católico?” (Págs 231 e 232)

A cor do hibisco” é o livro de estreia da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie e o primeiro livro que leio desta autora. É difícil pensar sobre o quão rico e que leitura deliciosa eu tive em um livro que trata de temas tão pesados como violência doméstica e abuso físico e psicológico.

Não sabia nada do livro quando o comprei. Fui apenas atraído por uma breve sinopse, a fama da autora nos últimos dez anos, elogios de alguns amigos a ela e por sua belíssima capa toda roxa da editora Don Quixote. E que sábia escolha foi entrar na literatura de Adichie a partir desta história.

Passado em uma Nigéria pós-colonial, em meio a um período de instabilidade política e golpes militares e narrado em primeira pessoa pela perspectiva da adolescente Kambili, “A cor do hibisco” conta a história de duas famílias tão diametralmente opostas ligadas pelo grau de parentesco de Eugene, o pai de Kambili, e Ifeoma, a tia da protagonista.

Eugene é um fervoroso católico. Respeitado publicamente, mas que no íntimo cria a sua família com um controle abusivo, muito autoritarismo e expectativas irreais para a mulher os os filhos. Na sua família, Kambili e o irmão Jaja tem uma vida de privilégios que só a riqueza trás, mas de muita opressão e tensão. Sua mãe sofre com a violência por parte do pai, que controla os filhos a ponto de não os deixar passar sequer um tempo com o avô, abominado por Eugene por manter a sua tradição religiosa.

Quando os acontecimentos políticas levam Kambili e Jaja a passarem um tempo com a tia Ifeoma, irmã de Eugene, os jovens sentem os primeirs os ecos de liberdade. Apesar das dificuldades financeiras, Ifeoma é uma professora universitária que cria os filhos com amor e valores. E os prepara para o mundo. Assim ela trata também os sobrinhos, que descobrem toda uma realidade desconhecida ao mesmo tempo em que se veem com dificuldades básicas no dia a dia.

A casa de Ifeoma tem energia, uma família que se ajuda, tem cheiro, cor, textura e contrasta drasticamente com o clima sombrio que Eugene cria os filhos. Jaja se adapta facilmente. Kambili ainda parece tão fortemente presa aos desmandos do pai que quase sente uma culpa cristã por estar vivendo e experienciando algo próximo de uma sensação de felicidade. É nas relações de diferentes tensões com a prima Amaka e o padre Amadi que Kambili vai amadurecer e descobrir um mundo além do fanatismo religioso do pai.

“A cor do hibisco” é fascinante porque enquanto nos coloca dentro da Nigéria com suas cores, suas roupas, seus costumes, sua culinária e sua cultura, nos faz refletir sobre o colonialismo, que impõe a tradição europeia e católica em detrimento das religiões africanas e das tradições locais. O livro mostra como o pensamento colonial pode destruir a tão rica identidade cultural de um povo. Além de mostrar o impacto da violência e do autoritarismo num núcleo familiar como o da família de Kambili.

Protagonista da história. Kambili começa o livro como uma jovem tímida e reprimida, mas que passa por um processo de descoberta e autoconhecimento a partir do momento em que começa a se abrir para as diferentes realidades que a cercam e que estavam para além do muro repressor da sua casa, digamos, de perfil de colonizador.

O livro é uma jornada de amadurecimento simbolizada pelo hibisco roxo que, posteriormente, li que é um símbolo de liberdade, mudança e possibilidade de transformação. E o livro é todo sobre transformação. Do país, da vida de Kambili e daqueles que o cercam. 

“A cor do hibisco” é um livro lindamente escrito e foi uma belíssima porta de entrada na literatura de Adichie. Lamento apenas que a edição traduzida que li não tenha me dado mais contexto sobre alguns termos e expressões usados ao longo ds diálogos. Nem sempre conseguia compreender o que era colocado e, eventualmente, a importância deles. No entanto, não é nada que abale o entendimento esta história tão cheia de riqueza e camadas. Definitivamente pretendo explorar um pouco mais a obra da autora.

Os filmes e as séries de fevereiro

Os filmes e as séries mais interessantes de fevereiro:

Anêmona (Anemone — ING, EUA) — Daniel Day-Lewis de volta da aposentadoria para dar aquela força para o filhão em seu primeiro longa. Acho que o filme, que é um daqueles dramas familiares que dá o que falar no jantar de Natal, tem uma direção um pouco pesada e obsessão pelo zoom, mas ver os diálogos entre Day-Lewis e Sean Bean compensam. Escrevi mais sobre filme neste link.

Orwell: 2+2=5 (Orwell: 2+2=5 — EUA, FRA) — Documentário-ensaio maravilhoso de Raoul Peck. Aqui ele aproveita os diários de George Orwell e o livro “1984” para refletir sobre o avanço do extremismo no mundo, traçando paralelos entre o momento atual e a história humana. É de perder a fé e desejar correr para as montanhas.

Kokuho — O preço da perfeição (Kokuhô — JAP) — Drama de época focado no mundo do teatro Kabuki, o filme de Song-il Lee é daqueles épicos que não se vê muito hoje em dia. A jornada do protagonista me fez lembrar de “Cisne Negro” (2010) e acho que teria aproveitado mais o filme se tivesse um background sobre o kabuki.

A voz de Hind Rajab (Sawt Hind Rajab — TUN, FRA, EUA, ING, ITA, SAU, CYP ) — Um filme desesperador e um retrato terrível da brutalidade do exército israelense em Gaza.

Embaixo da luz de neon (Come See me in the good light — EUA) — Documentário bem comovente sobre a luta da poeta Andrea Gibson contra o câncer.

Diane Warren: Relentless (Diane Warren: Relentless — EUA) — Documentário bem legal sobre a vida e a vasta obra essa hitmaker e sua obsessão em ganhar um Oscar. Agora ela está apelando com esse filme, mas acho que a música dela infelizmente vai perder de novo.

Zootopia 2 (Zootopia 2 — EUA) — Especulação imobiliária, a ganância do capitalismo, a busca pela verdade. Tudo embalado numa história de crime, conspiração e amizade. Se eu soubesse que “Zootopia” era tão legal tinha visto antes. Essa eu devo ao Oscar.

O cavaleiro dos sete reinos (A knight of the seven kingdoms — EUA — HBO) — Que série legal este spin-off de “Game of Thrones”. Baseada no livro de mesmo nome de George R.R. Martin, a primeira temporada adaptou a primeira das três histórias do livro. É uma adaptação tão legal que parecia que eu estava lendo o livro. O tom é de aventura e bem diferente dos dramas de Westeros. Que venha a season 2.

O Gerente da Noite (The Night Manager — ING, EUA — Prime Video, BBC) — A primeira temporada desta série baseada no livro de John Le Carré já tinha sido uma das melhores de 2016. A segunda foi ainda melhor, com direito a um final de tirar o fôlego. Para quem gosta de tramas de espionagem, “O Gerente da noite” é excelente.

Os sete relógios de Agatha Christie (Agatha Christie´s Seven Dials — ING — Netflix) — Eu sou o mais novo fã de Agatha Christie. Vi esta série enquanto estava a ler um livro com uma outra história da autora e fiquei mergulhado nos mistérios dos dois lados. A série pode não ser uma obra-prima, mas é bem legal.

O Ensaio (The Rehearsal — EUA — HBO) — Esta é uma série que ressalta a vergonha alheia de alguns estadunidenses. A primeira temporada tem uma fanática religiosa que diz que Halloween é coisa do demônio e o Google não mostra isso porque está tomado de satanistas. A segunda temporada levanta uma tese sobre a falta de diálogo entre pilotos de avião ser a principal causadora de acidentes aéreos que, na verdade, não se sustenta. O Nathan Fielder parece mais querer validar o seu método um tanto quanto complicado do que encontrar respostas. A cereja do bolo foi o piloto dizendo que foi banido de todas as apps de relacionamento.

Fallout (Fallout — EUA — Prime Video) — Acho que a série mantém um nível de qualidade bem legal na segunda temporada. Gostei especialmente do episódio final. Mas é isso. Não morro de amores por “Fallout”.