sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

O magnífico cinema contemplativo de Chloé Zhao em "Hamnet"

Mescal como William Shakespeare
Desde “Nomadland” (2020) que o trabalho de Chloé Zhao me chama a atenção. O filme vencedor de três estatuetas do Oscar já mostrava uma diretora que parecia unir o melhor da tradição do cinema chinês com o estilo mais contemplativo de diretores como Terrence Malick. Mesmo em “Eternos” (2021), um filme de estúdio (a Marvel) e que foi excessivamente criticado, pois estava longe de ser ruim, Zhao mostrava dentro do que podia a sua veia autoral.

Não sei se por causa disso, mas após as críticas ao filme de super-heróis Zhao submergiu durante alguns anos. Apenas, contudo, para voltar ainda melhor com “Hamnet: a vida antes de Hamlet”. Merecidamente indicado a oito Oscars (e merecia até mais), “Hamnet” confirma para mim que Zhao é uma herdeira do cinema contemplativo de nomes como Malick a Abbas Kiarostami, ao mesmo tempo em que impõe um toque pessoal em sua narrativa junto de uma herança de alguns dos melhores diretores chineses, como Jia Zhangke.

Baseado no livro “Hamnet”, de Maggie O´Farrell, o filme, tal como o livro, reflete sobre o possível impacto do luto em William Shakespeare pela morte do filho Hamnet, aos 11 anos, em 1596, possivelmente devido à peste.

Embora ambos tenham uma base histórica real — Shakespeare realmente teve um filho chamado Hamnet que morreu aos 11 anos de idade, “Hamlet”, a peça foi escrita entre 1599 e 1601 e encenada pela primeira vez no Globe Theater por volta desta data — todo o resto é fruto de imaginação e especulação. É neste recheio, é costurando as pontas soltas desta história trágica que Zhao brilha ao filmar o amor e o luto do casal William Shakespeare (Paul Mescal) e Agnes (Jessie Buckley).

Assim como “Nomadland”, seu filme é incrivelmente bonito. Se na história da mulher que perde tudo e embarca numa viagem pelos Estados Unidos vivendo como nômade, Zhao abusava da amplitude do deserto e dos momentos de golden hour, aqui a natureza é mais do que cenário, mas um personagem que ajuda a compor o estado de espirito dos personagens.

A floresta é liberdade, proteção e acolhimento. A floresta fechada reflete a intimidade do casal e o abraço que Agnes constantemente recebe. A natureza a acolhe e dela ela tira tudo o que precisa para viver. Os espaços amplos, a conexão com a terra, mostram uma família em harmonia. Uma harmonia que nem a distância atrapalha quando Shakespeare vai trabalhar em Londres, deixando a família em Stratford.

A relação íntima com a paisagem não se dá apenas com a natureza, mas também com os espaços internos da casa. O vazio que comunica a solidão, a escuridão, a penumbra que dialoga com o luto. Zhao filma constantemente espaços amplos, mas com uma fotografia suave e trilha sonora minimalista para que possamos contemplar a história e absorver não apenas através das palavras, mas das pausas e dos silêncios o estado de espírito dos personagens.

O ritmo contemplativo de Zhao é o que a faz mais se aproximar de Mallick. A diretora, entretanto, se afasta do diretor estadunidense ao não adotar um tom mais metafísico, tão comum em Mallick, mas apostar na observação do cotidiano dos seus personagens. O dia a dia de Shakespeare e Agnes é o de pessoas comuns que estão deslocados ou em transformação social. O drama deles nasce da vida ordinária como a de qualquer mortal. A infelicidade de Shakespeare que quer mais do que viver numa casa no campo e deseja viver das suas peças, a ascensão social da família, a mudança de patamar social primeiro de Agnes ao se casar com o dramaturgo e depois de Shakespeare, a dor pela trágica morte do filho, o processo de luto de cada um. Agnes entre o isolamento e a culpa, Shakespeare, sofrendo por não estar presente, usando a arte, a maior ferramenta que tinha em mãos para tentar entender o que sente, tentar processar a sua dor. O artista sempre usa a arte como ferramenta de cura. Também indicado ao Oscar de melhor filme, “Valor Sentimental” trata do mesmo tema com seu personagem principal.

O que temos aqui é uma tese que nasceu no livro de O´Farrell. E Zhao amarra essa tese com sutileza e poesia na tela. O jovem Hamnet sonha em ser ator na companhia do pai e ganha vida como o maior personagem da maior peça da sua vida. O menino que metaforicamente dá a vida para salvar a irmã da doença, vê o pai fazer o mesmo na peça Hamlet, quando Shakespeare assume o papel do espírito do pai de Hamlet. E a licença poética que o filme faz. Na última vez que Shakespeare vê o filho com vida, se despede dele três vezes. Na peça, Shakespeare usa seu personagem para se despedir três vezes de Hamlet, três vezes dizendo “Adieu” antes de beijar o rosto do filho. Tudo o que ele não pôde fazer.

O momento final da encenação de “Hamlet” em Londres é o ponto alto de um filme magnífico de Zhao. Não apenas pelo trabalho da diretora, mas pelas atuações magistrais de Buckley e Mescal nos papéis principais. A atriz mereceu demais a sua indicação ao Oscar e lamento que Mescal tenha ficado de fora da lista, pois ele também merecia uma indicação. 

É neste momento final que Zhao mostra mais uma vez a sua grandeza, fugindo do melodrama fácil e fazendo a emoção surgir com sobriedade. Sem qualquer sinal de manipulação, Zhao nos faz atingir a catarse apenas com alguns gestos e olhares de Buckley e Mescal. Ali bem no fim, com lágrimas nos olhos, estamos prontos para aceitar o destino e começar a seguir em frente.

Nota 10/10