domingo, 22 de fevereiro de 2026

“Anêmona”: Daniel Day-Lewis retorna em drama familiar dirigido pelo filho

Sean Bean e Day-Lewis em "Anêmona"
Quando decidiu se afastar do mundo do cinema em 2017, Daniel Day-Lewis sempre deixou claro que o problema nunca foi a atuação, mas todo o resto que envolve o mundo do show business. Vencedor de três Oscars e aclamada como um dos gigantes da sua geração, Day-Lewis nunca foi muito afeito ao ciclo de promoções de um filme e a necessidade de estar presente o tempo todo em todo lugar que o show business exige e que só piorou com as redes sociais.

Parecia, portanto, que “Trama Fantasma” (2017), filme pelo qual ganhou uma indicação ao Oscar de ator e que levou um dos seis prêmios aos quais foi indicado no Oscar de 2018 (figurino) teria sido a sua última dança. No entanto, com o passar dos anos, Day-Lewis começou a trabalhar em um roteiro com o seu filho, Ronan Day-Lewis, e logo se chegou a conclusão de que era a hora de voltar.

O desejo de trabalhar com o filho e o desejo do filho de ver o pai protagonizar o seu filme eram legítimos, mas é claro que a presença e, mais do que isso, o fato de ser o filme do retorno de Day-Lewis chamam naturalmente mais atenção para “Anêmona” (“Anemone”, no original).

Calcado num drama familiar envolvendo os irmãos Ray (Day-Lewis) e Jem (Sean Bean), o filho de Ray, Brian (Samuel Bottomley), e sua ex-mulher e atual esposa de Jem, Nessa (Samantha Morton), “Anêmona” explora a complexidade dos relacionamentos, fala sobre culpa, quebra de confiança e evoca um sentimento de comiseração pelos seus personagens envolvidos.

Tudo começa com Brian tendo agredido fortemente alguém e sentindo-se amaldiçoado por ser filho de um pai que não conhece, mas que, pelas histórias que ouve, acredita ser um assassino. A agressão é a gota d´água para Nessa e Jem. Jem decide ir atrás do irmão, que vive isolado numa floresta, para tentar convencê-lo a voltar e conversar com o filho que ele nunca viu e livrar Brian dos estigmas que carrega. Mas os próprios irmãos têm questões a resolver em meio a um passado militar um tanto quanto obscuro.

A interação entre Day-Lewis e Sean Bean são a grande riqueza de “Anêmona”. Ver Day-Lewis trabalhar é um grande prazer, pois é um ator grandioso e que consegue sumir em cada um dos papéis que representou na carreira. Seu carrancudo Ray carrega uma culpa enorme e parece ter se imposto uma pena de prisão naquela vida simples, despojada de qualquer grande bem material na floresta. Ao longo do filme sabemos quais foram as motivações dele e o que o levou a se isolar da sociedade, abandonando a família e a mulher grávida.

Por outro lado, o filme perde força na direção um tanto quanto pesada de Ronan. “Anêmona” é seu primeiro longa e naturalmente tem alguns, digamos, vícios, que nos tiram um pouco da história. Um dos que mais me incomodou foi um constante uso do zoom com a câmera. Ronan abusou do recurso em contextos que nem sempre ajudavam a contar a história. Sua câmera esteve constantemente se aproximando dos atores ou de cenários que me fizeram refletir sobre os seus motivos com alguma frequência.

Mesmo seu movimento de câmera nem sempre é sutil ganhando uma presença que grita um pouco dentro do filme ao mesmo tempo em que não configura necessariamente uma assinatura.

Estas parecem questões que são muito de primeiro filme e de um diretor que está ainda construindo a sua linguagem, a sua voz como diretor enquanto experimenta a sua técnica. Antes de “Anêmona”, Ronan só havia dirigido dois curtas.

Questões técnicas à parte, “Anêmona” é um interessante filme de estreia de Ronan e um prazeroso retorno de Day-Lewis. Está longe de ser o seu melhor filme, mas ver o ator em cena é como estar diante de uma importante e inigualável pintura da história humana.

Nota 6/10.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

“O morro dos ventos uivantes”: fetiche, desejo e humilhação

Muito tesão e pouca substância
Após três longas, pode-se dizer Emerald Fennell está construindo um padrão em sua carreira como diretora. Ela gosta de fazer filmes em que seus personagens são humilhados até a mais completa destruição. Os três protagonistas dos seus três longas até aqui escolhem um alvo e o torcem e espremem até não lhes sobrar nada. É assim em “Bela Vingança” (2020). É assim em “Saltburn” (2023). É assim na nova versão de “O morro dos ventos uivantes”.

Muito livremente adaptado a partir da obra de Emily Brönte, “O morro dos ventos uivantes” (Wuthering Heights, no original) aposta em um humilhado Heathcliff (Jacob Elordi) como protagonista. A sua jornada é a de um homem obsessivamente apaixonado e que fará de tudo para ficar com Cathy (Margot Robbie). Cathy, que por sua vez, não nega o desejo que tem pelo jovem com quem cresceu junto, mas que, condicionada ou não por fofocas e/ou condições econômicas desfavoráveis, opta por buscar um casamento que lhe garantirá algum conforto futuro.

Como infelizmente eu não li o livro, não tenho termo de comparação, mas a visão de Fennell para a relação entre Cathy e Heathcliff parece ser é a de toxicodependentes cercada de fetiche e tesão. Primeiro, ainda crianças, eles traçam o padrão. Heathcliff é nomeado por Cathy, que a trata como algo entre um pet e um brinquedo. Ali a relação de dominação se estabelece e vai durar até a fase adulta.

É quando são adultos que o desejo toma conta dos dois, mas Cathy inicialmente o renega em nome de um casamento que a salvará de uma vida miserável e de um pai alcoólatra miserável e viciado em jogo.

Humilhado, Heathcliff vai embora. Apenas para voltar cinco anos depois rico, de barba feita e brinco na orelha. A partir daí, a relação de dominação se alterna. Ambos procuram o desejo, exploram as mais diferentes formas de trepar, mas uma hora o limite precisa ser imposto.

Heathcliff não aceita. Casa com a irmã do marido de Cathy apenas para atazanar a sua vida. O desfecho que vemos parece inevitável até para quem não leu o livro.

“O morro dos ventos uivantes” de Fennell não quer ser fiel ao livro. A diretora usa o livro de Brönte apenas para exercitar a sua tese baseada em como o desejo tem um poder destruidor. Fennell filma a humilhação do amor doentio e suas consequências dramáticas. Tudo com alguns cenários lindamente enevoados, outros takes que parecem verdadeiros quadros, mas uma escolha de figurino pesada e gritante que parece mais atrapalhar a história do que ajudar a comunicá-la.

Gosto da tese que Fennell levanta. Acho que o filme tem um início promissor ao erotizar a morte a partir da cena do enforcamento. Ali ela já dava as bases do que veríamos na relação tóxica entre Cathy e Heathcliff. Mas o que vemos nas duas horas seguintes é um filme que beira o insuportável.

Por vezes, penso que Fennell está repetindo um pouco a história de “Saltburn”, que eu adoro. O problema é que “Saltburn” tinha a sua dose de originalidade. Curiosamente, naquele filme, Jacob Elordi era a vítima do personagem de Barry Keoghan. Aqui, ele é vítima e algoz de um amor doentio e sufocante. Acho que isso me vem a mente pela ideia da destruição de um personagem até as últimas consequências. Algo que ela fez melhor em “Saltburn” e, definitivamente, fez de forma mais divertida em “Bela Vingança”.

O problema de “O morro dos ventos uivantes” não está apenas nas ideias de Fennell nem nas questões polêmicas envolvendo sua adaptação (o whitewhasing de Heathcliff, por exemplo). Pelo trailer já se perceberia que a ideia não seria ser fiel ao livro, mas usar a obra para desenvolver uma tese. Uma tese que na minha visão é baseada em três eixos: fetiche, desejo e a ideia de posse.

O problema é que a execução teve pouco cuidado em criar um bom enredo que interligasse bem a história e justificasse melhor as ideias da diretora, bem como as eventuais mudanças em comparação com o livro. Por vezes, “O morro dos ventos uivantes” parece esquecer alguns personagens (e eles nem são muitos) e não dar continuidade ao (pequeno) drama deles. O maior exemplo é a irmã de Edgar (Shazad Larif), Isabelle (Alisson Oliver). Ela tem a profundidade de uma piscina infantil entre as suas transições de jovem devotada e parceira de Cathy a rival por um amor que ela sabe que nunca terá. Sem falar na transição abrupta e artificial da relação entre ambas.

O mesmo problema identifica-se em Nelly (Hong Chau). Nunca compreendemos 100% o que a motiva a tomar suas decisões. Podemos especular e chegar a uma conclusão nossa, mas não sabemos se é inveja, prazer pelo sofrimento de Cathy, autopreservação, desejo de ascender socialmente e sair do buraco de Heights… Nelly faz tudo o que faz pensando em si ou em Cathy? E o seu desfecho só é inglório e sem sentido. Talvez se eu tivesse lido o livro compreenderia melhor esta personagem. Pelo filme de Fennell, ela só é incompreensível, embora eu tenha as minhas suspeitas.

Robbie e Elordi também estão longe de seus melhores trabalhos. Gosto mais do Heathcliff de Elordi do que da Cathy de Robbie, mas nenhum dos dois me dão qualquer sinal dos seus melhores trabalhos. Por outro lado, acho que o texto que tiveram para trabalhar era fraco. Pareciam migalhas do original.

No fim, infelizmente resta muito pouco a se aproveitar desta nova versão de “O morro dos ventos uivantes”. As ideias até estavam lá, mas sua execução deixou muito a desejar.

Nota 2/10.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

O magnífico cinema contemplativo de Chloé Zhao em "Hamnet"

Mescal como William Shakespeare
Desde “Nomadland” (2020) que o trabalho de Chloé Zhao me chama a atenção. O filme vencedor de três estatuetas do Oscar já mostrava uma diretora que parecia unir o melhor da tradição do cinema chinês com o estilo mais contemplativo de diretores como Terrence Malick. Mesmo em “Eternos” (2021), um filme de estúdio (a Marvel) e que foi excessivamente criticado, pois estava longe de ser ruim, Zhao mostrava dentro do que podia a sua veia autoral.

Não sei se por causa disso, mas após as críticas ao filme de super-heróis Zhao submergiu durante alguns anos. Apenas, contudo, para voltar ainda melhor com “Hamnet: a vida antes de Hamlet”. Merecidamente indicado a oito Oscars (e merecia até mais), “Hamnet” confirma para mim que Zhao é uma herdeira do cinema contemplativo de nomes como Malick a Abbas Kiarostami, ao mesmo tempo em que impõe um toque pessoal em sua narrativa junto de uma herança de alguns dos melhores diretores chineses, como Jia Zhangke.

Baseado no livro “Hamnet”, de Maggie O´Farrell, o filme, tal como o livro, reflete sobre o possível impacto do luto em William Shakespeare pela morte do filho Hamnet, aos 11 anos, em 1596, possivelmente devido à peste.

Embora ambos tenham uma base histórica real — Shakespeare realmente teve um filho chamado Hamnet que morreu aos 11 anos de idade, “Hamlet”, a peça foi escrita entre 1599 e 1601 e encenada pela primeira vez no Globe Theater por volta desta data — todo o resto é fruto de imaginação e especulação. É neste recheio, é costurando as pontas soltas desta história trágica que Zhao brilha ao filmar o amor e o luto do casal William Shakespeare (Paul Mescal) e Agnes (Jessie Buckley).

Assim como “Nomadland”, seu filme é incrivelmente bonito. Se na história da mulher que perde tudo e embarca numa viagem pelos Estados Unidos vivendo como nômade, Zhao abusava da amplitude do deserto e dos momentos de golden hour, aqui a natureza é mais do que cenário, mas um personagem que ajuda a compor o estado de espirito dos personagens.

A floresta é liberdade, proteção e acolhimento. A floresta fechada reflete a intimidade do casal e o abraço que Agnes constantemente recebe. A natureza a acolhe e dela ela tira tudo o que precisa para viver. Os espaços amplos, a conexão com a terra, mostram uma família em harmonia. Uma harmonia que nem a distância atrapalha quando Shakespeare vai trabalhar em Londres, deixando a família em Stratford.

A relação íntima com a paisagem não se dá apenas com a natureza, mas também com os espaços internos da casa. O vazio que comunica a solidão, a escuridão, a penumbra que dialoga com o luto. Zhao filma constantemente espaços amplos, mas com uma fotografia suave e trilha sonora minimalista para que possamos contemplar a história e absorver não apenas através das palavras, mas das pausas e dos silêncios o estado de espírito dos personagens.

O ritmo contemplativo de Zhao é o que a faz mais se aproximar de Mallick. A diretora, entretanto, se afasta do diretor estadunidense ao não adotar um tom mais metafísico, tão comum em Mallick, mas apostar na observação do cotidiano dos seus personagens. O dia a dia de Shakespeare e Agnes é o de pessoas comuns que estão deslocados ou em transformação social. O drama deles nasce da vida ordinária como a de qualquer mortal. A infelicidade de Shakespeare que quer mais do que viver numa casa no campo e deseja viver das suas peças, a ascensão social da família, a mudança de patamar social primeiro de Agnes ao se casar com o dramaturgo e depois de Shakespeare, a dor pela trágica morte do filho, o processo de luto de cada um. Agnes entre o isolamento e a culpa, Shakespeare, sofrendo por não estar presente, usando a arte, a maior ferramenta que tinha em mãos para tentar entender o que sente, tentar processar a sua dor. O artista sempre usa a arte como ferramenta de cura. Também indicado ao Oscar de melhor filme, “Valor Sentimental” trata do mesmo tema com seu personagem principal.

O que temos aqui é uma tese que nasceu no livro de O´Farrell. E Zhao amarra essa tese com sutileza e poesia na tela. O jovem Hamnet sonha em ser ator na companhia do pai e ganha vida como o maior personagem da maior peça da sua vida. O menino que metaforicamente dá a vida para salvar a irmã da doença, vê o pai fazer o mesmo na peça Hamlet, quando Shakespeare assume o papel do espírito do pai de Hamlet. E a licença poética que o filme faz. Na última vez que Shakespeare vê o filho com vida, se despede dele três vezes. Na peça, Shakespeare usa seu personagem para se despedir três vezes de Hamlet, três vezes dizendo “Adieu” antes de beijar o rosto do filho. Tudo o que ele não pôde fazer.

O momento final da encenação de “Hamlet” em Londres é o ponto alto de um filme magnífico de Zhao. Não apenas pelo trabalho da diretora, mas pelas atuações magistrais de Buckley e Mescal nos papéis principais. A atriz mereceu demais a sua indicação ao Oscar e lamento que Mescal tenha ficado de fora da lista, pois ele também merecia uma indicação. 

É neste momento final que Zhao mostra mais uma vez a sua grandeza, fugindo do melodrama fácil e fazendo a emoção surgir com sobriedade. Sem qualquer sinal de manipulação, Zhao nos faz atingir a catarse apenas com alguns gestos e olhares de Buckley e Mescal. Ali bem no fim, com lágrimas nos olhos, estamos prontos para aceitar o destino e começar a seguir em frente.

Nota 10/10